Eu Sou a Lenda



Se tem uma coisa que me dá muita, mas muita raiva num filme, é assistir uma obra que vá num "crescendo" maravilhoso, pra avacalhar bonito no final. E Eu Sou a Lenda é um ótimo exemplo disso. Extremamente eficaz, o filme consegue fazer até seus flashbacks jamais soem gratuitos, e que se encaixem perfeitamente na narrativa. E a direção de Francis Lawrence e a ótima performance de Will Smith estão em perfeita sintonia no filme.

Will Smith é Robert Neville, um cientista-médico-militar-que-também-entende-de-rádios, que vive sozinho em Nova York. Três anos antes, um vírus se espalhou rapidamente pelo mundo. Como resultado, os infectados viraram vampiros, e Neville continua buscando por uma cura. Com ele, apenas seu cachorro, com quem conversa normalmente para manter a sanidade.

O tom do filme para apresentar seu conceito e seu personagem em sua primeira hora é formidável, e apresenta o que há de melhor no filme. As ruas vazias de Nova York tomadas por animais selvagens são um trabalho estupendo de direção de arte (e efeitos especiais, provavelmente). E Lawrence trabalha bem na tensão crescente do filme, principalmente na cena do depósito escuro, quando as criaturas são finalmente reveladas.

Mas aí a Alice Braga entra no filme e a coisa desanda, e entra uma conversa sobre Deus que dá AQUELA brochada... Nada contra a Alice, que está bem, mas a sua personagem é uma das coisas mais absurdas que já vi nos ultimos tempos: uma paulista que nunca ouviu falar de Bob Marley e (spoiler) salva Neville sozinha contra uns trocentos vampiros.

O final do filme em si, é belo, mas o começo do terceiro ato faz com que o filme deixe de ser uma obra realmente maravilhosa, e que tinha tudo para se tornar clássico, em mais uma ficção científica nas prateleiras das locadoras. Uma pena.

NOTA: 7

Império dos Sonhos



Eu não vou nem tentar fingir que eu entendi o que diabos eu vi nesse pesadelo de três horas filmado por David Lynch. Se mesmo em suas obras mais complicadas, como Estrada Perdida ou Cidade dos Sonhos, haviam oportunidades mais promissoras para uma explicação, aqui em bom português, o cara fode tudo. No bom sentido, acredite. A verdade é que Império dos Sonhos independe de uma narrativa lógica para funcionar. O filme é uma verdadeira experiência emocional. Consegue emocionar, comover, e principalmente, assustar. Mesmo sem grandes cenas violentas ou sustos, é um filme extremamente perturbador.

Filmado com câmera digital (ao longo de três anos), o filme de início apresenta uma história linear: a atriz Nikki (Laura Dern) se envolve com o filme On High and Blue Tomorrows, e no primeiro dia de filmagens, o diretor do filme (Jeremy Irons) revela a verdade por trás do filme: ele é baseado num conto alemão chamado 47, que é amaldiçoado. Na Polônia, quando tentaram fazer esse filme pela primeira vez, os dois protagonistas foram assassinados, e jamais foi concluído. Com o tempo, a maldição parece realmente existir e afetar psicologicamente Nikki, que ao transar com Devon (Justin Theroux) acaba chamando ele pelo nome do personagem.

E aí, assim como acontece com a caixa azul em Cidade dos Sonhos, como a orelha em Veludo Azul e na cena da cela em Estrada Perdida, tudo que achávamos certo, vira do avesso várias vezes. E dessa vez, parece sensato dizer que nem o criador da obra parece saber onde o filme está indo.

Muito do cinema de David Lynch pode ser mais "entendido" ao sabermos que antes de cineasta, Lynch é um pintor. É sensato pensarmos que ele busca a relação que temos com a pintura, com nossa relação com seus filmes: ou seja, não uma reacção lógica de começo-meio-e-fim, mas a busca por uma sensação, sentimentos. E em Império dos Sonhos, essa busca é maravilhosamente desenvolvida. O filme é verdadeiramente hipnótico, e mesmo que seja desconexo e absurdo, existe uma unidade que cerca toda a obra.

Todos os elementos mais conhecidos de Lynch estão ali: a busca pela identidade ("olhe para mim, e diga se me reconhece."); a não-linearidade dentro da vida dos personagens ("se hoje fosse amanhã, você estaria sentada ali."); o cenário de cortinas vermelhas; a lógica de pesadelo.

Alguns temas claros no filme, são a sensibilidade feminina, sempre tão reprimida no pensamento machista, e novamente Hollywood. Lynch filma os cenários dos estúdios como verdadeiras portas para outros mundos (e isso é uma das respostas possíveis para o filme), mas é no lado negro de Hollywood que o filme encontra uma beleza única. As prostitutas e mendigos em cima da calçada da fama são poéticos e marcantes na obra.

Mas faltam adjetivos para classificar a performance de Laura Dern nesse filme. Assim como Naomi Watts em Cidade dos Sonhos, Dern faz com que nos identifiquemos com sua personagem, nos levando a quase ignorar os "absurdos" da trama graças a força de sua interpretação.


Império dos Sonhos não é um filme fácil de gostar, e talvez seja o caso mais extremo de "ame-o ou odeie-o" que eu já pude conferir. Nem sempre Lynch acerta (não sou muito fã de Eraserhead, e detesto Coração Selvagem), mas quando acerta a experiência é única. E Império dos Sonhos consegue ser um filme único dentro da filmografia já única de David Lynch, e só por isso, merece um destaque especial.

NOTA: 10

Time - O Amor Contra a Passagem do Tempo




Seh-hee e Ji-Woo são um casal na fase do fim do encantamento que acontece invariavelmente nos relacionamentos. Não sabendo como conviver com isso, Seh-hee se torna extremamente ciumenta, capaz de grandes vexames em públicos, mas mesmo assim, Ji-Woo demonstra grande paciência ao lidar com isso. Seh-hee na verdade, está extremamente insegura quanto a sua aparência, achando que Ji-Woo cansou dela, e vive repetindo a mesma frase para ele: "Desculpe ter sempre essa mesma cara sem graça".

Ela então decide fazer uma cirurgia plástica, mudando totalmente seu rosto e assumindo uma nova identidade, e pior, sem avisar Ji-Woo, que fica seis meses sem ter notícias dela (período necessário para cicatrizar a cirurgia). Seh-hee volta então como uma nova pessoa para Ji-Woo e começa um relacionamento com ele, que não se demontra mais tão paciente com as crises dela (já que, para ele, ela não é a mesma pessoa que conviveu por anos).

Apesar de parecer um romance bobinho de início, Time é um filme complexo e instigante, que aproveito ao máximo sua ótima premissa para falar sobre o efeito do tempo sobre os relacionamentos (e o sub-título babaca só sublinha esa idéia). Constantemente vemos os personagens na Ilha das Esculturas, onde há várias estátuas de homens e mulheres em posição sexual. Quando mostra seus personagens vagando e admirando aquelas obras, o diretor e roteirista Kim Ki-Duk parece fazê-los invejarem aquelas estátuas que se amarão por toda uma eternidade.

Belissimamente dirigido e contando com um desfecho extremamente trágico e melancólico, Time - O Amor Contra a Passagem do Tempo é um maravilhoso estudo de personagens, que graças ao maravilhoso roteiro, torna impossível para o espectador não se identificar com a triste situação de seus personagens.

NOTA: 9,5

Superbad - É Hoje




Seth Rogen hoje, é O cara quando falamos sobre comédia. Escrito por ele e seu amigo, Evan Goldberg (e aparentemente, baseado em fatos reais...), Superbad não foi só a melhor comédia de 2007: foi também um dos melhores filmes do ano, e a melhor comédia da década. O talentoso Judd Apatow (que produziu o filme) vem realizando uma estratégia certeira que justifica a qualidade de seus filmes. Passar seus roteiros de humor sujo, e chamar diretores realmente bons e talentosos para assumí-los, algo que leva Superbad a outro nível, e a bola da vez foi Greg Mottola.

O filme conta a aventura dos três amigos Evan (Michael Cera), Seth (Jonah Hill) e Fogell (Christopher Mintz-Plasse, a grande revelação do projeto) para conseguir comprar bebidas para a última festa do colegial, e assim, conseguirem finalmente transar com as garotas que desejaram o ano inteiro.

Só que para conseguirem as bebidas, eles contam com a carteira de identidade falsa que Fogell consegue com o nome de... McLovin, havaiano de 25 anos (e doador de órgãos). Misture na história, os dois policiais mais incompetentes e divertidos da história do cinema (Seth Rogen e Bill Hader, apontando armas e organizando uma perseguição grandiosa... dentro de um bar, para pegar um bêbado...) e o resultado é uma comédia de deixar as bochechas de qualquer um doendo.

Contando com o mesmo senso de humor doentio de O Virgem de 40 Anos e Ligeiramente Grávidos, Superbad também divide outra importante característica com as duas obras anteriores da trupe: a parte dramática, bem construída que humaniza e torna seus personagens em verdadeiros camarados do espectador. Aqui temos a separação dos amigos Evan e Seth, que irão para faculdades diferentes, e que apesar de passarem o fime inteiro dizendo que não ligam para isso, o espectador sente como aquilo está sendo difícil para eles, e vale dizer que Michael Cera e Jonah Hill tem uma química maravilhosa, o que ajuda e muito. Aliás, química é o que não falta para todo o elenco, sendo até difícil destacar alguém em especial.

