Halloween - O Início



Tudo o que as novas versões de Sexta-Feira 13 e O Massacre da Serra Elétrica deveriam ser, é o que Halloween - O Início é. Um filme de terror sem firulas, violentíssimo, sem sustos bestas com uma trilha sonora aguda pra ajudar. Aliás, é um dos filmes de terror mais Badass dos últimos tempos, junto com Wolf Creek e Abismo do Medo.


Rob Zombie já havia mostrado uma evolução como diretor impressionante no surpreendente Rejeitados pelo Diabo, neste filme, ele mostra conhecimento invejável de como fazer uma obra aterrorizante fugindo dos clichês. Utilizando uma abertura arrasadora com cenas do assassino Michael Myers na infância, Halloween durante sua primeira hora é genial. Sem qualquer medo de parecer certinho demais (como os outros exemplos que citei), o filme mostra Myers quando criança esfaqueando, cortando gargantas e esmagando crânios com taco de baseball. Em seguida, a longa sequência que mostra Myers no manicômio é exemplar, utilizando de longas pausas dramáticas e um crescendo desesperador (e a fuga de Myers do manicômio é o melhor momento do filme).

Porém, por mais que eu admire a maneira como Rob Zombie conduz a narrativa, evitando flashbacks ou qualquer outro recurso, não posso deixar de observar que logo após a primeira hora, quando apresenta uma determinada personagem, a filme acaba dando uma freiada um pouco brusca, e demora para voltar ao ritmo normal, algo que deve ter desagradado muita gente. O elenco do filme está bem (a grande maioria de Rejeitados pelo Diabo, incluindo Willian Forsythe, hilário), com um destaque para Malcolm McDowell já que é sempre um alívio vê-lo num filme bom.

Halloween - O Início não é perfeito, como eu disse, mas é o melhor do gênero lançado no ano (aqui no Brasil). E Alejandro Aja e Marcus Nispel deveriam aprender com o titio Zombie algumas lições importantes, aliás: podia deixar o Rob Zombie comandar todos esses remakes de monstros modernos. Alguém aí se incomodaria?

NOTA: 8,5

Um Crime Americano



Se reclamei do diálogo piegas de Quem Quer Ser um Milionário? já considerando-o o pior do ano, eis que chega Um Crime Americano com a seguinte cena: durante o julgamento para condenar uma mulher que torturou fisicamente uma adolescente por dois meses, perguntam a irmã da adolescente se "ela chorava". Sim, perguntaram se uma garota que era espancada e queimada chorava. Mas o melhor é a resposta: "Ela nunca chorava, mas acho que era porque ela não tinha lágrimas o suficiente". Sério, é assim mesmo.

Um Crime Americano é um filme sem-vergonha de tão ruim, ainda mais se considerarmos que ele se baseia numa história real assustadora que aconteceu nos Estados Unidos em 1965. E a única coisa boa que ele teria, é apresentá-la a quem não conhece, mas nem isso o filme faz direito. Inexplicavelmente, o diretor Tommy O'Haver suaviza os terríveis white trashes, que dão início a uma injustificada e longa sessão de tortura a Sylvia Likens (dar complexidade a personagens é uma coisa; torná-los coitadinhos sendo que foram uns filhos da puta é outra). Com uma fotografia terrível (deve ter sido alguém da Globo) e desperdiçando o talento de Catherine Keener, Ellen Page e James Franco, Um Crime Americano é fácil, fácil um dos piores do ano.


NOTA: 0

O Visitante



 O Visitante é uma aula completa de cinema, e eu não tenho muito mais o que dizer fora isso. É um filme simples, completo, contado de maneira tão envolvente, com tanto amor pelos seus personagens, o roteiro diz tanto com tão pouco: características que o colocam lado-a-lado com o meu filme favorito do ano até aqui, O Lutador.

Escrito e dirigido por Thomas McCarthy, conta a história de Walter, um professor solitário e viúvo que ao viajar para Nova York, onde ele tem um apartamente, descobre que um casal de jovens está morando ali, pagando aluguel a um tal de Ivan. Walter decide deixar os dois morarem ali até encontrarem outro lugar, e cria uma grande amizade com Tarek, um jovem que o ensina a tocar tambor sírio.

O roteiro é cuidadosamente escrito, o diretor deixa que as ações, os olhares e as imagens digam muito mais do que palavras: é curioso como através de duas cenas e pouquíssimos diálogos, toda a situação que eu contei no parágrafo anterior já se concretiza, com calma, agilidade e muito talento.

E falar de talento, é falar de Richard Jenkins, que transforma Walter em um dos personagens mais amáveis a aparecer num filme em muito tempo. Atuando de maneira sutil, os pequenos tiques humorísticos que o ator dá ao personagem (como a desajeitada balançada de cabeça ao ouvir os tambores) acabam não apenas tornando-o mais rico e "comum", como também contribuem para que conforme a narrativa se torne mais séria, Walter acabe se tornando uma figura extremamente trágica (e é preciso elogiar mais uma vez no roteiro, que deixa algumas revelações sobre a história do personagem até o último minuto na manga).

O Visitante toca numa ferida que anda sendo bastante cutucada no cinema norte-americano: os problemas de imigração nos Estados Unidos. Se Rio Congelado foi também (um pouco menos) bem sucedido ao utilizar um drama interessante expondo isso como pano de fundo e Território Restrito acertou na abordagem para errar no roteiro, é curioso como O Visitante consegue deixar manter isso no pano de fundo, mas deixando uma opinião de forte personalidade. Basta ao filme mostrar as irônicas pinturas na parede do Centro de Detenção de Imigrantes, mostrar o péssimo atendimento aos visitantes e pouco mais que isso para que o diretor deixe muito clara a sua reprovação pelo estado desumano com que os imigrantes são tratados ali.

E isso é o que o cinema sempre deveria fazer, embora seja meio óbvio, é algo curiosamente fácil de esquecer; mas vai ser bem difícil agora depois dessa obra-prima.

NOTA: 10

Asas do Desejo






Cidade dos Anjos não é um filme ruim, mas empalidece feio diante do original, este Asas do Desejo do talentoso Win Wenders. Romântico e poético como poucos, é um filme sempre lembrado e faz por merecer. É tão raro assistir a uma obra sensível, tão bem escrita e tecnicamente tão brilhante. O problema da refilmagem com Nicolas Cage foi o excesso de água-com-açúcar, de tentar transformar um drama doloroso em algo simples, pastiche.

