Minhas Adoráveis Ex-Namoradas


Minhas Adoráveis Ex-Namoradas é uma baita surpresa para os fãs de comédias românticas. Descaradamente inspirada em "Um Conto de Natal", o filme é muito divertido e conta com um protagonista que só posso comparar ao Charlie de Two and a Half Men. Atuado com canastrice divertidíssima por Matthew McConaughey, Connor Mead é o rapaz que nunca consegue ter um relacionamento, e durante o casamento do irmão, enquanto ele deixa muito claro o quanto ele desaprova o ato, ele é visitado pelo fantasma do seu tio-ídolo Wayne (Michael Douglas) que avisa que Connor será visitado por três fantasmas: o das namoradas passadas, presentes e futuras.

Sim, o filme é bem óbvio, e até bobinho, mas o roteiro consegue criar situações engraçadíssimas, e até inusitadas. Outro ponto positivo do roteiro é jamais amenizar a cretinice do protagonista, deixando com que apenas aos poucos o personagem ganhe sua redenção, e melhor, que ganhe a torcida do espectador para sua redenção.

Dirigido por Mark Waters (do ótimo Meninas Malvadas e do péssimo Sexta-Feira Muito Louca), Minhas Adoráveis Ex-Namoradas aproveita bem o excelente elenco, principalmente Jennifer Garner, que desde Juno vem se transformando numa grande atriz. Mas o destaque fica para Michael Douglas, que transforma todas as suas cenas nas melhores do filme. Contando com um final previsível (e uma inusitada cena durante os créditos), Minhas Adoráveis Ex-Namoradas é um filme que mesmo que não vá mudar a vida de ninguém, é bem mais divertido que a maioria de filmes de seu gênero e merece uma conferida.

NOTA: 8,5

Invasores



Se há uma cagada que Hollywood já deveria ter aprendido a não cometer, é a de chamar um diretor para terminar o trabalho de outro. É fato, houve alguma vez em que isso deu certo? Que rendeu um bom filme? De cabeça, cito O Exorcista - O Início, Supernova e mais recentemente, o péssimo X-Men Origins: Wolverine. Esta mais recente adaptação do conto Os Invasores de Corpos foi dirigida pelo talentoso Oliver Hirschbiegel (de A Experiência e A Queda!), apenas para acabar nas mãos do mediano James McTeigue, cria dos Wachowski que dirigiu a irregular adaptação de V de Vingança, já que o filme que Hirschbiegel apresentou não foi de encontro as expectativas dos produtores (o atual mala, Joel Silver).

O principal problema de Invasores é a montagem (claro): há algumas elipses inexplicáveis que mostram ações acontecendo em meio a diálogos importantes, ou seja, tentam dar dinâmica a momentos mais calmos, com o resultado de desperdiçar boas cenas de ação em cenas que deveriam manter o clima de tensão. Ou seja, o bom (mas não excelente) trabalho de Oliver, é sabotado pelos esforços de McTeigue. E se há outro momento em que isso fique claro, é a cena em que Nicole Kidman bate o carro, e vários invasores começam a se unir em cima do veículo: a cena começa com um excelente plano plongé que mostra as pessoas se reunindo em cima do carro quase como formigas em cima de algum inseto morto, que é sabotado pela montagem, que corta a cena desnecessariamente.

Mesmo assim, Invasores é um filme bom e intrigante, que mesmo com uma vasta parcela de erros, consegue ser um filme interessante. As atuações de Nicole Kidman e Daniel Craig são boas o suficiente para manter nossa atenção, e querendo ou não, a alegoria do roteiro funciona bem aplicada a nossa realidade, algo que por si só cria várias cenas interessantes como o suicídio de um casal em meio a uma rua lotada, ou a criança perdida no meio do metrô. Além disso, há alguns momentos mais inspirados no filme que funcionam bem, como o primeiro contato de Kidman com um invasor que chega no meio da noite para fazer uma pesquisa, ou o diálogo dela com um personagem russo, que por mais que seja forçado até não poder mais para discutir um dos prinsipais temas do filme, deixa claro que a intenção de Invasores era boa. Pena que acabou caindo na cagada que citei no início.


NOTA: 6

Valente

 

Enquanto Valente passava, em vários momentos me lembrei de Marcas da Violência e Taxi Driver, o que pode ser o melhor elogio que posso fazer a obra, mas não pára por aí. Conseguindo se destacar em um gênero que, na falta de melhores palavras, já encheu o saco (filme de vingança), Valente apresenta idéias ousadas e um final a altua, que mesmo se resolvendo de forma simplista, com certeza vai deixar os moralistas com a pulga atrás da orelha.

Jodie Foster interpreta Erica Bain, uma radialista que é brutalmente espancada por uma gangue que mata seu namorado, Sayid de Lost. Depois de se recuperar em casa, Erica enfrenta o medo de sair de casa e acaba virando o que Charles Bronson foi em Desejo de Matar. E essa comparação certamente é a que mais me irrita: há algo de curioso em uma mulher se tornar uma sociopata, e a série Desejo de Matar com certeza não aborda metade das complexas questões apresentadas em Valente. Sim, Tarantino fez isso em Kill Bill também, mas como sabemos, Tarantino não tem absolutamente nada a dizer, ao contrário de Neil Jordan, um cineasta incapaz de realizar uma obra sem várias idéias e que cria várias cenas impactantes, como de costume (o assassinato com o pé-de-cabra me vêm a mente).

É curioso como logo depois de começar a matar, a personagem de Erica não sinta qualquer arrependimento: aliás, ela reage de forma absolutamente interessante, e o diálogo que ela tem com uma vizinha logo após um homícidio mostra a estranha paz de espírito que a personagem encontra em sua sanguinária vingança, e seria injustiça não comentar sobre a extraordinária atuação de Jodie Foster em uma de suas melhores atuações.

Infelizmente, o roteiro aborda questões como essa sem fundamentar muitas coisas: por exemplo, porque Erica resolve comprar uma arma? Sim, o seu pânico de sair de casa e sua raiva diante da indiferença da polícia são sentidos pela platéia, mas nada justifica o fato de ela sair comprar uma arma logo em seguida. E o que dizer da ligação forçada que o roteiro estabelece entre ela e o policial Mercer (interpretado pelo sempre competente Terrence Howard)? Por mais que a ligação entre os personagens crie cenas marcantes (como o ótimo diálogo filmado num longo plano-sequência), é fato que essa ligação é artificial, e quanto mais revelações surgem entre os dois, mais essa artificialidade se revela.

Contando ainda com o já mencionado final ousado, Valente é um filme de muitas idéias, algo recorrente na filmografia de Neil Jordan, mas é também um filme de estúdio que tem de ser entretenimento acima de tudo, algo no qual é bem-sucedido, já que a montagem garante um bom ritmo, mesmo que o filme seja um pouco longo, e com um roteiro um pouco melhor, poderia ser mais uma obra-prima deste grande diretor.


NOTA: 8

Férias Frustradas de Verão



Diretor da melhor comédia da década, Superbad - É Hoje, Greg Mottola pode decepcionar quem espera um filme no nível de sua obra-prima. Férias Frustradas de Verão é muito mais nostálgico e evocativo que Superbad, ou seja, muito menos engraçado. Mesmo assim, está muito longe de ser um filme ruim, afinal é um romance adolescente interessante e bonito, algo bem vindo em tempos de Crepúsculo.

Uma das principais diferenças entre Superbad e Férias Frustradas... é a participação das figuras paternas dos adolescentes cheios de hormônios, algo que em alguns momentos é interessante (principalmente a origem de uma garrafa de bebida no carro do protagonista) e em outros é chato e desnecessário: o conflito materno da personagem de Kristen Stewart, assim como seu romance com Ryan Reynolds são o que o filme tem de mais chato.

E falando na mocinha, apesar de ter uma personagem chatinha, Stewart se sai muito bem como Emily mesmo tendo a personagem mais ingrata do roteiro. Já Jesse Eisenberg atua bem, mas não tem nem o carisma nem a experiência de um protagonista, e falta o timing cômico que Michael Cera conseguiria tirar de letra. Fora isso, o casal formado por Bill Hader e Kristen Wiig é, provavelmente, o mais engraçado do filme.

Mesmo com um ritmo irregular, o filme surpreende pela bela fotografia e pela ótima escolha das músicas na trilha sonora: passando por Husker Dü e Lou Reed, a cena de perseguição com Breaking the Law do Judas Priest é outro dos vários momentos inspirados do longa. Férias Frustradas de Verão pode não chegar perto de Superbad, mas é um filme suficientemente divertido e nostálgico o suficiente para receber uma recomedação.


