Os 10 Melhores Filmes de 2009

Bom, aqui vai minha seleção de melhores filmes lançados comercialmente no Brasil no ano de 2009. Em breve, vou abrir uma votação pública para todo mundo votar nos seus filmes favoritos. Aguardem ;)


10. Entre os Muros da Escola





9. Sinédoque, Nova York



8. A Garota Ideal



7. Anticristo





6. O Visitante






5. Watchmen - O Filme






4. Amantes





3. Guerra ao Terror






2. Valsa com Bashir






1. O Lutador


Outros destaques (em ordem absurdamente aleatória): Katyn; Presságio; Procedimento Operacional Padrão; Inimigos Públicos; Fatal; Choke - No Sufoco; Eu Te Amo, Cara; Faça o que eu Digo, Não Faça o que eu Faço; Avatar; Perdendo a Noção; O Paraíso é Logo Aqui; Distrito 9; Milagre em Sta. Anna; Star Trek; Halloween - O Início; O Segurança Fora de Controle; Rio Congelado; Up - Altas Aventuras; Coraline e o Mundo Secreto; O Filho de Rambow; Se Beber, Não Case; Expresso Transiberiano; Milk - A Voz da Igualdade; Foi Apenas um Sonho; Dúvida; Atividade Paranormal; Segurando as Pontas; Pagando Bem, Que Mal Tem?; Há Tanto Tempo que te Amo; Harry Potter e o Enigma do Príncipe; Gran Torino; Sob Controle; Gomorra; Nossa Vida sem Grace; O Equilibrista; Brüno; À Deriva; Férias Frustradas de Verão; Intrigas de Estado; O Leitor

E aí, o que acharam? Comentem =)

Avatar



(Nota: Ainda vai aparecer alguém dizendo que o filme é uma metáfora sobre as novas tecnologias e mídias sociais. Bullshit...)

James Cameron levou mais ou menos 6 anos para realizar este Avatar e dá pra ver o porque disso no cinema: o filme é uma experiência visual absurdamente rica, que faz até o recente Fantasmas de Scrooge parecer um desenho da Turma da Mônica em comparação. Dito isso, se ele dedicasse pelo menos um ano para fazer o roteiro, estaríamos diante de um clássico, o que não é o caso, já que fora toda a parte tecnológica, Avatar não passa de uma nova versão de Pocahontas.

Apresentando a melhor experiência tridimensional da história do cinema, Avatar é um filme feito para ver no cinema, e dúvido muito que alguém que assistir o filme em DVD, ou baixado terá uma experiência tão impressionante: sem jamais utilizar a tecnologia para jogar coisas na direção do público, o filme mostra um avanço tecnológico indescritível: desde nossa noção de perspectiva da cena, até a distância de uma pessoa para outra, absolutamente todo e qualquer detalhe do filme mostra ter sido pensado e executado com firmeza por Cameron.

Porém, o roteiro não apenas decepciona na história (que fica até constrangedora quando tenta soar política) mas também, principalmente, nos diálogos. Se em Titanic a água com açúcar das falas poderia ser perdoada (era um romace, afinal), em Avatar os "Eu te vejo" e afins são verdadeiros chutes no saco. Além disso, fora o protagonista paralítico que encontra em seu avatar a possibilidade de andar de novo, algo bem desenvolvido no roteiro e principalmente na excelente atuação de Sam Worthington, todos os outros personagens surgem como caricaturas esquisitas e risíveis, desde o político belicista de Giovanni Ribisi até o militar fodão de Stephen Lang.

Mas talvez o melhor atrativo de Avatar seja na raça Na'vi, não que eles tenham algo de especial (como eu disse, é Pocahontas) mas nunca criaturas digitais surgiram tão carismáticas e sem surgirem intrusivas e esquisitas ao surgir em cena com humanos (estou olhando para você, Gollum!). E Robert Zemeckis que morra de inveja com a expressividade que James Cameron consegue com seus personagens digitais.

Avatar é um filme para ser visto agora no cinema em 3D, e vale muito o ingresso já que a experiência é realmente única. Infelizmente, ao contrário do que aconteceu em outras obras de James Cameron, sua história é tão decepcionante que dúvido muito que o filme alcançará a longevidade que os dois primeiros Exterminador do Futuro ou até mesmo Titanic possuem.

NOTA: 8

Caos Calmo



Caos Calmo é um drama curioso e eficiente sobre o luto. Como o próprio título nos diz, o filme acompanha um pai e sua filha lidando com a morte da mãe de maneira tão calma e suave que para quem os cerca, chega a ser estranho (não é a toa que algumas pessoas dizem que eles não a amavam, por conta disso). Protagonizado pelo sempre genial Nanni Moretti, o filme acompanha a curiosa jornada desse personagem que em meio a um turbilhão em sua vida, encontra tempo para esperar sua filha em frente a escola enquanto ela está lá, e portanto, refletir sobre sua vida com calma.

Momento chave do filme é quando o protagonista vai até uma reunião de pais que perderam o ente querido: claramente desconfortável e incapaz de se identificar com nenhum dos discursos ditos pelos outros, o personagem acaba encontrando sozinho a própria dor. Vale dizer que Nanni Moretti é considerado o "Woody Allen italiano", mas como é muito mais ator que Woody Allen, e sua atuação em Caos Calmo é tão genial quanto a sua dolorosa performance no magnífico O Quarto do Filho.

Infelizmente, o filme acaba atingindo o clímax muito antes do seu final: se na primeira hora eu estava até surpreso com a rapidez que o filme resolvia seus dilemas, logo depois, percebi que havia mais a ser resolvido, e até o seu final, Caos Calmo acaba se arrastando demais. E por mais que eu admire a ponta de Roman Polanski (tanto pela atuação quanto o porque de ele estar no filme), confesso que a cena também se alonga demais, e tem um desfecho até decepcionante. Mesmo assim, Caos Calmo merece ser visto, por ser um drama eficiente e bonito sobre a morte, e que jamais abusa do sofrimento de seus personagens para martelar sua mensagem.

NOTA: 8

Alice in Chains - Unplugged MTV



Na minha opinião, o melhor de todos os acústicos. Se até mesmo o Nirvana sentiu a necessidade de colocar algo a mais no seu show no formato (acordeão e violoncelo), o Alice in Chains fez o acústico mais cru de todos, com resultado extremamente positivo: músicas excelentes como Rooster, Got Me Wrong e Frogs ficaram ainda melhor do que suas versões em cd. Aliás, o set list não poderia ser melhor: de hits como Down in a Hole ou Would?, a banda encontra espaço para músicas mais obscuras de seu repertório, como Sludge Factory ou Over Now, agradando gregos e troianos.

É curioso assistir ao acústico e perceber como Layne Staley faz falta: tímido e extremamente fechado (percebam sua postura no palco), é incrível como sua personalidade chama atenção, como é um frontman por natureza, algo curioso, já que o líder Jerry Cantrell se mostra muito mais caristmático (e até simpático) durante o show do que o vocalista. O Alice in Chains foi uma das bandas mais importantes dos anos 90 (na minha opinião, a melhor do movimento Grunge), e mostra uma competência ao vivo de dar inveja em muitos veteranos.

Infelizmente, ao contrário do DVD do acústico do Nirvana, o do Alice in Chains não recebeu nenhum cuidado a mais, e nem sequer extras decentes. Ou melhor, ganhou um extra: a história da banda contada com aquele senso de humor impagável típico da Emetevê (ironia). Não que isso comprometa o show em si (que é obrigatória na estante de qualquer colecionador), mas um pouco a mais de cuidado nunca fez mal a ninguém...