Superbad - É Hoje é um filme sobre camaradagem pura, e o sucesso da produção é que esse senso de camaradagem é compartilhado com o espectador. E é suprendente que numa produção com tantos palavrões e tanto sexo, o desfecho consiga ser feliz e melancólico ao mesmo tempo, deixando um sorriso em quem assiste que demora bastante para sair.

NOTA: 10

Na Captura dos Friedmans



É difícil recomendar Na Captura dos Friedmans. Assistir este documentário não é uma experiência prazerosa, aliás, muito pelo contrário: é um filme extremamente doloroso e quase surreal, tamanho o absurdo de sua triste história. Ao final, junto com as lágrimas, somos tomados por um sentimento de revolta e impotência, perante tantas atrocidades.

O documentário conta a história de Arnold Friedman, premiado professor que morava numa pequena cidade nos Estados Unidos, com sua esposa Elaine e seus três filhos, Seth, David e Jesse. Arnold era professor de piano e dava aulas de informática para crianças em sua casa, com seu filho mais novo Jesse. O problema, é que Arnold era consumidor de pornografia infantil, e quando foi pego pela polícia, esta logo suspeitou das aulas de computação que Arnold lecionava.

Com uma investigação escandalosa e a mídia (que sempre ajuda maravilhas nessas horas), uma onda de histeria cresce na cidade, e Arnold e seu filhos são presos, e condenados com fiança de 1 milhão de dólares.

E logo começam as perguntas desse maravilhoso documentário, conduzido com maestria por Andrew Jarecki: como os dois foram condenados por abuso sexual, sendo que não havia nenhuma prova física de estupro em nenhuma das crianças? Porque em quase 5 anos, nenhuma criança jamais relatou nada aos pais, ou ninguém desconfiou, sendo que as vezes, os pais chegavam de surpresa para pegar os filhos e sempre iam buscá-los? Perguntas tão básicas, por incrível que pareça, não foram feitas pela polícia ou pela mídia, e como resultado, a família Friedman é destruída emocionalmente. Aliás, um dos filhos, David começou a filmar as discussões que ocorriam em sua casa durante esse processo, e como resultado, vemos algumas das cenas mais dolorosas jamais imaginadas em nenhuma ficção.

O diretor Andrew Jarecki é discreto e jamais aparece no documentário, mas nas poucas vezes que o ouvimos, podemos notar um diretor de pulso firme e forte (observem como ele confronta uma das vítimas dos supostos abusos sexuais). Jarecki deixa que os personagens falem, e raramente interfere na narrativa, fazendo-o apenas quando absolutamente necessário, como nas legendas após cada entrevista com as vítimas.

Mas não se deixe enganar: o diretor em nenhum momento inocenta Arnold Friedman. Sim, ele era pedófilo, e detalhes mais sórdidos da sua vida não são escondidos, mas são debatidos com tanta importância quanto qualquer outro tema no filme. Mas é nisso que o documentário ganha força: Andrew Jarecki humaniza seus personagens, dá voz a eles. E por mais defeitos que surjam, não podemos deixar de reconhecer o absurdo da situação, e que mesmo com seus erros, Arnold (e muito menos Jesse, que passou 18 anos preso) não merecia o abusivo castigo de uma sentença jamais devidamente investigada.


Na Captura dos Friedmans merece ser objeto de estudo por pessoas de jornalismo para que façam a pergunta: até onde a mídia pode ir? Quando ela deixa de ser informativa, e passa a ser nociva? Afinal, porque justamente este julgamento foi o primeiro a ser transmitido pela televisão americana?

A resposta é fácil: jornalismo não é informação a muito tempo, é entretenimento. Preste atenção nas chamadas de jornais, impressos ou televisivos. Elas buscam o choque, para que você permaneça ali, tal como qualquer filme de ficção. E num drama tão complexo quanto o que é retratado nesse documentário, só podemos lamentar este fato.


NOTA: 10

Assassinos Por Natureza



Se JFK é o melhor filme de Oliver Stone, Assassinos Por Natureza é sua maior provocação. Um verdadeiro soco no estômago, violentíssimo, filmado e editado de maneira alucinógena, que só funciona graças ao talento do diretor, e do empenho do elenco. Aliás, me arrisco a dizer que foi o filme experimental mais caro bancado por um estúdio. Ou dizer que um filme que usa Beta, 16mm, 35mm, Super 8, VHS e até animação nas mesmas sequências não é experimentalismo?

Mickey e Mallory Knox (Woody Harrelson e Juliette Lewis) são um casal de serial killers que cruza os EUA protagonizando uma matança que chama a atenção da mídia. A cobertura da mídia é tão forte, que o casal ganha até mesmo fãs. Fãs? Assassinos com fãs? Sim, basta lembrar que Charles Manson é praticamente uma celebridade nos EUA (e babacas como o guitarrista do System Of A Down o veneram). Do lado da mídia, conhecemos Wayne Gale (Robert Downey Jr.), um apresentador egocêntrico, que conhece muito bem o seu público alvo ("você acha que aqueles zumbis vão notar que estamos reprisando algo?").

O casal acaba sendo pego por Jack Scagnetti (Tom Sizemore), um caçador de serial killers que sente atração por Mallory. Quando o diretor da prisão (Tommy Lee Jones, hilário) resolve matar as escondidas o casal com ajuda de Scagnetti, Wayne consegue uma entrevista exclusiva com Mickey um dia antes.

E a tal da entrevista é o ponto alto do filme, uma sequência de diálogos brilhante que resume perfeitamente todas as idéias do filme. Afinal, quem é mais perigoso? Mickey Knox, o assassino cruel que só encontra paz ao lado de Mallory (paz a sua maneira, claro), ou Wayne Gale, um dos responsáveis por transformar o casal em grades nomes da mídia? Se por um lado, as vítimas de Mickey tiveram simplesmente como motivo de sua morte, um azar tremendo (ou "destino", como afirma Mickey), Gale utilizando a mídia em seu pior lado, o da manipulação, do sensacionalismo, asteia uma enorme bandeira de irresponsabilidade (como grande parte da mídia, hoje em dia). Certamente, Wayne Gale (e muitos jornalistas hoje em dia) enxergam liberdade de expressão como "posso falar qualquer merda".

Mesmo exagerado, Assassinos Por Natureza é uma obra fundamental do cinema americano dos anos 90 e que, infelizmente, é muito mais atual hoje em dia, que na época de seu lançamento.

NOTA: 9

O Bom Pastor



Dirigido por Robert DeNiro, O Bom Pastor conta a história da origem da CIA, mostrando muita sujeira que normalmente é jogada para debaixo do tapete. Mas ao invés de apelar para um panfleto sensacionalista, DeNiro e o roteirista Eric Roth (também responsável por Munique) transformam o filme num drama intimista sobre Edward Wilson (Matt Damon) que, de jovem alegre e de futuro promissor, se transforma num filho da p... digo, um homem amargo e deprimido, afastando todos do seu redor.

Aliás, o filho da p... ali em cima teve um motivo. O filme (de maneira brilhante, diga-se de passagem) nos faz entender o sofrimento de Wilson, e a performance minimalista e genial de Damon causa grande empatia no espectador. Mas pare e pense no que o personagem fez durante o filme inteiro. Wilson nunca é o cara que aperta o gatinho, que mata, ou que faz todo tipo de atrocidade, mas é ele quem está por trás de tudo: de uma tortura brutal, até uma estratégica praga num campo de café, com gafanhotos sendo lançados de aviões.

Se houvesse Oscar de melhor elenco, não haveria nem indicados: a estatueta iria diretamente para O Bom Pastor. E se até Angelina Jolie está perfeita no filme (interpretando de verdade, e não posando para fotos) imagine o que esse filme faz com Alec Baldwin, Willian Hurt, Billy Crudup, Joe Pesci e, claro, o próprio DeNiro, que não apenas faz uma direção visualmente primorosa, como (principalmente) na maneira como conduz o elenco.

Injustamente esquecido pelas principais premiações do seu ano, O Bom Pastor é quase uma obra-prima, e se não fosse pela duração que acaba comprometendo o filme um pouco em seus minutos finais, seria realmente perfeito.

NOTA: 9

Brazil - O Filme



Obra-prima absoluta do talentoso Terry Gilliam, Brazil é uma mistura esquisita de ficção científica, fantasia e comédia que funciona perfeitamente. Neste filme, Gilliam ainda mostra suas influências do Monty Python ao falar sobre um futuro absurdo, fortemente baseado na obra 1984 de George Orwell.

Jonathan Pryce é Sam Lowry, um funcionário exemplar de um setor sem futuro do governo, que tem uma mãe influente e viciada em cirurgias plásticas que faz de tudo para ver o filhos subir na carreira. Sam, apesar de ser um burocrata dos mais malas, é um sonhador. Em seus sonhos, se imagina voando, e sempre salvando uma donzela. É então que Sam acaba vendo a tal donzela na vida real: ela se chama Jill Layton, e é uma "terrorista" procurada pelo governo.  Ele decide aceitar o emprego que relutava no Ministério das Informações para salvar Jill de ser interrogada (ou melhor, torturada) pelo seu melhor amigo, Jack (Michael Palin, outro ex-Python).

