Amor Sem Escalas


Amor Sem Escalas é uma óbvia evolução do diretor Jason Reitman, que em seus dois filmes anteriores, Obrigado Por Fumar e Juno, se mostrou um diretor apenas correto, que fez bons filmes graças ao elenco. Aqui, ele novamente trabalha com um grande elenco, mas sua direção se mostra mais presente e forte. Em meio ao clima de comédia romântica, Reitman aproveita e faz um interessante filme sobre a crise econômica que abalou o mundo (observem a direção de arte e a maneira como o diretor mostra os escritórios vazios e decadentes).

George Clooney é Ryan, um homem especializado em demitir pessoas, e que faz seu trabalho por todos os lados nos Estados Unidos. Extremamente confiante na importância de seu trabalho e de como ele o faz, logo ele se vê ameaçado pela tentativa de uma novata em sua empresa de fazer as demissões via internet, economizando para a empresa em passagens aéreas. 

O roteiro que foi premiado pelo Globo de Ouro, na verdade não é tão bom assim. Há vários conflitos forçados, principalmente o de Ryan que é obrigado a levar  a garota da empresa junto na viagem, e por mais divertida que seja a garota (e a interpretação de Anna Kendrick), a personagem jamais rende nenhum momento realmente inspirado, e os momentos em que ela questiona o estilo de vida de Ryan são óbvios e péssimos. Enquanto isso, George Clooney continua melhorando cada vez mais, e sua química com Vera Farmiga (que tem a melhor atuação do filme) é invejável, mas vale também destacar a surpreendente atuação de Jason Bateman como o desprezível chefe do personagem.

Contando com um desfecho de forte ironia dramática, Amor Sem Escalas é provavelmente o melhor trabalho na direção de Jason Reitman, que só não decola de vez pelo excesso de bobagenzinhas no roteiro. Mesmo assim, fico satisfeito em ver o desenvolvimento do diretor, que se continuar assim, talvez chegue perto do talento de Alexander Payne, por exemplo.

NOTA: 8,5

Tempos de Lobo



Tempos de Lobo começa mostrando uma família chegando a um chalé em meio a floresta. Assim que abrem a porta, são surpreendidos por um homem que está lá dentro com uma espingarda. Este homem mata o pai da família, e a mãe e os dois filhos são obrigados a fugirem dali. Aos poucos, o roteirista e diretor Michael Haneke nos surpreende com a gravidade da história: não é apenas aquela família que encontrou a tragédia, mas todo o mundo. Na verdade, o filme parece estar narrando um futuro pós-apocalíptico, embora jamais dê qualquer referência disso.

Haneke, um cineasta de primeira linha como mostrou em Caché e Violência Gratuita por exemplo, cria uma história simples, enquanto parece estudar a natureza humana, e de início há uma terrível constatação do diretor: assim como o pai foi morto sem motivo, assim o pequeno garoto o faz com o passarinho que morre sufocado em sua jaqueta, ou seja, o homicídio é apenas uma das características de nossa espécie. E embora o cineasta carregue o filme com simbolismos difíceis e duros como este, é interessante que ao final, Tempos de Lobo seja um filme otimista.

Assim como fez em Caché, Haneke mostra a família como uma estrutura importantíssima, mas cada vez mais frágil, e que a filha evite conversar com a mãe, assim como o filho que parece sempre disposto a fugir, Tempos de Lobo também surpreende ao dar mais atenção as relações das crianças entre os outros personagens em meio aquele caos, algo que só deixa o filme mais tenso.

Prejudicado apenas pelo ritmo lento, que ao contrário do resto de suas obras não chega a realmente incomodar, Tempos de Lobo é um filme obrigatório para fãs do grande diretor, ou pode servir como uma bela introdução a aqueles que querem conhecer este grande cineasta.


NOTA: 9

Acima de Qualquer Suspeita



Acima de Qualquer Suspeita é um remake do clássico Suplício de uma Alma (pobre Fritz Lang...), escrito e dirigido pelo saudoso Peter Hyams, diretor de... Fim dos Dias e Timecop (...). Desperdiçando a boa premissa, sobre um jornalista que se condena por um crime, documentando tudo para provar como um promotor público forja suas provas, o filme não é apenas um dos piores já feitos sobre julgamentos, como serve de exemplo de como não se fazer um roteiro.

Absolutamente incapaz de criar uma transição elegante ou uma cena que preste, o diretor e o montador Jeff Gullo abusam de cortes desnecessários em meio a diálogos comuns (repare na cena em que o jornalista conversa com a assistente do promotor). Além disso, o roteiro falha até mesmo ao apresentar a simples premissa do filme: porque o jornalista persegue aquele promotor? Ora, o filme insinua que ele estava investigando a algum tempo e que tinha provas, mas nada disso aparece, ou seja, o jornalista parece apenas um implicante procurando uma história (podia mandar currículo pra Folha de São Paulo, não?). Além disso, Jesse Metcalfe se mostra um ator careteiro e exagera na arrogância do personagem (particularmente, eu detestei o personagem), enquanto Michael Douglas... putz... digam que ele não leu o roteiro...

Pior ainda é o fato de que Hyams, diretor acostumado a filmes de ação, cria uma das piores "perseguições no meio de uma garagem" de todos os tempos, ao fazer a cena lembrar... um jogo de pega-pega (onde as colunas são os piques, provavelmente). Mas, voltando ao roteiro, é interessante perceber como, tanto do lado do promotor, quanto do jornalista, TODOS são absolutamente retardados e incapazes de fazer uma coisa sequer direito. E o pior é perceber que todos esses erros foram estrategicamente colocados para dar suporte a um final surpreendente, que fecha o filme com chave de bosta.


NOTA: 1

Vampiros de Almas



Vampiros de Almas foi a primeira adaptação cinematográfica do famoso conto de Jack Finney, Os Invasores de Corpos (que recentemente foi refilmada em Invasores). Dirigido por Don Siegel, o filme pode ser visto como uma metáfora do medo do comunismo nos Estados Unidos, mas o diretor deixa a parte política completamente de fora, investindo sim na tensão da história, decisão que se revela acertada.

Apesar de ser um marco do cinema de ficção científica, o roteiro do filme é fraquíssimo, investindo num romance que apesar de ganhar força no desfecho, atrapalha o desenvolvimento da história. E se os diálogos expositivos até podem ser perdoados pela época em que o filme foi feito, a narração em off que acompanha o filme é tão desnecessária que beira o estúpido em diversos momentos (complementam o óbvio, e nos piores casos, repetem o que acabou de ser dito).

Por outro lado, o diretor Don Siegel consegue criar um filme interessante apesar do fraco roteiro, graças a seu talento na composição dos enquadramentos como no momento em que o corpo desperta na casa de um personagem, ao inclinar o enquadramento na primeira cena que mostra como surgem os corpos ou ao alternar closes fechadíssimos dos protagonistas com planos abertos mostrando a população da cidade se reunindo (e vale comentar que os efeitos especiais da produção são surpreendentes para a época).


Kevin McCarthy se revela um protagonista interessante e surpreende nas cenas mais assustadoras, enquanto Dana Wynter era uma atriz linda e se limitava a isso. Vampiros de Almas (tradução nojenta...) merece destaque por ser a primeira das quatro refilmagens do conto, que até hoje mantém uma constante (e triste) relevância.

NOTA: 7

O Espelho



Dirigido pelo genial Andrei Tarkovsky, O Espelho apresenta o uso de câmera mais inteligente de todos os tempos, junto com O Escafandro e a Borboleta. O filme é uma poesia visual sobre a estrutura familiar abalada pela Segunda Guerra Mundial, e não é a toa que várias partes contam com cenas da época, utilizadas com maestria pelo diretor. Mas o mais forte de O Espelho é a maneira sensível em como o diretor retrata a melancolia que todos sentimos com a saudades da infância, e também os sacrifícios inimagináveis que as mulheres fazem ao se tornarem mães.

Aliás, a brilhante idéia de Tarkovsky de utilizar a mesma atriz para interpretar a mãe e a ex-esposa do protagonista não se revela apenas psicologicamente fascinante, como serve para organizar o caos de sua narrativa (que também brinca com as cores das cenas). E nesse sentido, a cena logo no início que mostra uma casa pegando fogo (num dos planos-sequência mais brilhantes já realizados, diga-se de passagem) não serve apenas como um simbolismo fascinante, como também para esclarecer a complexa estrutura da narrativa, que mistura memórias e sonhos, sem jamais estaelecer uma linha clara de onde um começa e outro termina.

