A Última Noite (2003)


Monty Brogan (Edward Norton) é um traficante que acaba sendo pego pela polícia, e é condenado a sete anos de prisão. Em seu último dia de liberdade, em meio a desconfiança de que sua namorada o entregou, ele se reúne com seu pai, e seus dois amigos de infância para se preparar para sua ida para o inferno, uma prisão super-lotada com 200 homens por cela e beliches nos ginásios para preencher o excedente.

Em uma cena, seus dois amigos conversam sobre o destino de Monty, enquanto os destroços do World Trade Center servem de fundo. Quando um deles comenta que não acredita que o amigo será preso, o outro rapidamente responde que o ama como um irmão, mas ele merece; que apesar de Monty ser seu amigo, ele ganhou a vida com a desgraça de outros.

Primeiro longa-metragem filmado em Nova York após a tragédia do 11 de setembro, A Última Noite poderia muito bem deixar de lado este fato, mas Spike Lee encara a tragédia de frente: seja nos créditos ao mostrar luzes representando as Torres Gêmeas de maneira fantasmagórica ou na bela criação dramática de seu protagonista, que remete diretamente ao sentimento de desilusão que o ataque terrorista despertou nos norte-americanos. 

E em meio ao belíssimo roteiro de David Benioff (que se perdeu completamente depois deste filme), ainda há momentos brilhantes, como o fabuloso monólogo de Monty em frente ao espelho, cena que não só comprova o talento notável de Edward Norton, que mais uma vez realiza um trabalho extraordinário, como também se destaca como uma das grandes cenas já filmadas por Spike Lee, o que não é pouco para um diretor com obras como Faça a Coisa Certa ou Malcolm X, por exemplo.

Contando ainda com um desfecho absurdamente poderoso, A Última Noite também se destaca pelas performances de todo o elenco, principalmente o subestimado Barry Pepper, que faz o personagem mais complexo da trama e Brian Cox, que em suas poucas cenas, exibe todo o carinho de um pai pelo filho, incluindo ainda um terrível sentimento de culpa pela tragédia do filho. Filme notável e perfeito, que foi ignorado pela crítica na época de seu lançamento, principalmente por evocar demais o 11 de setembro. Curiosamente, é isso que está fazendo o filme envelhecer tão bem.

NOTA: 10

A Partida


Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2009, A Partida é um drama, que com suas pitadas de romance e comédia bem equilibradas fazem do filme uma experiência única e envolvente. Dirigido por Yojiro Takita, A Partida conta a história de Daigo, um músico frustrado que volta com a mulher para sua cidade natal e consegue um emprego incomum: ele será assistente de um idoso que realiza o ritual de acondicionamento, ou seja, a preparação para o morto para que ele seja colocado no caixão, ritual este que é envolvido de enorme beleza plástica, mas é visto como algo inferior para a capacidade do rapaz.

O filme conta com metáforas visuais fascinantes desde o início: reparem como o divertido incidente com o polvo mostra de maneira inteligente o estado de espírito dos personagens. A esposa de Daigo encosta nele e descobre que está vivo, e quando Daigo o devolve para a água, acaba morrendo - ou seja, sua esposa dá vida ao que toca, enquanto Daigo provoca morte, metáfora que se tornará ainda mais profunda e complexa com a temática em geral.

Além disso, o filme sempre trabalha de maneira original e inusitada, com resultados extremamente positivos. E é mais do que perfeito que o primeiro trabalho de Daigo seja com uma mulher em estado de decomposição: ao chegar em casa depois e ver uma galinha morta, o personagem demonstra uma carência física impressionante e comovente.

Contando com cenas de funerais espetaculares e emocionantes, desde o bizarro incidente envolvendo o funeral de um garoto que se vestia de mulher (que possui um desfecho magnífico) até o inusitado funeral de uma senhora que ganha uma despedida emocionante de várias estudantes, A Partida é um belíssimo filme sobre nossa relação com a vida e a morte. E que seja tão otimista em seu desfecho melancólico, é só uma pequena prova do imenso talento exibido na obra.