Não que Asas do Desejo não seja dramaticamente forte, mas o foco é outro. A obra de Wenders fala sobre o vazio espiritual em que a sociedade (ainda) passa. O primeiro ato estabelece uma marca genial: conforme vemos os personagens, podemos ouvir seus pensamentos assim como os anjos, que por essa limitação só podem desejar o "sentir". A cena em que vemos vários figurantes alemães de uma produção sobre a segunda guerra mundial vestidos de judeus enquanto ouvimos seus pensamentos é uma das mais belas de todos os tempos. Outro destaque é o suicídio de um certo personagem que começa como uma brincadeira visual, mas acaba também estabalecendo a passividade das possibilidades de ação dos anjos perante a humanidade.

Bruno Ganz, um ator extraordinário transforma o seu anjo num personagem tocante, cuja presença em tela garante serenidade: exibindo enorme sensibilidade, as cenas em que observa sua musa em meio a crianças (que podem enxergar os anjos) são lindas.

Asas do Desejo é um filme extraordinário, cujo único defeito é o excesso de diálogos no grande clímax: as performances e toda a situação construída conseguiu ser muito mais bonita e poética do que o que é dito, e não deixa de ser uma pena que o diretor não tenha visto dessa maneira. Mas nem esse contraponto   me deixa gostar menos dessa marcante obra.

NOTA: 10

Os Donos da Noite







James Gray é um dos grandes diretores subestimados dos dias de hoje. Depois do ótimo e pouco visto Caminho Sem Volta, ele realizou este Os Donos da Noite que lida com temas bem parecidos: família e violência. Esta obra também tem os mesmos problemas da anterior, que é algumas falhas na narrativa em que o filme parece ficar parado por tempo demais no meio da história e, principalmente o final abrupto demais.

Mesmo assim, Os Donos da Noite é um filme exemplar. Contando a típica história do cidadão dividido entre dois mundos conflitantes (no caso, um filho de policiais envolvido na máfia russa), o roteiro consegue surpreender de maneira sempre positiva como lida de forma econômica e inteligente com seus personagens em meio as situações. Vale dizer que Joaquin Phoenix e Mark Wahlberg, dois ótimos atores surpreendem e encontram suas melhores atuações em muito tempo, especialmente o segundo, que transforma seu personagem no terceiro ato no mais dramático da história.

A direção de Gray é intrigante e de forte personalidade: basta observar a maneira como ele contrasta as duas cerimônias no início do filme, na boate e em seguida na condecoração da polícia para observar que o diretor sabe muito bem o que está fazendo. Fora isso, ele cria uma perseguição de carros memorável, numa cena impactante.

Os Donos da Noite pode não parecer tudo isso no início, mas é um destes filmes que segue num "crescendo" forte e quase insuportável, e mesmo que no final force um pouco a barra para resolver a trama, ainda assim é uma pequena aula de cinema que passou meio despercebida.

NOTA: 8,5

Antes de Partir







Uma comédia dramática, bem engraçada e melancólica que fala sobre a velhice, sobre o nosso olhar perante nossa mortalidade. Pena que Rob Reiner esteja mais interessado em fazer gracinhas e ser preguiçoso o bastante para apenas utilizar do carisma dos protagonistas para fazer o filme funcionar, já que como um todo, Antes de Partir é um filme capenga, mal desenvolvido.

Felizmente para Reiner, seus protagonistas são dois dos melhores atores de todos os tempos, e assistir a Jack Nicholson e Morgan Freeman juntos é o bastante para recomendar o filme, meso que seus personagens sejam espécies de brincadeiras com as personas cinematográficas dos dois: Freeman é o personagem sábio que sabe muito e narra o filme, enquanto Nicholson é o impulsivo e divertido. Aliás o próprio Nicholson já havia protagonizado um filme sobre o mesmo assunto e infinitamente superior, o magnífico As Confissões de Schmidt.

Antes de Partir começa de maneira interessante, apenas para despencar durante a viagem dos personagens quando a montagem inexplicavelmente se torna episódica e arrastada. Tanto que até o seu fim, o filme só se mantém interessante porque os atores são extraordinários e conseguem dar o seu show: caso fossem quaisquer outros atores, seria uma obra esquecível.

NOTA: 4

Uma Verdade Inconveniente






É um documentário assustador, e muito interessante sobre o aquecimento global. É curioso como Al Gore consegu conduzir todo o documentário sem grandes dificuldades, usando de seu carisma natural e demonstrando um grande conhecimento do assunto. Uma Verdade Inconveniente aliás, parece ser uma obra a parte de outros documentários: assistí-lo é praticamente um dever, e procurar por falhas na narrativa ou na montagem (que, sim, existem aos montes) ou até mesmo por falhas no caráter de seu protagonista parece um exercício fútil. É um filme para ser assistido, discutido e nos lembrar do papel que temos como indivíduos para com o planeta.

NOTA: 9

Nem Por Cima do Meu Cadáver




Comédia romântica bacana, que mesmo dentro de todos os clichês imagináveis, é criativa e divertida o suficiente para merecer uma recomendação. Contando a história da mulher que ao morrer no dia do seu casamento, resolve impedir o romance de seu marido com uma nova mulher, que é uma vidente, começa a assombrá-la.

As melhores piadas do filme vem desses momentos inclusive, e mesmo que o fato de a trama se passar num mundo fantástico abra caminho para várias situações que poderiam ser muito mais inusitadas que as apresentadas no longa, confesso que admirei como as gags funcionavam, principalmente talvez pela ótima química entre Eva Longoria Park e Lake Bell. E o elenco masculino não fica atras: demonstrando um talento sempre extraordinário, Paul Rudd é um desses raros atores que parecem deixar um filme melhor simplesmente por sua presença, e até o malinha Jason Biggs acaba brilhando, principalmente no terceiro ato.

Mesmo sendo uma comédia romântica sem muitas novidades, Nem Por Cima do Meu Cadáver é um filme interessante e divertido, e se tivesse um capricho melhor no roteiro e na escolha da trilha sonora (que é péssima), poderia até se tornar em uma obra memorável.