NOTA: 8

Katyn



Katyn não é um filme fácil: até a sua metade, eu mesmo estava achando o filme sem foco, deixando todas as suas histórias mal contadas. A surpresa é como todas as peças do quebra-cabeças vão se encaixando, criando um painel assustador sobre a denúncia apresentada. Contando uma história que várias pessoas consideram "desgastada", o filme do aclamado diretor Andrzej Wajda pode ser tudo, menos uma batida a mais numa tecla.

A história gira em torno do massacre de 12 mil oficiais poloneses na floresta de Katyn. Numa época em que a Polônia se encontrava dividida pelos soviéticos e pelos nazistas, imagens do massacre começam a ser usadas como instrumento político pelos dois invasores para ganharem o povo polonês. O surpreendente é que o massacre foi cometido pelos soviéticos (os alemães se livraram dos intelectuais), e ao fim da ocupação nazista a simples menção de que o crime foi cometido pelos camaradas era motivo de pena de morte.

E o diretor usa com sabedoria diversas histórias que se complementam aos poucos, criando um painel assustador de como a situação política e social da Polônia ficou no final da Segunda Guerra. E destaco também os brilhantes diálogos do filme, em especial o confronto entre duas irmãs, uma que se afiliou ao comunismo e a outra que luta para divulgar o que houve em Katyn:

"(...) - Você vai ficar do lado dos mortos?


 - Não, vou ficar do lado dos assassinados, não dos assassinos.(...)"

Além disso, a fotografia do filme é extraordinária, e a direção de Wajda é brilhante em sua pesada composição de enquadramentos, e também ao utilizar diversos simbolismos interessantes, como a própria cena inicial onde vários poloneses atravessam uma ponte para fugir dos alemães, enquanto vários outros fogem na direção contrária. Uma cena simples e tocante que resume com tristeza o destino daquele país.

NOTA: 10

O Ex Namorado da Minha Mulher



Apesar do talentoso elenco, O Ex Namorado da Minha Mulher falha desde o início ao provocar o riso, graças ao roteiro medonho e artificial, que só acerta quando satiriza a racinha mais chata da atualidade: os publicitários. Dito isso, o filme dirigido por um cara que esqueci o nome (e não pretendo lembrar) é terrível, estúpido beirando o ofensivo em algumas partes: como sou pai, posso dizer que o início do filme tenta realizar um drama forçado e ridículo a respeito da responsabilidade de ser pai.

E com um elenco que inclui Amanda Peet, Zach Braff e Jason Bateman (e até uma ponta de Paul Rudd) chega a ser impressionante que praticamente nenhuma piada no filme funcione: se Bateman até tenta criar um personagem interessante, o roteiro (que deve ter sido escrito por uma turma de adolescentes, só pode) logo sabota a boa construção do ator. Agora a respeito do resto do elenco, só posso dizer que é uma grande decepção ver tanta gente talentosa fazendo algo tão constrangedor.

E nem sei como terminar essa crítica, afinal o filme é tão  ruim que nem consegui assistir inteiro. Então se posso fazer algo aqui é: por favor, evitem assistir essa merda.

NOTA: 1

Speed Racer



Speed Racer é o filme mais recente dos irmãos Wachowski, que apareceram para o mundo com o ótimo Matrix, apenas para realizarem duas continuações regulares e o roteiro do bom-mas-poderia-ser-muito-melhor V de Vingança. Dito isso, o filme tem o que os irmãos sabem fazer de melhor: criar um visual impressionante e que mesmo em seus exageros é perfeito para a história e o tipo de linguagem usadas no filme, algo que eleva Speed Racer de um típico filme-família para um baita filmaço que merece ser visto e estudado (e não estudado como os livros pseudo filosóficos que Matrix acabou originando). 

Com um roteiro bem escrito, o filme adapta o animê de 1900 e bolinha com grande sucesso as telas, e se elogiei o visual no primeiro parágrafo, é preciso dizer que o trabalho do elenco é fenomenal, em especial Susan Sarandon e John Goodman como os pais de Speed, que fazem de suas cenas as melhores do filme; enquanto isso, Emile Hirsch continua mostrando que é um grande ator e de grande carisma, algo que só começou a aparecer depois de sua excelente performance em Na Natureza Selvagem. E agora para algo que nunca pensei em escrever na vida, a atuação do macaco Zéquinha é outro grande destaque, enquanto Christina Ricci com seus olhos grandes e expressivos praticamente nasceu para a viver sua personagem. 

Contando uma história simples de maneira criativa, o filme alterna ótimos momentos entre família com grandes cenas de ação, que fora as cenas de corridas, obviamente, ainda tem uma ótima cena de luta na neve e uma perseguição a um caminhão que são de tirar o fôlego. Mas o ponto forte de Speed Racer está na maneira como o roteiro foi construído, e com um raciocínio simples e eficaz, consegue fazer com que as corridas de carro vistas no filme soem muito mais importante do que realmente parecem. 

E esse texto foi escrito por uma pessoa que teve antipatia pelo filme desde o primeiro trailer.



NOTA: 9

Quando Você Viu Seu Pai Pela Última Vez?



Tenho um fraco por filmes que lidam com o tema "pais e filhos", e com o nascimento do meu filho obviamente este meu fraco ficou bem mais forte. Portanto, filmes que lidam de maneira sensível e talentosa com a perda de um desses lados, como O Quarto do Filho ou As Invasões Bárbaras, são obras que guardo com imenso carinho na memória. E Quando Você Viu Seu Pai Pela Última Vez entra nessa lista com louvor. É um filme sincero, sensível, melancólico e, principalmente, direto.Sem jamais fazer drama pelo drama, o longa dirigido por Anand Tucker explora com sensibilidade e respeito a história baseada no livro auto-biográfico do poeta britânico Blake Morrison (vivido no filme por Colin Firth) sobre seu complicado relacionamento com o pai (Jim Broadbent).

No filme, Blake volta a casa do pai depois que ele é diagnosticado com um câncer terminal. Frente ao fato de que seu pai pode falecer a qualquer momento, Blake tenta ao mesmo tempo resolver seus vários conflitos não-resolvidos com sua família, como o estranho relacionamento de seu pai com uma de suas tias, por exemplo.

Surpreendendo com uma atuação contida, Colin Firth faz seu melhor trabalho nesse filme, o que não é pouco. O ator faz um trabalho intrigante como Blake, com um misto curioso de seriedade e perturbação, e em alguns momentos a extrema seriedade dele chega a nos fazer questionar sobre o que ele realmente está sentindo (a cena em que ele telefone para a esposa me vêm a mente). Aliás, o trabalho do ator é tão brilhante que quando o personagem finalmente é tomado pela dor do luto, é como se o público sentisse sua mesma dor e com a mesma intensidade, e dito isso, o trabalho do diretor deve ser extrememante elogiado, tanto pela paciência em seus planos estáticos, quanto a intensidade dos movimentos de câmera, sempre bem utilizados e de maneira extraordinária.

Mas seria injustiça não comentar também sobre a atuação do sempre grande Jim Broadbent, que cria uma das figuras paternas mais divertidas do cinema, aliás, tão divertida que a palavra irresponsável acaba acompanhando-o. E o trabalho dos dois atores combinado (e mais os atores que interpretam Blake na infância e na adolescência) fazem do filme um prazer de assistir: não é apenas claro que o pai amava seu filho de maneira imensa e carinhosa, tanto que havia até um excesso de sua parte, reparem nas piadas feitas diante da família ou de desconhecidos: todas incomodam Blake, mas Broadbent deixa claro que também havia imenso carinho nas piadas, como se fosse o único jeito que o pai encontra para colocar seu filho no meio da conversa. E claro, o lado de Blake que não é também difícil de entender. Depois de flagrar seu pai em várias situações duvidosas, infelizmente sua desconfiança se transforma num ódio tão proporcional quanto suas dúvidas, algo que acaba separando-os.

E se ao ler este texto você estiver pensando "e porque eu assistiria isso?", posso apenas dizer uma coisa: o título do filme, por exemplo pode parecer até mesmo brega, mas no final com todas as peças do triste mosaico que é, você vai estar se perguntando a mesma coisa.


NOTA: 10

Feliz Natal (2005)



Feliz Natal é um bom filme sobre uma história extraordinária: em meio a Primeira Guerra Mundial, soldados alemães, franceses e escoceses combinam um cessar-fogo para celebrarem o natal e não apenas isso: comemoram juntos. Uma história tão bela e inusitada, com uma mensagem tão positiva sobre paz é tão forte que seria e... bem... foi fácil escorregar na construção do roteiro.