Gilliam fez o seu melhor trabalho na direção em Brazil, algo que não é pouco, se considerarmos que estamos falando do diretor de Os 12 Macacos ou O Pescador de Ilusões, por exemplo. Seu estilo anárquico cai como uma luva para o estilo visual exigido pelo roteiro. A abertura do filme, em que um programa de TV mostra a entrevista de um poderoso homem do governo falando sobre terrorismo é brilhante: o programa é exibido inicialmente numa loja que explode; depois numa TV que continuou funcionando no local da explosão; depois no escritório onde ocorre um erro num documento, que causa a cena seguinte; uma família assiste o programa de TV, as crianças vão dormir esperando Papai Noel, quando por causa do erro no documento, a polícia invade violentamente a casa e leva o pobre homem preso para um interrogatório.

As cenas fantasiosas, com Sam voando e enfrentando criaturas sombrias, são geniais e não soam intrusivas. Pelo contrário, acrescentam muito a narrativa, e principalmente ao personagem. Além disso, Gilliam equilibra bem o humor do filme com momentos dramáticos, e para notar isso, basta pensarmos no destino da personagem que faz pláticas através de ácido, mas talvez o momento dramático mais impactante seja a triste cena em que Sam visita a casa da Sra. Buttle. Já os momentos mais engraçados vem com Ian Holm, na divertidíssima caracterização do chefe de Sam.

Misturando vários elementos de maneira brilhante, que caminham para um final melancólico e apocalíptico, Brazil - O Filme é uma obra inesquecível, que merece ser conferida.

NOTA: 10

Enron - Os Mais Espertos da Sala



Um documentário sobre a falência de uma das maiores corporações americanas dos últimos anos pode ser uma coisa que não nos interesse imediatamente. Aliás, talvez nem o povo de lá. O diretor Alex Gibney provavelmente sabia disso, e surpreendeu no conteúdo do filme: sim, está ali as histórias burocráticas sobre fraudes, números e blablablas, mas o mais importante é que o diretor humaniza os principais culpados, e faz de Enron não só um documentário burocrático sobre uma empresa, mas também uma tragédia humana, com toques interessantes de humor negro.

A Enron foi uma empresa que surgiu nos anos 80, criada por Ken Lay, que dizia vender fontes alternativas de energia, como gás natural. Nos anos 90, o polêmico Jeff Skilling entra na empresa. Nerdão com gosto por aventuras perigosas, acreditava que ter uma idéia era tudo, e a partir de ter a idéia, era necessário colocá-la em prática no mesmo momento.

O problema era que a Enron nunca apresentou um balancete decente para seus investidores, ou para o próprio governo. Isso gerava dúvidas em muitas pessoas, mas como a empresa "lucrava", e trazia lucro para outras, ninguém questionava. As aspas no "lucrava" são por um motivo: a empresa estava falindo a anos, e seus balancetes eram manipulados, para parecer que a empresa tinha altos lucros (o que consequentemente, aumentava o número e o valor dos investimentos).

Foi com uma matéria simples na revista Fortune que a jornalista (e linda) Bethany McLean fez uma simples pergunta: Como a Enron consegue seu dinheiro? A pergunta nunca foi respondida, e foi lançada no início da rápida queda da empresa. Jeff Skilling vende 200 milhões em ações, e sai da empresa para surpresa de todos, já que a tempos, insistia para que os funcionários investissem seu próprio dinheiro na empresa. Resultado: poucos meses depois, todos os chefões da empresa venderam suas ações, a empresa faliu, e o dinheiro dos funcionários e de todos os investidores sumiu, gerando uma investigação da qual até hoje, ninguém foi realmente condenado.

Alex Gibney traz uma forte marca visual para o filme: seus enquadramentos frequentemente tratam da dualidade, apostando em reflexos, brincando com a temática do filme de maneira inteligente. E algumas cenas são realmente brilhantes, como a narração que fala da rápida queda da empresa, enquanto vemos um homem em queda livre em um desfiladeiro, numa imagem de tirar o fôlego. Mas o grande golpe do diretor é mostrar áudios nunca antes mostrados dos traders que trabalhavam na empresa, que sadicamente comprovam como a Enron causou uma crise no setor de energia elétrica na Califórnia apenas para criar um enorme lucro (e a discussão sobre o lado negro do ser humano que o filme propões se torna fascinante).

O filme só tem problemas em sua primeira metade, principalmente quando coloca em evidência um excêntrico funcionário japônes que era viciado em strippers, já que, apesar de divertido, não acrescenta nada ao filme. Aliás, é interessante como os personagens de Ken Lay e Jeff Skilling ganham uma brava complexidade ao longo do filme, mas o terceiro culpado (que hoje é testemunha chave), se torna quase uma caricatura.

Enron: Os Mais Espertos da Sala é surpreendente em sua denúncia e divertido. Divertido? Sim, ou você não ri de um cara como Ken Lay que tem coragem de dizer: "Minha esposa e eu estamos muito tristes com isso. Nossa fortuna de centenas de milhões se reduziu a algumas dezenas..."; ou da empresa fictícia M. Yass? (Em caso de dúvida, tire o ponto, separe o y do nome e junte com o m).

NOTA: 8,5

Ensaio Sobre a Cegueira



Qualquer um que tenha acompanhado o blog de Fernando Meirelles sobre Ensaio Sobre a Cegueira observou a insegurança que cercava o diretor em torno do filme. E não estou dizendo nada negativo sobre isso: acompanhei o blog e sua insegurança é perfeitamente natural, pela própria natureza da obra que ele trabalhou. E a preocupação gigantesca de respeitar a essência do texto de José Saramago, e principalmente, agradar ao próprio Saramago. E talvez seja nessa preocupação que esteja a única bola fora de Meirelles.

A idéia (citando o que li no blog) era manter o segundo ato dividido entre a personagem de Julianne Moore e o personagem de Danny Glover, que é visto como alter-ego do escritor português. Aí que a coisa se perdeu um pouco. Na versão que assistimos, a narrativa predomina na personagem de Moore, mas com interferências pontuais de Glover. O resultado é que quando essas interferências acontecem, elas quebram a narrativa do filme, como a cena em que Glover liga o rádio AM: sua explicação para o que aconteceu é interessante (mas podia ser mostrado só com imagens), mas a narração em off durante a música que segue quebra o impacto da belíssima cena. Felizmente, esses tropeços ficam no segundo ato do filme, que quando acerta (no primeiro e no ato final), se torna mais um maravilhoso exemplar do diretor brasileiro.

Ensaio Sobre a Cegueira mostra uma epidemia de cegueira que atinje uma grande metrópole. Conforme ela se espalha, os infectados são colocados em quarentena. Apenas uma pessoa não é contaminada, a Mulher do Médico (Julianne Moore) que acompanha o marido (Mark Ruffalo), pensando que tudo irá acabar cedo. Com o tempo, cada vez mais pessoas se infectam e o local de quarentena fica lotado, fazendo com que as pessoas se organizem em lideranças improvisadas que funcionam bem, até que o personagem de Gael Garcia Bernal se nomeie Rei da Ala 3 e, portando uma arma, dê início a uma ditadura opressora, que dá início a estupros coletivos.

O diretor de fotografia César Charlone (parceiro habitual de Meirelles) faz o seu melhor trabalho até hoje. Utilizando uma claridade que chega a ser desconfortável, a fotografia mantém uma lógica visual impecável para o filme, e Daniel Rezende, o montador, mostra mais uma vez seu talento, criando transições surpreendentes e um bom ritmo.

Julianne Moore e Mark Ruffalo estão brilhantes em suas atuações, e seu arco dramático é brilhantemente ilustrado, muito menos com diálogos e muito mais com olhares (o que é irônico nesse filme...). Gael Garcia Bernal exagera na dose em seu personagem em alguns momentos, mas isso acaba funcionando bem. E se Alice Braga e Danny Glover encontram espaço para brilhar mais no terceiro ato do filme (na bela cena da fogueira) é o casal interpretado por Yoshino Kimura Yusuke Iseya se destacam, com sua história simples e comovente. 

Demonstrando seu potencial para se tornar um dos grandes diretores da atualidade, Fernando Meirelles pode ter escorregado em alguns momentos em Ensaio Sobre a Cegueira, mas a força do filme consegue perdoar os pecadilhos, que se comparados a ousadia e o talento do filme, ficam triviais.

NOTA: 8,5

Trovão Tropical



O filme é uma brincadeira de luxo (e das caras...) de todos os atores envolvidos para cima do star-system hollywoodiano, e nada mais que isso. Para nossa sorte, a brincadeira não é só interna e Ben Stiller e sua trupe criaram uma das comédias mais engraçadas da década, ao lado de Superbad.

