Paradise Now



É muito fácil para nós, ocidentais, entendermos o terrorismo, e especificamente dos "homens-bomba" através do pensamento propagado pela mídia, que filtra informações para explicar o que não pode ser facilmente entendido, pelo simples prazer de oferecer opiniões ao leitor, ou telespectador. Assim, é fácil dizer que homens se explodem todo dia para chegar ao paraíso com 72 virgens esperando. Paradise Now é um filme dirigido por Hany Abu-Assad, e se passa na Palestina. Conta a história de dois amigos escolhidos para detonarem alvos em Israel.

No primeiro ato, acompanhamos seu cotidiano, suas paqueras, envolvimento familiar, enfim, somos apresentados a pessoas que dificilmente estariam tentando se matar por 72 virgens. Conforme o filme avança acabamos nos surpreendendo com as motivações de seus personagens, e somos apresentados a idéia de que os "homens -bomba" tem muito menos de fé em seus atos, e sim de razão: sendo o número de palestinos muito inferior em homens dispostos a lutar a histórica guerra com Israel, sua melhor estratégia seria matar muito mais homens, com muito menos. Ou seja, com explosivos amarrados a um homem, pode-se matar 50 de uma vez. Pois é, simples e doloroso assim.

Como não poderia deixar de ser, Paradise Now é um verdadeiro soco no estômago. Extremamente angustiante, o filme não deixa espaço para respostas fáceis. Brilhantemente escrito e dirigido, o filme reserva maravilhosas surpresas, como por exemplo, o tom cômico da cena em que os dois amigos gravam o vídeo anunciando seu ato suicida para suas famílias. E é justamente o uso do humor nessa cena, que a torna tão dolorosa.

O roteiro, sim, é esquemático. A separação dos amigos na fronteira com Israel acaba sendo um artifício cinematográfico, de certa forma, forçado para que o filme ganhe pontos dramaticamente. Felizmente, isso funciona como uma luva. Cenas pequenas, como um dos personagens esperando um ônibus em Israel tem tantos contornos poéticos, que criticar esse "esquematismo" é diminuir uma construção admirável de estrutura de roteiro.

E só para concluir, à quem assistiu ao filme e a quem assistirá, pergunto: O que você sentiu quando o personagem explica suas motivações para concluir o atentado terrorista? O que você, como brasileiro, como indivíduo e dono de suas opiniões diria para ele? E qual sua reação quanto a atitude do amigo dele?

Pois é. Certos filmes nos deixam um grito silencioso por dentro. E mesmo deixando uma terrível sensação de angústia, assistir Paradise Now não é apenas obrigatório cinematograficamente. Na minha opinião, é um dever social.

NOTA: 10

O Orfanato



A modinha de uns tempos para cá era conferir os filmes de terror produzidos no Oriente, como a irregular trilogia Ringu, The Eye (já refilmado) ou, o meu favorito, Espíritos - A Morte Está ao Seu Lado. Infelizmente, não estão conseguindo manter o hype que a envolvia, e a qualidade dos filmes vem decaindo (como o ruinzinho Silk - O Primeiro Espírito Capturado) e a mania de refilmagens que Hollywood propagou, fez com que olhássemos para outro lugar, onde os filmes de terror vem sendo bem mais bem-sucedidos - a Espanha.

De lá já vieram filmes como A Espinha do Diabo, O Labirinto do Fauno e Os Outros, e agora O Orfanato, estréia na direção de Juan Antonio Baiona, que mesmo sendo bastante inferior a seus antecessores, ainda consegue ser assustador e competente como poucos.

Laura se muda com o marido e o filho adotado para a casa onde cresceu na infância: um antigo orfanato, com o intuito de criar uma casa para crianças especiais. No meio disso, ela e seu marido, que é médico, tentam tratar da doença do filho, que nasceu com o vírus HIV, e conversa com amigos imaginários. É quando, durante uma festa com várias crianças, o filho de Laura desaparece, é que ela se convence que os amigos imaginários dele na verdade eram espíritos, e então começa sua busca para fazer contato com eles.