Christian Carlon que escreveu e dirigiu o longa usa de uma narrativa interessante para contar a história, fazendo uma espécie de Short Cuts da situação, mas infelizmente ele erra logo no primeiro ato ao se concentrar demais no casal de cantores que, de longe, são os personagens mais desinteressantes do filme, que inclui um tenente alemão judeu, um padre escocês que não exita em sair das trincheiras para tentar salvar seus amigos ou o francês que sai das trincheiras escondido para andar pelas estradas nos arredores. É claro que o casal foi preterido para forçar a mensagem de que a arte pode unir as nações, mas só a cena em que cada grupo de soldados fica a ouvir as músicas típicas de cada país de suas trincheiras já funcionaria.

Mesmo assim, a história e a situação são tão extraordinários que não dá para não gostar do filme. E fora a já citada cena das músicas, Feliz Natal ainda consegue incluir cenas fantásticas como a missa da noite de natal, e as decisões tomadas depois da celebração do natal, quando os inimigos começam a se ajudar dos bombardeios e combinam cessar-fogo para enterrarem seus mortos. E seu desfecho melancólico tem um impacto tão forte que dá para ignorar facinho seus defeitos e chegar a conclusão de que assistimos um grande filme.

NOTA: 8,5

PS: Depois de assistir esse Feliz Natal, o Feliz Natal de Selton Mello me soou ainda mais arrogante...

A Outra



Com um elenco excelente e uma boa história nas mãos, deve ter sido um imenso esforço para o diretor Justin Chadwick transformar A Outra num filme ruim e chato. Se na primeira metade o elenco consegue salvar a salada de clichês dos diálogos, na segunda o filme fica arrastado e perde completamente o rumo. Produzido com aqueles ares de 'fazer justiça histórica' a algum personagem que ficou mal falado, A Outra falha ao não saber como contar seua história, e pior: não saber que história está contando.

Protagonizado pelas tais irmãs Boleyin (Natalie Portman e Scarlett Johansson), mostra como as duas através de intenções financeiras de suas família se envolvem com o rei da Inglaterra na época (Eric Bana) como amantes para darem um filho a ele. Quem espera, portanto, uma análise crítica da situação, esqueça: o roteiro faz questão de lidar a complexidade da trama com o mesmo cuidado que os roteiristas da Globo tem em suas novelas. Quem espera um romance malicioso (como o excelente Asas do Amor), esqueça: há sensualidade de menos, e bem... partos demais.

E quando digo que o roteiro é descuidado, mais ainda é a direção de Chadwick: é no mínimo impressionante que durante todo o filme acompanhemos três partos e nenhuma cena com os bebês depois, como se as mães simplesmente esquecessem seus filhos. Dito isso, os conflitos familiares que envolvem os casamentos combinados, ou no caso, os adultérios combinados são risíveis a ponto de lembrarem o casamento arranjado mostrado na comédia Em Busca do Cálice Sagrado.

Natalie Portman e Scarlett Johansson tem uma boa química e convencem em suas respectivas personagens, mas o destaque fica para Eric Bana, se divertindo ao máximo como seu pervertido personagem e que acaba dando a verdadeira mensagem por trás do filme: quão sortudo é um cara que pode escolher entre Johansson e Portman?

NOTA: 3

Entre os Muros da Escola



Entre os Muros da Escola não é um filme divertido, aliás, sequer prazeroso de assistir. Com apenas 20 minutos, eu já estava emocionalmente esgotado, imaginando de onde vinha a paciência absurda de seu protagonista. Isso quer dizer que o filme é ruim? Muito pelo contrário, e me sinto na obrigação de dizer que Entre os Muros da Escola merece ser assistido por todos, e devia ser obrigatório sua exibição em escolas, faculdades, etc.

Dirigido por Laurent Cantet a partir do livro de François Bégaudeau, que também protagoniza a história (algo que só me faz admirá-lo ainda mais), o filme mostra um curto período de tempo com um professor lidando com sua turma de adolescentes, tudo a partir do ponto de vista do protagonista. Nos primeiros dez minutos, ao mostrar o esforço do professor ao simplesmente pedir para os alunos escreverem seus nomes num papel, o filme carrega uma tensão que poucos filmes de terror ou suspense conseguem.

Mas o filme não se limita a mostrar o conturbado relacionamento entre professores e alunos: Entre os Muros da Escola é uma análise complexa e detalhada sobre o funcionamento de uma escola, e o filme retrata seus pequenos casos de forma fascinante, como o desabafo explosivo de um professor, ou até mesmo na comemoração da gravidez de uma personagem, que não consegue deixar de fazer um comentário comovente sobre um aluno em seu discurso.

Aliás, melhor ainda: apresentando a complexidade da história sem jamais responder nenhuma de suas questões (algo que seria até grosseiro), o filme jamais apresenta os arquétipos típicos da dramaturgia, e se no início um dos professores parece se tornar um antagonista (ao ir contra as opiniões do protagonista), o roteiro surpreende ao mostrá-lo como um personagem muito mais dedicado e interessante do que o imaginado, e o momento em que ele discute sobre qual é o limite da relação professor/aluno de modo que o primeiro não interfira na educação que os pais proporcionam é um dos vários pontos altos do filme. E é preciso também admirar a coragem de François ao não se poupar de uma severa auto-critíca quando ofende duas alunas e omite isso em seu relatório.

Fascinante, inteligente e construtivo como poucos, Entre os Muros da Escola é uma obra-prima que ainda vai ser discutida por anos a fio, e pelas suas enormes qualidades, merece, conseguindo se destacar num gênero que foi brilhantemente parodiado por Perdendo a Noção.

NOTA: 10

Lua Nova



É preciso ser um diretor muito, mas muito bom para salvar uma história ruim: Scorsese, por exemplo, conseguiu salvar roteiros fracos como Cabo do Medo e Gangues de Nova York; já Danny Boyle fez merda em Quem Quer ser um Milionário?, assim como Tim Burton em Sweeney Todd. Digo isso porque gosto da carreira de Chris Weitz, diretor desse Lua Nova, principalmente do magnífico Um Grande Garoto. Weitz é um diretor competente que sofre do mesmo mal de Kevin Smith: não se acha um bom diretor, e parece sempre pronto a se sabotar quando fala com a imprensa. Embora aqui, ele realmente deva se sabotar: Lua Nova lembra o primeiro trabalho de destaque dele: American Pie.

O diretor faz o que pode: capricha nos efeitos especiais, nas cenas de ação e até nas passagens de tempo (a passagem dos meses através do plano sequência em 360º é uma agradável surpresa). Além disso, toda a cena que se passa na Itália com os personagens de Michael Sheen e Dakota Fanning são intrigantes e bem construídas (e os dois atores estão espetaculares em meio a tantas atuações fracas).

Mas a pergunta que fica é: isso consegue salvar Lua Nova? Não, e nem Kubrick conseguiria fazer um filme descente com uma história tão capenga e manjada. Conseguindo a façanha de ser ainda pior que Crepúsculo, a trama se apresenta de maneira rápida e eficaz só pra dizer que Edward abandonou Bella (de novo), Bella sofre (de novo), fica amiga do cara que na verdade é um lobisomem (de novo, oh wait...). E a maneira como Bella lida com esse "complexo" triângulo amoroso só fará sentido se no final, ficar claro que a protagonista é na verdade uma completa deficiente mental, capaz de abandonar qualquer ambição na vida por homens que viram purpurina no sol, ou que viram lobos quando ficam brabinhos.

Se no primeiro filme, Kristen Stewart até conseguiu fazer uma boa atuação, aqui ela parece ver a merda que fez e atua com preguiça notável (basta comparar com suas ótimas atuações em O Quarto do Pânico ou Na Natureza Selvagem). Robert Pattinson continua o mesmo, ou seja, uma merda e Taylow Lautner como o lobisomem não é um grande ator, mas é carismático e tem um bom timing cômico.

Quando escrevi sobre Crepúsculo, logo recebi um comentário dizendo que eu fui mal com o filme, pois é um "filme de mulherzinha". Ora, independente do público-alvo do filme, defendo a teoria de que os realizadores devem ter consciência que outras pessoas vão assistir o filme e que não devem apenas agradar um determinado tipo de espectadores. Vários "filmes de mulherzinha" agradaram muitas pessoas: O Diabo Veste Prada ou Titanic, por exemplo são dois filmes excelentes. Mas não posso ser tão chato, afinal Lua Nova é indiscutivelmente superior a Crepúsculo, tanto que se dei uma nota 2 para o primeiro, este segundo recebe uma...