NOTA: 10

A Estrada


Onde os Fracos Não Têm Vez, brilhante adaptação dos irmãos Coen para a obra de Cormac McCarthy, o filme parecia falar sobre o que a humanidade tem de pior em si, e não é a toa que os poucos atos de bondade vistos naquela obra, eram as principais razões para que eles entrassem nas terríveis situações ao longo da história. Em A Estrada acontece o oposto: em meio a total devastação, onde pouquíssimos seres humanos continuam vivos, acompanhamos a jornada de um pai e seu filho rumo ao sul. A obra frisa o que a humanidade tem de melhor em tempos de destruição e morte.

Dirigido por John Hillcoat, do excelente A Proposta, o filme não facilita em nada sua história para o público, criando um visual sufocante e, provavelmente, a mais assustadora visão pós-apocalíptica já feita na história do cinema. Além disso, o diretor demonstra coragem ao não diminuir em nada o clima violento do livro, e a cena em que o pai se depara várias pessoas presas em um porão para serem devoradas dificilmente vai sair da cabeça de quem assistir. Outra decisão inteligente do diretor é mostrar aos poucos a extensão da destruição que toma conta do planeta, utilizando planos gerais cada vez maiores conforme o filme passa.

O roteiro acerta ao manter a simplicidade tocante dos diálogos do livro, como a constante preocupação do filho em saber se eles eram "os caras do bem", e as poucas mudanças feitas (como a participação maior da mãe, vivida por Charlize Theron) se mostram não apenas bem pensadas, como também fundamentais para o tom do filme. Além disso, Nick Cave e Warren Ellis realizam uma trilha sonora absolutamente perfeita, superando até mesmo o belíssimo trabalho feito em O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford.

Mas o filme jamais chegaria em sua perfeição se não fosse as performances incríveis dos atores: Viggo Mortensen, ator que desde Marcas da Violência vem se mostrando um dos mais talentosos da atualidade, vive o pai com imensa entrega física e emocional, acompanhado de perto por Kodi Smit-McPhee, que vive o filho com imensa sensibilidade, e acertando em jamais se preocupar em parecer mais maduro do que realmente é (erro comum em personagens mirins desse tipo), se entregando a um choro intenso, por exemplo, logo no início. E além deles, Guy Pearce, Robert Duvall e Michael K. Willians brilham em suas pequenas e marcantes participações.

Angustiante e extremamente emocionante, A Estrada é certamente o filme mais subestimado no Oscar desse ano (já que estreou no ano passado nos Estados Unidos), e se iguala em força e intensidade com outra obra-prima que passou batida a alguns anos atrás: o fantástico Filhos da Esperança

NOTA: 10

As Melhores Coisas do Mundo


Laís Bodanzky definitivamente não poderia fazer um contraponto maior ao seu filme anterior, o ótimo Chega de Saudade do que neste As Melhores Coisas do Mundo. Mostrando o mundo acéfalo e descerebrado adolescente com talento e sensibilidade, a diretora cria também um contraponto a idiotices como Garotas sem Rumo, onde os adolescentes são mostrados como completos imbecis quando na verdade... não são completos...

Protagonizado pelo estreante Francisco Miguez (grande revelação do projeto), o filme conta a história de Mano, um jovem de 15 anos que começa a sofrer as turbulências da puberdade, ao mesmo tempo em que seus pais se divorciam porque seu pai resolveu assumir seu romance com um rapaz. Em meio a isso, sua melhor amiga se apaixona por um professor, e a garota pela qual ele é apaixonado acaba "caindo na net" (sacaram, né?).

O melhor do filme é o roteiro, que evita ao máximo parecer complexo, e exibe uma corajosa simplicidade para retratar aquele mundo. Por outro lado, a trama do irmão de Mano, vivido por... Fiuk é aborrecida e se não atrapalha no início, acaba fazendo o final do filme ser arrastado pela atenção desnecessária que ganha (afinal, é a única trama que não parece natural na história).