Contando com movimentos de câmera que continuam tão impressionantes quanto na época, Tarkovsky impressiona com o visual impressionante da obra, e com cenas que dificilmente sairão da mente de quem assistir, como a cena em que da desajeitada dança da mãe em meio a casa que desmorona, enquanto parece chover dentro dela, ou a perturbadora cena em que a criança vê dois fantasmas na casa do pai.

Marcado ainda por uma trilha sonora emocionante e uma direção de arte impressionante, O Espelho é uma obra-prima do cinema, que embora não chegue a se igualar com o magistral Stalker, deve ser visto por admiradores da sétima arte.


NOTA: 10

O Sequestro do Metrô 123



Dirigido pelo "Michael Bay-pai" Tony Scott, este remake de um filme dos anos 70 (que eu não vi) começa bem, aliás tão bem, que eu jurava que iria me surpreender novamente com um filme do diretor (como no ótimo Jogo de Espiões). Infelizmente, depois da metade o filme mostra uma falta de confiança incrível na história que está contando e aí já viu: acidentes de carro surreais de tão desnecessários e sub-tramas que na tentativa de surpreenderem, só servem como tapa-buraco mesmo.

O Sequestro do Metrô 123 conta a história de... er... um sequestro de um metrô, comandado por Ryder (John Travolta) que decide fazer a negociação com o operador da linha, Garber (Denzel Washington). O roteiro de Brian Helgeland (um roteirista as vezes genial e as vezes preguiçosíssimo) consegue estabelecer de maneira interessante o cotidiano dos personagens, e a maneira como o filme começa é realmente exemplar, com diálogos econômicos e rápidas ações que já prendem o público no início. Infelizmente, principalmente depois da metade, é uma pena ver um roteirista experiente como Helgeland criar diálogos tão ruins como a estúpida pergunta de um jornalista ao prefeito.

Tony Scott faz um trabalho até razoável na direção, e assim como em Jogo de Espiões, sua pirotecnia visual acaba soando orgânica a trama, embora o desfecho seja tão mal realizado, decepcionante e estúpido que logo lembramos porque Tony Scott não é um dos nomes mais empolgantes que existem no cinema. Denzel Washington e John Travolta estão bem em seus personagens, mas o clima do filme é o de atuações no piloto automático, aliás, assim como o filme inteiro acaba se revelando...

NOTA: 5

Baixio das Bestas



Quando lançou Amarelo Manga, o diretor Cláudio Assis foi bastante criticado pelo excesso de palavrões no roteiro e até pelo excesso do filme em si, algo em que concordo: mas ainda assim considero Amarelo Manga um ótimo filme. Felizmente, este Baixio das Bestas é curiosamente menos "desbocado" mas é infinitamente mais pesado. Baixio das Bestas é uma viagem ao inferno da miséeria, e não faz a menor questão de facilitar nada para o espectador: desde o início quando Auxiliadora, uma garota de 16 anos aparece nua em frente a vários caminhoneiros, Assis cria uma iconografia quase religiosa: Auxiliadora é uma santa em meio as criaturas do inferno que a admiram.

Ao contrário de merdas como Deus é Brasileiro ou Quem Quer Ser um Milionário?, Baixio das Bestas jamais retrata a pobreza com o olhar "carinhoso" daquelas obras. O filme mostra a miséria da região como causa para a miséria do espírito humano: o avô que ganha dinheiro exibindo o corpo da neta para os caminhoneiros se justifica dizendo que "a necessidade faz o cavalo e o cavaleiro". Os jovens da capital vão a cidade se divertir, estuprando e agredindo prostitutas.

Contando com um elenco repleto de rostos conhecidos como Caio Blat, Matheus Nachtergaele e Dira Paes, o destaque vai para a jovem Mariah Teixeira que vive Auxiliadora de maneira corajosa, numa interpretação repleta de sutilezas marcantes.

Demonstrando uma evolução extraordinária como diretor, Cláudio Assis privilegia planos longos, que na ausência de cortes torna o filme ainda mais sufocante, embora o diretor demonstre sensibilidade em diversos momentos ao saber quando ocultar o que está acontecendo, como a cena de um estupro, no qual a câmera desvia para mostrar as sombras dos personagens (algo que me lembrou de Laranja Mecânica).

Pesado, forte e pessimista, Baixio das Bestas certamente não irá agradar ninguém, mas agradar claramente não é o objetivo do filme. Se Amarelo Manga serviu como um tapa na cara dos brasileiros, Baixio das Bestas é um soco no estômago, desses que deixam falta de ar e cuja dor a gente não esquece. E pela sua temática, fico feliz que tenha sido assim.


NOTA: 9

Verônika Decide Morrer



Adaptado no livro de Paulo Coelho (que eu não li), Verônika Decide Morrer é um bom filme que infelizmente não dá conta de trabalhar sua história, e acaba apelando para clichês quando lhe convém. O filme começa interessante, e até mesmo o suicídio da personagem, por mais estilizado que pareça, (com direito a Radiohead no fundo...) é retratado de maneira dura e realista. Logo depois, Verônika é enviada para uma clínica psiquíatrica, e depois de um promissor desenvolvimento (Verônika realmente quer morrer e os funcionários da clínica não são monstros), o filme se perde num romance que surge de maneira forçada.

Dirigido por Emily Young, o filme tem o triunfo de apresentar uma atuação marcante de Sarah Michelle Gellar, que mostra uma interpretação madura e anos luz a frente de seu melhor trabalho anterior (no bonzinho Segundas Intenções). David Thewlis como o psiquiatra merecia muito mais tempo em tela, mas faz mais uma vez um trabalho primoroso. E se Melissa Leo pouco pode fazer com sua personagem, Victor Steinbach em apenas uma cena, faz uma atuação marcante e emocionante como o pai de Verônika.

Com um bom desfecho, que sofre pelo mal desenvolvimento da narrativa, Verônika Decide Morrer é um filme interessante, mas que perdeu a ótima oportunidade de se juntar a obras como Mar Adentro, quanto a discussão do direito de escolha quanto a própria morte. Deixou isso de lado para se tornar um feel-good movie, mas pelo menos nisso foi bem sucedido.

NOTA: 6,5

PS: Como eu disse, não li a obra de Paulo Coelho. Alguém sabe se a adaptação foi fiel ou não? Pois fiquei interessado em ler...

Abraços Partidos



Conheci o cinema de Pedro Almodóvar no que foi, provavelmente, a melhor época de sua carreira, já que lançou três verdadeiras obras-primas: Carne Trêmula, Tudo Sobre Minha Mãe e Fale com Ela. Quando fui conhecendo o resto da obra do diretor, me surpreendi com o fato de não ter encontrado nenhum filme que se igualasse a qualidade daqueles três, e isso acabou valendo para seus filmes mais recentes, inclusive. Mas também não lembro de nenhum deles que fosse tão fraco quanto esse Abraços Partidos.

Abraços Partidos é um filme com bons momentos, mas analisemos: a cena em que a personagem de Penélope Cruz se dubla ao ver que o marido está vendo o documentário que o filho grava. Se a cena possui uma metalinguagem interessante e complexa, ela também é melodramática e artificial, mesmo que esteticamente bonita. Aliás, se o filme merece elogios é pela fotografia e a direção de arte, algo que é praticamente uma característica do diretor, que sabe usar cores como poucos.

Infelizmente, o roteiro "complexo" conta ums história simplista, que na tentativa de homenagear grandes filmes da história do cinema, acaba sendo uma pálida mescla de Cidade dos Sonhos, e até mesmo Encaixotando Helena. Outro ponto forte do diretor, que são os personagens coadjuvantes fortes e que acabam roubando a cena (lembro de Tudo Sobre Minha Mãe, principalmente) aqui se mostram estúpidos e caricatos: o tal Raio-X (nome de obviedade terrível, diga-se de passagem) é um personagem embaraçoso, que fica ainda pior com a péssima atuação de Rubén Ochandiano.