NOTA: 2,1

Café da Manhã em Plutão



Se há um diretor extremamente subestimado nos dias de hoje, esse diretor é Neil Jordan. Diretor de várias obras-primas como Fim de Caso, Traídos pelo Desejo e o esquecido Nó na Garganta, e vários outros bem-sucedidos como Entrevista com o Vampiro, Jordan é o tipo de cineasta que anda em falta. Capaz de criar sequências mágicas e com uma forte marca visual, tem uma carreira consistente e, infelizmente, quase desprezada. E Café da Manhã em Plutão é mais um filme que serve para lembrar do  talento desse grande diretor.

Escrito pelo mesmo autor de Nó na Garganta, Patrick McCabe em parceria com o diretor, conta a história de Patrick, um garoto que abandonado pela mãe, e pelo pai (que é um padre) acaba sendo criado por uma família que não entende a opção sexual do garoto, que desde a infância sonha em ser uma mulher, baseada na imagem de sua mãe que nunca viu e era parecida com uma grande atriz. Patrick decide então ir para Londres procurar sua mãe, sem qualquer dinheiro ou condição. Só que essa história se passa na Irlanda nos tempos dos conflitos do país com os ingleses, e de forma indireta, Patrick acaba passando por isso sem entender o contexto em que se encontra.

Interpretado com genialidade ímpar pelo ótimo Cillian Murphy, Patrick (ou Patricia) sofre uma curiosa transformação durante o filme: se de início seu visual é andrógino, aos poucos, com sutileza o ator consegue criar uma mulher em todos os seus trejeitos. Liam Neeson e Brendan Gleeson também brilham em suas participações, assim como o habitual parceiro do diretor Stephen Rea, que tem o desfecho mais decepcionante da história.

Narrado de maneira propositalmente episódica, Café da Manhã em Plutão é um pouco mais longo do que deveria, e nem sempre fecha o arco dramático dos personagens secundários de maneira satisfatória, mas esse erro é compensado pela criaticidade do diretor, que não apenas joga elementos de contos de fada em meio a história (os passarinhos conversando), como também cria sequências marcantes, como de habitual, do qual destaco a explosão em meio a uma danceteria e a cena de interrogatório, a mais engraçada já vista no estilo 'Good cop, bad cop'.

Café da Manhã em Plutão é um filme extraordinário que serve muito bem para salientar o talento de seus envolvidos. Contando uma verdadeira fábula contemporânea (engole isso Quem Quer ser um Milionário?!!!!), tem um desfecho belíssimo e significativo, provando que é um filme que nasceu para se tornar inesquecível, assim como seu inusitado protagonista.

NOTA: 9,5

Psicopata Americano



Quem quer ver um filme de serial killer é bom passar longe de Psicopata Americano, que na verdade é uma comédia dramática com um protagonista trágico e vazio. Escrito e dirigido por Mary Harron a partir do polêmico livro de Bret Easton Ellis, o filme na verdade é uma forte crítica a 'era Reagan' e no individualismo crescente da época. Psicopata Americano olha com nojo para os anos 80, passando longe da nostalgia de Donnie Darko.

Christian Bale é Patrick Bateman, um vice-presidente de uma grande corporação que tem um curioso hobbie: matar mendigos, prostitutas e qualquer um que lhe irrite. O filme faz escárnio como protagonista, o assassinato de um mendigo tem tanta importância quanto ao tipo de papel e a fonte utilizada nos cartões de visita dos vários vice-presidentes da empresa (e para entender melhor a piada, sugiro que assistam Enron - Os Mais Espertos da Sala).

A direção de Mary Harron é inteligente ao mostrar o vazio no apartamento e no escritório de Bateman, e ao salientar o absurdo da história, como no momento em que Bateman tenta estrangular um parceiro no banheiro, cena cujo desfecho é um dos momentos mais engraçados do filme. O problema é que o final não apresenta sua mensagem como deveria, a história não fica clara o suficiente. Não tenho problemas com finais em aberto ou ambíguos, mas Psicopata Americano não se fecha como deveria (e não posso dizer mais sobre isso para não fazer spoiler).

Tornando-se ainda mais divertido agora que a diretora revelou que Bale se inspirou em Tom Cruise para criar o personagem (uma opção que se revelou extremamente sábia), Psicopata Americano é um bom filme com uma história magnífica; ou seja, uma boa história mal contada, o que não deixa de ser uma boa história.


NOTA: 8,5

Fatal



Filme mais recente da talentosíssima Isabel Coixet, de Minha Vida sem Mim e A Vida Secreta das Palavras, Fatal não chega a ser tão genial quanto estas duas obras, mas é um romance dirigido com forte personalidade pela diretora e com um trabalho sensacional dos atores envolvidos, algo que por si só, já faz a diferença no gênero. David (interpretado por Ben Kingsley) é um intelectual e professor de universidade que jamais esconde seu desejo pelas estudantes. Sua rotina de pegar uma aluna por semana muda quando ele conhece Consuela (Penélope Cruz), uma estudante cubana com quem logo inicia um romance cujas consequências serão trágicas.

Fatal é um filme que foge do comum do gênero com a maneira franca e direta em que lida com seus dilemas: e os diálogos entre David e seu melhor amigo (Dennis Hopper em sua melhor interpretação em anos) soam divertidos e realistas. Outro ponto positivo é a maneira curiosa (e cruel) em como lida com o relacionamento de David e seu filho, que o odeia por ter abandonado sua mãe, mas logo começa a se ver indo pelo mesmo caminho.

Coixet continua uma grande diretora: dona de um senso estético invejável para a construção dos enquadramentos, o filme só parece não ser tão genial quanto seus outros trabalho por não ter sido escrito por ela. Sendo assim, as narrações em off no início não funcionam, e algumas outras tramas paralelas, como a da personagem de Patricia Clarkson, demoram demais a fazer sentido dentro da história. Mesmo assim, todos os defeitos de Fatal ficam na primeira metade do filme, já que depois, se revela um crescendo desesperador e muito bem feito.

Fatal é um romance perturbador que também se revela um drama muito mais profundo do que aparenta, e um estudo de personagem extremamente perturbador. E as performances vicerais de Ben Kingsley e Penélope Cruz somado a peculiar direção de Coixet resultam num filme único e que merece ser assistido.

NOTA: 8

Chega de Saudade



Uma visão bonita e poética sobre a Terceira Idade, ou a Melhor Idade. Dirigido pela talentosa Laís Bodanzky (de Bicho de Sete Cabeças), Chega de Saudade se passa em um baile, onde acompanharemos a história de diversos personagens: a viúva que vai lá pela primeira vez; o casal briguento que não pode dançar, já que o marido está com a perna machucada; o tiozão malandrão que resolve dar em cima da moça mais nova; a tiazona poderosa e etc.

Interpretando Álvaro com talento, Leonardo Villar é o destaque absoluto da projeção, e tanto que a melhor cena do filme é aquela em que ele se imagina dançando sozinho e aplaudido no meio de todos, que gera uma bela rima visual com seu desfecho. Aliás, todo o elenco dá um verdadeiro show, com exceção do sempre mala Paulo Vilhena que transforma não apenas seu personagem como o próprio casal do personagem na trama mais irritante da história.

Incluindo detalhes divertidos em meio as situações, como os garçons que não servem apenas cerveja, mas também remédios, incluindo um aparelho para medir pressão no bar, Chega de Saudade conta ainda com a fotografia sempre inspirada de Walter Carvalho (apesar de ele continuar com a mania chata de brincar com o foco em closes), e um dos melhores roteiros produzidos nos últimos tempos. É um pequeno filme sobre um grande tema, e melhor, feito de coração.

NOTA: 9

Alma Perdida



Enquanto eu assistia Alma Perdida, um pensamento não saia da minha cabeça: Se Michael Bay dirigisse um filme de terror, seria exatamente assim. E não deu outra, já que nos créditos o nome de Bay aparece como produtor. Alma Perdida é um filme tão ruim, que chega a ser bacana: os espíritos são tão exagerados, que a caracterização chega a ser divertida; o exorcismo é tão "grandioso" (no sentido escandaloso da palavra) que é impossível conter as risadas.

Assim como em seu filme anterior, O Invisível, David S. Goyer mostra pontualmente seu talento, como no sonho em que a protagonista está no teto (que tem um movimento de câmera esplêndido), mas são os erros que se destacam. Quando a protagonista descobre que não deve manter espelhos em casa, Goyer faz ela quebrar todos para efeitos dramáticos, quando faria muito mais sentido simplesmente tirá-los de casa (doh'). E Odette Yussman, revelação de Cloverfield, tenta ao máximo criar uma personagem coerente, mas quando até Gary Oldman parece perdido é porque tem algo de muito errado.