Contando ainda com boas atuações de Paulo Vilhena (que tem o melhor personagem e as melhores cenas do filme) e Caio Blat, As Melhores Coisas do Mundo é um belo exemplo de como tem gente talentosa no cinema nacional e como faz tempo que filme brasileiros não são violões de uma nota só, como tem imbecil por aí que acusa...

PS: Fiuk deve ser o primeiro "ator" a usar o nick de msn como nome artístico.

NOTA: 8

Perseguindo um Sonho


Hipocrisia é foda: Perseguindo um Sonho foi lançado direto em DVD sem nenhum alarde, e com o seguinte comentário na capa: "dos criadores de Half Nelson". Agora procurem quando que Half Nelson foi lançado nos cinemas ou em DVD. Hum-HUM.

Dito isso, Perseguindo um Sonho é o novo filme de Ryan Fleck e Anna Boden, roteiristas do excelente Half Nelson, que aqui também dividem os créditos na direção. Contando a história real de Miguel 'Sugar' Santos, um jovem de 20 anos da Republica Dominicana que dedica sua vida a jogar baseball. Depois de ser chamado para um treino nos Estados Unidos, ele acaba sendo convocado para o time da primeira divisão. Mas Sugar começa a sentir a pressão, não apenas da responsabilidade que ganhou em tão pouco tempo, mas também pela sua dificuldade de aprender o idioma e por seus amigos estarem sendo mandados embora.

Não se preocupe: esse não é o típico filme de jogador pobre que fica famoso e descobre que era mais feliz quando era pobre. Ryan Fleck e Anna Boden exibem logo de início o personagem como um rapaz repleto de falhas, principalmente sua vaidade e seu orgulho, o que causará a maioria de seus problemas, diga-se de passagem. 

Mas por trás da simplicidade da história, está um belíssimo filme sobre um jovem tentando encontrar seu destino, e a "reviravolta" surpreendente que acontece no meio da história deixa isso claro. Criado a vida inteira por seu pai e sua mãe para jogar baseball, Sugar teve que sacrificar seus estudos e até mesmo o contato com sua família para se dedicar ao esporte. E se de início, é tocante que o jovem se mostre realmente dedicado ao esporte, logo começa a questionar suas escolhas (mesmo que jamais culpe seus pais), logo demonstra uma triste falta de maturidade (que é mostrada na maneira como ele abraça o senhor que o hospeda, por exemplo) que será fundamental não apenas para o filme finalmente revelar seu objetivo, como também como uma lição de humanidade bem diferente do que Hollywood normalmente produz.

E ao exibir no desfecho, vários jogadores latino-americanos que acabaram no mesmo dilema do protagonista, Perseguindo um Sonho se revela uma obra ambiciosa, que se não acerta o ritmo de início, logo acaba se mostrando um filme imperdível e interessante.

NOTA: 8

O Guia do Mochileiro das Galáxias


Quem nunca leu a trilogia de cinco livros escritos por Douglas Adams, pare o que está fazendo e corra já atrás. Trata-se de uma das obras mais engraçadas, absurdas e inteligentes já feitas por um terráqueo. O Guia do Mochileiro das Galáxias é a adaptação do primeiro livro, que infelizmente não foi tão bem nas bilheterias para garantir suas continuações. Uma pena, já que a fidelidade do filme para o livro é tanta, que o próprio Adams colaborou no roteiro.

Dirigido por Garth Jennings (que fez o recente O Filho de Rambow), o filme conta a história de Arthur Dent, um jovem inglês que terá sua casa demolida para a construção de uma rodovia. É quando seu amigo Ford Prefect aparece e revela quem é: um ser de outro planeta que sabe que o planeta será explodido para a construção de uma rodovia espacial em 12 minutos. Os dois vão para o espaço e Arthue reencontra Trillian, uma garota que conheceu no dia anterior junto com Zaphod Beeblebrox, o presidente da galáxia, e velho amigo de Ford. Junto com Marvin, um robô maníaco-depressivo, eles partem em busca da pergunta fundamental... sobre a vida, o universo e todas essas coisas.