O filme funciona bem, principalmente pela calma que usa para apresentar seus personagens, portanto, quando a tensão começa ela se torna insuportável, já que investimos muito emocionalmente na situação e em seus personagens. Aliás, o diretor Juan Antonio merece elogios pela maneira como faz com que a tensão creça em tela usando de elementos simples, como o ruído de um roda-roda. E é impossível não admirar a cena da visita da médium (interpretada por Geraldine Chaplin) ou a cena em que personagem parece atrair os fantasmas com o som de um sino.

Infelizmente, o diretor dá um tiro no próprio pé quando demonstra sua inexperiência, criando uma sucessão de sustos "falsos" que acabam irritando profundamente. E a marcação de cena em que Laura encontra a assistente social em sua casa a noite é péssima: basta dizer que depois de minutos de tensão a cena é tão mal montada-enquadrada-marcada que o resultado são risadas involuntárias. Felizmente, essas cenas ficam no primeiro ato, e param por ali.

Contando com um bom final (e uma cena final decepcionante por sert absolutamente desnecessária), O Orfanato pode ter seus defeitos, mas definitivamente, tem qualidades de sobra para ser conferido.

NOTA: 7,5

O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford



Cada vez mais vejo o quanto 2007 foi um ano extraordinário para os cinéfilos. Dirigido e escrito por Andrew Dominik (cujo currículo, confesso que desconheço), O Assassinato de Jesse James... é mais uma obra-prima obrigatória para quem curte cinema. Contando com um aspecto visual apuradíssimo e uma narrativa simples (mesmo que inusitada), definitivamente vai entrar na lista de favoritos de muita gente.

O filme conta a história dos últimos meses de vida do famoso bandido Jesse James até o fato anunciado em seu título, para depois contar suas consequências. Aliás, Andrew Dominik se diferencia das outras versões da famosa história da covardia de Robert Ford pela temática inusitada que é aplicada em seu roteiro. O filme discute a influência das personalidades conhecidas que acabam influenciando pessoas que acabam não apenas desejando ser igual a pessoa idolatrada, mas também SER a pessoa idolatrada (algo também visto em O Rei da Comédia, de Martin Scorsese).

A relação entre Jesse James e Robert Ford é extremamente complexa, e mesmo insinuando uma atração homossexual entre os dois, o diretor não resume sua história a isso. Afinal, o filme deixa claro que está narrando a fase decadente de James, e mesmo assim, o personagem não se permite qualquer descuido mesmo com as pessoas mais próximas. Mas porque o criminoso deixa Robert se aproximar sem descuido? Os olhares melancólicos de Jesse para Robert, enquanto brinca com o seu filho; a tendência suicida de James; o vazio existencial de Ford; tudo é insinuado de maneira tão sutil, que ao final nos sobra a sensação de extremo desgaste emocional.

Brad Pitt consegue sua melhor performance desde Tyler Durden em Clube da Luta. Utilizando bem seu carisma para conpor seu personagem, o ator consegue atingir seu ápice porém nas cenas mais introspectivas de Jesse James, insinuando um oceano de melancolia com apenas um olhar. Casey Affleck cria um Robert Ford com uma perigosa mistura de inocência e ambição. Mesmo que seus tão anunciados desejos de "realizar grandes eventos" sejam perigosos e violentos, sua interpretação não permite que condenemos Ford, graças a perigosa e genuína ingenuidade dele. Destaque também para Sam Rockwell, que brilha em suas cenas finais.

Contando com a fotografia do mestre Roger Deakins, Andrew Dominik cria uma estrutura narrativa que é contada quase como a narração de um livro, que serve para concentrar as cenas importantes no presente. O passado glorioso de James e o obscuro de Ford são contados por um narrador, como se fossem histórias longíquas do ponto onde eles estão no momento que presenciamos.

Assim, O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford se une a Sangue Negro, Onde Os Fracos Não Têm Vez e Zodíaco em minha lista de melhores de 2007. E é curioso observar como todos esses fimes citados possuem finais ambíguos e melancólicos. Mais um belo ponto para o cinema americano que (finalmente) está amadurecendo como deveria.

NOTA: 10

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