NOTA: 7,5

Trama Internacional





É um filme de ação decente, algo muito menos do que eu esperava de uma obra dirigida por Tom Tykwer, com Clive Owen e Naomi Watts e que lida com um tema extremamente atual: o envolvimento de grandes empresas em esquemas criminosos, golpes de estado e terrorismo, fazendo com que bancos se tornem intermediários em meio a grandes mudanças no mundo. Se por um lado, admiro a maneira direta e honesta com que Trama Intenacional se envolve no assunto, não posso deixar de lamentar que o filme não seja nada realmente memorável.

Empregando uma direção "hitchockiana" ao filme, Tykwer se mostra seguro na condução da narrativa, aproveitando bem as várias locações em que o filme se passa, mas o calcanhar de Aquiles mesmo é o roteiro: Mesmo criando sua história com eficiência e uma dose de mistérios intrigantes, há um certo exagero na composição dos personagens que atrapalha tudo: Louis Salinger é um personagem absurdo, desumano e só soa verossímil porque Clive Owen atua com a competência de sempre. E Eleanor, interpretada por Naomi Watts é muito mal construída, e as tentativas do filme de criarem o drama da personagem através de pequenos trechos com o filho e o marido soam patéticas.

Trama Internacional ao menos tem um grande trunfo na manga: o tiroteio no museu Guggenheim é extraordinário, uma cena de ação rápida, violenta e realista como poucas. Pena que de resto, por mais interessante que seja o seu final pessimista, no final das contas é uma obra meio vazia emocionalmente, e seu final não funciona por isso.

NOTA: 7

Anticristo





Tudo em Anticristo nos remete aos mais terríveis sentimentos possíveis: reparem como até mesmo as pinturas que mostram o título dos capítulos parecem rabiscados com traços carregados de ódio. Lars Von Trier criou o filme durante uma longa depressão, e quem assistiu Dançando no Escuro ou Dogville sabe do que o diretor é capaz quando está feliz...

O filme narra a história de um casal atravessando o longo e doloroso processo de luto pela morte acidental de seu filho. Enquanto a mulher atravessa o luto com indícios cada vez maiores de insanidade, seu marido tenta confortá-la usando seu dom, a psicologia. Para ajudá-la, o marido resolve levá-la a uma casa em meio a uma floresta chamada Éden, que sua mulher diz ser o lugar que mais a apavora.

Anticristo parte de um princípio básico distorcido: ao contrário das visões sonhadoras em que a floresta, a natureza é um lugar quase sagrado, Von Trier a compara com a natureza humana. Ele não enxerga o belo, o etéreo, enxerga o canibalismo, a lei do mais forte, a devastação. Lembra a visão de Werner Herzog em O Homem-Urso, só que de maneira ainda mais subversiva. Enquanto brinca com esse conceito, Von Trier também subverte o gênero no qual o filme se insere: o terror. Usando o primeiro ato para nos ligar emocionalmente com seus personagens de maneira praticamente devastadora, o diretor aos poucos usa de imagens gráficas e perturbadoras e de sons assustadores para criar o clima infernal do filme. A sensação maléfica do filme lembra O Bebê de Rosemary de Polanski.

Mas, nada em Anticristo funcionaria sem o seu elenco. E Charlotte Gainsbourg, que ganhou um prêmio em Cannes por sua interpretação está brilhante, criando uma personagem complexa e pela qual é difícil não sentir compaixão. Fisicamente, a maneira como a atriz expressa a dor da personagem (em todos os sentidos) é impressionante. E Willen Dafoe não fica para trás. Sua interpretação é muito mais sutil do que o ator costuma fazer, criando um vínculo curioso com a de Gainbourg: é curioso que a química dos dois nos faça acreditar que eles realmente se amam, mesmo quando trocam as mais pesadas acusações.

Com um final violentíssimo e apocalíptico, eu diria, Anticristo é um filme difícil de assistir, violento de todas as maneiras que pode ser e extremamente perturbador. Mas é uma obra de arte impossível de ignorar, seja no bom ou no mal sentido.

NOTA: 10

Transformers - A Vingança dos Derrotados



Em uma cena de Transformers - A Vingança dos Derrotados, um dos Decepticons consegue fazer uma transmissão para todos no planeta Terra para mostrar que robôs gigantes existem. Ao falar a frase "Seus líderes mentiram para vocês", rapidamente aparecem alguns frames de Barack Obama.

Dito isso, vamos por partes: Depois de toda a destruição causada no primeiro filme, e em meio a uma área urbana, no mínimo é um baita esforço acreditar que os robôs gigantes tenham sido encobertos pelo governo e pela mídia. Mas enfim, é um filme de Michael Bay, um white trash que se deu bem no cinema, e é compreensível que exista essa retardadice.

Agora, a partir do momento em que Bay através de sua obra esdrúxula ataca o novo presidente dos EUA, acusando-o de covardia em diversos pontos do filme, ao mesmo tempo em que cria dois robôs gêmeos, claros estereótipos de afro-americanos é que este novo Transformers deixa de ser um filme simplesmente ruim, para se tornar desprezível e nojento. Racista, e extremamente preconceituoso com a cultura de outros países.

Com um roteiro mais cheio de furos que uma peneira, tenho plena certeza de que os envolvidos no filme só viram a merda que fizeram depois de verem ele pronto. Assim, tentaram acelerar todo o primeiro ato para que pudéssemos engolir a história safada e ridícula (que inclui Transformers das cavernas (!)), o que resultou numa das piores montagens dos últimos tempos. Michael Bay, que já não sabe criar uma mise en cene, mostra que pode sim ser um diretor muito pior: reparem na marcação de cena de quando o personagem de Shia LaBeouf está saindo de casa e Aparelhos domésticos viram mini-Decepticons. Além disso, a "criatividade" dos criadores do robô com testículos e o outro que bolina Megan Fox como um cachorrinho dão idéia das "mentes" brilhantes envolvidas.

E por falar em Shia LaBeouf, o carisma do ator não consegue salvar o filme dessa vez, e nem a gostosura de Megan Fox: todas as atuações no filme estão risíveis, medíocres, com a pequena exceção de John Turturro que consegue despertar algumas risadas, mesmo através de uma atuação forçada e carregada demais.