NOTA: 10

Formspring

Não sei porque to usando isso, mas fiquem a vontade pra usar:

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A Estrada Perdida



A Estrada Perdida é o único longa-metragem de David Lynch que não está disponível em DVD no Brasil, ou seja, quem não tiver a paciência de buscar em VHS (como eu já perdi) tem que baixar. E é um download muito recomendado. O filme é um dos mais experimentais do cineasta, um pouco mais que Eraserhead, mas nem tanto quanto Império dos Sonhos: na verdade, A Estrada Perdida não apenas lembra (e parece uma preparação do cineasta para) Cidade dos Sonhos, como também se complementa de maneira perfeita com esta obra.

É curioso observar por exemplo, que ambos os filmes lidam com a busca de personagens pelas suas identidades (enquanto trocam de nomes e até de corpos, nesse filme), mas se a protagonista de Cidade dos Sonhos era uma mulher sensível, que se via cercada pela culpa, aqui o protagonista é um homem possessivo e ciumento, que cercado pela culpa, entra num perigoso labirinto psicótico. E a diferença do sexo dos protagonistas em ambos os filmes é algo importante para a compreensão das duas obras: se Lynch encheu Cidade dos Sonhos com uma trilha sonora doce, evocativa e até inocente, aqui somos bombardeados pela trilha que inclui David Bowie, Nine Inch Nails, Rammstein e Marilyn Manson.

Escrito por Lynch em parceria com Barry Gifford (que escreveu o romance que originou um dos piores filmes do cineasta, Coração Selvagem), o filme é cercado por todos os lados de referências freudianas, e tão cercado que falta calor humano: uma das grandes sacadas do roteiro é cercar o protagonista por seus pais, que se desabam em lágrimas ao não revelarem o grande segredo da história, uma das raras cenas que despertam o lado emocional do espectador.

Por outro lado, isso pode ser muito bem compensado pela atmosfera de terror que o filme possui, algo que só posso comparar a sensação tenebrosa de assistir Império dos Sonhos: Lynch brinca com a câmera como nunca mais fez depois. Além de criar uma das mortes mais bizarras da história do cinema (só digo que envolve uma testa), o diretor brinca com a fotografia contrastada e os eixos de câmera para realizar o sádico jogo da narrativa.

A Estrada Perdida pode não ser o melhor filme de David Lynch, mas não dá pra dizer que é um filme descartável: muito pelo contrário, é mais um de seus filmes que funcionam independente da interpretação e até da compreensão do espectador perante a obra. Mesmo que alguém não entenda porra nenhuma, eu duvido que irá tirar os olhos da tela.


NOTA: 9

PS: E cinéfilos do Brasil: BAIXEM esse filme, afinal, passou da hora das distribuidoras nacionais tomarem vergonha na cara...

Religulous


Religulous é um documentário que não foi lançado (e aparentemente nem será lançado) no Brasil, o que é lamentável, já que o povo brasileiro é conhecido por ser um dos mais católicos (e agora evangélicos) do mundo. Dirigido por Larry Charles (de Borat e Brüno) e estrelado pelo inteligente comediante Bill Maher, o filme pode ser tudo, menos ofensivo: é um documentário que questiona as religiões, sem qualquer resquício de maldade. Bill Maher é um cético que enxerga a religião como um dos principais problemas da atualidade, e como culpá-lo? Como bem aponta Maher, não foram apenas em tempos antigos que foram cometidas barbáries em nome de Deus: o próprio presidente George W. Bush justificou a guerra do Iraque dizendo que era uma missão de Deus levar a democracia para o mundo.

Religulous aliás, é curioso desde o início, quando Maher entrevista a própria família sobre o tema, numa cena engraçada e até comovente, no qual fica claro o propósito de seu filme: ele não quer ofender a fé de ninguém, muito menos ofender o Deus de ninguém; ele só quer perguntar como essas pessoas tão racionais acreditam em coisas que, se analisadas de um ponto de vista extremamente racional, são mentirosas?

E nenhuma religião é esquecida por Maher: se ele inicia discutindo sobre o cristianismo e o judaísmo, logo ele paça pelos mórmons, islâmicos e até cientologistas, e o melhor: o comediante demonstra um invejável conhecimento das doutrinas de cada uma delas, fazendo com que suas perguntas sempre surpreendam os entrevistados. Mas o melhor é quando o próprio Maher é surpreendido: da entrevista com um padre no Vaticano que se revela um dos melhores momentos do filme, até o inacreditável rabino que assinou um documento negando o Holocausto junto ao presidente do Irã. Tão inacreditável que nem mesmo Maher suporta o entrevistado e vai embora revoltado.

Se há um ponto negativo no filme, ele está em algumas entrevistas que não chegam a provocar nada demais, como o mexicano que diz ser a Segunda Vinda de Jesus Cristo. Sim, a entrevista é engraçadíssima, mas o próprio entrevistado é uma piada fácil, principalmente para Bill Maher.

Instigante, inteligente e divertidíssimo do início ao fim, Religulous é um documentário extraordinário em seu corajoso propósito, e é lamentável que não tenha chegado aos cinemas brasileiros. E só há um motivo que consigo pensar para que isso tenha acontecido: aparentemente, ninguém quer que pensemos sobre o assunto...

NOTA: 9,5

Há Tanto Tempo que te Amo



Há Tanto Tempo que te Amo é um estudo de personagem sutil e interessante, principalmente pela atuação soberba de Kristin Scott Thomas. Perdendo a força no segundo ato pelo excesso de personagens, o filme porém, conta com um desfecho forte e emocionante que se revela sublime. Escrito e dirigido por Phillipe Claudel (em seu primeiro longa-metragem), ele se revela um artista  promissor, já que apesar dos erros, demonstra um cuidado invejável em seu trabalho.

Observem, por exemplo, como no início do filme ele mostra Juliette em quadros sempre estáticos, enquanto sua irmã Léa é mostrada sempre em cenas em movimento, desde travellings até cenas com câmera na mão, contrastando de forma sutil a idéia de que Juliette "parou no tempo" de certa forma, e aos poucos, conforme ela consegue se adaptar a vida fora da prisão, o diretor começa a fazer leves travellings, algo sutil e que mostra a asegurança do diretor ao contar a história.

Infelizmente, por mais que os personagens do filme se mostrem interessantes (principalmente o tenente da delegacia que parece viver na ilusão de visitar um rio), o filme fica muito lento em seu segundo ato, dando a impressão de fazer um mistério barato quanto aos mistérios da personagem de Juliette, e a cena em um jantar em que ela é praticamente forçada a contar o porque esteve ausente por tanto tempo chega a ser embaraçosa, nesse sentido.

Há Tanto Tempo que te Amo, porém conta com um desfecho tão forte que consegue retomar a força que tinha no início, e não apenas justifica o silêncio e mistério de sua personagem, como também lida com um tema difícil (que não vou revelar, obviamente) de maneira tão sensível que é impossível não reconhecer seus méritos.


NOTA: 8,5

Arraste-me Para o Inferno



Arraste-me Para o Inferno foi vendido desde o início para o público como um retorno do diretor Sam Raimi para o gênero que o consagrou: o terror, somado com humor negro de maneira única, como seu ótimo Evil Dead. Não é. Na verdade, o filme é mais uma prova de que por mais talentoso que seja, Sam Raimi é extremamente irregular: sim, ele fez Evil Dead, Homem-Aranha e (principalmente) Um Plano Simples, mas alguém aí lembra das porcarias que ele fez como Por Amor ou O Dom da Premonição? Arraste-me Para o Inferno não chega a ser tão ruim, mas está mais perto das obras fracas do diretor, do que das melhores.