Contando a história do filme Trovão Tropical, que está sendo rodado por um diretor britânico inexperiente (Steve Coogan), que não consegue controlar o ego de seus atores principais e com isso atrasa toda a produção e encarece cada vez mais o já estourado orçamento. No elenco estão Tugg Speedman (Ben Stiller), ator de filmes de ação que depois de trabalhar no fracassado Simple Jack, onde interpretou um deficiente mental, virou motivo de piada, e através deste filme tenta ganhar o respeito do público como ator; Kirk Lazarus (Robert Downey Jr.), vencedor de 5 Oscars (!), que de australiano loiro e de olhos azuis, usa um processo de pigmentação da cor da pele para interpretar um soldado negro (e seu sotaque, é uma das melhores piadas do filme) e Jeff Portnoy (Jack Black), um astro de filmes ao estilo Eddie  Murphy, que tem sérios problemas com heroína.

O problema começa quando o diretor resolve colocar aos atores em ação de verdade, com várias câmeras escondidas na selva. Enquanto os atores acham que tudo faz parte do filme, um grupo de traficantes começa a persegui-los de verdade.

Contando com uma fotografia surpreendente (chegando a rivalizar com a qualidade de filmes de guerra de "verdade"), Trovão Tropical é a maior amostra do talento de Ben Stiller até hoje. Sua direção é marcante e surpreendente, e reflete seu perfeito timing cômico. O elenco está excepcional, e se alguém merece ser destacado esse alguém é... Tom Cruise! Com um vocabulário "requintado" o chefe de estúdio Les Grossman rouba a cena sempre que aparece, e suas cenas de dança já estão entre as melhores piadas da década.

Surpreendente e divertido, Trovão Tropical pode não ser o filme mais relevante do mundo para falar de temas sérios como a guerra, mas a quanto tempo não víamos Hollywood dar uma risada tão boa de si mesma?

NOTA: 9,5

Hellboy II - O Exército Dourado



O maior acerto de Homem de Ferro, foi manter o bom humor dos quadrinhos em sua versão cinematográfica, mas sem desrespeitar seu personagem. Esse acerto pode ser dividido com Hellboy, lançado em 2004, mas com bem menos alarde. Mas, convenhamos, por mais divertido que fosse, Hellboy é um filme bastante falho, que tinha sua força no personagem título, vivido com grande personalidade por Ron Perlman, já que até mesmo a direção de Del Toro ocasionalmente falhasse (principalmente no uso de personagens digitais).

Mas os anos passaram, Guillermo del Toro foi aclamado merecidamente com O Labirinto do Fauno, e o diretor volta ao mundo de Hellboy para uma aventura bem mais ambiciosa, tanto do ponto de vista narrativo quanto estético. Hellboy 2 mostra o personagem título e sua trupe combatendo uma versão bizarra dos contos de fada. Através de um pacto milenar com os elfos e humanos, o príncipe Nuada, revoltado com o que os humanos fizeram com o planeta, decide invocar o exército dourado para acabar com o domínio humano no planeta e devolver a glória a seu povo.

Bem mais a vontade para viajar na maionese (no melhor dos sentidos, acredite!), Guillermo del Toro demonstra sua invejável criatividade em vários momentos, principalmente no mercado troll, uma cena de dar inveja a George Lucas e Peter Jackson. Também merece destaque a gigantesca criatura verde, que mostra grande beleza ao ser destruída e o Anjo da Morte (que nos lembra a condição maldita de Hellboy perante o mundo, e que, provavelmente, serve de deixa ao terceiro filme). E, claro, o Exército Dourado do título é impressionante, e a grande batalha do filme é impressionante.

Aliás, Hellboy 2 merece indicações ao Oscar de Direção de Arte e Maquiagem. Trabalhos esplêndidos. O roteiro melhorou bastante em comparação com o primeiro, e explora bem seus personagens. O relacionamento entre Hellboy e Liz é plausível, e se torna o coração do filme. Aliás, mesmo o vilão do filme é bem caracterizados, com motivações justificáveis (algo que leva  próprio Hellboy a questionar qual o lado certo da questão durante todo o filme). O humor negro também continua a toda, merecendo destaque a bebedeira de Abe com Hellboy, cantando Barry Manilow.

Hellboy 2 não é espetacular, assim como o primeiro, mas é suficientemente divertido e macabro para ser lembrado, e fico desde já, bastante ansioso para uma continuação.

NOTA: 8

O Operário



O Operário só apresenta um problema. Infelizmente, ele é grande e compromete toda a experiência de assistir ao filme. O problema é que o filme se apresenta como uma trama misteriosa, cheio de pistas e sub-tramas que, logo de cara, já demonstra suas aspirações lynchianas. Nada contra esse tipo de filme (aliás, muito pelo contrário) mas o excesso disso no primeiro ato, faz com que vejamos o filme de maneira intelctualizada, sem nos envolvermos com o drama de Trevor Reznic, o tal operário. E se o filme sobrevive, é graças a intrigante direção de Brad Anderson e, principalmente, a bela interpretação de Christian Bale.

Trevor é um esqueleto humano com cavanhaque que nãodorme a um ano. Sua rotina é trabalhar, transar com uma prostituta e flertar com a atendente de um café. Sua rotina vai por água abaixo quando misteriosos bilhetes começam a ser deixados na sua geladeira e um tal de Ivan começa a se aproximar dele. Ivan o distrai no serviço, e Trevor acaba causando um grave acidente. Quando vai se defender, a surpresa: ninguém conhece o tal Ivan. Tentando se livrar da culpa pelo acidente que decepou a mão do companheiro de trabalho, Trevor vai atrás de Ivan, acreditando que há uma grande conspiração contra ele, ao acobertarem Ivan (e não é a toa que O Idiota de Dostoieviski seja citado).

Bale se entrega (talvez até demais...) ao personagem, e apenas olhar para ele, se revela uma experiência incômoda. O diretor, Brad Anderson, ciente disso, não deixa de nos mostrar detalhes incômodos do corpo do personagem, e cria um ambiente terrivelmente claustrofóbico. Jennifer Jason Leigh como Stevie a "prostituta de bom coração" é outro grande destaque do elenco.

Caso se preocupasse mais com seu complexo estudo da culpa, e menos com a necessidade de criar o mistério logo nos primeiros minutos, O Operário seria um filme muito mais interessante (e garanto que se cortassem a primeira cena envolvendo o tapete no início, o filme já se beneficiaria). Mas mesmo assim, é um longa memorável e emocionalmente exaustivo, que envolve bem o espectador.

NOTA: 8

JFK - A Pergunta que não Quer Calar



Dirigido pelo excelente Oliver Stone, JFK apresenta problemas semelhantes ao documentário Fahrenheit 11 de Setembro. Ou seja, ocasionalmente, suas denúncias as vezes soam como meras especulações multiplicadas ao cubo. Por exemplo, na cena em que um determinado personagem morre de causas naturais, o promotor Jim Garrison anda em cena e sugere ao espectador que o personagem era hipertenso, e pergunta ao médico o que um determinado remédio causaria a um paciente com essa doença.

Felizmente, ao contrário de Fahrenheit (que é sim, um excelente documentário, apesar de ocasionalmente falho) JFK pode (e deve) ser assistido não como um filme que remonta passo-a-passo uma grande conspiração, num quase ipsis-literis. JFK deve ser encarado como um projeto que mostra a sensação de insegurança e medo que tomou conta dos EUA no início dos anos 60, e que teve como estopim o assassinato do Presidente Kennedy em circunstâncias extremamente duvidosas por Lee Oswald, seguido pelo assassinato do irmão do presidente, de Martin Luther King e o início da Guerra do Vietnã, tudo de uma vez só.

Sim, Oliver Stone ocasionalmente cai no planfetarismo, mas isso não diminui a força desse filme que em suas mais de três horas de duração, jamais deixa a peteca cair, sempre impressionando o espectador, e junto com sua montagem nervosa e precisa, nos deixa com as unhas bem roídas. Seu estilo único de filmagem, misturando diferentes formatos, cai como uma luva para o filme (e diga-se de passagem, teve seu melhor momento neste longa).

Kevin Costner como o promotor Jim Garrison está na melhor atuação de sua carreira. Demonstrando uma presença de tela marcante, ele se mostra bastante eficaz no climax do filme, que é praticamente um monólogo do seu personagem no julgamento (que aliás, deve ser a melhor cena já concebida por Stone).

Brilhante do início ao fim, JFK é marcante não por mostrar provas irrefutáveis sobre uma grande conspiração contra Kennedy, mas sim, por mostrar que, de fato, houve um tempo em que a população sentiu que seu governo mentia, que a verdade estava sendo escondida. E a importância do filme reside nisso: para que certas perguntas não deixem de ser respondidas, por mais que isso demore.

NOTA: 10

Boogie Nights - Prazer Sem Limites




Esta história sobre a ascenção e queda de um astro pornô foi a primeira obra a dar atenção e notoriedade ao cineasta Paul Thomas Anderson, que havia despontado com Jogada de Risco e em seguida nos brindou com Magnólia, Embriagado de Amor e Sangue Negro. Boogie Nights é o filme mais "scorsesiano" de Anderson, em vários sentidos: os longos planos-sequência e a montagem que fica cada vez mais frenética conforme a história avança, mostram o quanto Scorsese (e principalmente, Os Bons Companheiros) influenciou na direção desta obra-prima.