Transformers - A Vingança dos Derrotados faz de tudo para ser um verdadeiro épico, mas o máximo que conseguiu foi ser um dos piores filmes dos últimos anos, já que nem entretenimento ele foi capaz de ser.

NOTA: 0

Longe do Paraíso




Um drama com uma história excelente, não precisa de nem 10 minutos para prender a atenção do espectador. Lida com temas delicados de maneira sensível, como homossexualismo e racismo (inclusive dentro da comunidade negra). É o pano de fundo que faz a diferença. A história se passa na mesma América respirando e vivendo a paranóia do escroto senador McCarthy, onde qualquer um poderia ser visto como comunista e logo viver uma eterna humilhação.

Julianne Moore e Dennis Quaid vivem o casal que começa a entrar em crise depois que ela descobre que o marido é homossexual. A partir disso, fazem de tudo para "curar essa doença". Ela, sem saber em quem confiar para conversar sobre isso, acaba encontrando conforto no filho de seu falecido jardineiro, um negro, e claro que essa relação logo é vista com outros olhos pelas pessoas ao redor.

O diretor Todd Haynes fez uma curiosa escolha estética de fazer com que Longe do Paraíso parecesse de todas as formas um filme de época que está retratando: desde as fontes dos créditos até as cores e iluminação, o que é um acerto, de uma forma. O porém é que depois de um tempo, isso acaba soando como cinismo, principalmente a trilha sonora, e se o filme tem um defeito é esse: depois de um tempo, a visão do diretor chega a parecer arrogante diante da história.

Mas o melhor de Longe do Paraíso talvez passe despercebido pela maioria dos espectadores: a conclusão de que apesar de todos os problemas sociais e políticos da época, o grupo social mais reprimido eram as mulheres. E poucas vezes, o título de um filme passou tão bem sua mensagem.

NOTA: 8,5

Confissões de uma Mente Perigosa




Junto com Não Estou Lá, é uma das cine-biografias mais interessantes e criativas dos últimos anos. Baseado na autobiografia não-autorizada de Chuck Barris (!), conta a história do criador do Gong Show, Namoro na TV e afins com uma curiosidade: no livro ele alegou que enquanto trabalhava na TV, também era um agente secreto da CIA.

O excelente roteiro de Charlie Kaufman brinca o tempo todo com a questão da realidade/ficção durante a obra, e George Clooney, surpreendendo a todos em sua estréia na direção, demonstra inteligência e humor ao retratar a história de Barris, incluindo alguns depoimentos que se encaixam perfeitamente na curiosa lógica do filme.

Encarnando Chuck Barris com verdadeiro amor ao personagem, Sam Rockwell dá uma aula de atuação, e mostra que mesmo com seu currículo pequeno (na época) já conseguia dar conta de levar um filme nas costas. Drew Barrymore e o próprio Clooney também surpreendem, enquanto Julia Roberts entra como o claro ponto fraco do elenco, que ainda conta com uma participação inspiradíssima de Rutger Hauer.

Confissões de uma Mente Perigosa conta com uma parcela de erros pontuais, como um excesso visual frequente, ou algumas cenas que não conseguem manter o ritmo pontual da narrativa (erros devidamente corrigidos no genial Boa Noite, Boa Sorte), mas George Clooney acerta e bem na cadeira de diretor, e só a cena em que Barris tem um surto de paranóia no meio do Gong Show e a idéia de programa para TV que Barris revela no final já valem o filme.

NOTA: 9

Motoqueiro Fantasma


 
Seguindo a lógica do "tem gente que não aprende", assim mesmo é impressionante que a Marvel tenha permitido que Mark Steven Johnson dirigisse outro filme de um herói da casa. Afinal, mesmo não sendo um filme completamente ruim, Demolidor - O Homem Sem Medo foi massacrado pelo público do herói. Motoqueiro Fantasma é bem pior que Demolidor, diga-se de passagem: se no filme com Ben Affleck ainda haviam rastros de criatividade e algumas boas cenas e atuações, neste o humor involuntário faz de si um desastre.

É decepcionante que Peter Fonda faça o Diabo mais bunda-mole da história do cinema. Wes Bentley e Eva Mendes, dois bons atores parecem estar atuando em algum episódio de Ugly Betty. O que nos leva diretamente a Nicolas Cage: mesmo atuando de maneira exagerada e divertida, ele é o único ponto positivo do filme. A cena da transformação dele no esqueleto com fogo só é crível pela expressão de terror e dor exagerados do ator. E a maneira despretensiosa e divertida com que o ator assume o papel fazem da história algo menos insuportável.

Já a direção de Mark Steven Johnson é no mínimo inusitada: seja botando um detalhe de um mugido num diálogo romântico, ou closes forçados e risíveis nas cenas de luta, o diretor consegue boicotar um roteiro já péssimo de tal maneira que Motoqueiro Fantasma parece mais com as típicas paródias de filmes de ação do que uma obra séria. E com todas as contradições possíveis e imagináveis, essa também é uma das poucas qualidades do filme.


NOTA: 4

Fargo




Só gosta de Fargo quem gosta de humor negro, e isso é fato. A graça do filme não está em piadas fáceis ou gags visuais comuns: está no sotaque (ya), nos diálogos construídos quase musicalmente e nos absurdos da narrativa. É um filme raro, incomum, difícil até de recomendar. Mas é também o grande trabalho dos irmãos Coen. Tem o visual e o aspecto de um faroeste no meio do gelo (repare na trilha sonora na abertura), e se torna um estudo de personagens divertidíssimo em meio a uma trama complexa que termina de maneira absurdamente simples.

Grande parte do que o filme tem de melhor está na personagem Marge, interpretada com estilo pela talentosíssima Frances McDormand. A policial grávida e inteligente tem uma doçura que transforma sua presença em tela num constante incômodo: não há como não temer pelo seu envolvimento numa trama tão violenta, que inclusive, contém um dos homícidios mais bizarros da história (quem viu, já sabe).

Mas o resto do elenco também dá um show particular: dos losers vividos com extremo talento por Willian H. Macy e Steve Buscemi, ao ameaçador personagem de Peter Stormare, todos encontram uma sintonia única, transformando Fargo também num filme brilhante no quesito direção de atores.