 Mas o mais triste é que o filme apresenta algumas características originais, e que me fizeram gostar dele: a burocracia envolvida antes do exorcismo por exemplo é intrigante e a origem do tal espírito que acaba remetendo as experiências conduzidas por Mengele na época do nazismo é uma ótima sacada, mas isso está no meio de uma trama clichê e as vezes irritante.

Alma Perdida se destaca dos demais filmes de terror produzidos nos Estados Unidos por apostar no misticismo judaíco, algo que confesso nunca ter visto antes, e se metade do que o filme apresentou for real, é uma pena que um tema fascinante tenha sido jogado de qualquer jeito aqui. Contando com um final moralmente MUITO discutível e a cena de exorcismo mais... engraçada já feita, o filme não é um completo desperdício, mas quem espera um bom filme de terror vai se decepcionar.

NOTA: 4

Uma Garota Irresistível



Uma Garota Irresistível perdeu a oportunidade de ser um grande filme pela covardia do roteiro e por não perceber o que havia de realmente interessante na história. Contando a história trágica de Edie Sedgwick, uma jovem que sonha em ser artista que acaba se tornando musa de Andy Warhol, até acabar tendo um caso com Bob Dylan.

E quando citei a covardia do roteiro, não falei a toa, já que apesar do visual, da história e tudo mais remeterem a Bob Dylan, o filme nunca cita o nome dele (a não ser em uma cena que Edie o chama de Billy... hum...). Fora isso, se o filme conseguia escapar de seu pior defeito (que é jamais conseguir estabalecer quanto tempo se passa entre uma cena e outra) pelas ótimas cenas entre Edie e Warhol, é lamentável que no terceiro ato o roteirista e diretor George Hickenlooper jogue toda a boa construção dos personagens ao transformá-los em mocinhos e bandidos.

E se o filme consegue escapar da mediocridade é pelo elenco liderado por Sienna Miller que faz um trabalho soberbo como Edie, e Guy Pearce numa atuação inspiradíssima como Andy Warhol. Aliás, até Hayden Christensen se sai bem como Bob Dyl... ops, Billy, enquanto Jimmy Fallon e Mena Suvari parecem completamente deslocados.

Beneficiado também pela excelente montagem, que assim como Milk consegue misturar cenas de diferentes épocas e formatos de maneira orgânica, Uma Garota Irresistível tem um pequeno trunfo por trás de si: Edie se envolveu com dois grandes artistas de gênios e opiniões completamente diferentes, e não é a toa que o filme só cresce quando Andy Warhol e Bob Dylan falam de sua arte, enquanto Edi se vê claramente dividida em suas opiniões. Pena que nenhum dos realizadores percebeu que essa foi a grande tragédia da história.


NOTA: 7

Eva de Gaspar Noé

Gaspar Noé dirigiu o polêmico (e excelente) Irreversível, e esse ano estreou seu filme novo Enter the Void em Cannes, que por sinal, não tem nenhum sinal de que chega ao Brasil. Este seu curta-metragem beeeeem experimental não é nada demais, mas só o plano-sequência dele já vale a vista.

A Vida Secreta das Palavras



A Vida Secreta das Palavras é um filme surpreendente desde o início, quando nos coloca ao lado de Hanna (Sarah Polley). A personagem é isolada e falar parece ser um grande esforço para ela, e mais: aos poucos, uma curiosa hostilidade vai aparecendo na personagem, e o filme não facilita em nada nossa identificação com ela. Mesmo assim, a nossa curiosidade sobre o que estaria por trás daquele comportamento é o que nos prende a obra. O filme conta a ida de Hanna para uma plataforma petrolífera onde irá cuidar de Josef (Tim Robbins), que se queimou seriamente ao tentar salvar um amigo de um acidente a bordo da plataforma.

Interpretando Hanna com o talento habitual, Sarah Polley faz uma atuação minimalista que aos poucos vai se tornando tão enigmática quanto fascinante. Já Tim Robbins faz a melhor atuação de sua carreira ao construir seu personagem com um inusitado toque cômico, que tornam suas cenas com Polley em momentos magníficos, mesmo que muito pouco seja dito.

A direção de Isabel Coixet encontra a perfeição nesse filme: ao contrário do que a diretora fez no ótimo Minha Vida Sem Mim, aqui não há qualquer alegoria e nem cenas que distraiam o público. Aliás, tudo bem que a própria plataforma se torne uma metáfora para a solidão, mas aqui as alegorias se misturam com perfeição a narrativa e jamais atrapalham.

Contando com um terceiro ato perfeito com um clímax emocional inesperado e fortíssimo e uma das cenas finais mais tristes que já vi, A Vida Secreta das Palavras peca apenas por não fechar a linha narrativa dos personagens coadjuvantes (eu, particularmente, lamentei que o filme não mostrasse um desfecho para Simon, o cozinheiro interpretado por Javier Cámara), apesar de nem isso estragar esta obra que merece ser apreciada pela coragem que surge em seu ato final.

NOTA: 9

Choke - No Sufoco



Adaptado por Clark Gregg (mais conhecido pela sua participação na série chatinha da Old Christine) a partir do livro do genial Chuch Palahniuk (autor de Clube da Luta), Choke - No Sufoco pode não ser tão instigante quanto a adaptação dirigida por David Fincher, mas se revela igualmente extraordinária de sua própria maneira. Os fãs de Tyler Durden certamente podem ficar decepcionados com o filme, já que Choke apesar de ser igualmente subversivo e tão errado da cabeça quanto O Segurança Fora de Controle, no final das contas é uma história de amor tão bonita quanto inusitada.

O protagonista Victor Mancini é um trapaceiro, viciado em sexo e, como se proclama, "uma parte da espinha dorsal da América". Enquanto seu melhor amigo, que se masturba em qualquer momento inapropriado, inicia um romance com uma stripper, Victor tem que se preocupar com sua mãe que está enfrentando uma demência cada vez pior, principalmente depois que ela revela que Victor não sabe quem é seu pai. Decidido a saber quem é (muito mais pelas dificuldades financeiras, que pelo amor paternal), ele aposta num tratamento nada ortodoxo oferecido por uma das médicas do hospital.

E revelar mais da trama seria um pecado, já que a cada revelação, o filme fica mais e mais rico, e mesmo que Clark Gregg se revele um diretor bastante inexperiente, a história é sensacional e os atores estão em estado de graça: encarnando Victor Mancini com a competência habitual, Sam Rockwell está sensacional, engraçadíssimo e profuncamente dramático conforme a trama avança. E se Anjelica Huston cria uma das figuras maternas mais bizarras do cinema, Kelly Macdonald se destaca ao atuar com um esperto misto de inteligência e doçura (algo mais do que apropriado a personagem).

Choke - No Sufoco, assim como Clube da Luta, não vai agradar a todos, mas é um filme tão inusitado e divertido que é difícil não acreditar que testemunhamos uma obra impressionante: afinal, quantos filmes conseguem debater a natureza humana citando desde a Bíblia até fantasias pervetidas, como fetiches de estupro? Pois é...


NOTA: 10

O Paraíso é Logo Aqui



O Paraíso é Logo Aqui (péssima tradução para Henry Poole is Here...) é uma comédia dramática eficiente que toca num assunto delicado: a fé religiosa. O filme conta a história de Henry Poole que compra uma casa num subúrbio de Los Angeles que tem uma mancha numa das paredes, que logo começa a ser visto pela vizinhança como um sinal divino (o rosto de Cristo). Henry, que só quer sossego, não entende o que seus vizinhos enxergam naquela mancha e faz de tudo para acabar com as visitas religiosas que logo começam em seu quintal.

Luke Wilson está numa atuação tão fantástica como Henry Poole que o filme nem precisava utilizar de flashbacks para nos contar o que há em seu passado: está tudo nos olhos tristes do ator, que mais uma vez se revela um dos mais subestimados de sua geração. E se o roteiro começa de maneira sensacional, é uma pena que logo depois ele se revele muito mais esquemático do que parecia. E se mesmo assim o filme sobrevive, é pela atuação de Wilson e de Radha Mitchell, que também está excelente.

Dirigido por Mark Pellington, dos também ótimos O Suspeito da Rua Arlington e A Última Profecia, O Paraíso é Logo Aqui conta com um visual rico em cores e uma belíssima fotografia, e a montagem também se revela inspirada, com transições elegantes e dinâmicas. E se Pellington erra no uso flashbacks, em um deles ele acerta em cheio (no momento em que Henry se encontra embaixo dos trilhos de um trem), que é curto e elegante, e conta muito mais da triste história do personagem do que o resto do filme.