Nos anos 70, Eddie Adams (Mark Walhberg) é um zé-ninguém de 17 anos que trabalha numa boate, e em um dia de trabalho é visto por Jack Horner (Burt Reynolds), um diretor de filmes pornográficos (ou "filmes exóticos" como ele chama). Horner vê algo em Eddie, e resolve transformá-lo num astro de seus filmes. Logo o "Coronel", o financiador dos filmes, sugere que o rapaz pense num novo nome, e ele acata a sugestão se se rebatiza como Dirk Diggler. E o rapaz manda bem com seu membro de 30 cm... O estrelato logo chega, e Dirk se torna o grande astro do cinema pornô.

Junto com eles, conhecemos também Amber Waves (Julianne Moore), a melhor das atrizes de Jack, que é vista como uma figura materna por todos os jovens atores, e vive a ironia de ter ordem judicial proibindo-a de ver o filho; Roller-girl (Heather Graham) é outra atriz, que jamais (mesmo!) tira seus patins, e sonha em ter um diploma, embora nem ela saiba porque; Reet Rothchild (John C. Reilly) um ator meio bobão que adora exibir truques de mágica, e se torna o melhor amigo de Dirk; Buck Swope (Don Cheadle) outro ator, mas que sonha em abrir sua loja de sons "hi-fi", e parece estar sempre em busca de um visual novo; Little Bill (Willian H. Macy) o assistente de direção dos filmes, único que parece realmente interessado na parte técnica e artística do filme, e que convive com as infidelidades públicas da esposa; e Scotty (Phillip Seymour Hoffman) o assistente faz-tudo dos filmes, que é apaixonado por Dirk.

Todos eles vivem seu grande auge com drogas, música e sexo, numa fase de felicidade eterna, que tem fim no início dos anos 80, através de um marcante plano-sequência. É aí que chega o "video", que acaba com a magia da filmagem em película, reduz o dinheiro, o vício em drogas começa a atrapalhar as performances de Dirk, que briga com todos e é obrigado a se prostituir, enquanto o Coronel é preso por pedofilia e todas as desgraças possíveis começam a arrebatar os personagens: o sonho colorido apresentado no início, vira um pesadelo rápido e frenético.

Falar nas atuações do filme é complicado. É impossível fazer justiça a qualidade aqui apresentada por todos. Basta dizer que neste filmes temos as melhores atuações de Mark Walhberg, Burt Reynolds e Heather Graham (Reynolds concorreu ao Oscar de ator coadjuvante por esse filme).

Quanto a direção, Paul Thomas Anderson, a essa altura do campeonato deveria dispensar comentários, mas vamos lá. A segurança com que o diretor conduz o seu filme já pode ser visto nos minutos iniciais do filme: Um som instrumental que parece anunciar algo trágico é tocado em um fundo preto, sendo interrompido bruscamente por uma música disco, em um longo plano sequência que acompanha a entrada de uma boate; e nesse plano-sequência somos apresentados à os principais personagens do filme. Trabalho estupendo, que só viria a melhorar em Magnólia e (principalmente) Sangue Negro.

Com sua cena final (homenagem clara a outro filme de Martin Scorsese, Touro Indomável), Boogie Nights é a obra responsável por levar os olhos de milhões de amantas da sétima arte, a acompanhar aquele que é o melhor diretor dos últimos tempos. E a impressão que tenho é de que era essa a idéia de Paul Thomas Anderson. Nunca admirei tanto a falta de modéstia de uma pessoa.

NOTA: 10

O Nevoeiro



Adaptar Stephen King não parece ser tarefa fácil. Suas histórias embora sempre trabalhem com temas sobrenaturais, acabam utilizando esse elemento como um disfarce para o que o autor realmente quer dizer. Ocasionalmente, suas obras oferecem uma forte tendência ao absurdo e, ao adaptar esses absurdos (que normalmente vem no terceiro ato) o cineasta tem duas escolhas: disfarçar e criar seu próprio desfecho, como Stanley Kubrick em O Iluminado, ou abraçar a fidelidade a obra, mas achar a forma que o absurdo da situação se converta em um ponto a favor ao filme, como Frank Darabont fez em A Espera de um Milagre, e agora em O Nevoeiro.

Adaptado de um conto, o filme conta a simples história dos habitantes de uma pequena cidade nos Estados Unidos que acabam presos em um super-mercado quando uma forte névoa cobre a cidade. Nessa névoa, eles percebem que existe uma ameaça terrível.

Apesar de ser um pouco "veterano" ao adaptar Stephen King, Frank Darabont (que adaptou também Um Sonho de Liberdade) trabalha pela primeira vez com a faceta de suspense do autor, e não decepcionou: O Nevoeiro é tenso e assustador, e não se intimida em utilizar forte violência para mostrar o desespero da situação (algo que faltou a Spielberg no seu A Guerra dos Mundos, por exemplo).

Como em suas obras anteriores, arranca performances extraordinárias de seu elenco, destacando Marcia Gay Harden como o Edir Macedo de saias, e Thomas Jane, ator normalmente inexpressivo, mas que aqui carrega o filme com forte presença na tela, e exibindo forte segurança ao interpretar com o jovem Nathan Gamble, também extraordinário como o filho de Thomas Jane.

É claro que, como grande parte dos filmes baseados na obra de King, há coisas que nõ funcionam (especialmente quando se é fiel a obra): como o primeiro ataque no mercado (tentáculos? pfff...) ou o visual afeminado do militar (que, não dúvido, vem do conto original), mas o filme tem acertos suficientes para eclipsar isso: o ataque noturno, uma cena bagunçada (no bom sentido) que é aterrorizante, assim como a primeira saída de alguns personagens a farmácia, que fica logo ao lado do mercado.

Mas é no final que Frank Darabont e Stephen King elevam O Nevoeiro a última potência, criando um final muito mais apavorante do que poderíamos imaginar: numa obra que lida com monstros e fenômenos sobrenaturais, é incrível que o filme consiga trazer tantas discussõas éticas-religiosas-políticas e levar as pessoas a sair do filme com aquele gosto ruim na boca. Extremamente corajoso e bem mais aterrorizante do que qualquer um pode imaginar, o final de O Nevoeiro é provavelmente, um dos grandes momentos do cinema de terror contemporâneo.

NOTA: 8,5

O Profissional



Leon é um assassino profissional eficiente, que se dá ao luxo de cobrar $5.000 por cabeça. Ele mora num prédio, ao lado do apartamento de um pai de família que trabalha com drogas, e tem uma filha fumante e simpática de 12 anos, com quem conversa ocasionalmente nos corredores. Um dia, porém, alguns homens chegam junto com o assustador Stansfield (Gary Oldman) para um um massacre. A garota, porém, havia ido no mercado e ao ver a família morta, vai para a porta de Leon. Ele abre e os dois desenvolvem uma curiosa amizade.


O Profissional tem seus problemas: as vezes exagera demais no humor de algumas cenas (com a que envolve o fantoche), mas isso provavelmente é culpa de Luc Besson. Ele é um bom diretor, mas tem uma tendência natural ao exagero na direção de cena (só lembrar de O Quinto Elemento, por exemplo). E é curioso observar que esse é provavelmente seu filme mais discreto, e bem dirigido, tanto nas cenas de ação (a cena do massacre da família), quanto em diálogos, como o primeiro confronto entre Stansfield e o pai da garota.

Mas o filme tem força mesmo no trio de atores principais: Jean Reno, como Leon dá uma performance excelente. Criando um personagem inicialmente assustador, ele demonstra bem a quebra emocional do personagem quando a garota Mathilda entra em sua vida (e o diretor podia compreender isso e não ficar martelando a metáfora da planta criando raízes também). Natalie Portman novinha que só, demonstra o talento que conferimos hoje em dia em filmes como Closer: mesmo quando sua personagem é boicotada pelo roteiro, a atriz mantém uma seriedade impressionante e acaba nos convencendo de suas ações.

Mas é Gary Oldman como Stansfield que rouba a cena. Extremamente exagerado, Oldman não tem medo de atuar cheio de maneirismos, criando um personagem cuja presença na tela diverte, mas também nos mantém tensos. Por exemplo, sempre antes de se preparar para matar, ele toma uma pílula, e sua reação ao tomar a pílula é hilária, mas também assustadora.


O Profissional é uma pequena obra-prima do cinema de ação, que infelizmente é meio esquecida hoje em dia. Até eu já tinha esquecido, e só assisti porque passou na TV. Mas valeu a pena. Não sou grande fã de filmes de ação, mas as vezes saem alguns com um grande pitado de inteligência e emoção que nos surpreende. E esse, é definitivamente o caso desse filme, mesmo não sendo perfeito.

NOTA: 8

A Promessa




Imagine um desses filmes policiais, em que o personagem principal soluciona sozinho um mistério que ninguém mais parece enxergar (a não ser nós, do público). Então ele leva todas as evidências para o seu superior. Como resultado, ele ganha aquele conselho "você tá trabalhando demais... vai pescar, esfriar a cabeça". Ok, em A Promessa de Sean Penn, o personagem principal... vai pescar! De tão inusitado, até parece uma inovação narrativa. Aliás, A Promessa é um desses filmes estranhos em que os personagens parecem seres humanos de verdade, que não dialogam sobre a trama apenas, mas conversam como... seres humanos conversam!