E se a história do diretor enquanto faz o filme se revela o único ponto realmente interessante do filme (apesar da arrogância de Almodóvar, principalmente em sua visão do produtor), é lamentável que seu arco dramático se feche com um diálogo piegas e expositivo, que não apenas diminui todo o bom clima de mistério, como diminui todas as poucas qualidades que o filme apresentava.


NOTA: 3,5

Operação Valquíria



Bryan Singer começou sua carreira com dois filmes incríveis: Os Suspeitos e (meu favorito) O Aprendiz. Logo depois, fez uma bem sucedida investida no cinema comercial nos dois ótimos primeiros capítulos da saga X-Men, só pra fazer a burrada de dirigir o mediano Superman - O Retorno. Operação Valquíria não está a altura de seus quatro primeiros filmes, mas pelo menos mostra que nem todo o talento do diretor se perdeu.

O filme faz justiça histórica ao mostrar uma conspiração de militares e políticos alemães que repudiavam o comando de Hitler na Segunda Guerra Mundial, e recrutam o coronel Stauffenberg para liderar o golpe de Estado que só poderá ser feito com a morte de Adolf Hitler. Assim como Zodíaco de David Fincher, já sabemos o final, e mesmo assim, o filme consegue surpreender e manter um clima tenso durante toda a narrativa, com a diferença que, se em Zodíaco o suspense constante era mantido pela abordagem criativa do roteiro, aqui caímos em alguns clichês e sustos falsos, algo que se torna irritante depois de um tempo.

Tom Cruise faz um bom trabalho como o coronel Stauffenberg, numa atuação contida e surpreendente, algo corajoso em meio a atores como Kenneth Branagh, Bill Nighy e Tom Wilkinson. Por outro lado, David Bamber consegue a proeza de tornar Adolf Hitler num personagem apagado e sem qualquer destaque, destruindo duas cenas importantíssimas. E se admiro o trabalho de Thomas Kretschmann, também devo dizer que passou da hora de ele parar de interpretar nazistas.

A direção segura e confiante de Singer consegue criar cenas brilhantes, como o bombardeio na casa do coronel ao som de Wagner, ou o tenso telefonema para autorização da tal operação Valquíria. É uma pena que o filme se renda a desnecessários suspenses, que demonstram uma certa falta de confiança dos roteiristas na história que estão contando.

NOTA: 7

A Festa da Menina Morta



Impossível, para mim, não comparar este A Festa da Menina Morta com o Feliz Natal dirigido por Selton Mello. Não só por ser a estréia de dois atores na direção, que fazem tudo que vêem pela frente no cinema nacional (aqui Matheus Nachtergaele), mas por serem dois filmes distintos que lidam com temas semelhantes: ambos são filmes sobre tradições, conflitos familiares. Mas enquanto o filme de Selton Mello exalava uma arrogância que atrapalhava o filme, este A Festa da Menina Morta se mostra muito mais sensível e surpreendente.

Não que não tenha sua parcela de erros: a primeira parte do filme que mostra a preparação da festa falha terrivelmente em apresentar os personagens e como suas histórias se ligam: vemos um quebra-cabeças, mas o diretor não nos deixa ver como a imagem está se formando, algo que prejudica até mesmo as atuações, principalmente a de Daniel de Oliveira, que interpretando o Santinho, só ganha credibilidade depois da metade do filme: de início, parece exagerado e caricato; só depois faz sentido.

Por outro lado, é impossível não elogiar o ato final do filme que não apenas fecha os arcos dramáticos mal apresentados no início de maneira inteligente e sensível, como também desfere um golpe no estômago do espectador, ao nos surpreender (principalmente) com o discurso de Santinho, ao final. Se o filme parece lamentar a maneira como aquela pequena população vive a 20 anos a ilusão de um milagre, e como isso parece prender os habitantes aquela vida, ao final a sensação é a de que, apesar dos nossos julgamentos, a relação entre as pessoas acaba funcionando daquela forma, algo que só aumenta a melancolia no fim da história.

NOTA: 7,5

Matadores de Vampiras Lésbicas



Leitores e leitoras: fomos enganados. Matadores de Vampiras Lésbicas não só é uma comédia meia boca, como também uma tentativa (muito) mal-sucedida de emular o sucesso das ótimas comédias dirigidas por Edgar Wright, como Todo Mundo Quase Morto e Chumbo Grosso. E se isso não fosse o bastante, as atuações vistas no filme são divertidas e com bom timing cômico (algo que salva algumas cenas), mas os personagens não tem o menos carisma, e os atores não possuem química alguma: parecem estar competindo entre si pelo "quem é mais engraçado".

Matadores de Vampiras Lésbicas conta a história de dois amigos que vão acampar numa cidade onde há... bem.. vampiras lésbicas. Junto com outras garotas, eles tem que combatê-las antes que elas ressucitem a vampira lésbica mor... blablabla. Vocês já entenderam. A trama é boba e rasa, e desperdiça várias boas piadas pelo roteiro acreditar que ela é interessante: particularmente, a trama do vigário e sua filha me interessou (e me divertiu) muito mais do que a trama central (e o desfecho é impagável).

Aliás, com este título chamativo (e divertido), era no mínimo plausível que esperássemos um filme mais ousado, "picante", mas o filme é tão puritano que chega a dar dó: em tempos de Superbad e O Segurança Fora de Controle, por exemplo, a espada que parece um pênis parece piada de criança. E no final das contas, Matadores de Vampiras Lésbicas parece muito mais com Scooby-Doo do que Todo Mundo Quase Morto.

NOTA: 3

Garota Infernal




Tipo, meu... assim... o filme Garota Infernal é tipo, meu... troço tenso mesmo, e não no sentido bom de tenso, tá ligado? É tenso porque, meu, sério é foda. A mina que escreveu é a Diablo Cody, saca? Ela escreveu o Juno também, tipo, nossa, foda meu. Juno era massa porque tinha um monte de ator bom, tipo, Ellen Page e tal mas tipo, meu, aqui a melhor atriz é a Amanda Seyfried que fez a filha chata da Meryl Streep no Mamma Mia! saca? Então, tipo, falar mal da Megan Fox é meio chutar cachorro morto e tipo... mó gostosinha ela, meu, mas não vale a locação.

A diretora, tipo, eu esqueci o nome dela, mas ela fez aquele Aeon Flux que é outro que, tipo... meu... não rola. O que me deixou triste foi ver o J.K. Simmons, (ator mó firmeza) nessa merda. Tipo, a história é sobre uma mina que é meio vagaba, e se envolve com tipo, uma banda, tipo... emo que vai fazer um pacto com Satã, saca? Só que a mina não é virgem aí dá merda. Tipo, nos Estados Unidos, país que, meu, o bagulho é sempre tenso nas escolas, tipo, com aluno matando gente, Garota Infernal soa tipo uma piada de mal gosto, saca? Mas enfim...

Gostou de ler esses parágrafos? Dúvido, e nem eu gostei de escrevê-los. Mas todos os diálogos de Garota Infernal são ditos dessa maneira, algo que aproxima Diablo Cody de ser um Marcos Mion da vida.

Moral da história: como roteirista, Diablo Cody é uma excelente... ex-stripper.

NOTA: 0

Henry & June - Delírios Eróticos



Henry & June é um clássico do cinema erótico, mas é também um delicado e sensível drama sobre relacionamentos. Baseado no livro de Anaïs Nin, o filme mostra sua vida pacata na França, que muda completamente ao conhecer o escritor americano Henry Miller, e principalmente, sua esposa June, que se tornará a musa de ambos para seus respectivos livros.

Dirigido pelo talentoso e pouco prestigiado Philip Kaufman (de Contos Proibidos do Marquês de Sade e Os Eleitos), Henry & June é visualmente brilhante: a recriação de Paris nos anos 30, quando a cidade apresentava uma mudança cultural gigante (o filme chega a mostrar a estréia de Um Cão Andaluz), é absolutamente perfeita, um espetáculo por si só. Mas Kaufman é um diretor intrigante e corajoso, e não é a toa que 20 anos depois de seu lançamento, as cenas de sexo apresentadas continuam ousadíssimas. Além disso, o plano-sequência simples que o diretor conta para mostrar uma longa passagem de tempo ao alterar um chapéu e um cinzeiro e o momento em que um casal assiste duas lésbicas em um bordel (mostrado num fascinante jogo de espelhos) comprovam a inteligência e sensibilidade do diretor.

