Eu Sou a Lenda



Se tem uma coisa que me dá muita, mas muita raiva num filme, é assistir uma obra que vá num "crescendo" maravilhoso, pra avacalhar bonito no final. E Eu Sou a Lenda é um ótimo exemplo disso. Extremamente eficaz, o filme consegue fazer até seus flashbacks jamais soem gratuitos, e que se encaixem perfeitamente na narrativa. E a direção de Francis Lawrence e a ótima performance de Will Smith estão em perfeita sintonia no filme.

Will Smith é Robert Neville, um cientista-médico-militar-que-também-entende-de-rádios, que vive sozinho em Nova York. Três anos antes, um vírus se espalhou rapidamente pelo mundo. Como resultado, os infectados viraram vampiros, e Neville continua buscando por uma cura. Com ele, apenas seu cachorro, com quem conversa normalmente para manter a sanidade.

O tom do filme para apresentar seu conceito e seu personagem em sua primeira hora é formidável, e apresenta o que há de melhor no filme. As ruas vazias de Nova York tomadas por animais selvagens são um trabalho estupendo de direção de arte (e efeitos especiais, provavelmente). E Lawrence trabalha bem na tensão crescente do filme, principalmente na cena do depósito escuro, quando as criaturas são finalmente reveladas.

Mas aí a Alice Braga entra no filme e a coisa desanda, e entra uma conversa sobre Deus que dá AQUELA brochada... Nada contra a Alice, que está bem, mas a sua personagem é uma das coisas mais absurdas que já vi nos ultimos tempos: uma paulista que nunca ouviu falar de Bob Marley e (spoiler) salva Neville sozinha contra uns trocentos vampiros.

O final do filme em si, é belo, mas o começo do terceiro ato faz com que o filme deixe de ser uma obra realmente maravilhosa, e que tinha tudo para se tornar clássico, em mais uma ficção científica nas prateleiras das locadoras. Uma pena.

NOTA: 7

Império dos Sonhos



Eu não vou nem tentar fingir que eu entendi o que diabos eu vi nesse pesadelo de três horas filmado por David Lynch. Se mesmo em suas obras mais complicadas, como Estrada Perdida ou Cidade dos Sonhos, haviam oportunidades mais promissoras para uma explicação, aqui em bom português, o cara fode tudo. No bom sentido, acredite. A verdade é que Império dos Sonhos independe de uma narrativa lógica para funcionar. O filme é uma verdadeira experiência emocional. Consegue emocionar, comover, e principalmente, assustar. Mesmo sem grandes cenas violentas ou sustos, é um filme extremamente perturbador.

Filmado com câmera digital (ao longo de três anos), o filme de início apresenta uma história linear: a atriz Nikki (Laura Dern) se envolve com o filme On High and Blue Tomorrows, e no primeiro dia de filmagens, o diretor do filme (Jeremy Irons) revela a verdade por trás do filme: ele é baseado num conto alemão chamado 47, que é amaldiçoado. Na Polônia, quando tentaram fazer esse filme pela primeira vez, os dois protagonistas foram assassinados, e jamais foi concluído. Com o tempo, a maldição parece realmente existir e afetar psicologicamente Nikki, que ao transar com Devon (Justin Theroux) acaba chamando ele pelo nome do personagem.

E aí, assim como acontece com a caixa azul em Cidade dos Sonhos, como a orelha em Veludo Azul e na cena da cela em Estrada Perdida, tudo que achávamos certo, vira do avesso várias vezes. E dessa vez, parece sensato dizer que nem o criador da obra parece saber onde o filme está indo.

Muito do cinema de David Lynch pode ser mais "entendido" ao sabermos que antes de cineasta, Lynch é um pintor. É sensato pensarmos que ele busca a relação que temos com a pintura, com nossa relação com seus filmes: ou seja, não uma reacção lógica de começo-meio-e-fim, mas a busca por uma sensação, sentimentos. E em Império dos Sonhos, essa busca é maravilhosamente desenvolvida. O filme é verdadeiramente hipnótico, e mesmo que seja desconexo e absurdo, existe uma unidade que cerca toda a obra.

Todos os elementos mais conhecidos de Lynch estão ali: a busca pela identidade ("olhe para mim, e diga se me reconhece."); a não-linearidade dentro da vida dos personagens ("se hoje fosse amanhã, você estaria sentada ali."); o cenário de cortinas vermelhas; a lógica de pesadelo.

Alguns temas claros no filme, são a sensibilidade feminina, sempre tão reprimida no pensamento machista, e novamente Hollywood. Lynch filma os cenários dos estúdios como verdadeiras portas para outros mundos (e isso é uma das respostas possíveis para o filme), mas é no lado negro de Hollywood que o filme encontra uma beleza única. As prostitutas e mendigos em cima da calçada da fama são poéticos e marcantes na obra.

Mas faltam adjetivos para classificar a performance de Laura Dern nesse filme. Assim como Naomi Watts em Cidade dos Sonhos, Dern faz com que nos identifiquemos com sua personagem, nos levando a quase ignorar os "absurdos" da trama graças a força de sua interpretação.


Império dos Sonhos não é um filme fácil de gostar, e talvez seja o caso mais extremo de "ame-o ou odeie-o" que eu já pude conferir. Nem sempre Lynch acerta (não sou muito fã de Eraserhead, e detesto Coração Selvagem), mas quando acerta a experiência é única. E Império dos Sonhos consegue ser um filme único dentro da filmografia já única de David Lynch, e só por isso, merece um destaque especial.

NOTA: 10

Time - O Amor Contra a Passagem do Tempo




Seh-hee e Ji-Woo são um casal na fase do fim do encantamento que acontece invariavelmente nos relacionamentos. Não sabendo como conviver com isso, Seh-hee se torna extremamente ciumenta, capaz de grandes vexames em públicos, mas mesmo assim, Ji-Woo demonstra grande paciência ao lidar com isso. Seh-hee na verdade, está extremamente insegura quanto a sua aparência, achando que Ji-Woo cansou dela, e vive repetindo a mesma frase para ele: "Desculpe ter sempre essa mesma cara sem graça".

Ela então decide fazer uma cirurgia plástica, mudando totalmente seu rosto e assumindo uma nova identidade, e pior, sem avisar Ji-Woo, que fica seis meses sem ter notícias dela (período necessário para cicatrizar a cirurgia). Seh-hee volta então como uma nova pessoa para Ji-Woo e começa um relacionamento com ele, que não se demontra mais tão paciente com as crises dela (já que, para ele, ela não é a mesma pessoa que conviveu por anos).

Apesar de parecer um romance bobinho de início, Time é um filme complexo e instigante, que aproveito ao máximo sua ótima premissa para falar sobre o efeito do tempo sobre os relacionamentos (e o sub-título babaca só sublinha esa idéia). Constantemente vemos os personagens na Ilha das Esculturas, onde há várias estátuas de homens e mulheres em posição sexual. Quando mostra seus personagens vagando e admirando aquelas obras, o diretor e roteirista Kim Ki-Duk parece fazê-los invejarem aquelas estátuas que se amarão por toda uma eternidade.

Belissimamente dirigido e contando com um desfecho extremamente trágico e melancólico, Time - O Amor Contra a Passagem do Tempo é um maravilhoso estudo de personagens, que graças ao maravilhoso roteiro, torna impossível para o espectador não se identificar com a triste situação de seus personagens.

NOTA: 9,5

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