O Paraíso é Logo Aqui se destaca do resto dos filmes sobre redenção pela maneira direta e respeitosa em como lida com a fé. Se por um lado, o monólogo de Henry para a vizinha Esperanza sobre o porque ela precisa que ele acredite na face de Cristo na mancha em sua parede é ácido e cutuca bonito numa ferida escondida nos religiosos, o final do filme é curioso e se revela um grande acerto ao encerrar de forma intrigante sobre o que poderia de fato ter acontecido, e garanto que o filme vai agradar ateus, católicos, budistas e qualquer outro religioso pela forma inteligente que a obra termina.

NOTA: 8,5

Atividade Paranormal



A grande sacada de Atividade Paranormal está em apostar no formato mockumentary, já que sua trama aos poucos se revela muito mais clichê do que deveria. Mas este filme de estréia do diretor Oren Peli é uma experiência marcante e assustadora como poucos filmes de terror conseguiram. Além disso, Atividade Paranormal lembra o exercício praticado por Michael Haneke no excelente Caché, ao manter o público nervoso e angustiado em seus planos longos e estáticos.

O filme já começa bem ao não enrolar o espectador e situar rapidamente a história: um casal que vem vivendo experiências assustadoras em casa resolve comprar uma filmadora para ver o que acontece na casa enquanto estão dormindo. Conforme os dois vão confirmando as suspeitas de que existe algo na casa os assombrando, a tal entidade-fantasma-demônio-exú-sei-lá-o-que começa a assombrá-los de maneira cada vez mais perturbadora.

É uma pena que o filme seja tão montado e certinho (principalmente nos diálogos), mas nem isso atrapalha a sensação de que estamos testemunhando um casal de verdade enfrentando seus demônios (num duplo sentido bacana, não?). Aliás, os atores Katie Featherston e Micah Sloat não são atores sensacionais, mas tem uma excelente dinâmica que torna o filme interessante de acompanhar.

Já o melhor aspecto do filme está em sua fotografia inteligente: se de início, o filme estabelece de maneira inteligente que as cenas mais normais são de dia com uma fotografia "descuidada", e as mais assustadoras serão no azul com a lente grande angular, o filme se revela infinitamente mais tenso quando começa a inverter a brincadeira, gerando uma tensão insuportável, complementada pelo brilhante uso dos efeitos sonoros.

No fundo, o filme é um conto moralista (ou um cautionary tale), assim como A Bruxa de Blair : se neste último os três jovens são punidos por não respeitarem a tradição local, aqui são punidos por mexerem com o desconhecido. Mesmo assim, Atividade Paranormal se revela uma ótima surpresa para os fãs do gênero terror e do mockumentary, e se o filme peca no final ao colocar legendas tentando nos convencer de que testemunhamos algo de verdade, há inteligência sobrando no desenrolar desse ótimo filme para manter nossa atenção do início ao fim.


NOTA: 8,5

2012



Autor de alguns dos maiores guilty pleasures de cinéfilos dos últimos tempos, Roland Emmerich destrói (de novo) tudo que se encontra a sua frente com fogos, ondas gigantes e tudo mais que estiver no seu arsenal (de novo). Baseado na tal lenda maia que diz que nosso fim será em dezembro de 2012, o filme, er... 2012 é bem-sucedido no que se propõe a fazer: é um filme-catástrofe quase ignorante, tamanha a destruição que é mostrada em seus enquadramentos longos e surpreendentes.

Já esperar uma história interessante no filme chega a ser uma palhaçada, já que se revela quase uma variação de O Dia Depois de Amanhã, com problemas familiares em meio a milhões de mortes por segundo. E o único personagem realmente bom é o divertido maluquete interpretado por Woody Harrelson, cuja animação é provavelmente é a melhor cena do filme, e infelizmente o filme se livra dele muito antes do esperado. John Cusack, Amanda Peet, Chiwetel Ejiofor e Danny Glover são atores sensacionais, mas não tem muito o que fazer aqui (a não ser correr e fazer cara de susto).

O roteiro peca pelo excesso de sub-tramas, que fazem o filme ficar muito mais longo que o ideal (quase 2h40min), mas dá pra perdoar fácil esse pecadilho pelo nível assustador dos excelentes efeitos especiais, que são tão bons quevalem o ingresso.Enfim, 2012 é um bom filme dentro de seu gênero, e quem é fã vai gostar bastante. E quem não é fã do gênero nem do diretor, pelo menos poderá ficar satisfeito com a destruição do Vaticano.


NOTA: 7,5

The Silent City de Ruairi Robinson

Ruairi Robinson é um talentoso diretor que chegou até a ganhar um Oscar de Melhor Animação em Curta-metragem. E seu talento foi notado em Hollywood, tanto que ele foi escolhido para fazer a adaptação live-action de Akira, que infelizmente não aconteceu. De qualquer maneira, aqui está o seu excelente The Silent City:

Darkened Room de David Lynch

Curta-metragem interessante dirigido por David Lynch. Segue um pouco a linha de Império dos Sonhos: é feito para sentir, e não para entender. Brincando com o poder da sugestão de que algo terrível está para acontecer através dos diálogos bizarros, não é um trabalho excelente, mas é um curta experimental de primeira:

Caminho para Guantánamo



Daqui a alguns anos, quando olharmos para trás e analisarmos o impacto geral do que a era Bush representou em Hollywood, veremos que existiram dois tipos de cinema produzidos independente de suas qualidades técnicas/narrativas: o covarde, e o corajoso; ao analisarmos isso mais a fundo, perceberemos que os covardes venceram: o covarde se vangloriava da violência justificada, representada por Chamas da Vingança de Tony Scott, ou Falcão Negro em Perigo. justificava a vingança. Do cinema corajoso, será curioso ver como eles passaram em branco: Filhos da Esperança de Alfonso Cuarón ou A Última Noite de Spike Lee. Esse cinema corajoso foi declarado culpado pelo crime de pensamento em vigor nos dias de hoje e foram ignorados pelas massas, pois uma vez assistidos, eles apresentam idéias e atitudes que não condiziam com o pensamento atual.

Já saindo do mundinho da "América", o cinema mundial gritou de todas as formas possíveis para que Bush ouvisse suas próprias atrocidades, que fosse culpado pelos seus crimes. Desde filmes de entretenimento, como o coreano O Hospedeiro, passando por este brilhante Caminho para Guantánamo. É a história real de quatro amigos ingleses (e muçulmanos) que viajam ao Paquistão para o casamento de um deles. Lá, decidem viajar para o Afeganistão, e por obra do azar acabam em meio a várias pessoas com ligação com o Talibã e Osama Bin Laden. De lá, são enviados junto com os prisioneiros para uma das maiores vergonhas da história recente, a prisão de Guantánamo, na base americana em Cuba.

O filme utiliza um tipo de narrativa que eu detesto: o de usar depoimentos enquanto reconstitui as cenas como aconteceram, mas desde o início o filme dava sinais de que aquilo não era um mero acaso: poucas vezes testemunhei uma escolha tão acertada de narrativa no sentido de o que contar e como contar. A história é narrada de maneira rápida e jamais se torna confusa já que seguimos a linha de raciocínio das entrevistas: o resultado é que a história é mostrada de maneira enxuta e econômica, servindo ainda mais como um soco no estômago, já que mal testemunhamos um absurdo, já estamos vendo outro. Enquanto os guardas americanos provocam os presos chutando o Alcorão (e até eu que não conheço ninguém da religião, entendo o tamanho do desrespeito), os depoimentos feitos por "especialistas" da CIA surgem quase como alívio cômico, tamanho o absurdo exposto. E os realizadores demonstram cojones ao exibir imagens de Bush, Toni Blair e o resto dos culpados pela Guerra, contradizando-os com imagens reais que se misturam de forma orgânica a obra.

Utilizando uma montagem ímpar que impressiona sempre que apresenta as legendas de quanto tempo se passou de uma cena para outra, o filme foi dirigido por Mat Whitecross (que não conheço) e o talentoso Michael Winterbottom, que realizou outra obra-prima na década, o pouco visto (e apreciado) Código 46. Os diretores são extremamente bem sucedidos ao prender a atenção do espectador de forma assustadora, e para eles não basta mostrar como aconteciam as terríveis torturas psicológicas e físicas: enquanto somos apresentados a essas cenas horríveis, ouvimos as descrições detalhistas dos entrevistados.

Encerrando o filme com um "final feliz" que é seguido por informações finais devastadoras, Caminho para Guantánamo é uma obra-prima sensacional que mostra como o cinema pode e deve ser encarado como algo muito maior do que simplesmente entretenimento: deve ser tratado, sim, como um espelho da devastadora realidade que nos cerca.