Maria de Medeiros é uma atriz de beleza única e de um olhar marcante, e sua atuação como Anaïs Nin é extraordinária e corajosa; e se Frederick Warder faz de Henry Miller um maluquete divertido, Uma Thurman deu a melhor atuação de sua carreira aqui como June (e nenhum outro filme conseguiu deixá-la tão linda e sensual). Vale destacar também a divertida participação de Kevin Spacey.

Filme corajoso, sensual e principalmente maduro, Henry & June apresenta uma fascinante história de amor, que brinca não apenas com a sexualidade de seus personagens, mas também com a relação do artista com o mundo, e June é uma personagem trágica por sua incapacidade de aceitar sua imagem artística do marido e da amante: ou seria o contrário?

NOTA: 10

Dragonball Evolution





Fracasso de crítica e público, Dragonball Evolution é um filme ruim mas não insuportável: o senso de humor que James Wong utiliza no filme no melhor estilo desenho animado é divertido, e mantém a história num ritmo bacana. Mas o roteiro consegue façanhas impressionantes: a tal da lenda das bolas do dragão é contada três vezes em menos de 30 minutos. E a tentativa de transformar Goku num plágio de  Peter Parker é mal-sucedida por dois motivos: Justin Chatwin tem cara de tudo, menos de alguém que apanha no colégio e, principalmente ele não tem metade do talento de Tobey Maguire.

Aliás, todo o elenco de Dragonball Evolution está incrivelmente irregular, e por mais que o roteiro não ajude, não dá para botar toda a culpa nele. Apenas Chow Yun-Fat (ou Yun-Fat Chow?) parece entender a lógica do filme, e ganha o espectador com sua performance exagerada e divertida. Na parte técnica, o filme é bem feito, mas não traz nenhuma novidade em suas cenas de ação, e no final os efeitos especiais decepcionam muito. E por falar no final, é no mínimo curioso que as tais das bolas do dragão desempenhem um papel secundário na história.

Curtíssimo (tem pouco mais de uma hora e dez minutos), Dragonball Evolution não é um completo desastre, mas dá para imaginar o tamanho da decepção dos fãs do desenho com essa adaptação. Felizmente, eu nunca gostei muito do desenho e devo dizer que continuo incomodado com uma história de Piccolo seguindo Goku procurando por bolas...

NOTA: 4

O Último Trem



Assim como Halloween - O Início, O Último Trem é beneficiado pelo seu vilão extremamente brutal, que faz Jason ou Freddy Kruger parecerem ladrõezinhos de ônibus: ao se aproximar de uma mulher indefesa e usando fones de ouvido, ele não exita em aplicar-lhe uma marretada na cabeça. Infelizmente, o roteiro baseado no conto de Clive Barker (que ainda merece uma adaptação digna) falha na construção e na relação entre os personagens, e mais: a direção de Ryuhei Kitamura apesar de ter momentos interessantes, como o plano plongee no apartamento do vilão ou o plano-sequência que o mostra entrando no açougue para revelar o fotógrafo através do reflexo de um caminhão estacionado ao lado, peca pelo  exagero do uso dos fracos efeitos especiais.

Vinnie Jones não precisa se esforçar muito para fazer um vilão decente, e aqui ele está perfeito como o brutamontes Mahogany. Bradley Cooper é um bom ator com grande presença em tela, mas falha em momentos importantes de seu personagem, embora eu acredite que a falha esteja no roteiro. E se a bela Leslie Bibb faz uma atuação pouco marcante, Brooke Shields tem uma ponta que deve ter sido um de seus melhores momentos no cinema.

Contando com um final que não vai agradar a todos, mas que se revela ousado e até divertido, O Último Trem funciona bem como um filme de terror, principalmente no ato final, e na batalha no trem em meio aos cadáveres pendurados, cena que vai deixar os fãs de gore satisfeitíssimos. Infelizmente, o filme não funciona no todo, e mesmo que divirta, decepciona num grau parecido.

NOTA: 6

Sherlock Holmes



Li muito pouco e assisti muito pouco para ter uma opinião bem definida sobre a fidelidade (ou não) deste filme de Guy Ritchie que traz ao público um dos personagens mais clássicos de todos os tempos ao cinema. Dito isso, Sherlock Holmes é muito bem sucedido ao apresentar o personagem a nova geração, com um filme que apesar do exagero na complexidade da trama, é divertido e inteligente o suficiente para se destacar em meio aos blockbusters de sempre.

Interpretado com irreverência por Robert Downey Jr., o Sherlock Holmes de Guy Ritchie é inteligente e sagaz, e sua aparência desarrumada parece ser uma estratégia para disfarçar seu poder de observação, algo que o filme apresenta de maneira divertida. Jude Law merece elogios pela sua performance contida como Watson, e a química entre ele e Downey Jr. é formidável, estabelecendo o forte laço de amizade entre os dois de maneira discreta e perfeita.

Contudo, entretanto, porém, a trama meio Scooby-Doo não chega a ser decepcionante, mas se revela muito menos forte do que o prometido, deixando o desfecho um pouco mais fraco do que o ideal, já que até mesmo a cena de ação envolvendo um navio é mais eletrizante e divertida. Por outro lado, é preciso elogiar o roteiro por se manter fora dos clichês de filmes que reimaginam um herói, fugindo do estereótipo de história de origem.

Com um final alá Batman Begins que já introduz quem será o vilão da continuação, mas nem por isso parece gratuito, Sherlock Holmes é um blockbuster acima da média, principalmente pelo forte elenco e a direção sempre interessante de Guy Ritchie, que utiliza os efeitos especiais com inteligência e constrói cenas de ação de dar inveja. Pode não ser seu melhor trabalho, mas está longe de poder ser ignorado.


NOTA: 8,5

9 - A Salvação



9 - A Salvação tem muito em comum com a melhor animação lançada em 2009, Coraline e o Mundo Secreto. São duas animações que contam com imagens perturbadoras, de clima sombrio, mas que nem por isso devem ser tratadas como filmes não recomendados para criança, já que ambos provavelmente servirão para conversas inteligentes e estimulantes para pais e filhos. Infelizmente, depois de um começo arrebatador, 9 - A Salvação se revela um filme muito mais fraco do que o imaginado, principalmente pelo roteiro que, ao não explorar seus personagens de maneira correta e ao parecer indeciso entre piadas infantis desnecessárias e agradar o público adulto acaba ficando no meio termo entre os dois.

A animação se passa num futuro pós-apocalíptico, após uma guerra entre máquinas e seres-humanos (hum, onde será que já vi isso?). 9 é um dos bonecos criados por um cientista para que a vida continuasse de alguma forma. Logo, ele encontra outros criados pelo cientista, o 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 e 8 (fácil de decorar) e depois de que um deles... ou melhor... o 2 é raptado por uma das máquinas, decide declarar guerra a elas... mas acaba fazendo com que a máquina responsável pelo extermínio da raça humana funcione de volta.

9 conta com imagens fortes e um visual espetacular: logo no início quando 9 anda pelas ruas destruídas, ele vê os restos de uma mãe com um bebê no colo; a 7 tem um capacete feito de um esqueleto de um pássaro morto; e o que dizer da "serpente" cuja cabeça é feito por metade da cabeça de um bebê? Infelizmente, a trama do filme se revela decepcionante, principalmente porque surje de ações estúpidas de seus personagens, e se de início o filme parece manter seus simbolismos de forma sutil, logo através dos diálogos eles ficam explícitos de maneira nada orgânica a narrativa, e para uma animação de visual tão original, é lamentável que a grande máquina vilã da história se revele uma versão de HAL-9000 (de novo). Mesmo assim, com seu desfecho melancólico e surpreendente, 9 - A Salvação se mostra uma animação ambiciosa que com um roteiro mais trabalhado poderia se tornar inesquecível.


NOTA: 6,5

Dominion: Prequel to The Exorcist



Primeiro de tudo: a idéia de fazer uma sequência ou prelúdio de O Exorcista, provavelmente o filme de terror mais bem sucedido de todos os tempos é de uma idiotice única, já que independente do gênero, trata-se de um clássico que não deve nada a grandes clássicos do cinema: alguém faria uma sequência de Casablanca? Um prelúdio de Lawrence da Arábia? (Bom parar aqui pra não ficar dando idéia...)