Os irmãos Coen assinam seu filme com a criatividade já conhecida e uma frieza constante: são raros os momentos em que os diretores parecem enxergar com alguma bondade os seus personagens (com excessão de Marge). Além disso, os enquadramentos bem compostos são outro grande destaque da obra, que também tem um dos plano/contra-plano mais divertidos do cinema (quando Marge interroga duas garotas e seu olhar fica perdido entre elas).

Mesmo assim, volto a avisar: não é um filme para todos, e nem por questão de elitismo. Entendo perfeitamente quem não gosta de Fargo, mas me sinto no dever de mostrar o quanto gosto do filme.

NOTA: 10

Monstros vs. Alienígenas


 
É uma animação bacana que faz uma inusitada homenagem aos filmes de ficção científica dos anos 50, 60 e afins. Mas o que mais chama a atenção é o brilhante elenco de vozes do filme, que se mostra perfeito: de Hugh Laurie a Seth Rogen, passando por Reese Whiterspoon a Stephen Colbert, o trabalho de dublagem é impecável. Quanto ao filme em si, ele é bem feito, mesmo que não apresente nenhuma grande novidade e peque um pouco no design não muito criativo dos personagens.

O bacana mesmo é que Monstros vs. Alienígenas se mostra muito engraçado, com seus personagens bem construídos (mesmo que de maneira muito rápida) e suas citações inusitadas (palmas para a brilhante citação ao documentário Uma Verdade Inconveniente). As piadas fluem bem e até disfarçam bem alguns furos do roteiro (que não são poucos).

A única coisa que lamento é que em meio a tantos personagens bacanas (B.O.B. e o Doutor Barata são fantásticos) o filme acabe se interessando mais por Susan, a mais chatinha da história, mesmo que no final das contas o filme se resolva bem assim, não deixei de lamentar de ter passado tanto tempo de uma personagem normalzinha que estava em meio a outros bem mais divertidos.

NOTA: 7,5

Quase Irmãos




É um filme bobinho, beira a idiotice completa, mas é muito engraçado e o resultado geral é bem positivo. Dirigido por Adam McKay, que também realizou o ótimo Ricky Bobby que também contava com a ótima dupla formada por Will Ferrell e John C. Reilly, Quase Irmãos lembra muito o nonsense de Escorregando Para a Glória, e também a ótima montagem, que ajuda com que a história se desenvolva bem em meio a tanta babaquice.

Quase Irmãos tem excelentes piadas e já é um sucesso desde a foto de seu cartaz, com os dois atores. Com um dos clímax mais inusitados e divertidos dos últimos tempos, conta a história de seus personagens, dois quarentões que não saíram da casa dos pais (algo bem comum, aqui onde eu moro... hum hum...). Ferrell e Reilly fazem o filme funcionar com suas atuações inusitadas, chegando ao limite dos adultos-que-não-cresceram. Mas talvez o mais bacana do filme seja o fato de que por trás de todas as cenas... bem... muito erradas da cabeça (como os personagens se pegando na porrada com crianças ou o desfecho da cena de sexo no banheiro) se encontre um filme com uma moral bonitinha.

Mesmo não sendo nenhuma obra-prima, já que nem chega a se destacar em meio ao monte de comédias excelentes que tem saído ultimamente, Quase Irmãos é engraçado e divertido o suficiente para ser uma boa recomendação.

NOTA: 8

Stalker



Stalker é o terceiro filme que assisto do gênio Andrei Tarkovsky. Se já chamo o cineasta de gênio sendo que assisti apenas a O Espelho e Solaris, não chamo a toa: seus filmes são impressionantes, de uma capacidade incrível de se comunicar com o público, algo quase hipnotizante. Stalker foi um de seus últimos filmes, e é o melhor filme do cineasta que já vi.

E me encontro nessa situação: o que dizer diante de uma obra-prima dessa magnitude? Sério, eu nunca escrevi sobre os meus filmes favoritos (Taxi Driver, Apocalypse Now e Fellini 8 e Meio), e se já estou colocando Stalker no mesmo nível deles, acho que vocês podem ter uma noção do quanto amei esta obra.

Mas enfim, tentarei: Depois que um meteorito caiu numa parte do nosso planeta, estranhos acontecimentos começam a ocorrer no local da queda. O governo então decide cercar o local com policiais, para que ninguém entre lá. Os únicos capazes de entrar são os Stalkers, que frequentemente levam visitantes para dentro da "Zona" (como eles chamam). Lá aparentemente há um Quarto onde qualquer desejo mais íntimo será realizado. Acompanhamos a visita de um escritor e um cientista junto com um Stalker para dentro da "Zona".

Utilizando o primeiro ato de maneira brilhante, Tarkovsky brinca com a realidade de seu filme desde o primeiro (e genial) movimento de câmera (no qual ela se adentra a uma fresta da porta), e até mesmo com o uso de cores (mesmo o "P&B" do filme, lembra mais sépia). Retratando seus personagens de início como alegorias, aos poucos eles se desenvolvem de maneira trágica e melancólica, algo que culmina num dos clímax mais tristes de uma ficção científica.

Mas o melhor exemplo do talento de Tarkovsky seja como ele retrata a "Zona": se inicialmente nos decepcionamos (junto com os personagens) com o aspecto do local, aos poucos o cineasta através de uma edição de som brilhante e uma direção de arte sutil, transforma toda a geografia do local num lugar assustador e sufocante, algo no mínimo inusitado, considerando que o filme conta em sua grande maioria com longos planos abertos. E quando começamos a acompanhar a jornada dos personagens perto do "Quarto", a cena do túnel no qual um personagem anda na frente dos outros tem um dos movimentos de câmera mais belos que eu já vi (e a pequena brincadeira na montagem dessa cena, quando um dos personagens tropeça é prova de o quanto a obra nos envolveu naquele ponto).

Concluindo, Stalker é um filme exemplar, de uma complexidade ímpar e que, literalmente, nos surpreende até o último minuto. Sua temática é complexa e extensa demais para discutir num blog simples como esse, mas é de deixar qualquer um que o assista quase louco para discutir sobre a obra. Stalker é uma obra-prima da ficção científica. Blade Runner can kiss my ass.

