A Promessa




Imagine um desses filmes policiais, em que o personagem principal soluciona sozinho um mistério que ninguém mais parece enxergar (a não ser nós, do público). Então ele leva todas as evidências para o seu superior. Como resultado, ele ganha aquele conselho "você tá trabalhando demais... vai pescar, esfriar a cabeça". Ok, em A Promessa de Sean Penn, o personagem principal... vai pescar! De tão inusitado, até parece uma inovação narrativa. Aliás, A Promessa é um desses filmes estranhos em que os personagens parecem seres humanos de verdade, que não dialogam sobre a trama apenas, mas conversam como... seres humanos conversam!

O policial Jerry Black está se aposentando, e ganha uma festa no último dia de trabalho. Durante a festa, uma ocorrência: uma garota de 8 anos foi encontrada morta na neve, espancada e estuprada. Jerry decide ir junto para investigar, e acaba ficando com a tarefa de dar a notícia para os pais da criança. A mãe faz Jerry jurar pela "salvação de sua alma" a promessa de pegar o "demônio" responsável pelo assassinato. Algumas horas depois, o suspeito é preso: um índio com problemas mentais. Quando está sendo algemado, o índio pega a rma do policial e se mata. Caso encerrado, mas não para Jerry.

Já aposentado, ele começa a investigar, por suspeitar que o tal índio confessou, sem saber do que estava confessando. Encontra desenhos da garota pendurados na parede da escola em que ela faz desenhos de si mesma em compania de um gigante, que ela chama de "Mago". Jerry traça paralelos com outros crimes, tentando montar um quebra cabeça que só ele parece enxegar.

Até aqui, você pode estar pensando que o filme se trata de um suspense policial, mas A Promessa passa longe disso: é um estudo de personagem dramático e pesado. Interpretado por Jack Nicholson, Jerry Black é uma figura melancólica, cujo medo de envelhecer é seu maior drama; observe sues olhos quando ele vê um senhor com andador pela janela de seu escritório. ou a maneira genial que o diretor Sean Penn encontra para mostrar o quanto a aposentadoria incomoda Jerry: em câmera lenta, a câmera mantém o personagem em primeiro plano, desfocado, enquanto gria mostrando os outros personagens dançando e comemorando. Brilhante. É um filme sobre uma obsessão, que levará seu personagem a uma descida ao inferno da incerteza, da pergunta que jamais será respondida ("Mas ela disse...").

Repleto de pequenas participações de grandes atores, Sean Penn mostra uma gigantesca evolução como diretor. Se em seus trabalhos anteriores, ele jamais chamava a atenção para seu trabalho, ou seja, fazendo uma direção discreta meio Woody Allen (ou seja, mostre os atores, o resto não importa), aqui ele demonstra ousadia em várias cenas e enquadramentos, como na já citada cena da festa, mas principalmente nas cenas em que mostra Jerry contando a notícia para a mãe, e na cena final. O forte de sua direção, porém, continua a ser a direção de atores. Sean Penn é o diretor que conseguiu a melhor interpretação dos últimos tempos de Jack Nicholson. Robin Wright, Aaron Eckhart e Sam Shepard também ganham destaque. Nos papéis menores, o índio interpretado por Benicio Del Toro e a psicóloga de Helen Mirren, também são memoráveis, mas o grande destaque é mesmo Mickey Rourke, que em apenas uma cena, mostra todo o potencial que lhe foi negado em sua carreira. Atuação brilhante, que poderia ter sido indicada para o Oscar de Ator Coadjuvante.

Contando com um dos desfechos mais introspectivos e melancólicos dos últimos anos, A Promessa só não é o grande filme de Sean Penn, pois em 2007 ele lançou o perfeito Na Natureza Selvagem. Mas basta lembrar que, neste filme, Jack Nicholson dá um dos maiores shows da sua carreira, que vale a pena (e muito) conferi-lo.

NOTA: 9,5

O Sétimo Selo



Assisir O Sétimo Selo não é tarefa das mais agradáveis. Aliás, corrigindo: Assistir um filme de Ingmar Bergman não é tarefa das mais agradáveis. O cineasta sabe, como poucos, criar narrativas opressoras que fazem com que, mesmo em seus ótimos rompantes de humor, jamais nos deixam rir, sem uma ponta de melancolia ("Eu podia te estuprar, mas cá entre nós, não acredito nesse tipo de amor."). O Sétimo Selo é provavelmente, seu filme mais popular e lembrado.

Começa contando a história de dois cavaleiros voltando das Cruzadas. Um deles começa a ser perseguido pela Morte, e consegue fazer um pacto com ela. Irão disputar uma partida de xadrez, e se ele ganhar, a Morte lhe deixará em paz. O cavaleiro é Antonius Block e é interpretado pelo magnífico Max Von Sydow. Bergman, exímio roteirista e diretor, aplica uma complexidade temática no filme e em seus personagens nos mínimos detalhes. Antonius não quer adiar sua morte: aliás, não se preocupa em morrer no sentido físico: Seu problema é morrer sem respostas. Em nome do Deus que ele ama, ele matou milhares de "infiéis", e voltando ao lugar onde morava, seus cidadãos sofrem com a Peste Negra, que aos poucos vai dizimando a população. Ao observar uma garota sendo queimada pelos seus pecados, ele e seu companheiro ficam a observar seus olhos. Seu companheiro diz "veja se ela parece ter uma revelação. Parece estar descobrindo algo. Deus? Anjos? O Diabo? Não, o vazio, apenas o vazio do céu até a lua".