O policial Jerry Black está se aposentando, e ganha uma festa no último dia de trabalho. Durante a festa, uma ocorrência: uma garota de 8 anos foi encontrada morta na neve, espancada e estuprada. Jerry decide ir junto para investigar, e acaba ficando com a tarefa de dar a notícia para os pais da criança. A mãe faz Jerry jurar pela "salvação de sua alma" a promessa de pegar o "demônio" responsável pelo assassinato. Algumas horas depois, o suspeito é preso: um índio com problemas mentais. Quando está sendo algemado, o índio pega a rma do policial e se mata. Caso encerrado, mas não para Jerry.

Já aposentado, ele começa a investigar, por suspeitar que o tal índio confessou, sem saber do que estava confessando. Encontra desenhos da garota pendurados na parede da escola em que ela faz desenhos de si mesma em compania de um gigante, que ela chama de "Mago". Jerry traça paralelos com outros crimes, tentando montar um quebra cabeça que só ele parece enxegar.

Até aqui, você pode estar pensando que o filme se trata de um suspense policial, mas A Promessa passa longe disso: é um estudo de personagem dramático e pesado. Interpretado por Jack Nicholson, Jerry Black é uma figura melancólica, cujo medo de envelhecer é seu maior drama; observe sues olhos quando ele vê um senhor com andador pela janela de seu escritório. ou a maneira genial que o diretor Sean Penn encontra para mostrar o quanto a aposentadoria incomoda Jerry: em câmera lenta, a câmera mantém o personagem em primeiro plano, desfocado, enquanto gria mostrando os outros personagens dançando e comemorando. Brilhante. É um filme sobre uma obsessão, que levará seu personagem a uma descida ao inferno da incerteza, da pergunta que jamais será respondida ("Mas ela disse...").

Repleto de pequenas participações de grandes atores, Sean Penn mostra uma gigantesca evolução como diretor. Se em seus trabalhos anteriores, ele jamais chamava a atenção para seu trabalho, ou seja, fazendo uma direção discreta meio Woody Allen (ou seja, mostre os atores, o resto não importa), aqui ele demonstra ousadia em várias cenas e enquadramentos, como na já citada cena da festa, mas principalmente nas cenas em que mostra Jerry contando a notícia para a mãe, e na cena final. O forte de sua direção, porém, continua a ser a direção de atores. Sean Penn é o diretor que conseguiu a melhor interpretação dos últimos tempos de Jack Nicholson. Robin Wright, Aaron Eckhart e Sam Shepard também ganham destaque. Nos papéis menores, o índio interpretado por Benicio Del Toro e a psicóloga de Helen Mirren, também são memoráveis, mas o grande destaque é mesmo Mickey Rourke, que em apenas uma cena, mostra todo o potencial que lhe foi negado em sua carreira. Atuação brilhante, que poderia ter sido indicada para o Oscar de Ator Coadjuvante.

Contando com um dos desfechos mais introspectivos e melancólicos dos últimos anos, A Promessa só não é o grande filme de Sean Penn, pois em 2007 ele lançou o perfeito Na Natureza Selvagem. Mas basta lembrar que, neste filme, Jack Nicholson dá um dos maiores shows da sua carreira, que vale a pena (e muito) conferi-lo.

NOTA: 9,5

O Sétimo Selo



Assisir O Sétimo Selo não é tarefa das mais agradáveis. Aliás, corrigindo: Assistir um filme de Ingmar Bergman não é tarefa das mais agradáveis. O cineasta sabe, como poucos, criar narrativas opressoras que fazem com que, mesmo em seus ótimos rompantes de humor, jamais nos deixam rir, sem uma ponta de melancolia ("Eu podia te estuprar, mas cá entre nós, não acredito nesse tipo de amor."). O Sétimo Selo é provavelmente, seu filme mais popular e lembrado.

Começa contando a história de dois cavaleiros voltando das Cruzadas. Um deles começa a ser perseguido pela Morte, e consegue fazer um pacto com ela. Irão disputar uma partida de xadrez, e se ele ganhar, a Morte lhe deixará em paz. O cavaleiro é Antonius Block e é interpretado pelo magnífico Max Von Sydow. Bergman, exímio roteirista e diretor, aplica uma complexidade temática no filme e em seus personagens nos mínimos detalhes. Antonius não quer adiar sua morte: aliás, não se preocupa em morrer no sentido físico: Seu problema é morrer sem respostas. Em nome do Deus que ele ama, ele matou milhares de "infiéis", e voltando ao lugar onde morava, seus cidadãos sofrem com a Peste Negra, que aos poucos vai dizimando a população. Ao observar uma garota sendo queimada pelos seus pecados, ele e seu companheiro ficam a observar seus olhos. Seu companheiro diz "veja se ela parece ter uma revelação. Parece estar descobrindo algo. Deus? Anjos? O Diabo? Não, o vazio, apenas o vazio do céu até a lua".

O filme também nos apresenta a um casal de atores e seu filho pequeno, cujo pai tem visões sobrenaturais, desde visões malignas quanto a Virgem Maria, são obrigados a se apresentar ganhando pouco dinheiro a uma população descrente, que parece conformada em sentar e aguardar a morte chegar lentamente.

A ausência de Deus no povo (ou a incerteza da fé) é um dos principais temas dessa obra de Bergman. Assim como Cláudio Assis vem falando em obras como Amarelo Manga e Baixio das Bestas, um povo que vive em miséria e sem esperança, jamais será um povo cujos valores não sejam invertidos e esquecidos quando necessário. Numa cena, uma procissão de pessoas carregando cruzes e se chicoteando, enquanto rezam e gritam sobre o fim dos tempos comove a cidade, que se ajoelha diante de sua passagem. Na outra, dentro de um bar, o povo se diverte enquanto o ator é ameaçado de morte, e é obrigado a dançar em cima de uma mesa que pega fogo.


O Sétimo Selo é um filme pesado e desagradável, mas brilhante em sua proposta. E o final, uma mistura de happy-ending com apocalipse, é só uma das provas de sua genialidade.

NOTA: 9,5

Jules e Jim - Uma Mulher para Dois




François Truffaut realizou um pequeno milagre: ao contar a história de um triângulo amoroso que se estende por décadas, o filme jamais perde a aura de inocência. Aliás, os personagens da trama jamais deixam que suas intenções magoem o outro. E talvez por isso, conforme o filme passa, os três estejam tão lesados emocionalmente que, de uma comédia romântica, paramos num drama psicológico (e dos pesados...) e o melhor: quando percebemos essa mudança, é impossível identificar onde ela ocorreu.

Escrito e dirigido por Truffaut, Jules e Jim conta a história de... bem... Jules e Jim, dois amigos que buscam o amor em Paris. Enquanto Jim tem uma certa facilidade para conseguir garotas, Jules, um austríaco, acaba repelindo as mulheres, graças a sua enorme insegurança. As coisas mudam para os dois, e de maneira definitiva quando Catherine entra em suas vidas. Com pouco tempo de relacionamento, Jules já começa a propor a garota que eles se casem. Os três se tornam companheiros inseparáveis, até a Primeira Guerra Mundial, quando Jim entra para o exército francês e Jules para o austríaco (e o maior medo de ambos é acabar matando um ao outro no front).

Acabada a guerra, Jules já casado e com uma filha com Catherine convida Jim para morar perto deles. O relacionamento entre os três, porém, já está bem diferente. Caterine parece disposta a abandonar Jules; e Jim e ela parecem prontos para ficar juntos... mas contar mais que isso, é covardia. O filme caminha por situações inusitadas, mas mesmo as decisões mais absurdas (lembre de Albert...) ganham contornos humanos graças ao roteiro sensível, e as interpretações maravilhosas do elenco.


Jeanne Moreau, como Catherine está absurdamente perfeita. É notável como ela interpreta uma mulher que tem perfeita noção de que ela atrai os homens, mas parece carregar isso como uma maldição. Oskar Werner e Henri Serre como Jules e Jim (respectivamente) não deixam por menos, e dão profunda dimensão a dor de seus personagens. Oskar, aliás, se destaca numa comovente cena em que declara seu amor por Catherine "eu te amo, não importa o que você faça". O amor de Jules por Catherine é tão absurdamente grande, e Catherine sorrindo diz "Nós somos felizes, não somos?", ao que Jules responde "Bem... eu sou.". Jules sabe que Catherine está, naquele momento comovida com seu amor. Mas sabe, que quando necessário, ela usará esse amor como motivo de escárnio.

A direção de Truffaut é nada menos que brilhante. Assistir ao filme, é observar o quanto ele influenciou milhares de outros diretores. A sequência de abertura, apresentando os personagens em cenas rápidas, influenciou sem dúvida nenhuma Martin Scorsese na abertura de Caminhos Perigosos, e Paul Thomas Anderson em Magnólia; a narração em off que acaompanha a história simplesmente citando os fatos e pensamentos, sem emitir julgamento sobre os personagens definitivamente pesou em Alfonso Cuáron em E Sua Mãe Também.