NOTA: 10

Ano Um



A crítica falou muito mal, e até mesmo o público parece ter se decepcionado bastante com este Ano Um, que é um primo pobre de A História do Mundo de Mel Brooks e A Vida de Brian de Terry Jones. Eu gostei, ri muito das piadas (mesmo as que envolviam escatologias bizarríssimas), achei que o filme misturou bem humor negro com o humor besteirol alá Judd Apatow.

Além disso, fazia tempo que eu não achava Jack Black tão engraçado, e sua química com Michael Cera é o que o filme tem de melhor. Aliás, o elenco de Ano Um é de dar inveja a qualquer produtor: Vinnie Jones, Paul Rudd, Olivia Wilde, Hank Azaria e até o grande e eterno McLovin,  Cristopher Mintz-Plasse. O diretor Harold Ramis acerta na direção do elenco, mas erra na condução da narrativa. A montagem é cheia de furos bestinhas, e o filme tem uma estrutura esquemática e episódica que atrapalham muito a história.

Além disso, é uma pena que no final das contas, o filme se revele menos atrevido do que parecia: se de início é empolgante pensar que os personagens estão atravessando boa parte do Velho Testamento na Bíblia, é lamentável que a trama pare de se desenvolver quando eles chegam em Sodoma. De qualquer maneira, como eu avisei antes, eu ri muito, se decidir assistir e acabar não gostando, por favor, não me culpe.

NOTA: 7

17 Outra Vez



 É um filmeco, desses de sessão da tarde e que usa uma fórmula bem desgastada (mesmo que brinque com isso). Só não é um completo desastre porque Thomas Lennon dá um show de interpretação, assim como os coadjuvantes Matthew Perry e Leslie Mann. Já o Zak School Musical se sai bem só quando imita os tiques de interpretação de Perry, pois de resto ele passa uma vergonha danada.

Os 10 primeiros minutos do filme são terríveis, cheios de piadas ruins e uma ceninha de dança de dar vergonha alheia das brabas, mas mesmo assim depois disso, o filme se torna assistível. Mesmo que nada de seus elementos fantásticos soem... bem... sequer fantásticos, é um bom filme pra ver quando  você liga a TV e não tem nada mais passando. Só lamento o fato de ter pagado para assistí-lo.

NOTA: 5

Appaloosa - Cidade Sem Lei



Apesar do grande elenco e da direção de Ed Harris, é um faroeste um pouco meia boca, com uma história que no final das contas acaba não sendo tão interessante. O que Appaloosa tem de bom é a direção de atores, a inteligência dos diálogos. Ed Harris e Viggo Mortensen tem uma química inacreditável; com um olhar, trocam informações complexas e contam a história de uma vida inteira. Por outro lado, é difícil entender o que ambos enxergam na personagem de Renée Zellweger, ou melhor, não é difícil: naquele tempo, ainda não existia botóx, algo que a cara da atriz não esconde nem fodendo.

Appaloosa tamém surpreende pela rapidez com que os conflitos são resolvidos, garantindo assim uma quantidade bastante significativa de história, o que não deixa também de ser um problema: depois de tanto tempo investido nos personagens, não deixa de ser broxante que o desfecho seja tão simplorio e apático.

De qualquer maneira, Appaloosa é um filme bem fotografado, bem atuado, bem superior a média, mas que decepciona pois os nomes envolvidos prometem muito mais.

NOTA: 7

O Segurança Fora de Controle


 
Numa cena de O Segurança Fora de Controle, um personagem fica escondido para ver uma cena que ele acha que será hilária. Antes da cena acabar, ele sai lamentando - "Eu achei que ia ser engraçado... mas é meio triste na verdade". Curiosamente, essa é a melhor descrição para o filme, que, sim, é exatamente a comédia besteirol que o trailer prometia, mas que tem uma dramaticidade que chega a ser surpreendente e, pasmém, acabei lamentando o fato de o filme não tentar se levar tão a sério.

Seth Rogen está ótimo como Ronnie, o segurança do shopping local que sofre de transtorno bi-polar e tenta fazer ao máximo para poder usar da violência, o grande escape de suas frustrações. A escalação de Ray Liotta e Michael Peña foram outros dois grandes acertos, e o único tropeço no elenco acaba sendo Anna Farris, que parece não ter lido direito o roteiro. O diretor Jody Hill também faz um trabalho surpreendente, com enquadramentos bem compostos e cenas marcantes, como o inusitado plano-sequência no início.

Mas o melhor do filme é seu personagem principal, o eterno perdedor Ronnie, e o roteiro usa de muitas referências para definí-lo: a mais óbvia é a narração em off claramente inspirada em Taxi Driver; por outro lado, seus delírios me lembraram muito o protagonista do ótimo Psicopata Americano. E basta ver o nome dos dois filmes citados para ver o tamanho da encrenca que é o protagonista. Utilizando a mesma técnica narrativa de filmes como Taxi Driver e Tropa de Elite, em que vemos o ponto-de-vista de personagens violentos e perturbados (o que é sempre corajoso e mal-interpretado), O Segurança Fora de Controle é um filme que realmente merece ser visto, tanto pelo curioso estudo de personagem que ele faz quanto pelo lado... Joselito, dele, digamos, afinal, não esqueçam: é uma comédia. E das mais dementes.

NOTA: 8,5

Nosferatu - O Vampiro da Noite



 Uma homenagem curiosa do grande Werner Herzog para um dos maiores clássicos do Expressionismo Alemão. Infelizmente, ao contrario do anterior, Nosferatu - O Vampiro da Noite não envelheceu tão bem, principalmente pelo tom teatral e farsesco que adota em algumas partes importantes do filme. Porém, não dá para dizer que a atualização da história pelo diretor seja mal-sucedida: Herzog faz algumas pequenas modificações na clássica história do Conde Drácula que são únicos nesse gênero.

A começar pelo tom de ameaça do filme: investindo numa trilha sonora de clima pesado e sufocante, o diretor usa de artifícios naturais para envolver o espectador no terror da situação: o contraste da calma dos canais, com a fúria do riacho, as nuvens negras no céu. Além disso, o próprio Conde Drácula se torna um personagem mais fascinante: a interpretação magnífica de Klaus Kinski transforma o vampiro num personagem dúbio e esquisito, parece muito mais um enfermo, do que uma ameaça. Além disso, o ator faz um curioso trabalho com a respiração para demonstrar seu nervosismo.