O roteiro é uma mistura descarada de A Maldição com O Dia da Besta, conta a história de uma pobre garota da fazenda (sim, é assim que o roteiro a apresenta) que trabalha num banco, e ao recusar um pedido de hipoteca é perseguida por uma velha louca que a amaldiçoa (A Maldição?), e ela começa a ser seguida por um demônio-bode (O Dia da Besta?).

Felizmente, apesar do roteiro ser uma barbaridade cheia de idiotices, a montagem é dinâmica e ágil o suficiente para disfarçar as idiotices e tornar o filme suportável. E quando Raimi resolve trabalhar de verdade, o resultado é sempre bom: da divertida luta entre mulheres no estacionamento até a cena no cemitério no final, as cenas conseguem se alternar bem entre o humor e o terror. E faça-se justiça, o filme jamais funcionaria se Alison Lohman não encarnasse a personagem de maneira tão séria, ignorando os absurdos da trama ao criar uma personagem frágil e corajosa, que torna as cenas sempre interessantes.

Infelizmente, os efeitos especiais do filme são constragedores de tão ruins (algo inexplicável vindo do diretor da trilogia Homem-Aranha), e o filme se distancia muito de Evil Dead por ser uma história dependente dos efeitos especiais. Mas acreditem, por pior que pareça, Arraste-me Para o Inferno é bacaninha o suficiente.


NOTA: 6

Procedimento Operacional Padrão



Dirigido pelo consagrado documentarista Errol Morris (do sensacional Sob a Névoa da Guerra), Procedimento Operacional Padrão analisa as fotos divulgadas a alguns anos atrás de prisioneiros iraquianos sendo torturados de diversas maneiras por soldados norte-americanos na prisão de Abu Ghraib, e o melhor, entrevistando os próprios imbeci... soldados que tiraram as fotos, assim como especialistas do exército e o principal investigador do caso.

O documentário se mostra interessante de início ao demonstrar o estado psicológico que os soldados estavam naquela prisão: situada em meio ao campo de batalha, eles eram diariamente bombardeados, algo que como aponta um dos entrevistados, de início leva ao medo, para dar lugar ao ódio. Aliás, mais do que isso, através das fotos, o documentário mostra que os soldados se encontravam psicologicamente abalados mesmo quando não se envolviam com os prisioneiros, e utilizavam as fotografias como um escape da realidade que os cercavam.

Logo depois disso, o documentário começa a mostrar as entrevistas com os especialistas em interrogatórios e com o investigador, e o filme fica ainda melhor. Ambos mostram bem o que o documentário faz com competência: mostrar o que havia de verdade nas fotos. Afinal, superficialmente (como a mídia fez) vemos abuso de autoridade, tortura, e até molestamento. Mas o que as fotos realmente mostram são soldados despreparados e livres para agirem como quiserem, e até estimulados pelos seus superiores a usarem da violência tanto física quanto psicológica. E é lamentável que o filme faça exatamente o que a mídia fez: não apresenta os verdadeiros culpados. Sim, o filme mostra George W. Bush e o secretário de Defesa Rumsfeld, mas e o resto?

Além disso, por mais que o filme dê vozes aos soldados (chegando até a se apiedar de uma delas), é curioso como nada justifique o que eles fizeram, e por mais que eles realmente tenham sido bodes expiatórios de algo muito maior, nada justifica as poses felizes e fazendo gestos ao lado de cadáveres ou pilhas de prisioneiros nus.

Mas apesar desses defeitos, Procedimento Operacional Padrão é um documentário importante e esclarecedor, e que ao final ainda consegue oferecer um prognóstico realista (portanto, pessimista) da intervenção americana no Iraque.

NOTA: 8

(500) Dias Com Ela



(500) Dias Com Ela tem vários méritos dentro do seu gênero, a comédia romântica, principalmente uma bem-vinda originalidade em sua narrativa. Infelizmente o filme não funciona tão bem quanto deveria, e várias de suas "originalidades" são sabotadas pela direção pretensiosa e inexperiente de Marc Webb. O que o filme tem de realmente bom é a ótima atuação do talentoso Joseph Gordon-Levitt, que esbanja carisma em cena.

Gordon-Levitt é Tom, um escritor de cartões formado em arquitetura (!) que se apaixona pela assistente do seu chefe, Summer (Zooey Deschanel). O filme acompanha a história dos dois através de uma narrativa não-linear que na maior parte do tempo não funciona, embora quando funcione seja sempre de forma espontânea e agradável (como a transição de uma cena musical quando Tom entra no elevador, para sua saída).

Além disso, o filme investe em cenas onde o diretor experimenta diferentes linguagens com resultados apenas moderados: as ilusões do personagem quando fica no cinema, e quando se vê dentro de obras como O Sétimo Selo são bacanas (mesmo desnecessárias), mas a cena em que o filme mostra os personagens sendo entrevistados como num documentário surje quase constrangedora. Apesar disso, o diretor cria vários momentos interessantes no filme, e destaco a abertura e sua boa narração em off, e os vários momentos em que o diretor usa do recurso de telas divididas, principalmente o que mostra as expectativas do personagem em contraste a realidade.

Infelizmente, (500) Dias Com Ela, mesmo sendo um filme interessante e divertido, é muito comprometido pelo excesso de idéias ruins (e eu realmente queria saber quem teve a idéia de fazer o protagonista pedir conselhos românticos a uma garota de uns 10 anos), mas vale uma conferida, principalmente pela ótima trilha sonora e o belo desfecho.

NOTA: 7

PS: A legenda no início do filme é impagável.

Um Louco Apaixonado



Um Louco Apaixonado é uma forte prova de que um bom elenco não garante um bom filme. É incrível como Simon Pegg, Jeff Bridges, Kirsten Dunst, Gillian Anderson, Danny Huston (e vá lá, Megan Fox) estejam todos muito bem em seus personagens (em especial, Pegg e Bridges), mas o roteiro é tão fraco, e a montagem tão lerda que o filme é arrastado e pior, exibe uma pretensão terrível ao ficar citando A Doce Vida de Fellini.

"Baseado em fatos reais", conta a história de Sydney Young, um repórter inglês que é chamado para trabalhar numa importante revista norte-americana, e lá começa a arrumar confusões por todos os lados, seja sendo inconveniente até mesmo nas roupas que usa, até se apaixonando por uma atriz e odiando um diretor de cinema (simplesmente por não ir com a cara dele).

E o filme já deixa a desejar nisso: ao contrário do que os realizadores do filme devem ter pensado, Sydney Young não é um personagem pelo qual o público torce: pelo contrário, arrogante e incrivelmente idiota, o personagem é superficial, implicante e... imbecil, e só a divertida maneira como Simon Pegg o encarna justifica que acompanhemos a sua jornada.

Aliás, a única coisa realmente boa do filme é ver Megan Fox de lingerie. Sim, ela aparece de lingerie. E eu me obrigando a ver Transformers por causa dela. Hunf...


NOTA: 3

Brüno


Em vários momentos de Brüno, o tiro sai pela culatra: ao contrário do que conseguiram fazer no perfeito Borat, o diretor Larry Charles e Sacha Baron Cohen parecem mais interessados no lado cômico das situações (e são bem sucedidos, diga-se de passagem) do que em expor uma crítica sutil e chocante. Apesar que, nos poucos momentos em que Brüno faz essa crítica, o filme realmente acerta e se torna memorável.

Para começar, a história de Brüno apesar de divertida, toma um longo tempo no início para estabelecer o personagem. Fora isso, a história de seu personagem que quer ser famoso rende situações engraçadas no início, mas sem o mesmo efeito de Borat: quando o personagem entrevista Paula Abdul usando mexicanos como cadeiras enquanto ela fala sobre seu trabalho humanitário, a sacada é boa, mas não dá pra dizer que o diretor e o ator forçaram demais a barra para isso acontecer.