Fora isso, ao menos esse Dominion: Prequel to The Exorcist (que foi refilmado por Renny Harlin e resultou no péssimo O Exorcista - O Início) dirigido por Paul Shrader tem uma temática forte e apresenta o padre Merrin como um personagem tão fascinante que é impossível ignorar seus pontos fortes, apesar de que para o público em geral serão os defeitos que ficarão mais destacados: os efeitos especiais fraquíssimos (que, convenhamos, poderiam ter sido cortados) são daquele jeito pois o filme nunca foi finalizado. Não que isso sirva de desculpa, mas olhando além dessa questão técnica, devo dizer que o roteiro do filme merece muitos elogios.

Como comentei em O Acompanhante, não sou grande fã de Shrader na direção, mas aqui ele me surpreendeu: apesar de alguns habituais exageros visuais que incomodam (o sonho do protagonista, que é criativo e só serve no ato final), a sequência inicial no Holocausto é uma bela amostra do esforço do diretor. Além disso, Shrader jamais força a mão na parte sobrenatural da história, deixando-a praticamente como uma trama secundária durante boa parte da trama, algo que se revela uma decisão inteligentíssima já que, quando o demônio finalmente aparece, o filme já está num ritmo caótico, algo que só aumenta a tensão.

Mas como comentei, é a inteligência do roteiro que me surpreendeu: e nesse sentido, vale ressaltar que a rima visual entre o nazista executando judeus com o capitão inglês atirando nos africanos não é apenas instigante, mas revela uma das camadas mais interessantes do filme (e que se perdeu completamente em O Exorcista - O Início). Interpretado com sutileza por Stelan Skarsgård, o padre Merrin é atormentado por sua experiência em um vilarejo durante o Holocausto. Sem jamais se desligar oficialmente da igreja, o filme deixa claro como sua fé está abalada, e quando ele revela isso a outro personagem, é de uma maneira inocente, num comentário banal. E o terceiro ato do filme, no qual ele se confronta com o próprio demônio é fortíssimo graças a bela e sutil construção do personagem no roteiro. E nesse ponto, Dominion acerta como uma homenagem ao O Exorcista (já que o confronto é psicologicamente tão forte, que é perfeitamente compreensível que o demônio do filme esteja procurando uma revanche). E por mais incrível que pareça, isso é mais do que o suficiente.

NOTA: 8

Gamer



Gamer é um filme incrivelmente idiota, e por consequência, insanamente divertido. Dirigido pelos mesmos retardados que fizeram Adrenalina, o filme mostra como eles realmente foram fundo no universo dos games para criar essa obra, e não  duvido que a idéia tenha surgido depois de uma noite de bebedeira regada a The Sims e Counter Strike. A história é sobre um prisioneiro que vive em um jogo chamado Slayers: lá, prisioneiros em caso de pena de morte podem ganhar a liberdade depois de passarem por 30 vezes num jogo de guerra. Só que o jogo é de carne e osso, com os presos controlados por jogadores.

Assim como em Adrenalina, grande parte da diversão está no excesso visual e na incrível falta de sutileza dos diretores, que criam cenas absurdas e hilárias, e a explicação para a vodka que Gerard Butler toma antes de uma batalha é minha favorita. E por falar no ator irlandês, ele volta a encarnar o tio Lêonidas de 300, com seriedade e um divertido exagero; mas os exageros de Butler não são nada perto da divertidíssima interpretação de Dext... ops, Michael C. Hall que protagoniza um dos números musicais mais absurdos já concebidos.

Gamer ainda ganha mais humor involuntário pela estranha vontade dos diretores de levarem o tema do filme a sério, e os diálogos que falam sobre "controle da humanidade" ou blablabla's parecidos são tão vazios e exagerados que causam ainda mais risadas. Infelizmente, o excesso visual do filme falha em vários momentos, quando os efeitos especiais se mostram bem mais fracos do que o esperado.

Ganhando um pouco mais de pontos comigo por trazer a sempre linda Alison Lohman no elenco, Gamer está muito longe de ser um grande filme, mas assim como o já citado Adrenalina e Mandando Bala é um filme tão absurdo que diverte como poucos.


NOTA: 7

Tá Rindo do Quê?



Tá Rindo do Quê? é o melhor filme já dirigido por Judd Apatow, um grande elogio para quem já dirigiu os ótimos O Virgem de 40 Anos e Ligeiramente Grávidos. O filme é uma excelente mistura de comédia com drama, que apesar de ser um pouco mais longa do que deveria, consegue ser um filme único e especial: Tá Rindo do Quê? é para a comédia, assim como O Lutador é para a luta-livre. Uma obra que mostra os bastidores da vida de um comediante de sucesso que se vê sozinho ao descobrir que possui uma grave doença e poderá morrer em breve. Ele contrata um jovem promissor para ajudá-lo, e acaba criando amizade com ele, e voltando a rever seus amigos, também reencontra a garota que ele sempre amou.

Se a história parece clichê ou boba, não se engane. O ótimo roteiro consegue desenvolver seus personagens de maneira impressionante: os comediantes interpretados por Adam Sandler e Seth Rogen tem em comum a dificuldade em lidar com pessoas comuns, até mesmo em conversas triviais: se Adam Sandler tem um momento genial logo no início quando é informado de sua doença, Rogen mostra uma grande evolução como ator no momento em que encontra a garota que está afim no apartamento, e não consegue parar de fazer piadas tentando evitar o nervosismo. Já o casal feito por Leslie Mann e Eric Bana são desenvolvidos de maneira inteligente pelo filme, tanto que o final surpreendente só funciona pelo talento dos dois. Já os personagens coadjuvantes são menos intrusivos do que nos filmes anteriores do diretor, e Jason Shwartzman e Jonah Hill tem um ótimo desempenho com seu pouco tempo em tela. Vale a pena comentar também das pontas de diversos comediantes que surgem em cena de maneira natural e divertida, passando por Paul Reiser, Norm MacDonald, até Eminem e Ray Romano (que tem uma das cenas mais engraçadas do filme).

E Judd Apatow merece muitos elogios pela direção do filme que se mostra muito mais firme do que o habitual, e a escolha de Janusz Kaminski para a fotografia foi extremamente feliz, já que o eterno parceiro de Spielberg e diretor de fotografia do genial O Escafandro e a Borboleta confere um visual perfeito para a obra, que infelizmente foi pouco vista, e nem um pouco admirada como merecia.


NOTA: 9

A Verdade Nua e Crua



Acho que ainda sou muito ingênuo para assistir comédias românticas: eu realmente achava que A Verdade Nua e Crua iria conseguir sair do lugar comum do final de sempre, já que a trama bacana somada aos divertidos protagonistas mereciam não apenas um desfecho melhor, como também conseguiram durante boa parte da história fugir dos irritantes clichês que estragaram filmes como A Proposta ou Ele não está tão afim de Você.

Dirigido por Robert Luketic (de Legalmente Loira), o filme conta a mesma história do trailer: Katherine Heigl é a produtora de um programa de TV que vê sua audiência cair cada vez mais, e é obrigada pela emissora a chamar o comentarista ogro interpretado de forma divertidíssima por Gerard Butler. Só que ela acaba precisando dos conselhos dele para conquistar o homem dos seus sonhos, que acaba de se mudar para o apartamento ao lado.

Enquanto se concentra nessa situação, o filme é realmente divertidíssimo, e mesmo os exageros para fazer rir acabam funcionando, graças ao carisma da dupla de protagonistas. E Katherine Heigl dá um show na cena do jantar em que usa a calcinha vibradora, ganhando com vantagem da clássica cena do orgasmo fingido de Meg Ryan no restaurante em Harry & Sally. É uma pena que na meia hora final, tudo se resolva de maneira besta, traindo a boa construção dos personagens feita pelos atores (embora eu tenha ficado agradavelmente surpreso pelo roteiro não ter estragado os personagens no meio disso). Enfim, A Verdade Nua e Crua é um filme divertido, mas ainda tenho a sensação de que iria gostar mais se tivese dormido na meia hora final.

NOTA: 7

Informers - Geração Perdida



Filmes sobre vários personagens cujas histórias se cruzam em meio a cidade de Los Angeles já são quase um sub-gênero em si: no final do ano passado tivemos este Informers - Geração Perdida e o fraco Ponto de Partida, filhotes de filmes como Crash - No Limite, Magnólia ou L.A. Story. Dirigido por Gregor Jordan, este Informers - Geração Perdida tem muito em comum com as falhas de Ponto de Partida, mesmo sendo infinitamente superior.