O filme acerta ao colocar a ameaça do vampiro como espécie de metáfora a peste negra que atingiu a Europa, e as cenas com milhares de ratos saindo do navio e se espalhando pela cidade são impressionantes, mas não é só isso: a chegada do navio a cidade e as aparições do menino com violino são mais duas amostras do poder que Werner Herzog tem de hipnotizar sua platéia. E mesmo que o resultado final não funcione tão bem, ainda é uma aula de cinema como poucas.

NOTA: 8

Preview - Bad Lieutenant: Port of New Orleans

Aos poucos, este novo filme de Werner Herzog vêm me provocando ataques de ansiedade. O trailer novo é magnífico:


Rio Congelado




Escrito e dirigido por Courtney Hunt, Rio Congelado é um drama intenso e perturbador que ao mesmo tempo em que revela o lado sombrio da imigração ilegal nos Estados Unidos, consegue também ser um formidável estudo de personagens em um local remoto e inóspito, e de forma bem mais generosa que os filmes de Cláudio Assis, por exemplo.

Conta a história de Ray (Melissa Leo), uma mãe de dois garotos que é abandonada pelo marido na semana que antecede o natal, e pior: ele foi embora levando todo o dinheiro economizado para a compra de uma casa nova. Ao procurar pelo marido, ela acaba encontrando o carro dele e conhecendo Lila, uma mohawk que trabalha com outros de sua tribo para levar imigrantes de vários países para dentro dos Estados Unidos pelo tal do Rio Congelado. As duas começam a trabalhar juntas nisso, já que os pagamentos são bons para ambas.

Mesmo começando de um jeito bobinho (a cena em que Lila questiona o porque de Ray ter sido abandonada tem um diálogo ruinzinho de doer), o filme cresce em intensidade e é impossível não torcer para que as duas se acertem. Aliás, a maneira sensível que a diretora lida com os sentimentos das mulheres para com os seus filhos (que contrastam fortemente com o resto) é o que o filme tem de melhor, e em a cena em que as duas precisam ajudar o bebê de um casal de imigrantes é angustiante e linda. E a atuação de Melissa Leo é uma verdadeira força da natureza, não há palavras para descrever a dedicação da atriz neste grande papel.

Contando ainda com um desfecho forte e melancólico (mesmo que "feliz" de um certo modo), Rio Congelado é um grande filme, confiando toda sua força ao talento de seus atores, o que no caso, se mostra um grande acerto.

NOTA: 9

Território Restrito



Chega a ser lamentável ter que escrever que minha experiência com Território Restrito foi um pouco frustrante, explico: Com um elenco excelente e um tema importante narrado de forma interessante (pense em Traffic sobre os imigrantes nos Estados Unidos). Infelizmente, o roteiro de Wayne Kramer (que também dirige o filme) é cheio de conflitos desnecessários e uma construção um pouco preguiçosa dos personagens.

Ao mesmo tempo, porém, o roteiro tem diálogos brilhantes e a cena do assalto a uma loja de conveniência pelos assaltantes orientais deve entrar na lista de melhores cenas do ano simplesmente pelo excelente diálogo no desfecho. É uma pena que cenas como essa sejam exemplos isolados na obra, que usa de romances bobos para criar interesse (e nenhum deles funciona, de fato).

E assim como em Up - Altas Aventuras, os personagens são muito melhores que o filme, e os destaques vão para Harrison Ford e Cliff Curtis como a dupla de policiais da Imigração, que cada um parece viver num mundo de conflitos e contradições pura e simplesmente pela função que exercem, e se o roteiro falha ao desenvolver este lado da história, é a atuação dos dois que consegue contar tudo isso e mais um pouco em poucos diálogos (e Cliff Curtis certamente merecia uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante).

O melhor do filme, porém, é a história da adolescente árabe que, simplesmente ao tentar dialogar e raciocinar sobre as motivações dos terroristas do 11 de setembro (num outro momento genial do filme) é acusada de ser uma ameaça aos Estados Unidos pelo FBI: se por um lado o conflito se mostra um pouco esquemático (o FBI parece não ter muito o que fazer hoje em dia, diga-se de passagem) é impressionante como toda a idéia do filme, e toda a sua relevância se resumam na história dessa personagem e de sua família.

Uma pena que o diretor não viu isso, mas que bom que alguém teve a coragem de dizer o que foi dito em meio a um filme hollywoodiano. Pena que o resultado geral, não seja tão grandioso quanto o esperado.


NOTA: 7,5

Up - Altas Aventuras



Dona de um currículo no mínimo impecável, a Pixar lançou esse ano mais uma de suas obras-primas: Up - Altas Aventuras. Não chega ao nível de Ratatouille e Wall-E, mas é um filme adorável, capaz de fazer o público chorar logo de início, na abertura arrebatadora. O único problema é que os personagens são muito melhores que o filme em si, e as viagens na maionese que incluem cachorros jogando pôker são divertidas, mas não fazem juz ao resto.

Dirigido por Pete Docter (do excelente Monstros S.A.), Up conta a história do velhinho que, cansado da monotonia e para realizar o desejo de sua finada esposa, decide levar sua casa voando com balões para as montanhas da Venezuela. Seus problemas começam quando descobre que um escoteiro mirim acabou indo junto. Vale dizer que a melhor cena do filme é quando os dois passam com a casa em meio a nuvens de tempestade, uma sequência sensacional.

As comparações que vários críticos estão fazendo com Gran Torino já é clichezinho, mas vale a pena relembrar, já que os dois lidam com temas semelhantes e difíceis, embora aqui seja obviamente suavizado (o que não impede que uma inesperada cena de violência com sangue aparecesse). Mesmo assim, Up é mais uma prova do talento que a Pixar tem para criar obras que já nascem clássicas.