NOTA: 10

As Duas Faces da Lei



As Duas Faces da Lei poderia até ser como A Cartada Final: um filme bom (e nada mais) que servisse apenas para homenagear seus protagonistas, que aqui são os lendários Al Pacino e Robert DeNiro. Infelizmente, o roteiro de Russell Gewirtz fica indeciso se quer contar uma história boa, apenas homenagear os atores ("eles são como Lennon e McCartney") ou os dois ao mesmo tempos. O resultado é uma trama interessante mal-contada, com bons diálogos, mas que precisava de uma séria revisão já que a história acaba sendo bem mais previsível do que o imaginado pelos realizadores.

O péssimo Jon Avnet parece uma criança doida para brincar com sua dupla de atores e comete uns absurdos bestas, como a abertura forçada. Além disso, as cenas em que os personagens prestam depoimentos são complementadas pelo diretor com um péssimo uso de tela dupla. Avnet (e o roteiro) só acertam nas cenas mais cômicas (intencionais ou não), já que Pacino e DeNiro parecem estar se divertindo muito juntos.

Pior ainda, o filme desperdiça o talento de seus coadjuvantes como Melissa Leo, Carla Gugino e Joe Leguizamo fazendo de seus personagens caricaturas mal feitas, e nem Marlon Brando conseguiria algo decente com o material porco dado a esses atores. E a atuação de 50 Cent beira o ridículo: não dá pra entender como um cara meio fanho e de dicção bizarra seja tão bem sucedido (não só no filme, diga-se de passagem).

E o pior de tudo é perceber que o roteirista Gewirtz (responsável pelo brilhante O Plano Perfeito de Spike Lee) conseguiu criar uma história interessante, apesar de tudo. O problema é que parece que filmaram algum rascunho do roteiro, já que quase todas as histórias no filme são ou mal-desenvolvidas ou mal exploradas. E nem adianta vir com a desculpa de que o filme pelo menos serve para ver Pacino e DeNiro juntos: se for pra isso, assista Fogo Contra Fogo de Michael Mann, onde os dois fazem um trabalho brilhante em apenas duas cenas juntos.

NOTA: 4

Verônica



Qualquer pretensão que Verônica tivesse de ser um filme a se levar sério vai por água abaixo na animação dos créditos, que não é mal-feita, mas muito mais adequada a uma comédia do que um drama sobre uma professora que é obrigada a cuidar de uma criança cujos pais foram brutalmente assassinados. Pior ainda é a trilha sonora, uma das piores que conferi nos últimos tempos: é capenga e intrusiva.

E mesmo assim, Verônica consegue ser um bom filme, principalmente pelo esforço do elenco, com destaque a Andréa Beltrão e Marco Ricca (um dos melhores atores nacionais). O diretor Mauricio Farias, cujo curriculo inclui os fracos A Grande Famíla - O Filme e O Coronel e o Lobisomem faz um excelente trabalho na direção ao utilizar enquadramentos normalmente associados a filmes de espionagem (repare como nas cenas nas ruas, a câmera parece ser a subjetiva de alguém seguindo os personagens). Por outro lado, os momentos de flashback são terríveis e mal usados, e a cena em que Verônica descobre que os pais do garoto morreram tem um excesso visual que diminui o impacto da cena.

O roteiro também peca no início ao resumir demais a história, obrigando seus personagens a dizerem coisas como "mas você é a melhor professora dessa escola" e clichês do gênero. Além disso, há um furo impressionante no roteiro: depois que o garoto foge da casa da personagem ela simplesmente deixa de procurá-lo e vai visitar os pais e trabalhar, ignorando assim toda a responsabilidade que ela tinha perante o garoto (e não há nenhuma justificativa para isso, já que o sumiço foi testemunhado pelo ex-marido que é POLICIAL, meu Deus!).

Mesmo assim, Verônica é bem sucedido ao lidar com o drama da personagem principal, ao não saber em quem confiar, e principalmente ao ver a incrível passividade dos "bonzinhos", algo que só dá liberdade aos "malzinhos". Algo bem parecido com a realidade, e só lamento que o final não enxergue uma saída melhor: Verônica merecia algo melhor.


NOTA: 7

Distrito 9



Distrito 9 poderia se tornar um clássico moderno da ficção científica (junto com Filhos da Esperança)  caso não tivesse uma linguagem e uma narativa tão indecisas: se de início parece que será um filme alá Cloverfield ou [REC], para logo depois seguir uma linha documental, e finalmente mostrar que não é nenhuma das anteriores. O primeiro ato do filme é sofrível: demora para apresentar até mesmo quem será o protagonista e o modo como apresenta a história é extremamente forçado com ajuda de depoimentos, que no início até são desculpáveis, mas no resto do filme só atrapalham.

Além disso, nas primeiras cenas de ação há um certo excesso de câmeras em mãos de pessoas com Mal de Parkinson: todos os vícios ruins que os filmes de ação adquiriram nos últimos tempos aparecem piorados, e mesmo que eu tenha assistido os filmes que citei acima e mais A Bruxa de Blair no cinema, não fui desses que reclamei de tontura, mas confesso que o primeiro ato de Distrito 9 me deixou com uma dor de cabeça terrível tamanho a descoordenação dos operadores de câmera: uma coisa é câmera na mão; outra bem diferente é amadorismo.

E mesmo assim, gostei de Distrito 9: com uma trama que se revela interessante e muito mais dramática do que parecia no início, o filme dirigido pelo novato e paga-pau de Peter Jackson, Neill Blomkamp faz um excelente trabalho na direção depois do péssimo início, embora suas melhores sacadas pareçam chupadas de algum jogo de video game (há inclusive um plano no melhor estilo jogo em primeira pessoa). Os efeitos visuais são fabulosos, e o design dos alienígenas é fantástico (algo que só vemos depois do início, já que a câmera estava preocupada demais balançando, hum-hum).

Incluindo uma cena de ação fantástica no seu clímax (que é mais emocionante do que qualquer coisa em Transformers, fora Megan Fox) e surgindo como uma curiosa homenagem a A Mosca de David Cronenberg, Distrito 9 é um bom filme que poderia ter sido fantástico caso não fosse tão confuso em sua linguagem e encontrasse maneiras menos óbvias para apresentar sua história. Mesmo assim, merece ser conferido... só não sente tão perto da tela que nem eu...

NOTA: 7,5

O Filho de Rambow



Junto com o excelente Rebobine, Por Favor de Michel Gondry, O Filho de Rambow é uma das homenagens mais belas a sétima arte. Lançado diretamente em DVD no Brasil e sem nenhum alarde, trata-se de um dos melhores filmes do ano. Escrito e dirigido por Garth Jennings, diretor do ótimo O Guia do Mochileiro das Galáxias, conta a história de dois garotos marginalizados pelos colegas de escola (um por ser um pentelho, outro pela religião) que resolvem fazer um filme com uma câmera VHS sobre o filho do Rambo, que é obrigado a resgatar seu pai, e acabam criando uma amizade inusitada e divertidíssima.

O filme é uma comédia dramática interessante e muito bem feita, que sempre tem uma carta bacana na manga, como a ótima animação que mostra como um dos garotos tem a idéia da trama para seu filme quando vê um espantalho, ou o "ator" francês que parece ridículo de início, mas se torna um personagem adorável. Bem escrito, O Filho de Rambow ainda desenvolve muito bem os conflitos de seus personagens, incluindo um curioso (e respeitoso) conflito no lado religioso da história.

O elenco mirim do filme em sua maioria, nunca havia atuado antes, o que garante um clima descontraído e inocente aos seus personagens, algo raramente visto em produções com atores mirins. A espontaneidade de seus protagonistas é responsável por um sorriso que dificilmente vai sair do rosto do espectador (como o momento em que o filho do Rambo se empolga em uma cena hilária).

Mesmo que o final acabe soando um pouco esquemático e certinho, O Filho de Rambow é uma comédia divertida e inteligente para ver com toda a família (algo que também está ficando raro), e por qualquer um que ame o cinema. No final das contas, O Filho de Rambow também é uma clara lembrança de porque vamos ao cinema e amamos tanto essa arte.

NOTA: 10

Coraline e o Mundo Secreto



Muitas pessoas comentam que Coraline e o Mundo Secreto não é um filme para crianças, algo do que eu discordo. Sim, a obra é perturbadora e contém sua parcela de elementos adultos, como o nome do personagem Wyborne (que fonéticamente diz Why Born? ou Porque nasceu?). Mesmo assim, Coraline é basicamente um filme de terror feito para crianças, que se de início apresenta uma divertida trama, repleta de poesia e cores, logo se torna um terrível pesadelo.