Vale comentar que o filme é uma adaptação do livro de Bret Easton Ellis, mesmo autor que deu origem a Psicopata Americano e Regras da Atração. Se esses dois filmes tem o humor negro incorretíssimo em comum, em Informers a piada parece ter perdido a graça. O autor volta a falar dos anos 80, do início da AIDS, da sociedade rica mergulhada em orgias e cocaína, mas ao invés do comentário crítico e bem humorado, aqui o autor parece mostrar que a decadência dos Estados Unidos já havia começado muito antes do que se imaginava.

É praticamente impossível elogiar todos do excelente elenco, que mesmo com maior ou menos destaque realizam um trabalho perfeito, mas acredito que Billy Bob Thornton, Amber Heard e a sinistra figura interpretada por Mickey Rourke são os grandes destaques (embora minha história favorita seja a surpreendente trama do roqueiro decadente interpretado por Mel Raido). Aliás, vale comentar também a ótima atuação de Brad Renfro.

Com um final em aberto que certamente vai irritar muita gente, principalmente pela sensação de uma história que não é contada até o final, Informers - Geração Perdida mostra justamente ali sua coragem: o filme é um apanhado de diversas situações que se ligavam de maneira dolorosa e dramática, e ao encerrar com a imagem da bela garota já numa situação terrível (principalmente, se compararmos a abertura do filme, com o rapaz sendo morto por se distrair com ela) se transforma num filme, no mínimo intrigante e muito, mas muito triste.


NOTA: 8

O Acompanhante



Paul Schrader é um roteirista genial, de carreira invejável: basta observar suas parcerias com Martin Scorsese, Taxi Driver, Touro Indomável, Vivendo no Limite, A Última Tentação de Cristo para observar não apenas seu talento para realizar obras ímpares. Infelizmente, sua carreira como diretor não é tão grandiosa, e são raros os filmes realmente memoráveis de Schrader na direção: Temporada de Caça, Gigolô Americano e este O Acompanhante que tem um irônico defeito: merecia ser dirigido por outra pessoa.

Não que o trabalho de Schrader no filme não seja digno de mérito, mas em algumas cenas O Acompanhante parece ser uma obra feita nos anos 70 (no mal sentido): como a cena de perseguição, ou uma discussão entre o protagonista e seu namorado, quando Schrader exagera no exibicionismo visual, enfraquecendo a cena.

Por outro lado, O Acompanhante se mostra um filme fascinante e muito mais ambicioso do que pode parecer, e Schader não mede meias palavras para acusar o governo norte-americano (a.k.a. Bush) de racismo, homofobia e machismo. Carter Page III (Woody Harrelson) vem de uma família de grande influência na política em Washington, mas é visto como uma ovelha negra, principalmente pela sua opção sexual. Quando o amante de uma amiga é encontrado morto, Page decide proteger a amiga (que é esposa de um senador liberal) para evitar um escândalo político, mas começa a ser visto como o principal suspeito do crime. Woody Harrelson, um ator sempre genial, cria um personagem forte e fascinante, praticamente incapaz de parecer nervoso, e cujas mágoas com sua família vão se revelando cada vez mais profundas e complexas, se torna sem dificuldade em uma figura trágica perfeita para o filme.

Com um desfecho memorável e extremamente crítico, O Acompanhante certamente não vai agradar a todo o público, mas insisto que o filme merece uma chance, seja pela sua ousadia temática quanto pela lábia afiada de Schrader, que poucas vezes se mostrou tão pouco sutil e tão agressiva.

NOTA: 8

Frost/Nixon



Dono de uma carreira irregular, repleta de sucessos comerciais mas artisticamente fracos, o diretor Ron Howard fez em Frost/Nixon seu filme mais maduro e interessante, ao trabalhar em parceria com o roteirista Peter Morgan (de A Rainha e O Último Rei da Escócia). Morgan parece estar se tornando um especialista em recriar os bastidores de escândalos políticos, e o melhor: de maneira respeitosa, jamais usando de panfletarismo barato.

Infelizmente, o roteirista errou a mão ao usar de desnecessárias entrevistas dos personagens, algo que surge pior do que uma típica narração em off, já que as entrevistas apenas complementam coisas que foram (ou serão) ditas no filme. Por outro lado, Morgan acerta perfeitamente na construção dos bastidores da entrevista, algo que Howard consegue mostrar muito bem, tornando o filme ágil e surpreendentemente tenso.

Frank Langella cria uma versão interessante de Nixon, arrogante e absolutamente incapaz de conversar de maneira comum com alguém, e até suas piadas surgem como grandes embaraços. Porém, Michael Sheen tem uma atuação muito superior a de Langella, e é uma pena que ele tenha sido esquecido nas premiações, já que ele torna David Frost o personagem mais fascinante do filme. Fechando o elenco, Kevin Bacon e Sam Rockewll são outros destaques no filme (em especial o primeiro, cuja última cena é o grande destaque).

Mesmo não sendo um filme perfeito, Frost/Nixon mostra que Ron Howard pode realizar obras muito mais ambiciosas e interessantes do que costumava fazer. Pena que logo depois daqui foi fazer Anjos e Demônios e exibiu seus velhos vícios de um diretor que parece seguir um manual de instruções gigante antes de gritar 'Ação' no set.


NOTA: 7,5

Ponto de Partida



É um drama-emo (ou emo-drama?), que através de diálogos expositivos demais, e uma trilha sonora chamativa tenta fazer o espectador chorar do início ao fim. Ponto de Partida é um típico filme solidão nas grandes cidades (no caso, Los Angeles) que não consegue sair do comum, e embora tenha personagens realmente interessantes, o roteiro cria mistérios desnecessários e esclarece situações em flashbacks constrangedores.

A começar pelo personagem de Forest Whitaker, um suicida biruta que só não irrita o espectador, pois o carisma do ator somado a seu olhar instável fazem nos apiedar dele. E por mais que eu admire a história do que realmente aconteceu com ele, devo dizer que o flashback que explica isso no final rouba descaradamente um marcante diálogo de Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças. Jessica Biel também consegue um ótimo desempenho, provavelmente o melhor de sua carreira. E se as participações de Lisa Kudrow e Kris Kristofferson não fedem nem cheiram, os destaques do filme são Ray Liotta, numa interpretação contida e sensível e Eddie Redmayne que transforma seu personagem esquisitão na única figura trágica que o filme consegue retratar sem exageros.  E a atuação exagerada e divertida do falecido Patrick Swayze é outro ponto positivo.

Ponto de Partida tem vários bons momentos, como todos os diálogos entre Liotta e Biel, e o encontro do cachorro perdido, mas o diretor parece não confiar em suas cenas, e utiliza a trilha sonora de maneira inadequada e incômoda. O resultado final é um filme que apesar de bonito visualmente e com performances excelentes, é um filme vazio e com um dos piores e mais forçados desfechos do cinema atualmente.

NOTA: 4

JCVD



JCVD não é apenas o melhor filme em que Jean-Claude Van Damme atuou, e ele não tem apenas sua melhor atuação aqui: JCVD é um verdadeiro exemplo de um filme corajoso em sua linguagem, que mesmo com seus escassos problemas no roteiro (mais sobre isso adiante), consegue prender a atenção do espectador ao fazê-lo sentir que está conhecendo o astro. O filme provavelmente vai ser lembrado pela atuação de Van Damme, mas insisto que o melhor de tudo é a direção firme e inventiva de Mabrouk El Mechri. O filme mostra a situação de Van Damme ao fim das filmagens, quando também enfrenta uma batalha judicial pela guarda da filha e falido. Ao entrar num escritório dos correios, tiros são disparados, e a polícia acredita que ele seja o sequestrador.

Mabrouk El Mechri já demonstra seu talento como diretor na cena inicial, em um divertido plano-sequência que termina de maneira extremamente cínica, ao mostrar o diretor oriental sem olhar para o monitor, e sim concentrado em um jogo de tiro-ao-alvo onde no meio está escrito Hollywood. Uma cena econômica, na qual Van Damme parece estar mostrando o tipo de pessoas com quem ele vinha trabalhando. E se o roteiro falha ao apresentar personagens que deveriam ter mais importância (como as vítimas do sequestro), o diretor compensa isso com cenas rápidas que salientam o caos da situação (ou seja, não conhecemos os personagens porque não havia tempo para isso).