Além disso, o diretor cria cenas brilhantes ao apresentar seus conceitos: Por exemplo, ainda no primeiro ato do filme, Os três decidem apostar uma corrida em um túnel. Catherine está vestida de homem. Eles contam para dar a largada, mas ela sai correndo na frente. Simples: Catherine a frente, diasfarçada de outra pessoa, é seguida pelos dois, que disputam para alcançá-la. Ou a cena inusitada em que ela pula no rio (cujo significado é entendido mais tarde).

Se eu tivesse que indicar um filme antigo para alguém que não se interessa tanto por cinema, indicaria Jules e Jim, sem pensar duas vezes. A trilha sonora, é provavelmente uma das melhores de todos os tempos (principalmente na cena em que Jim visita um cemitério, após a guerra). Sua narrativa é rápida e direta, e sua história é tão bela e universal, que poucoas vezes, devo dizer, que conferi uma obra que envelheceu tão bem. Aliás, envelheceu tão bem, não. O filme se mantém jovem e inocente, e intocado pelo tempo. Um filme com tantas características de vanguarda, que ainda se mantém a frente das obras contemporâneas. Clássico.

NOTA: 10

Paradise Now



É muito fácil para nós, ocidentais, entendermos o terrorismo, e especificamente dos "homens-bomba" através do pensamento propagado pela mídia, que filtra informações para explicar o que não pode ser facilmente entendido, pelo simples prazer de oferecer opiniões ao leitor, ou telespectador. Assim, é fácil dizer que homens se explodem todo dia para chegar ao paraíso com 72 virgens esperando. Paradise Now é um filme dirigido por Hany Abu-Assad, e se passa na Palestina. Conta a história de dois amigos escolhidos para detonarem alvos em Israel.

No primeiro ato, acompanhamos seu cotidiano, suas paqueras, envolvimento familiar, enfim, somos apresentados a pessoas que dificilmente estariam tentando se matar por 72 virgens. Conforme o filme avança acabamos nos surpreendendo com as motivações de seus personagens, e somos apresentados a idéia de que os "homens -bomba" tem muito menos de fé em seus atos, e sim de razão: sendo o número de palestinos muito inferior em homens dispostos a lutar a histórica guerra com Israel, sua melhor estratégia seria matar muito mais homens, com muito menos. Ou seja, com explosivos amarrados a um homem, pode-se matar 50 de uma vez. Pois é, simples e doloroso assim.

Como não poderia deixar de ser, Paradise Now é um verdadeiro soco no estômago. Extremamente angustiante, o filme não deixa espaço para respostas fáceis. Brilhantemente escrito e dirigido, o filme reserva maravilhosas surpresas, como por exemplo, o tom cômico da cena em que os dois amigos gravam o vídeo anunciando seu ato suicida para suas famílias. E é justamente o uso do humor nessa cena, que a torna tão dolorosa.

O roteiro, sim, é esquemático. A separação dos amigos na fronteira com Israel acaba sendo um artifício cinematográfico, de certa forma, forçado para que o filme ganhe pontos dramaticamente. Felizmente, isso funciona como uma luva. Cenas pequenas, como um dos personagens esperando um ônibus em Israel tem tantos contornos poéticos, que criticar esse "esquematismo" é diminuir uma construção admirável de estrutura de roteiro.

E só para concluir, à quem assistiu ao filme e a quem assistirá, pergunto: O que você sentiu quando o personagem explica suas motivações para concluir o atentado terrorista? O que você, como brasileiro, como indivíduo e dono de suas opiniões diria para ele? E qual sua reação quanto a atitude do amigo dele?

Pois é. Certos filmes nos deixam um grito silencioso por dentro. E mesmo deixando uma terrível sensação de angústia, assistir Paradise Now não é apenas obrigatório cinematograficamente. Na minha opinião, é um dever social.

NOTA: 10

O Orfanato



A modinha de uns tempos para cá era conferir os filmes de terror produzidos no Oriente, como a irregular trilogia Ringu, The Eye (já refilmado) ou, o meu favorito, Espíritos - A Morte Está ao Seu Lado. Infelizmente, não estão conseguindo manter o hype que a envolvia, e a qualidade dos filmes vem decaindo (como o ruinzinho Silk - O Primeiro Espírito Capturado) e a mania de refilmagens que Hollywood propagou, fez com que olhássemos para outro lugar, onde os filmes de terror vem sendo bem mais bem-sucedidos - a Espanha.

De lá já vieram filmes como A Espinha do Diabo, O Labirinto do Fauno e Os Outros, e agora O Orfanato, estréia na direção de Juan Antonio Baiona, que mesmo sendo bastante inferior a seus antecessores, ainda consegue ser assustador e competente como poucos.

Laura se muda com o marido e o filho adotado para a casa onde cresceu na infância: um antigo orfanato, com o intuito de criar uma casa para crianças especiais. No meio disso, ela e seu marido, que é médico, tentam tratar da doença do filho, que nasceu com o vírus HIV, e conversa com amigos imaginários. É quando, durante uma festa com várias crianças, o filho de Laura desaparece, é que ela se convence que os amigos imaginários dele na verdade eram espíritos, e então começa sua busca para fazer contato com eles.

O filme funciona bem, principalmente pela calma que usa para apresentar seus personagens, portanto, quando a tensão começa ela se torna insuportável, já que investimos muito emocionalmente na situação e em seus personagens. Aliás, o diretor Juan Antonio merece elogios pela maneira como faz com que a tensão creça em tela usando de elementos simples, como o ruído de um roda-roda. E é impossível não admirar a cena da visita da médium (interpretada por Geraldine Chaplin) ou a cena em que personagem parece atrair os fantasmas com o som de um sino.

Infelizmente, o diretor dá um tiro no próprio pé quando demonstra sua inexperiência, criando uma sucessão de sustos "falsos" que acabam irritando profundamente. E a marcação de cena em que Laura encontra a assistente social em sua casa a noite é péssima: basta dizer que depois de minutos de tensão a cena é tão mal montada-enquadrada-marcada que o resultado são risadas involuntárias. Felizmente, essas cenas ficam no primeiro ato, e param por ali.

Contando com um bom final (e uma cena final decepcionante por sert absolutamente desnecessária), O Orfanato pode ter seus defeitos, mas definitivamente, tem qualidades de sobra para ser conferido.

NOTA: 7,5

O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford



Cada vez mais vejo o quanto 2007 foi um ano extraordinário para os cinéfilos. Dirigido e escrito por Andrew Dominik (cujo currículo, confesso que desconheço), O Assassinato de Jesse James... é mais uma obra-prima obrigatória para quem curte cinema. Contando com um aspecto visual apuradíssimo e uma narrativa simples (mesmo que inusitada), definitivamente vai entrar na lista de favoritos de muita gente.

O filme conta a história dos últimos meses de vida do famoso bandido Jesse James até o fato anunciado em seu título, para depois contar suas consequências. Aliás, Andrew Dominik se diferencia das outras versões da famosa história da covardia de Robert Ford pela temática inusitada que é aplicada em seu roteiro. O filme discute a influência das personalidades conhecidas que acabam influenciando pessoas que acabam não apenas desejando ser igual a pessoa idolatrada, mas também SER a pessoa idolatrada (algo também visto em O Rei da Comédia, de Martin Scorsese).

A relação entre Jesse James e Robert Ford é extremamente complexa, e mesmo insinuando uma atração homossexual entre os dois, o diretor não resume sua história a isso. Afinal, o filme deixa claro que está narrando a fase decadente de James, e mesmo assim, o personagem não se permite qualquer descuido mesmo com as pessoas mais próximas. Mas porque o criminoso deixa Robert se aproximar sem descuido? Os olhares melancólicos de Jesse para Robert, enquanto brinca com o seu filho; a tendência suicida de James; o vazio existencial de Ford; tudo é insinuado de maneira tão sutil, que ao final nos sobra a sensação de extremo desgaste emocional.

Brad Pitt consegue sua melhor performance desde Tyler Durden em Clube da Luta. Utilizando bem seu carisma para conpor seu personagem, o ator consegue atingir seu ápice porém nas cenas mais introspectivas de Jesse James, insinuando um oceano de melancolia com apenas um olhar. Casey Affleck cria um Robert Ford com uma perigosa mistura de inocência e ambição. Mesmo que seus tão anunciados desejos de "realizar grandes eventos" sejam perigosos e violentos, sua interpretação não permite que condenemos Ford, graças a perigosa e genuína ingenuidade dele. Destaque também para Sam Rockwell, que brilha em suas cenas finais.

Contando com a fotografia do mestre Roger Deakins, Andrew Dominik cria uma estrutura narrativa que é contada quase como a narração de um livro, que serve para concentrar as cenas importantes no presente. O passado glorioso de James e o obscuro de Ford são contados por um narrador, como se fossem histórias longíquas do ponto onde eles estão no momento que presenciamos.

Assim, O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford se une a Sangue Negro, Onde Os Fracos Não Têm Vez e Zodíaco em minha lista de melhores de 2007. E é curioso observar como todos esses fimes citados possuem finais ambíguos e melancólicos. Mais um belo ponto para o cinema americano que (finalmente) está amadurecendo como deveria.