NOTA: 9

Revólver



Depois de aparecer para o mundo com os excelentes Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes e Snatch, Guy Ritchie tropeçou feio com a parceria no cinema com a ex-esposa Madonna no fraquinho Destino Insólito. Revólver, seu filme seguinte foi um fiasco nos cinemas, foi lançado em 2005e só esse ano no Brasil. E é um caso claro de um filme que não foi compreendido e é esquisito que até críticos como Roger Ebert tenham xingado até a mãe de Ritchie de tanto que detestaram o filme (se bem que o Ebert elogiou o Fim dos Tempos... enfim). E a prova de que a má recepção da obra mexeu com Ritchie é o próprio Rock'nRolla, que apesar de ser ótimo, foi um certo "passo atrás" em sua carreira.

Revólver é um filme sério sobre Jogos e Trapaças (dã), contando a história do ex-presidiário (Jason Statham) que vai atrás do cara que botou ele na cadeia (Ray Liotta). A partir de um começo normal, o filme consegue virar uma viagem na maionese, que se de início parece meio perdida, aos poucos se revela ambiciosa e pretensiosa, no bom sentido: é como se Ritchie brincasse com o conhecimento do espectador com a sua própria obra para nos obrigar a pensar e refletir sobre o que vimos, a partir de uma interessante discussão, que mistura de Maquiavel até Freud, até xadrez e cocaína.

Os problemas do filme são o ritmo que é lento e que a história demora um pouco para se tornar realmente interessante, e alguns personagens fascinantes são tratados com um certo desdém (como o ótimo capanga interpretado por Mark Strong). Mesmo assim, é o melhor filme de Ritchie na direção, no sentido de que seus enquadramentos são lindos, e as cenas tão bem planejadas que é difícil não ficar se dizendo por dentro: "Guy Ritchie é o cara". Não é um filme para todos, mas é definitivamente o caso de um filme que merece ser revisto.

NOTA: 8,5

Efeito Dominó



Efeito Dominó é um filme curioso: começa desepretensioso, até bobinho, mas da metade pra frente se torna um filme adulto e inesperadamente ousado. Dirigido pelo competente Roger Donaldson, conta a história real de um misterioso assalto a banco em Londres nos anos 70 que acabou gerando enorme controvérsia: a imprensa foi proibida pelo MI-6 a divulgar qualquer notícia sobre o assalto.

E porque isso? Porque o próprio MI-6 estava por trás do assalto, e como o filme começa a ir mostrando aos poucos, a consequência do assalto foi muito maior e mais interessante do que o próprio. Tanto que o próprio filme agiliza todas as estratégias típicas de assalto a banco para fazê-lo acontecer logo, e confesso que fiquei surpreso em constatar que o ato aconteceu antes da metade do filme, afinal como afirmei antes, Efeito Dominó é um filme sobre consequências (e o título português entrega isso de bandeja: troféu jóinha pra quem deu o nome por aqui).

Os problemas do filme começam também junto com sua melhora. Jason Statham é o ator fortão mais carismático da história, mas não tem experiência dramática suficiente para o papel (o que estraga uma cena maravilhosa com sua família), mesmo que por outro lado, o ator consiga fazer o mesmo que Bruce Willis conseguiu em Duro de Matar: transformar seu personagem num herói fodão, sem esquecer de sua humanidade.

Mesmo assim, Efeito Dominó se revela uma baita de uma surpresa agradável nas locadoras, um filme de ação inusitado e bem escrito, que merece ser visto e revisto.

NOTA: 8

O Despertar de uma Paixão



Metade dos romances seguem uma mesma fórmula: o casal se odeia, em seguida descobrem coisas em comum e depois percebem que são feitos um para o outro. O Despertar de uma Paixão não trás nenhuma novidade a essa fórmula em si, mas consegue o feito de fazer com que essa fórmula FUNCIONE. A história de amor dos personagens é tão complicada que é difícil imaginar qualquer afeto entre eles, e quando isso acontece, acaba sendo da maneira mais simples e real possível.

Dirigido por John Curran, conta com uma fotografia absurdamente linda e toda a direção de arte perfeita. O elenco, liderado por Edward Norton e Naomi Watts é perfeito, e o único ponto lamentável do filme, é que o roteiro acaba não aproveitando os ótimos personagens secundários. Além disso, é interessante ver como o roteiro mostra toda a complexidade da situação dos ingleses na China (como quando um personagem sugere que até mesmo a presença das freiras católicas tem fundos políticos), mas nunca explora a situação de fato.

Mas o filme se beneficia das chocantes e inesperadas cenas de violência e as cenas do hospital lotado com pessoas morrendo de cólera, e o filme mostra com detalhes a escatologia terríve da doença. E é esta abordagem honesta e humana, tanto da doença e da morte, como do amor, que levam esta obra a um nível maior do que a maioria dos romances de época.

NOTA: 9

Conduta de Risco



Deixei passar batido este Conduta de Risco, filme do talentoso Tony Gilroy e sei lá porque, provavelmente porque era considerado o azarão no Oscar num ano com Onde os Fracos Não Têm Vez e Sangue Negro. Mas, enfim: assisti e gostei muito. Já era fã do talento de Gilroy, como comentei no meu texto sobre Duplicidade, mas confesso que este filme foi muito além das minhas expectativas.

É um roteiro bem escrito, adulto e contemporâneo sobre os indivíduos e suas responsabilidades em meio aos grandes esquemas das grandes corporações. A Pessoa Física vs. A Pessoa Jurídica. Ao contrário de Duplicidade que de certa forma parodiava esse pensamento, Conduta de Risco mostra todo o drama e o horror que vive escondido nesse meio, e o melhor, sem apelar para clichês fáceis ou dramalhões (e poderia, afinal envolve o processo de uma garota que perdeu a família por um produto de uma grande corporação).

Mas o filme se revela um estudo de personagem bem-sucedido: Michael Clayton, o "faxineiro" vivido com talento por George Clooney é um personagem riquíssimo, e surpreendente. Instintivo e inteligente, é brilhante ver como toda a trama se encaixa, e como aos poucos o protagonista consegue montar todas as peças do quebra-cabeças. Tilda Swinton levou um Oscar merecidíssimo, e Tom Wilkinson e Sydney Pollack emprestam seu mais do que conhecido talento aos seus personagens.

Conduta de Risco é um filme surpreendente, e mesmo que pareça um suspense normal, se revela um drama complexo e instigante e, portanto, não deve ser a toa que seu momento mais fraco é uma tentativa de suspense numa cena de bomba: o filme não precisava, pois a energia está nos seus atores.

NOTA: 9,5

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