Mas como eu disse, Brüno tem momentos em que mostra um lado crítico forte, e são nesses momentos que o filme realmente ganha força e deixa de ser só uma comédia qualquer: e quando Brüno faz uma seleção de bebês para fazer uma sessão de fotos, o filme mostra o absurdo dos pais que ganham dinheiro através da imagem dos filhos (aceitando as condições absurdas do personagem), ou mesmo no início quando entrevista a modelo e os dois falam sobre as "dificuldades" de ser modelo. Mas não é só isso: assim como em Borat, Sacha Baron Cohen volta a mostrar o ridículo por trás das instituições religiosas, ao fazer seu personagem desejar ser hetero, sendo auxiliado por pastores terrivelmente homofóbicos e machistas.

E falando em Sacha Baron Cohen, mais uma vez o ator mostra um invejável domínio e concentração absoluta em seu personagem, e várias cenas desnecessárias no filme, só ganham graça através de improvisos louváveis do ator, como a disparar um "Dulce and Gabbana, hello!" em frente a dois oficiais do exército americano. Infelizmente, o ator perde oportunidades sensacionais de fazer críticas ao investir num humor alá Jackass, como ao atravessar uma passeata contra homossexuais nu e amarrado ao seu assistente, presos através de... hum, deixe quieto. Sendo assim, Brüno não é nem de longe tão engraçado e cínico como Borat, mas é irresistivelmente engraçado e forte em sua mensagem o suficiente para merecer uma recomendação.

NOTA: 8

Nirvana - Unplugged in New York



O que um músico deve ter para ser memorável? Ou melhor, o que define o que é um bom músico ou um músico ruim? Joe Satriani ou Steve Vai's da vida são excelentes músicos porque conseguem tocar 30.000 notas por segundo? Ou será que músicos que sabem usar a simplicidade a seu favor não são melhores, como The Edge ou Jack White? Digo isso pois, obviamente, acho que grandes músicos fazem grandes músicas, independente de sua técnica: John Bonham pode solar na bateria por meia hora, que ainda acho que Ringo Starr em sua competência era um baterista muito mais talentoso.

E isso me leva diretamente a Kurt Cobain: dono de uma voz rouca e forte, que remete fortemente a Mark Lanegan (que remete a Tom Waits e assim vai...), e guitarrista competente (e só), Cobain é lembrado muito mais pelos gritos, ou pelas destruições dignas de Shiva no final dos shows. Mas como este Unplugged in New York mostra, Kurt não era só isso: era sim, um músico dedicado, capaz de criar melodias simples e memoráveis, e tornar músicas simples em verdadeiros hinos, graças a seu talento como compositor.

O acústico do Nirvana é um dos melhores shows já feitos no formato (junto com o de Neil Young e Alice in Chains). A banda apostou num formato completamente diferente ao consagrado: tocou apenas um hit (Come As You Are), de 14 músicas tocou 6 covers (e apenas um de alguém conhecido, The Man Who Sold the World de David Bowie) e de resto apenas músicas desconhecidas de seus cd's, que ganharam versões definitivas nesse show, como Dumb ou Penniroyal Tea. Além disso, a já clássica participação do Meat Puppets é memorável.

O DVD lançado recentemente que mostra o acústico sem cortes é imperdível, principalmente ao mostrar o clima do show naquela noite: se nas primeiras músicas, os membros da banda se mostram nervosos, aos poucos eles relaxam e o show fica com um clima de uma jam session, com direito a discussões de última hora sobre o set-list e até em pedir sugestões de músicas da platéia (que são todas descartadas). Mas talvez o melhor seja a parte final antes da já clássica versão de Where Did You Sleep Last Night?, quando a banda fica discutindo quais músicas tocar, enquanto a platéia grita seus pedidos, tudo cortado por um rápido "Fuck you all, this is the last song" de Kurt. Além disso, os arranjos das músicas são surpreendentes e o fato da banda jamais voltar nenhuma música apesar dos erros cometidos garante um charme extra ao show.

O decepcionante é o documentário dos extras que tem apenas 13 minutos, e trás pouquíssimas entrevistas e cenas de bastidores. Por outro lado, é bacana acompanhar as cenas de ensaios (principalmente o de Penniroyal Tea), que mostram bem a dinâmica da banda. DVD indispensável e clássico e, na minha opinião, o melhor trabalho do Nirvana.

NOTA: 10

Amantes



Amantes é uma das histórias de amor mais lindas e trágicas lançadas no cinema nos últimos anos, mas não é apenas isso. É um romance artístico como a muito tempo não se via. Dirigido pelo talentoso James Gray (de Os Donos da Noite), o filme narra a história de Leonard (Joaquin Phoenix) um homem traumatizado pelo fim de seu relacionamento, que depois de uma tentativa de suicídio começa a viver com os pais. Logo, ele se vê dividido entre duas garotas: uma delas é Sandra (Vinessa Shaw), filha do sócio de seu pai e a outra é sua vizinha Michelle (Gwyneth Paltrow), uma garota problemática que mantém um relacionamento com um homem casado.

A história do rapaz dividido entre duas garotas pode ser velha, mas nunca foi tratada de maneira tão bonita e cuidadosa quanto nesse filme. Leonard é um personagem verdadeiramente trágico, e Joaquin Phoenix dá sua melhor atuação. Inicialmente introvertido, aos poucos o personagem, através do convívio com as garotas demonstra uma alegria surpreendente, algo que só reforça o tamanho de sua depressão, e sua paixão pelas garotas parece tudo menos canalhice: sua tragédia está em precisar desesperadamente de alguém para amar.

Surgindo mais do que surpreendente, Gwyneth Paltrow finalmente dá uma atuação digna dos elogios que a crítica vive lhe fazendo, enquanto Vinessa Shaw evita qualquer exagero para transformar sua personagem em uma pessoa adorável. Além deles, vale destacar a participação de Elias Koteas (sempre genial) e Isabella Rossellini, que tem uma das cenas mais tocantes de todo o filme.

James Gray faz de Amantes um filme evocativo e melancólico, utilizando os movimentos de câmera de maneira categórica e eficaz. Além disso, vale destacar que assim como em Os Donos da Noite, o diretor volta a tocar no assunto da família e das tradições, embora se mostre muito mais benevolente neste filme do que no anterior. Trágico e poético, Amantes é um filme realmente brilhante e com seu desfecho triste e arrasador, se mostra um dos grandes filmes dos últimos anos.

NOTA: 10

Valsa com Bashir



Valsa com Bashir merece ser estudado. O filme é uma mistura de documentário com animação, algo que já merece enorme respeito: qualquer um que tenha estudado comunicação, fotografia, cinema, etc. se deparou com a questão da "realidade". De como nem mesmo uma fotografia escapa de estar manipulando a realidade apresentada diante da câmera, ou ainda, de como o fato de haver uma câmera naquela realidade, já está a alterando de certa forma, mas divago. O fato é que através do recurso da animação, o diretor Ari Folman conseguiu criar um filme memorável em todos os seus aspectos.

Ari Folman lutou na Guerra do Líbano, mas depois de conversar com um amigo que também esteve lá, percebe que não tem nenhuma lembrança da guerra, e pior ainda, não se lembra de um terrível massacre contra os palestinos, mesmo sabendo que esteve lá. Decidido a relembrar este fato de seu passado, ele vai atrás de outros companheiros que estiveram na batalha para retomar sua memória, mas o diretor vai além: percebendo que seus amigos também não tem recordações exatas do que aconteceu (e o filme explica isso de maneira brilhante logo no início), o filme dá voz aos sonhos e alucinações para montar o quebra-cabeças. Logo, nos vemos dentro da alucinação de um soldado assustado que imagina uma mulher gigante a confortá-lo ou o recorrente sonho na praia com cidade destruída.