NOTA: 10

Os Simpsons - O Filme



Convenhamos: Não tinha como dar errado. Claro que enquanto o primeiro longa-metragem baseado no desenho animado mais bem sucedido da história era produzido, os fãs se questionavam se a família Simpson funcionaria bem em um filme de cinema. Pergunta respondida nos primeiros e hilários trailers que brincavam com o desenho ser 2D e logo em sua primeira cena, em que Homer questiona porque vai ao cinema assistir algo que pode ver de graça na televisão (no caso, o filme de Comichão e Coçadinha).

Os Simpsons - O Filme não esconde o fato de ser um episódio de uma hora e meia do seriado. Ou seja, há um acúmulo de piadas não bem aproveitadas, como o já famoso Porco-Aranha que simplesmente desaparece da história. Mesmo assim, o filme cumpre exatamente a curiosa característica que o desenho possui: por mais humor negro que contenha, por mais alfinetadas que a família Simpson e sua galeria invejável de coadjuvantes espalhe na sociedade e até com o governo dos Estados Unidos, há um elemento claro de doçura que nos mantém conectados com seus personagens.

E talvez até por isso, sabendo que o filme tem seus altos e vários baixos, que seja tão difícil dar uma nota baixa para ele.

NOTA: 8,5

Sobre o Oscar...

Onde os Fracos Não Têm Vez e Sangue Negro me dividiram demais na minha escolha para quem eu torcia. Um dia antes do Oscar, porém eu decidi: Gostei mais de Sangue Negro. Bem, não posso dizer que estou triste pela sua derrota, mas bem... dá um amargo na boca... bem de leve... mas enfim.


2007 foi um ano maravilhoso para o cinema, e o melhor jeito de percebermos isso é observar quantos filmes excelentes estavam concorrendo, e principalmente, quantos filmes excelentes ficaram de fora da premiação, como Zodíaco, O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford ou Superbad - É Hoje. Sim, Superbad.

Enfim, fiquei feliz por Norbit e Transformers terem saído de mãos abanando da premiação (hahá! um dia quem sabe, Michael Bay!), por O Ultimato Bourne ter sido lembrado de forma tão calorosa (3 prêmios!) e Marion Cotillard ter vencido. Não assisti Piaf - Um Hino ao Amor, mas... confesso que... ah... que mulher linda, meu Deus... enfim.


Aí vai a lista de vencedores (devidamente reproduzida num Crtl+C e Ctrl+V). Aproveitem para comentar sobre o que acharam da festa:

MELHOR FILME
Onde os Fracos Não Têm Vez

MELHOR DIRETOR
Joel e Ethan Coen, Onde os Fracos Não Têm Vez

MELHOR ATOR
Daniel Day-Lewis, Sangue Negro
MELHOR ATRIZ
Marion Cotillard, Piaf – Um Hino ao Amor

MELHOR ATOR COADJUVANTE
Javier Bardem, Onde os Fracos Não Têm Vez

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE
Tilda Swinton, Conduta de Risco

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Juno

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO
Onde os Fracos Não Têm Vez

MELHOR FOTOGRAFIA
Sangue Negro

MELHOR MONTAGEM
O Ultimato Bourne

MELHOR DIREÇÃO DE ARTE
Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet

MELHOR FIGURINO
Elizabeth: A Era de Ouro

MELHOR MAQUIAGEM
Piaf – Um Hino ao Amor


MELHORES EFEITOS VISUAIS
A Bússola de Ouro

MELHOR TRILHA SONORA
Desejo e Reparação

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL
"Falling Slowly", Once

MELHOR SOM
O Ultimato Bourne

MELHOR EDIÇÃO DE EFEITOS SONOROS
O Ultimato Bourne

MELHOR FILME ESTRANGEIRO
The Counterfeiters, Áustria

MELHOR FILME DE ANIMAÇÃO
Ratatouille

MELHOR DOCUMENTÁRIO
Taxi to the Dark Side

MELHOR DOCUMENTÁRIO EM CURTA-METRAGEM
Freeheld

MELHOR CURTA-METRAGEM
Le Mozart des Pickpockets (The Mozart of Pickpockets)

MELHOR CURTA DE ANIMAÇÃO
Peter & the Wolf

Juno






Pequena Miss Sunshine de 2007? Nunca... Na verdade, Juno remete ao trabalho anterior de Jason Reitman, o filme Obrigado Por Fumar: boa direção, roteiro mediano e atuações fantásticas. Apresentando a história da adolescente Juno (Ellen Page) que engravida do melhor amigo (Michael Cera), e sua consequente decisão de dar o bebê para um casal que não pode ter filhos (Jason Bateman e Jennifer Garner), o filme demora demais a engrenar, mas quando o faz, diverte como poucos.

Na verdade, Juno só funcionou realmente comigo quando o filme caminhava para seu final a partir de um incidente, que obviamente não vou revelar. O que salva o filme da artificialidade de seu roteiro são as atuações de seu excelente elenco: de Jennifer Garner na sua primeira grande atuação, passando por J.K. Simmons como o pai da garota, Michael Cera tão brilhante quanto em Superbad - É Hoje, o filme encontra sua razão de ser ao conseguir com que seus atores tirem leite de pedra.


Não que o roteiro vencedor do Oscar seja ruim, já que como citei, as reviravoltas presentes são muito interessantes, e o desenvolvimento que os personagens ganham com o desenrolar da história é bastante rico. O problema são os diálogos, às vezes, irritantemente artificiais, e cenas extremamente mal-construídas, como a cena em que Juno compra o teste de gravidez no início do filme. Fora isso, a narração em off é extremamente desnecessária e é usada tão esporadicamente que chega a irritar.

Mas como já citado por muitas pessoas, Juno é de Ellen Page, como Sangue Negro é de Daniel Day-Lewis. Demonstrando um equilibrio perfeito na construção da personagem, a jovem garota consegue demonstrar uma naturalidade brilhante mesmo nas falas mais cretinas que é obrigada à dizer em certos momentos. E o fato do roteiro ter ganho o Oscar, sendo que Ellen Page é que foi seu grande trunfo é apenas mais um dos mistérios que cercam esse estranho mundo chamado Hollywood.

PS: Mesmo com seus problemas, o final do filme me faz sorrir só de lembrar.

NOTA: 8,5

Senhores do Crime






David Cronenberg já tinha anunciado uma leve mudança em seu estilo único de cinema com o maravilhoso Marcas da Violência. Fazendo um estilo mais "comercial" (muita ênfase nas aspas), o diretor abordou, através de um enredo de certa forma convencional, todas as suas temáticas clássicas sobre a natureza violenta do ser humano e seus conflitos internos, sejam físicos ou mentais. Novamente, o cineasta trabalha com um filme de enredo convencional, embora suas temáticas clássicas tenham ficado um pouco de lado. O resultado porém, não é nada convecional em suas mãos.

Contando a história da parteira Ana (Naomi Watts) que na noite de natal ajuda uma criança a nascer, sendo que sua mãe de apenas 14 anos, morre no ato. Nos pertences da garota, Ana encontra um diário e através de um cartão dentro dele, acha o endereço de um restaurante russo onde se depara com um simpático senhor, Semyon (Armin Mueller-Stahl), que parece bastante interessado no diário e se dispõe para ajudá-la a traduzi-lo (já que está escrito em russo). O que Ana não sabe, é que o simpático senhor é chefe da organização criminosa russa Vory v Zakone, e que o conteúdo do diário pode revelar segredos sobre o filho do chefe, Kirill (Vincent Cassel), e logo o seu motorista e guarda-costas Nikolai entra no encalço da busca. Interpretado por Viggo Mortensen, Nikolai é o centro dramático de Senhores do Crime. Demonstrando o talento que Marcas da Violência já havia revelado, Mortensen cria um personagem inquietante, cuja simples presença é capaz de levar o espectador a temer pelo que pode acontecer (característica que divide com Javier Bardem como o assassino de Onde os Fracos Não Têm Vez).


David Cronenberg também demonstra a evolução que mostrou em seu filme anterior. Com a ajuda de Peter Suschitzky (seu habitual diretor de fotografia), o diretor mostar uma Londres sombria e cercada de fortes contrastes. Para os fãs mais ardorosos de Cronenberg (lista da qual me incluo) fica, porém, a sensação de que falta algo. Marcas da Violência, como já disse, era um filme de estúdio, mais comercial, sim, mas sua temática era instigante e provocativa. O roteiro de Steve Knight (que também escreveu Coisas Belas e Sujas) reserva surpresas e demonstra uma maravilhosa mensagem quanto ao que acontece com os imigrantes que vão para Londres. Cronenberg utiliza essa temática com sua inteligência habitual, e a violência bruta que é quase uma marca registrada de seus filmes também aparece aqui (aliás, a cena de luta que ocorre na sauna, é desde já uma das melhores já filmadas por ele).

Mas não liguem. Minha reclamação é a típica de fã chato. Tipo leitores de Harry Potter em fóruns da internet reclamando de trocas de vírgulas do livro para o roteiro. Nada que impeça Senhores do Crime de ser um dos grandes filmes de 2007, e mais uma prova do imenso talento de David Cronenberg e Viggo Mortensen.

NOTA: 9,5

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