Baseado no livro escrito por Neil Gaiman (que já havia escrito uma história semelhante em Máscara da Ilusão) e adaptado e dirigido para o cinema por Henry Sellick, Coraline é um triunfo em vários sentidos: por exemplo, pela primeira vez, Sellick usa seu grande talento com o stop-motion aliado a um ótimo roteiro e sem chatos números musicais. E a combinação da técnica do stop-motion com efeitos especiais fazem dele uma experiência visualmente única, e a cena em que vemos o jardim num plano plongé é provavelmente uma das melhores cenas já criadas pela técnica.

A história, repleta de simbolismos, mostra Coraline, uma garota solitária que ao se mudar para uma casa nova, não recebe atenção dos pais e não suporta os estranhos vizinhos. Ao explorar a casa, descobre uma porta, e ao atravessá-la, chega a uma realidade alternativa, onde seus pais lhe dão atenção, seus vizinhos são amigáveis e divertidos, enfim, um mundo perfeito. O filme pode ser interpretado como uma severa crítica ao sonho americano, o american way-of-life mas resumir a isso é diminuir essa obra-prima.

A partir da metade do filme, quando a realidade alternativa começa a se tornar um terrível pesadelo para a protagonista, Coraline se torna uma obra muito mais ambiciosa e genial do que eu esperava. Sem dúvida, é o melhor stop-motion já realizado (em todos os sentidos) e mais uma prova de que Neil Gaiman deve ser muito mais adaptado para o cinema.

NOTA: 10

100 Escovadas Antes de Dormir



Melissa Panarello, a Nikki Reed (ou Bruna Surfistinha) italiana teve seu polêmico livro adaptado para o cinema pelo diretor Luca Guadagnino nesse 100 Escovadas Antes de Dormir, que merece ser elogiado pela maneira direta e corajosa com que aborda a sexualidade da personagem (que tem 14 anos), principalmente ao saber quando e o que mostrar, não consegue escapar de ser um filme frouxo, com uma narrativa desinteressante, e pior, uma protagonista tão besta que nem a desculpa de "ser apenas uma adolescente" acaba colando.

María Valverde consegue segurar bem sua personagem, mesmo quando o filme a obriga a realizar umas besteiras gigantes, como na terrível cena em que ela começa a dançar em meio a uma praça: a cena só fica convincente pela concentração absoluta da jovem atriz. Outra atriz que chama a atenção é a sempre talentosa Geraldine Chaplin, e é uma pena que seu relacionamento com a neta seja tão pouco destacado, se limitando a poucas cenas no início, já que ali está o que é realmente interessante na história, e o momento em que o título do filme é explicado é de longe, a melhor cena do filme. Dito isso, é uma pena que o filme realmente acredite que são as bizarras esperiências sexuais da jovem que interessam: a relação a distância que ela vive com o pai (e a própria mãe, em certo sentido) é mal desenvolvido, e não criam dramaticidade suficiente para justificar o conflito que Melissa vive.

E nisso, chegamos no enorme conflito de Melissa com sua sexualidade: o filme lida com o tema de maneira muito mais corajosa que o fraco Aos Treze, mas não o desenvolve de maneira interessante. E a desculpa da protagonista (e da autora do livro) para embarcar em suas aventuras é resumido de forma quase esdrúxula: quando ela se envolve num menage-a-trois, por exemplo, ela só decide fazer quando é chamada de criança por um dos guris, e o mesmo se aplica a todo o resto. Se toda garota ao ser provocada por um homem resolver provocar exatamente o que o homem esperava para provar o contrário, o que ela estaria provando na verdade?

E como disse, a desculpa de ela ser uma adolescente não cola por outro simples motivo: se são as adolescentes o público alvo do filme, então 100 Escovadas Antes de Dormir é um fracasso imenso, já que ao mostrar cenas explícitas de nudez, a obra obviamente tem uma censura alta e não pode ser visto pelo público alvo. E para provar que não é uma uma completa besta, Melissa Panarello resolveu escrever um livro contando todas as suas idiotices. Logo...


NOTA: 6

Intrigas de Estado



Intrigas de Estado seria muito mais bem-vindo na época da administração Bush. Mesmo assim, ele surpreende por não ser apenas um suspense eficaz, como de início também se apresentar como um interessante debate sobre certas práticas do jornalismo: mostrando a decadência das mídias impressas tanto em qualidade quanto em lucros e suas dificuldades com o mundo online, o filme abre com debates fascinantes que, infelizmente não são resolvidos depois.

Dirigido por Kevin Macdonald do ótimo O Último Rei da Escócia, Intrigas de Estado já abre com uma cena impressionante de perseguição, onde num longo plano, um personagem atravessa a rua, com direito a ser atropelado por uma moto, demonstrando que o talento de Macdonald para criar cenas fortess e marcantes mostrado no filme anterios se mantém intacto aqui. Auxiliado por uma montagem eficiente e que jamais comete o erro tão comum hoje em dia de usar 15 enquadramentos em um segundo, o melhor aspecto da obra é a tensão crescente que chega a ser quase insuportável, e que me lembrou de outro grande filme envolvendo os bastidores de uma matéria, o clássico Todos os Homens do Presidente.

Russel Crowe faz um personagem divertido e carismático e Rachel McAdams mostrando um talento cada vez maior, cria uma química excelente com o ator. Aliás, o elenco em geral merece fartos elogios, mas sinto que devo destacar a sutil e brava interpretação de Ben Affleck, um ator bem subestimado por aí. E Jason Bateman e Jeff Daniels, que fazem a tela ferver em suas pequenas participações.

Decepcionante apenas por acabar apostando mais na trama pessoal dos personagens do que nos conflitos éticos e profissionais trabalhados no início, e pela tentativa um pouco forçada de criar um final feliz (já que o filme termina de forma pessimista, eu acho) mesmo assim Intrigas de Estado é um excelente suspense, tenso e surpreendente como poucos.


NOTA: 8,5

O Hospedeiro



Surpreendente em todos os sentidos, esse O Hospedeiro é um filme memorável que me lembrou a sensação que experimentei ao assistir o já clássico Todo Mundo Quase Morto: eu estava diante de uma sátira tão boa, que conseguia funcionar bem também como filme de gênero, mas a comparação acaba aí. Se o filme com Simon Pegg usava zumbis para mostrar a apatia dos londrinos, o diretor Joon-ho Bong faz um filme de monstros gigantes que não apenas faz uma combinação perfeita entre comédia, drama e suspense, como também faz comentários ácidos sobre a política internacional dos Estados Unidos.

E a mais grata surpresa que experimentei, foi conhecer a família Park, formada por um pai dedicado, a filha atleta bem-sucedida, outro alcoólatra e o impressionantemente estúpido Park Gang-du, que também tem uma filha e que aos poucos se torna um dos protagonistas mais trágicos que já pude conferir: ao perder a filha por um descuido na fuga do monstro gigante, Gang-du é um pai que tenta ao máximo ser dedicado e compreensivo, tanto que consegue acordar de um sono profundo só de ouvir o nome da filha. Infelizmente, ela é capturada pelo monstro e depois de a cidade ser evacuada graças a um vírus que o monstro transmite junto com ele, a história se transforma num drama consistente sobre a procura da família pela garota.

O Hospedeiro é tão bem-sucedido como comédia que é provavelmente por isso que será lembrado, e a cena onde o próprio luto da família (ao ver a garota ser declarada como morta) se torna um momento tão exageradamente ridículo que é impossível controlar as gargalhadas deixa claro isso. Porém, o filme se destaca na surpreendente opinião política que demonstra através de piadas ora sutis, ora nada sutis (como o Agente Amarelo, clara referência ao Agente Laranja utilizado pelos Estados Unidos na Guerra do Vietnã. por exemplo). E se revisto, essa intenção fica ainda mais clara: já na cena inicial, o americano ordena que o coreano jogue pela pia fortes produtos químicos (no que pode ser a origem do monstro), e ficamos sabendo do tal vírus através de sua relação em um americano (e a revelação sobre o vírus é a melhor sacada do roteiro).

Agora sobre o filme como exemplar do gênero, ele não fica devendo nada a Cloverfield, por exemplo: se o primeiro ataque da criatura é mostrada de forma ameaçadora e cômica, aos poucos, a presença da criatura vai ficando mais e mais assustadora, ganhando ares de verdadeiro terror quando acompanhamos o seu "ninho". E o design do monstro deve ser elogiado por apostar mais na feiúra do bicho do que no seu tamanho.

O Hospedeiro ainda vai ser lembrado como um dos grandes filmes da década, afinal não é sempre que um filme coreano sobre um monstro gigante consegue atacar Hollywood e o resto do país em volta dela de um jeito tão brilhante como o fez.


NOTA: 10

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