E a animação do filme merece vários elogios. Se pelo trailer eu só podia imaginar que foi utilizada a técnica de rotoscopia (vide Waking Life ou O Homem-Duplo), Valsa com Bashir na verdade teve toda a tecnologia criada exclusivamente para o filme, tornando-o uma experiência visual única: se os desenhos parecem simples, os "movimentos de câmera" merecem elogios, principalmente nas longas cenas sem cortes. Mas o aspecto técnico de Valsa com Bashir chega a ser um mero detalhe: apresentando um mea culpa poderoso, trata-se também de um filme político forte e emocionante, mas não deixando de ser um estudo de personagem humano e incrivelmente sensível.

Terminando com cenas que funcionam como um verdadeiro soco no estômago (e que mais uma vez, justificam o uso de animação), Valsa com Bashir é um filme importantíssimo e deve ser conferido e discutido por anos e anos. E num mundo ideal, deveria ser exibido junto com outras obras-primas como Munique e Paradise Now.

NOTA: 10

Guerra ao Terror



Guerra ao Terror é um filme de guerra a altura de clássicos do gênero, como Platoon, Além da Linha Vermelha ou Apocalypse Now, e junto com Caminho para Guantánamo é o melhor filme lançado sobre as Cruzadas promovidas pelos Estados Unidos contra o Oriente Médio. Dirigido de forma surpreendente por Kathryn Bigelow, o filme narra o cotidiano de uma equipe de três rapazes que trabalham desarmando bombas no Iraque.

Bigelow cria um perfeito clima de batalha urbana durante todo o filme, e mantém a tensão alta durante todo o tempo. Com um excelente trabalho de montagem, consegue demonstrar o tamanho do perigo que os soldados vivem em seu cotidiano, já que até mesmo um rapaz andando pela rua pode estar ali só para distraí-los por um segundo. Além disso, o roteiro equilibra bem estas cenas com outras mais "leves", como as sessões de um soldado com o psicólogo do exército, ou a amizade de um soldado com um garoto iraquiano.

Surgindo como a grande surpresa da produção, Jeremy Renner cria um personagem inesquecível e extremamente trágico: se de início ele simplesmente parece um sortudo arrogante, aos poucos ele se mostra um líder preocupado e dedicado e pior: sua tragédia está no vício da adrenalina da batalha, tragédia essa que o filme ilustra aos poucos e de maneira sempre surpreendente. Enquanto isso, atores mais conhecidos como Guy Pearce, Ralph Fiennes e David Morse criam grandes personagens mesmo com seu pouco tempo em tela (especialmente Guy Pearce).

Contando com cenas geniais, como a abertura é desde já um clássico, Guerra ao Terror lida com temas difíceis por natureza, mas por opção é um drama humanista, que deixa a política apenas como pano de fundo, algo sempre bem vindo em produções como essa. Tenso, pesado e surpreendente em todos os momentos, Guerra ao Terror é o grande filme de guerra desta década, e realmente torço para que ele seja lembrado no Oscar.

NOTA: 10

Cinema Aspirinas e Urubus



É um filme feito de sutilezas, que usa o silêncio como a melhor forma de comunicação. Road-movie simples e honesto, Cinema Aspirinas e Urubus é um dos melhores filmes nacionais da década. Dirigido por Marcelo Gomes, conta a história de Johann, um alemão fugitivo da Segunda Guerra que atravessa o Brasil de carro divulgando uma aspirina com filmes de propaganda. Ao chegar no sertão, começa a ser ajudado por Ranulpho, um rapaz local que despreza o povo e as tradições que o cercam.

Assim como mostrou em sua performance em Estômago, João Miguel vem se tornando um dos grandes nomes no cinema nacional, e não é a toa: sua atuação como Ranulpho é digna de prêmios, divertido, consistente e, principalmente, sutil (não é a toa que quando nos damos conta, o personagem passou por uma transformação dramática forte e diante dos nossos olhos), enquanto Peter Ketnath também usa da sutileza, embora com um forte tom de melancolia.

Apostando num clima silencioso durante todo o filme (sempre sinal de grande segurança do diretor), Marcelo Gomes aposta numa direção mais voltada para os atores do que qualquer outra coisa, mesmo que em um momento ou outro, ele realize brincadeiras visuais interessantes como na cena de abertura, e sua rima visual no final.

Infelizmente, o filme perde muito o ritmo em seus 15 minutos finais, arrastando demais o desfecho, que é belo, sem dúvida, mas demora demais a acontecer. A montagem parece estender o nada e erra como evitou durante todo o filme. Mas nem isso consegue diminuir a força notável de Cinema Aspirinas e Urubus, um desses filmes que me dão orgulho de ser brasileiro.


NOTA: 9

A Onda



A Onda conta a história de um professor rebelde que realiza um trabalho com sua classe sobre Autocracia aplicando as mesmas características desse tipo de governo na sala de aula. Logo, os alunos acabam levando a sério demais e começam a se levar pelo estilo de vida fascista. O mais impressionante? Isso aconteceu em apenas seis dias.

Infelizmente, A Onda apresenta o mesmo problema de outro filme "político" alemão lançado nessa década, Edukators: é incrivelmente ingênuo quanto a sua mensagem. Aliás, se retirarmos todos os aspectos políticos da história, o filme se pareceria muito mais com um episódio de Malhação do que com outro grande filme sobre professores como Entre os Muros da Escola.

Jürgen Vogel faz um excelente trabalho como o professor e é em seu personagem que o filme ganha força: afinal, jamais sabemos se conforme a história se passa, o professor começou a acreditar em sua posição como "führer", ou se tudo faz parte de seu plano. Infelizmente, a maneira como o filme retrata os alunos é superficial, e até estúpida em alguns momentos, e me refiro principalmente as duas alunas que ficam de fora do movimento: se uma parece ir contra só por ser uma mala sem alça, a outra só fica contra ao notar que seu namorado começa a se rebelar dentro do relacionamento, logo eleger essas duas garotas como heroínas da história é quase patético.

O filme tecnicamente é surpreendente, principalmente pela fotografia que é excelente. Infelizmente, A Onda jamais arrebata de verdade, e mesmo se baseando em fatos reais, o filme força a barra ao máximo para retratar as consequências do caso, principalmente pelo roteiro e sua má construção de personagens e pior, esquece de fazer a pergunta mais importante da sua história: assim como Gus Van Sant perguntou em Elefante, a discussão deve ser sobre as influências externas que levam os jovens a violência ou a facilidade com que eles conseguem armas?

NOTA: 7

Desejo e Perigo



Romance com doses de suspense e erotismo, Desejo e Perigo é provavelmente o filme mais fraco de Ang Lee desde O Tigre e o Dragão. Contando com um roteiro incrivelmente irregular e durando duas horas de meia, o filme é interessante e bem feito, mas jamais atinge o nível de outras obras do diretor, como Tempestade de Gelo ou O Segredo de Brokeback Mountain.

O filme começa bem, mostrando os esforços de um grupo de teatro chinês para se envolver na guerra entre o país e o Japão. Eles se disfarçam para ter acesso aos inimigos, e Wang Jiazhi acaba se envolvendo com o poderoso Sr. Yee. O relacionamento dos personagens, que deveria ser o centro da obra é frustrante, e é triste ver um diretor como Ang Lee se concentrando num romance tão bobo e desinteressante: todos os diálogos do casal são filmados de maneira cuidadosa, os atores fazem boas pausas dramáticas, mas seus diálogos são no mínimo pífios (e o filme só piora quando os dois começam a "discutir política"). Por outro lado, Lee filma as cenas de sexo entre eles de maneira ousada e quase explicíta, algo fundamental para explorar o relacionamento dos dois.