Mas é impossível negar os vários méritos do ator belga Jean-Claude Van Damme: mesmo que seu trabalho pareça fácil (atuar a si mesmo), nada pode ser mais desafiador para um ator do que isso, afinal ele não apenas tem que 'se atuar' mas também encarnar a persona que o público imagina dele. Logo, Van Damme faz uma atuação corajosa que jamais procura suavizar sua persona: demonstrando um temperamento um tanto instável e facilmente irritado, o ator também mostra uma faceta bastante desagradável na cena do julgamento, principalmente ao não olhar para a filha depois de seu depoimento.

JCVD ainda encontra espaço para fazer uma curiosa brincadeira meta-linguística quando no início do terceiro ato, somos surpreendidos com um monólogo simples e emocionante do ator, que eleva o filme a outro patamar. Se de início estávamos apenas vendo o primeiro grande filme de Van Damme, depois disso temos a certeza de que testemunhamos algo de muito especial, principalmente depois da extraordinária cena final.


NOTA: 10

A Proposta (2009)



" - Alo, oi aqui é a Sandra Bullock e eu só tenho feito comédias românticas fazendo praticamente a mesma personagem... será que tem como fazer uma dessas, só que com uma personagem diferente? Tipo o da Meryl Streep em O Diabo Veste Prada?"

Tá, eu inventei esse diálogo, mas foi essa a impressão que A Proposta me passou. Mesmo assim, não é um filme ruim, aliás é bem divertido, principalmente pela química da atriz com Ryan Reynolds (que já mostrou sua competência como ator no ótimo O Número 9). Além disso, o personagem Ramone, interpretado por Oscar Nuñez é capaz de garantir ótimas gargalhadas. Mas o filme brinca com um tema não muito divertido e de forma até grosseira (a galerinha que se casa só para obter visto permanente nos Estados Unidos), e se tomasse mais cuidado nessa parte, certamente seria muito melhor.

Dirigido por Anne Fletcher, A Proposta começa bem, apresentando a trama principal de maneira econômica (em menos de quinze minutos), mas se o roteiro até merece elogios pela birutice de algumas cenas (a gag envolvendo uma águia e um cachorro é divertidíssima), por outro lado o drama familiar dos personagens e suas motivações para fazer a birutice de se casarem jamais soam sequer plausíveis, e exige um esforço danado do espectador para se interessar pela história até o final. E por falar em final, A Proposta também deve ter um dos finais mais decepcionantes que já vi em uma comédia romântica, já que desperdiça um final maduro por um que parece bonitinho, mas que fura toda a lógica da trama.

Mesmo assim, até vale uma conferida.

NOTA: 6

As Torres Gêmeas



Diretor de currículo invejável e de fortes opiniões políticas, Oliver Stone parece ter se perdido completamente em seus últimos filmes, como Alexandre e esse As Torres Gêmeas, que não é um filme ruim, mas tem raríssimos momentos que mostram o talento do diretor. O filme acompanha uma equipe policial que acaba sendo uma das primeiras a entrar no World Trade Center para ajudar na evacuação. Porém, logo após a primeira explosão, apenas dois deles sobrevivem (Nicolas Cage e Michael Peña) em meio aos escombros.

Em seu início, As Torres Gêmeas é excelente: mostrando o amanhecer na cidade e os diversos personagens se preparando para seu dia no trabalho, a legenda que apresenta a data 11/09/2001 por si só acaba causando impacto. Além disso, a montagem nesse início apresenta suas cenas com paciência, e a maneira como Stone filmou os aviões batendo nas torres foi, no mínimo, uma escolha respeitosa e elegante. Infelizmente, depois deste início promissor, o filme adota uma estrutura aborrecida de flashbacks que atrapalha completamente a maneira como a trama caminhava.

Mas ainda pior: numa legenda que aparece no final do filme, somos informados que houveram 20 pessoas resgatadas com vida nos escombros do World Trade Center. Ou seja, porque um diretor ousado e que já havia demonstrado um controle invejável em tramas complexas (como JFK, por exemplo) decidiu contar a história de apenas dois destes sobreviventes? Afinal, se a ambição do filme era justamente ser um retrato da solidariedade do povo de Nova York após a tragédia, porque não relembrar de todos os que tentaram salvar pessoas e acabaram ficando presos em meio aos escombros?

Mesmo assim, As Torres Gêmeas tem momentos fortes e emocionantes, como o plano "Google Earth" de Nova York que em seguida mostra o espanto da notícia em diversas regiões do mundo. E mais uma vez, cade o Oliver Stone que realizou Platoon e Assassinos por Natureza? Ora, o mínimo que se esperaria de um diretor de currículo repleto de obras marcadas pelas suas polêmicas posições políticas seria um comentário sobre como o presidente Bush, através de discursos estúpidos e repletos de ódio conseguiu a proeza de transformar o seu país que foi atacado como o vilão da história. E as polêmicas envolvendo o fato de que as torres pareceram (muito) terem sido implodidas, somada com o fato pouco lembrado de que um terceiro prédio foi ao chão aquele dia (também implodido) são apenas citados de maneira discreta pelo filme, o que também é uma pena. Enfim, As Torres Gêmeas é um bom filme, mas que empalidece feio se comparado a Vôo United 93 de Paul Greengrass, e também diante de qualquer outro filme de Oliver Stone. Uma pena.

NOTA: 6,5

Papai Noel às Avessas



Convenhamos, já que acabamos de passar pelo ano novo: o Natal é um saco. Seja em seu significado religioso ou (principalmente) na publicidade da data, não tem como começar o mês de dezembro já lamentando ao pensar nas filas das lojas e na grana que é gasta. Enfim, era apenas uma questão de tempo até que alguém fizesse uma comédia de humor negro usando essa data. E chegou nessa comédia engraçadíssima e politicamente incorretíssima cujo argumento foi concebido pelos irmãos Coen.

Dirigido por Terry Zwigoff (de Ghost World), o filme mostra o golpe dos personagens de Billy Bob Thornton e Tony Cox: disfarçados de Papai Noel e um Duende, eles aproveitam para roubar os shoppings centers onde trabalham no último dia de natal, durante alguns anos. Quando eles vão para Phoenix aplicar o mesmo golpe, um garoto obeso e de vida incrivelmente azarada acaba se aproximando de Willie (Thornton) e os dois começam uma "amizade" que aos poucos vai perdendo as aspas.

Ok, pela sinopse você pensou "Ah, mas ele fica bonzinho?". Bom, se prepare para ouvir milhões de piadas sobre sexo anal, DST's através de Willie, um alcólatra, tarado por gordinhas que não pensa duas vezes antes de responder ao ser questionado por uma criança de ter uma barba falsa de que ela caiu, por ter contraído uma doença venérea ao transar com a irmã da Mamãe Noel. O que o filme tem de defeitos são alguns elementos que não contribuem para o filme, como a garota com tara por Papai Noel, que força um romance que não funciona, ou as diversas piadas com a vó do garotinho: só a cena em que ela parece estar morta é realmente boa.

De qualquer maneira, Papai Noel às Avessas é o melhor filme natalino que eu já vi na vida, e ao conseguir fazer um personagem tão marginal e errado da cabeça conseguir uma redenção (que é até divertida), já faz mais pela data do que qualquer Expresso Polar ou caralhos a quatro já fizeram: afinal, o Natal devia ser um tempo de lembrarmos das pessoas ao nosso redor, seja família ou amigos, e não filas de lojas ou o quanto gastamos em presentes.

NOTA: 9

Sexo, Mentiras e Videotape



O filme é considerado um marco na história do cinema independente americano, e deve ser mesmo. Basta assistir a Sexo, Mentiras e Videotape e pensar na dificuldade que ainda existe em se discutir abertamente a sexualidade na nossa sociedade atual e pensar como era isso a vinte anos atrás para reconhecer não apenas a qualidade do roteiro, como sua coragem em abordar temas polêmicos com naturalidade e inteligência.