O filme também nos apresenta a um casal de atores e seu filho pequeno, cujo pai tem visões sobrenaturais, desde visões malignas quanto a Virgem Maria, são obrigados a se apresentar ganhando pouco dinheiro a uma população descrente, que parece conformada em sentar e aguardar a morte chegar lentamente.

A ausência de Deus no povo (ou a incerteza da fé) é um dos principais temas dessa obra de Bergman. Assim como Cláudio Assis vem falando em obras como Amarelo Manga e Baixio das Bestas, um povo que vive em miséria e sem esperança, jamais será um povo cujos valores não sejam invertidos e esquecidos quando necessário. Numa cena, uma procissão de pessoas carregando cruzes e se chicoteando, enquanto rezam e gritam sobre o fim dos tempos comove a cidade, que se ajoelha diante de sua passagem. Na outra, dentro de um bar, o povo se diverte enquanto o ator é ameaçado de morte, e é obrigado a dançar em cima de uma mesa que pega fogo.


O Sétimo Selo é um filme pesado e desagradável, mas brilhante em sua proposta. E o final, uma mistura de happy-ending com apocalipse, é só uma das provas de sua genialidade.

NOTA: 9,5

Jules e Jim - Uma Mulher para Dois




François Truffaut realizou um pequeno milagre: ao contar a história de um triângulo amoroso que se estende por décadas, o filme jamais perde a aura de inocência. Aliás, os personagens da trama jamais deixam que suas intenções magoem o outro. E talvez por isso, conforme o filme passa, os três estejam tão lesados emocionalmente que, de uma comédia romântica, paramos num drama psicológico (e dos pesados...) e o melhor: quando percebemos essa mudança, é impossível identificar onde ela ocorreu.

Escrito e dirigido por Truffaut, Jules e Jim conta a história de... bem... Jules e Jim, dois amigos que buscam o amor em Paris. Enquanto Jim tem uma certa facilidade para conseguir garotas, Jules, um austríaco, acaba repelindo as mulheres, graças a sua enorme insegurança. As coisas mudam para os dois, e de maneira definitiva quando Catherine entra em suas vidas. Com pouco tempo de relacionamento, Jules já começa a propor a garota que eles se casem. Os três se tornam companheiros inseparáveis, até a Primeira Guerra Mundial, quando Jim entra para o exército francês e Jules para o austríaco (e o maior medo de ambos é acabar matando um ao outro no front).

Acabada a guerra, Jules já casado e com uma filha com Catherine convida Jim para morar perto deles. O relacionamento entre os três, porém, já está bem diferente. Caterine parece disposta a abandonar Jules; e Jim e ela parecem prontos para ficar juntos... mas contar mais que isso, é covardia. O filme caminha por situações inusitadas, mas mesmo as decisões mais absurdas (lembre de Albert...) ganham contornos humanos graças ao roteiro sensível, e as interpretações maravilhosas do elenco.


Jeanne Moreau, como Catherine está absurdamente perfeita. É notável como ela interpreta uma mulher que tem perfeita noção de que ela atrai os homens, mas parece carregar isso como uma maldição. Oskar Werner e Henri Serre como Jules e Jim (respectivamente) não deixam por menos, e dão profunda dimensão a dor de seus personagens. Oskar, aliás, se destaca numa comovente cena em que declara seu amor por Catherine "eu te amo, não importa o que você faça". O amor de Jules por Catherine é tão absurdamente grande, e Catherine sorrindo diz "Nós somos felizes, não somos?", ao que Jules responde "Bem... eu sou.". Jules sabe que Catherine está, naquele momento comovida com seu amor. Mas sabe, que quando necessário, ela usará esse amor como motivo de escárnio.

A direção de Truffaut é nada menos que brilhante. Assistir ao filme, é observar o quanto ele influenciou milhares de outros diretores. A sequência de abertura, apresentando os personagens em cenas rápidas, influenciou sem dúvida nenhuma Martin Scorsese na abertura de Caminhos Perigosos, e Paul Thomas Anderson em Magnólia; a narração em off que acaompanha a história simplesmente citando os fatos e pensamentos, sem emitir julgamento sobre os personagens definitivamente pesou em Alfonso Cuáron em E Sua Mãe Também.

Além disso, o diretor cria cenas brilhantes ao apresentar seus conceitos: Por exemplo, ainda no primeiro ato do filme, Os três decidem apostar uma corrida em um túnel. Catherine está vestida de homem. Eles contam para dar a largada, mas ela sai correndo na frente. Simples: Catherine a frente, diasfarçada de outra pessoa, é seguida pelos dois, que disputam para alcançá-la. Ou a cena inusitada em que ela pula no rio (cujo significado é entendido mais tarde).

Se eu tivesse que indicar um filme antigo para alguém que não se interessa tanto por cinema, indicaria Jules e Jim, sem pensar duas vezes. A trilha sonora, é provavelmente uma das melhores de todos os tempos (principalmente na cena em que Jim visita um cemitério, após a guerra). Sua narrativa é rápida e direta, e sua história é tão bela e universal, que poucoas vezes, devo dizer, que conferi uma obra que envelheceu tão bem. Aliás, envelheceu tão bem, não. O filme se mantém jovem e inocente, e intocado pelo tempo. Um filme com tantas características de vanguarda, que ainda se mantém a frente das obras contemporâneas. Clássico.

NOTA: 10

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