Infelizmente, o roteiro apesar de momentos inspirados (como a apresentação de teatro do grupo, de longe a melhor cena) o filme é extremamente irregular em seu desenvolvimento, e para cada uma cena inspirada, somos obrigados a aguentar umas cinco que dizem pouco. E a montagem não é apenas irregular, como terrivelmente desinspirada, tornando suas duas horas e meia quase insuportáveis. O que é uma pena quando isso vêm de um grande diretor como Ang Lee. E se por um lado sou obrigado a reconhecer seu óbvio esforço como artista para desenvolver a obra, como a belíssima rima visual envolvendo o casal e um espelho, por outro lado não posso deixar de reconhecer que me senti enrolado durante o tempo todo.

NOTA: 4

Nick & Norah - Uma Noite de Amor e Música



Apesar do roteiro fraquíssimo, Uma Noite de Amor e Música não é um filme ruim, e graças a performance do elenco, consegue ser superior a uma boa parte das comédias românticas por aí. Protagonizado por Michael Cera e Kat Dennings, o filme conta a história dos dois que passam uma noite em Nova York procurando pelo show secreto de sua banda favorita, ao mesmo tempo em que (claro) se apaixonam.

Fortemente influenciado pelos filmes de Judd Apatow e até mesmo por Apenas Uma Vez, o filme escorrega no excesso de personagens coadjuvantes, que mesmo divertidos causam um excesso de conflitos na narrativa, atrapalhando o desenvolvimento da história do casal, por exemplo, a amiga bêbada que se perde ou até mesmo os respectivos ex-namorados de cada protagonista.

Felizmente, Michael Cera se mostra mais uma vez inspirado em cena: apesar de não ser um grande ator (ainda), seu timing cômico é impecável e faz qualquer piada funcionar bem. Aliás, seu personagem tem uma característica interessante e divertida, que é a de ser sempre confundido com um homossexual, algo que é bem explorado e sem qualquer preconceito pelo filme. Kat Dennings faz um bom par e tem boa química com Michael Cera, algo no mínimo fundamental para um romance. Com uma trilha sonora divertida e uma trama simples, Nick & Norah - Uma Noite de Amor e Música é uma comédia romântica musical com diversos problemas, mas que no final das contas funciona bem e é suficientemente divertido. Mesmo assim, é uma pena pois com um pouco mais de cuidado, até poderia ser um Férias Frustradas de Verão da vida.

NOTA: 5,5

A Batalha de Seattle



A Batalha de Seattle conta a história dos protestos que tomara conta da cidade em 1999, quando a Organização Mundial de Comércio se reuniu na cidade. Os protestos pacíficos logo se mostraram mais eficazes do que o pensado, e atrapalharam boa parte das reuniões, causando uma reação negativa, e logo os policiais abusam da violência contra os manifestantes, transformando Seattle num verdadeiro campo de batalha.

Filme de estréia na direção do (fraco) ator Stuart Townsend, o filme é interessante quando se concentra na política: da abertura documental, passando por cenas dentro da OMC, o roteiro do próprio diretor é eficiente ao abordar vários lados da questão, desde as difíceis decisões do prefeito da cidade, passando pela negligência da Organização para com os países africanos, e no melhor personagem do filme, por um representante que está lá para defender a queda dos preços dos remédios para AIDS, e graças aos protestos, vê suas chances de defender sua causa diminuídas, numa ironia dramática eficiente, que acaba não sendo bem explorada pelo longa.

Por outro lado, sempre que o filme se concentra nos manifestantes o filme fica fraco, já que seus personagens não se mostram tão interessantes, ou talvez por ser a parte mais fraca do grande elenco (Martin Henderson, Michelle Rodriguez e André Benjamin). Já a melhor história do filme é o casal protagonizado por Woody Harrelson e Charlize Theron, que tem o núcleo dramático mais eficiente de todo o filme (e vale dizer que Harrelson não apenas tem a melhor atuação do filme, como também um dos grandes momentos de sua carreira, numa cena fortíssima).

Prejudicado pelo excesso de personagens, Stuart Townsend cria alguns momentos inspirados durante o filme,  como o travelling mostrando uma rua de Seattle destruída após um protesto, mas no geral, sua direção lembra muito a de Paul Greengrass no superior Domingo Sangrento. Mesmo assim, A Batalhe de Seattle se mostra uma estréia digna e surpreendente do diretor, e fico ansioso pelo seu próximo filme.

NOTA: 8

À Deriva



À Deriva é um filme que começa leve e divertido, e que vai crescendo aos poucos como um interessante e complexo drama familiar sobre uma separação. Dirigido por Heitor Dhalia (do magnífico O Cheiro do Ralo), o filme narra este drama a partir do ponto de vista de Filipa (Laura Neiva), filha mais velha do casal formado por Vincent Cassel e Débora Bloch, que vem se descobrindo sexualmente enquanto descobre um caso extra-conjugal de seu pai.

Infelizmente é justamente esse o drama que é desenvolvido de maneira menos interessante pelo roteiro. E Laura Neiva é uma jovem atriz talentosa, mas não consegue dar carisma o suficiente para a personagem que parece umss simples adolescente aborrecida. Já Vincent Cassel está numa atuação espetacular, falando português bem e com um sotaque divertido, ele consegue demonstrar um enorme carinho pelos filhos, justificando sua paciência com a esposa, interpretada com sensibilidade e inteligência por Débora Bloch, e a história por trás do casal é o que o filme tem de melhor.

À Deriva também conta com uma das fotografias mais belas já vistas num filme nacional em muitos anos (só consigo compará-lo ao sensacional A Ostra e o Vento). E Dhalia novamente se mostra um diretor de talento, utilizando enquadramentos bem compostos e movimentos de câmera elegantes e perfeitos para as situações. Contando com um curioso final feliz, À Deriva é um ótimo filme que só derrapa quando foge de seu tema principal: o divórcio e suas consequências para os pais e filhos, algo que o roteiro trata de maneira direta e surpreendente.

NOTA: 8,5

O Dia em que a Terra Parou



É um bom filme ruim, que funciona como uma comédia involuntária graças a performance de Keanu Reeves ("Vai demorar para me acostumar com esse corpo..."), e o suspense do início que é resolvido em falas como "Eu não posso dizer o que você está indo fazer, pois eu também não sei". Mesmo assim, O Dia em que a Terra Parou é um filme até que divertido e tem uma história interessante o suficiente para manter nossa atenção.

Dirigido por Scott Derrickson que realizou antes o também fraquinho O Exorcismo de Emily Rose, O Dia em que a Terra Parou é um filme catástrofe de mente ambientalista (algo que me remete ao tenebroso Fim dos Tempos) mas infelizmente, é nos momentos em que o filme tenta se levar a sério que o roteiro se mostra muito mais fraco do que o aconselhável. Aliás, em apenas uma cena o filme consegue discutir sua ideologia de maneira interessante (aquela com o personagem de John Cleese).

Mas no final das contas, é um filme pipoca e deve ser tratado como um, e mais uma vez o filme decepciona, principalmente nos efeitos especiais que se mostram apenas competentes (e as cenas de destruição são decepcionantes) ou fracos como o robô gigante Gort e os insetinhos de outro mundo, que chegam a ser constrangedores. E no elenco, Jaden Smith surge como destaque inquestionável da produção, atuando de maneira irritante e criando o personagem mirim mais aborrecido dos últimos tempos, enquanto Jennifer Connelly e Kathy Bates fazem o possível com o fraco material em mãos.