Primeiro longa-metragem do talentoso Seteven Soderbergh, o filme conta a história de Ann, uma dona de casa cuja depressão a levou a perder o desejo sexual. Seu marido, John, acaba com isso tendo um caso com sua irmã mais nova, Cynthia, algo que ela desconfia. Mas seu problema é com o convite que John faz para um velho colega de faculdade, Graham, que depois de nove anos sem rever o amigo, acaba percebendo que nada mais tem em comum com ele, mas logo inicia uma grande amizade com Ann, e acabam se tornando confidentes. O detalhe é que Graham é impotente, e a única maneira de obter prazer sexual é através de fitas em que ele grava mulheres falando sobre sexo, algo que choca Ann principalmente, mas atrai logo sua irmã.

Andie McDowell interpreta Ann com delicadeza, tornando-a uma personagem adorável, mas que logo depois da metade parece se converter numa figura fechada e ambígua, numa mudança sutil bem construída pela atriz, enquanto Peter Gallagher e Laura San Giacomo atuam bem em seus papéis de "vilões" da história inicialmente, mas logo ganham grandes dimensões dramáticas graças ao roteiro. Mas o grande destaque mesmo é James Spader que numa de suas grandes atuações de sua carreira (competindo com Crash - Estranhos Prazeres e Secretária) consegue criar um personagem extraordinário, e que poderia facilmente ser visto como um simples esquisitão por um outro ator. Pelo contrário, aliás: Spader adota um tom de voz calmo e suave e utiliza um olhar bondoso e sereno que contrasta fortemente com seus estranhos impulsos sexuais. Mas suas melhores cenas são quando o filme o mostra entrevistando garotas para suas fitas de vídeo: nesses momentos, observem que o ator muda sua voz e até mesmo sua postura, como se criasse um personagem assim que apertasse o botão de gravar da câmera.

Inteligente, sensual e divertidíssimo, Sexo, Mentiras e Videotape é um verdadeiro tesouro do cinema americano e que pode parecer datado para a geração que nasceu com a Internet e não sabe o que era falar de sexo quando não havia os meios fáceis que existem hoje em dia. Mesmo assim, merece ser conferido pela direção de Soderbergh, que já mostrava ali ter um talento extraordinário e, principalmente, pelas atuações brilhantes de seu elenco.

NOTA: 10

Apenas Uma Vez



Apenas Uma Vez tem um mérito inegável: com baixo orçamento compensado pelo talento dos envolvidos, conseguiu o que Hollywood sempre tentou em seus filmes musicais: envolver os personagens e as músicas de maneira natural e envolvente. As músicas compostas para o filme por Glen Hansard e Marketa Irglova (que também protagonizam o filme) são simples e belíssimas, e escritas com sensibilidade e entrega total, algo raro de encontrar na música atualmente.

Escrito e dirigido por John Carney, o filme conta a história de um músico de rua (Hansard) que conhece uma vendedora de flores que também possui um grande talento musical (Irglova). Enquanto os dois parecem se apaixonar, o músico decide fazer uma gravação de suas músicas em um estúdio com a participação da garota no piano.

O filme usa de uma simplicidade tocante para contar a história de amor entre os dois: logo após se conhecerem, enquanto os dois compõem suas músicas, perceba como ambos começam a ouvir a voz um do outro nos backing vocals. Além disso, uma das cenas mais tocantes do filme é quando o músico compõem uma música em frente ao computador: se de início parece que ele está gravando a música, somos surpreendidos ao ver o que na verdade ele estava vendo. Glen Hansard e Marketa Irglova podem não ser atores, mas dão performances dignas de Oscar, repletas de talento e sutilezas, e destaco o momento em que o músico ouve pela primeira vez uma música composta pela garota.

Carney fez um filme magnífico com simplicidade e enorme carinho pelos personagens, algo que é sentido desde os primeiros segundos do filme. É claro que essa "simplicidade" esconde uma genialidade incrível, como o plano sequência que apresenta a garota, ou o momento em que ela anda pelas ruas cantando sua primeira composição. Moulin Rouge, Chicago e afins ficaram no chinelo, e bonito.


NOTA: 10

Além do Azul



Além do Azul é um mockumentary experimental que se não tivesse a inteligência de Werner Herzog em seu comando, provavelmente seria um filme facilmente esquecível. Apenas as doses de humor do diretor, somado com sua caótica visão do mundo são capazes de prender alguma atenção. Aliás, minto: a atuação de Brad Dourif como o alienígena que narra o documentário é sensacional: se não caímos na gargalhada quando o personagem diz que veio dos confins de Andrômeda é pela presença forte e incômoda do ator.

O filme tem seus momentos divertidos, como a lógica dos alienígenas em se aproximar dos humanos construindo shopping centers, mas é também cheio de divagações sobre a ordem caótica do universo, e um diretor da capacidade de Herzog deveria saber que é impossível levar a sério o que é dito num documentário-falso, algo que só atrapalha os momentos em que mostra entrevistas com cientistas que falam sobre a mobilidade no espaço sideral.

Além do Azul também tem cenas interessantes mostrando o convívio dos astronautas em sua nave, e de quando chegam ao planeta de céu congelado, mas o diretor parece estar brincando com estas cenas assim como Ed Wood reaproveitava cenas do chão da sala de montagem das produtoras, e cria cenas longas em que o diretor confia demais na trilha sonora para manter a atenção do público. O filme foi um tiro no escuro, que realmente não deu certo. Poderia render um curta-metragem interessante talvez. Mesmo assim, gostei de ouvir o que Herzog tinha pra dizer, só não pretendo assistir de novo.

NOTA: 5

O Grande Chefe



Comédia divertida e até despretensiosa para os altos padrões de Lars Von Trier. Sua trama farsesca conta a história de um ator que é contratado para assumir o papel de chefe de uma empresa, sendo que o homem que o contratou é o chefe de verdade, mas nunca contou a ninguém para que assim tivesse mais autoridade para manipulá-los.

O Grande Chefe tem uma brincadeira curiosa com a linguagem cinematográfica, como a narração do próprio Von Trier, mas esses são os pontos mais fracos do filme, já que o elenco surpreende e muito com suas divertidas interpretações, com claro destaque a Peter Gantzler e Jens Albinus como os protagonistas (e vale lembrar da presença da belíssima Iben Hjejle, musa de Alta Fidelidade). Utilizando um estilo de filmagem bizarro (lembra o estio das cenas musicais de Dançando no Escuro, com várias câmeras filmando a mesma cena), o filme também é visualmente interessante, o que é uma característica habitual do diretor.

O Grande Chefe também possui uma forte crítica a velha mentira corporativa de que os empregados formam uma família, algo que o filme satiriza de maneira hilária, mas há também uma brincadeira sacana de Lars Von Trier com o personagem do ator. Talvez depois de passar por tantas brigas de ego com atores em Dançando no Escuro ou em Dogville essa seja sua vingança. De qualquer maneira, é divertidíssimo.

NOTA: 8,5

Half Nelson



Half Nelson segue a história de Dan, professor de escola pública viciado em drogas que acaba sendo flagrado por uma aluna fumando crack. Aos poucos, ele e sua aluna começam uma curiosa amizade, ao mesmo tempo em que Dan tenta fazer seus alunos pensarem de maneira diferenciada sobre o movimento dos Direitos Civis nos Estados Unidos, procurando uma mudança em pelo menos um de seus alunos, enquanto entra fundo no inferno das drogas.

Começando com um tom tragi-cômico, aos poucos Half Nelson se mostra um drama complexo que jamais esquece de seus dilemas: ao mesmo tempo em que o filme mostra Dan como um personagem inofensivo, no terceiro ato vemos uma cena que deixa clara sua participação extremamente negativa para com a sua aluna, e pior, para com a sua comunidade ao financiar as drogas, e portanto o meio em que sua aluna vive. Ryan Gosling mostra mais uma vez que é o melhor ator de sua geração (vejam A Garota Ideal) com uma interpretação angustiante e sutil. Além disso, o filme tem uma montagem que faz das mais simples transições em recursos inteligentes.

Falhando um pouco apenas no desfecho (que resolve a situação dos personagens de forma curiosa, mas não fecha várias pontas soltas), Half Nelson é mais um exemplo do que o cinema independente americano é capaz de fazer quando não está preocupado demais fazendo filmes sobre famílias esquisitas e suas histórias desinteressantes.

NOTA: 9,5

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