E chegamos agora em Keanu Reeves: ator com sérios problemas de interpretação, Reeves não é exatamente um ator ruim, mas é um ator muito dependente de personagens específicos. Não acho que ele seja o ator mais inexpressivo de todos os tempos como é alardeado, até porque gostei muito de suas interpretações em O Homem Duplo, O Dom da Premonição e Constantine, por exemplo, mas acho que escolher esse papel nesse filme foi quase como entrar numa piada interna de Hollywood, um tiro na própria perna. Mas ele ganhou seus milhões e o que a gente tem a ver com isso?

NOTA: 5

Perfume de Mulher



Perfume de Mulher é um filme certinho demais e muito mais longo do que deveria. Além disso, seu protagonista, um jovem bolsista que pode ganhar sua entrada em Harvard se delatar seus colegas, é tão bundão e atuado com tão pouca expressividade por Chris O'Donnell que várias cenas importantes do filme se tornam fracas. O filme de Martin Brest ainda investe numa estrutura tão fraca e clichê que até o final grandioso com direito a um julgamento está lá.

Sim, tem todos estes defeitos, mas é um filme ruim? De maneira alguma, e o principal "culpado" pela sua qualidade é o sempre genial Al Pacino, que ganhou um merecido Oscar pela sua atuação neste filme. Seu Tenente Coronel Frank Slade é um personagem forte e bem desenvolvido, e Pacino utiliza seu enorme talento para torná-lo uma figura sempre imponente em tela, inclusive pela sua cegueira. Aliás, reassisti esse filme depois de muito tempo, e achei curioso como o personagem de Al Pacino nesse filme é semelhante ao Walt Kowalski de Gran Torino.

Martin Brest é um diretor que tem sérios problemas com a duração de seus filmes (é dele o insuportavemente longo Encontro Marcado), mas sabe criar ótimas cenas, e destaco o jantar de Ação de Graças na casa do irmão de Frank e seu excelente desfecho e a dança de Frank com uma bela garota em um restaurante. E mesmo que o final seja um pouco mais feliz que o recomendado, Perfume de Mulher é um belíssimo filme em que até os clichês normalmente irritantes funcionam graças a Al Pacino.

NOTA: 8,5

Mamma Mia!



Quais as chances de eu gostar de um musical que utiliza apenas músicas do Abba, se nem mesmo Across the Universe conseguiu me agradar completamente? Baseado numa peça de teatro de grande sucesso, Mamma Mia! é um musical chatinho e muito mal-dirigido, mas que tem sua parcela de charme. Sim, a história é absurda, mas como resistir aos momentos musicais de Meryl Streep?

Streep aliás, é o grande motivo para assistir Mamma Mia!. Obrigada a fazer cenas absolutamente esdrúxulas, chega a ser impressionante que ao final a  atriz consegue manter sua dignidade intacta: Atriz extremamente confiante, ela consegue pular em camas, e agir feito criança sem embaraço, já que sua atuação convence. Algo que também pode ser dito sobre Stelan Skarsgård, Colin Firth e Pierce Brosnan. Já o elenco jovem (e as duas amigas de Streep) estão embaraçosamente ruins, tornando suas cenas em verdadeiras torturas.

Dirigido de maneira incompetente por Phyllida Lloyd, o filme ainda comete o erro de vários musicais que é fazer seus personagens cantarem sem qualquer motivo aparente: se até mesmo Chicago e Moulin Rouge conseguiram utilizar "desculpas" em sua narrativa para justificar os números musicais, Mamma mia! se mostra um baita passo para trás no gênero, que merece ser melhorado depois de obras como Dançando no Escuro e Apenas Uma Vez.

NOTA: 4

Geração Prozac



Dirigido por Erik Skjoldbærg (que dirigiu o Insônia que foi refilmado por Cristopher Nolan), Geração Prozac é um filme corajoso sobre depressão, que utiliza de todas as maneiras possíveis para mergulhar o espectador nos violentos surtos de sua protagonista. E mesmo sem contar com cenas gráficas fortes, o filme me lembrou a maneira como Darren Aronofsky se utilizou de cortes rápidos, lentes e outras trucagens para passar a sensação de horror psicológico em Réquiem Para um Sonho; além disso, outra comparação válida é com o sensível As Horas, embora este Geração Prozac esteja menos interessado em discutir a depressão e sim retratá-la, os dois filmes são habilidosos em mostrar as consequências deste problema para com todos os que cercam os personagens.

Baseado no livro autobiográfico de Elizabeth Wurtzel, o filme conta a sua história de forma original (é quase um making-of do livro), mostrando sua entrada de sucesso na univerdidade de Harvard, quando é aclamada até mesmo pela revista Rolling Stone graças aos seus textos sobre música, e sua rápida descida ao inferno da depressão quando entra num bloqueio criativo.

Encarnando Elizabeth com a mesma entrega de Mickey Rourke em O Ludador, por exemplo, Christina Ricci dá uma atuação corajosa e repleta de complexidade. A cena de nudez que surje logo no início é um exemplo curioso do brilhante trabalho da atriz, desde sua voz até a postura do corpo, levemente curvado como se estivesse pronto para desabar a qualquer momento. E Jessica Lange encarna a mãe da personagem de maneira surpreendente, assim como Anne Heche transforma a psicóloga numa das figuras mais fortes do filme, apesar do pouco tempo em tela. E vale elogiar também Jason Biggs que (finalmente!) entrega uma boa atuação.

O diretor Erik Skjoldbærg cria um clima opressivo e forte ao filme, mesmo quando cria cenas mais amenas, como o delírio de Elizabeth com Lou Reed. A maneira como os embates verbais são mostrados também são dignos de nota, sempre cruelmente honestos. Contando com um final genial (no qual explica o título do filme enquanto compara o Prozac como uma droga) e incrivelmente otimista, Geração Prozac não é um filme fácil de recomendar, já que sua intenção é justamente ser uma espécie de viagem ao inferno. Gradualmente, e depois rapidamente. Mesmo assim, é um filme eficaz e genial em seu propósito, e só cabe ao espectador entrar na jornada ou não.

NOTA: 10

Maria Antonieta



Maria Antonieta é um filme de época bem feito, com figurinos caprichados, direção de arte cuidadosa e uma bela fotografia. Mas isso é o mínimo que um filme de época tem de ser, afinal de que adianta tanto esmero se o filme for uma merda, como é o caso deste terrível Maria Antonieta. Inacreditavelmente dirigido por Sofia Coppola (dos excelentes As Virgens Suicidas e Encontros e Desencontros), o filme é vazio, chato, arrastado e manipulador no pior dos sentidos.

Coppola tenta fazer da personagem histórica num símbolo do niilismo da juventude de hoje, mas consegue apenas fazer um filme niilista. Acompanhar a jornada de Maria Antonieta é tão interessante quanto acompanhar o dia de uma adolescente comum: o filme reflete o nada sobre o nada. E a atuação preguiçosa e embaraçosa de Kirsten Dunst só piora a jornada da moça, e o close na moça quando ela chora é digno de novela das seis.

A direção de Sofia Coppola também consegue ser terrível: na primeira cena de jantar, é impressionante como ouvimos vários diálogos sem jamais identificarmos quem está falando, tornando a cena deslocada e muito mal montada: se a idéia era mostrar a situação pelos olhos de Maria Antonieta, pior ainda já que a moça (no filme, repito) não parece ter muito na cabeça. Além disso, depois de quase uma hora de filme, é patético que o roteiro tente inserir algumas cenas de fundo político.

Contando com um ótimo elenco desperdiçado (como Steve Coogan, Danny Huston ou Mathieu Amalric, que pelo menos só tem uma fala), Maria Antonieta é um filme pretensioso no pior dos sentidos: seus anacronismos como o bale de gala ao som de B-52's ou o polêmico All Star que aparece em cena só conseguiram me lembrar do péssimo Coração de Cavaleiro com Heath Ledger. O filme tenta falar sobre futilidade, e vazio existencial: curiosamente, é justamente futil e vazio.

PS: Sofia Coppola perdeu a cabeça? Ok, piada sem graça...

NOTA: 0

Minhas Adoráveis Ex-Namoradas


Minhas Adoráveis Ex-Namoradas é uma baita surpresa para os fãs de comédias românticas. Descaradamente inspirada em "Um Conto de Natal", o filme é muito divertido e conta com um protagonista que só posso comparar ao Charlie de Two and a Half Men. Atuado com canastrice divertidíssima por Matthew McConaughey, Connor Mead é o rapaz que nunca consegue ter um relacionamento, e durante o casamento do irmão, enquanto ele deixa muito claro o quanto ele desaprova o ato, ele é visitado pelo fantasma do seu tio-ídolo Wayne (Michael Douglas) que avisa que Connor será visitado por três fantasmas: o das namoradas passadas, presentes e futuras.

Sim, o filme é bem óbvio, e até bobinho, mas o roteiro consegue criar situações engraçadíssimas, e até inusitadas. Outro ponto positivo do roteiro é jamais amenizar a cretinice do protagonista, deixando com que apenas aos poucos o personagem ganhe sua redenção, e melhor, que ganhe a torcida do espectador para sua redenção.

Dirigido por Mark Waters (do ótimo Meninas Malvadas e do péssimo Sexta-Feira Muito Louca), Minhas Adoráveis Ex-Namoradas aproveita bem o excelente elenco, principalmente Jennifer Garner, que desde Juno vem se transformando numa grande atriz. Mas o destaque fica para Michael Douglas, que transforma todas as suas cenas nas melhores do filme. Contando com um final previsível (e uma inusitada cena durante os créditos), Minhas Adoráveis Ex-Namoradas é um filme que mesmo que não vá mudar a vida de ninguém, é bem mais divertido que a maioria de filmes de seu gênero e merece uma conferida.

NOTA: 8,5

Invasores



Se há uma cagada que Hollywood já deveria ter aprendido a não cometer, é a de chamar um diretor para terminar o trabalho de outro. É fato, houve alguma vez em que isso deu certo? Que rendeu um bom filme? De cabeça, cito O Exorcista - O Início, Supernova e mais recentemente, o péssimo X-Men Origins: Wolverine. Esta mais recente adaptação do conto Os Invasores de Corpos foi dirigida pelo talentoso Oliver Hirschbiegel (de A Experiência e A Queda!), apenas para acabar nas mãos do mediano James McTeigue, cria dos Wachowski que dirigiu a irregular adaptação de V de Vingança, já que o filme que Hirschbiegel apresentou não foi de encontro as expectativas dos produtores (o atual mala, Joel Silver).

O principal problema de Invasores é a montagem (claro): há algumas elipses inexplicáveis que mostram ações acontecendo em meio a diálogos importantes, ou seja, tentam dar dinâmica a momentos mais calmos, com o resultado de desperdiçar boas cenas de ação em cenas que deveriam manter o clima de tensão. Ou seja, o bom (mas não excelente) trabalho de Oliver, é sabotado pelos esforços de McTeigue. E se há outro momento em que isso fique claro, é a cena em que Nicole Kidman bate o carro, e vários invasores começam a se unir em cima do veículo: a cena começa com um excelente plano plongé que mostra as pessoas se reunindo em cima do carro quase como formigas em cima de algum inseto morto, que é sabotado pela montagem, que corta a cena desnecessariamente.

Mesmo assim, Invasores é um filme bom e intrigante, que mesmo com uma vasta parcela de erros, consegue ser um filme interessante. As atuações de Nicole Kidman e Daniel Craig são boas o suficiente para manter nossa atenção, e querendo ou não, a alegoria do roteiro funciona bem aplicada a nossa realidade, algo que por si só cria várias cenas interessantes como o suicídio de um casal em meio a uma rua lotada, ou a criança perdida no meio do metrô. Além disso, há alguns momentos mais inspirados no filme que funcionam bem, como o primeiro contato de Kidman com um invasor que chega no meio da noite para fazer uma pesquisa, ou o diálogo dela com um personagem russo, que por mais que seja forçado até não poder mais para discutir um dos prinsipais temas do filme, deixa claro que a intenção de Invasores era boa. Pena que acabou caindo na cagada que citei no início.


NOTA: 6

Valente

 

Enquanto Valente passava, em vários momentos me lembrei de Marcas da Violência e Taxi Driver, o que pode ser o melhor elogio que posso fazer a obra, mas não pára por aí. Conseguindo se destacar em um gênero que, na falta de melhores palavras, já encheu o saco (filme de vingança), Valente apresenta idéias ousadas e um final a altua, que mesmo se resolvendo de forma simplista, com certeza vai deixar os moralistas com a pulga atrás da orelha.

Jodie Foster interpreta Erica Bain, uma radialista que é brutalmente espancada por uma gangue que mata seu namorado, Sayid de Lost. Depois de se recuperar em casa, Erica enfrenta o medo de sair de casa e acaba virando o que Charles Bronson foi em Desejo de Matar. E essa comparação certamente é a que mais me irrita: há algo de curioso em uma mulher se tornar uma sociopata, e a série Desejo de Matar com certeza não aborda metade das complexas questões apresentadas em Valente. Sim, Tarantino fez isso em Kill Bill também, mas como sabemos, Tarantino não tem absolutamente nada a dizer, ao contrário de Neil Jordan, um cineasta incapaz de realizar uma obra sem várias idéias e que cria várias cenas impactantes, como de costume (o assassinato com o pé-de-cabra me vêm a mente).

É curioso como logo depois de começar a matar, a personagem de Erica não sinta qualquer arrependimento: aliás, ela reage de forma absolutamente interessante, e o diálogo que ela tem com uma vizinha logo após um homícidio mostra a estranha paz de espírito que a personagem encontra em sua sanguinária vingança, e seria injustiça não comentar sobre a extraordinária atuação de Jodie Foster em uma de suas melhores atuações.

Infelizmente, o roteiro aborda questões como essa sem fundamentar muitas coisas: por exemplo, porque Erica resolve comprar uma arma? Sim, o seu pânico de sair de casa e sua raiva diante da indiferença da polícia são sentidos pela platéia, mas nada justifica o fato de ela sair comprar uma arma logo em seguida. E o que dizer da ligação forçada que o roteiro estabelece entre ela e o policial Mercer (interpretado pelo sempre competente Terrence Howard)? Por mais que a ligação entre os personagens crie cenas marcantes (como o ótimo diálogo filmado num longo plano-sequência), é fato que essa ligação é artificial, e quanto mais revelações surgem entre os dois, mais essa artificialidade se revela.

Contando ainda com o já mencionado final ousado, Valente é um filme de muitas idéias, algo recorrente na filmografia de Neil Jordan, mas é também um filme de estúdio que tem de ser entretenimento acima de tudo, algo no qual é bem-sucedido, já que a montagem garante um bom ritmo, mesmo que o filme seja um pouco longo, e com um roteiro um pouco melhor, poderia ser mais uma obra-prima deste grande diretor.


NOTA: 8

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