Repleto de criatividade, que inclui um botão gerador de improbabilidade (que os transforma em bonecos de lã ou sofás), portas que sussurram quando abertas e uma raça alienígena burocrata que tortura outros lendo suas poesias, O Guia do Mochileiro das Galáxias é uma comédia muito acima da média, e que não se preocupa nem um pouco em criar pausas em momentos inusitados de sua narrativa, seja para acompanhar o último pensamento de uma cachalote (!) ou a missa da Igreja que acredita que o universo surgiu de um catarro de Deus.

Curiosamente, são estas pausas que atrapalham em alguns momentos o filme, que em alguns momentos acaba perdendo demais o ritmo da narrativa, se extendendo um pouco mais do que deveria. Mesmo assim, Sam Rockwell dá um show como Zaphod, assim como os sempre divertidos Martin Freeman e Bill Nighy. E se Zooey Deschanel dá uma de suas raras boas interpretações, Mos Def acerta no tom esquisito de Ford Prefect, assim como Alan Rickman que dubla Marvin com inteligência.

E não se esqueçam: a resposta é 42.

NOTA: 8,5

Ervas Daninhas


"Seria justo culpar um gênio da música pelos seus pecados recentes?". Essa dúvida é mostrada numa rápida cena de Alta Fidelidade, e foi com ela que fiquei na cabeça depois de ser torturado por uma hora e meia por Alain Resnais, diretor de filmes importantíssimos, como Hiroshima, Meu Amor e Noite e Neblina. Ervas Daninhas é o típico filme cabeçudo e esdrúxulo que alguns grandes diretores fazem no piloto automático, esperando que o público admire-o apenas por ser dele, assim como os recentes Abraços Partidos ou Aconteceu em Woodstock.

O filme é uma comédia involuntário e sem graça: uma sátira do nada. Parece uma mistura incômoda de um episódio de Seinfeld, misturado com Married With Children dirigido por Pedro Almodóvar. Tecnicamente, é impecável, com uma fotografia magnífica, e uma belíssima montagem (com exceção das péssimas telas duplas). 

A história é simples, o que não seria um problema caso tivesse bons personagens, o que definitivamente não é o caso: Georges Palet é um personagem antipático no pior dos sentidos. Jack Nicholson estava antipático em Melhor é Impossível, mas o filme pedia isso. Em Ervas Daninhas, somos colocados ao lado de um babaca casado, que persegue uma mulher ridiculamente, até que a mulher... resolve segui-lo também (numa "ironia dramática"... pífia). 

Com uma cena final surreal que pode tentar (ou não) dar sentido ao filme, Ervas Daninhas é pretensioso e besta como poucos, e só ganha nota aqui, porque pelo menos Resnais sabe criar um visual interessante. Mas é triste ver um filme desses de um cara com quase 50 anos de carreira, ah isso é...

PS: Vários comentários sugerem que o filme é uma paródia do cinema francês ao longo dos anos, blablabla. C'mon: paródias são engraçadas, fazem rir. Este filme, não.

NOTA: 3

Contatos de 4˚ Grau


Contatos de 4˚ Grau usa da estrutura narrativa semelhante a que Distrito 9 utilizou, ao misturar cenas "reais" com outras "de arquivo", mas dá um passo a frente, se assumindo como uma espécie de reconstituição barata de TV (com direito a Milla Jovovich anunciando a história logo no início). E, portanto, o fato de que apesar de tudo, o filme funcione, prenda a atenção e seja interessantíssimo é algo que eu certamente não imaginaria.

Escrito e dirigido por Olatunde Osunsamni, o filme reconstitui o trabalho da psiquiatra Abigail Tyler, que depois do inexplicável assassinato do marido, decide terminar o trabalho dele ao investigar os fenômenos que ocorrem na cidade de Nome, no Alasca. Vários cidadãos tem problemas de insônia, e além disso, a cidade tem um alto índice de assassinatos e desaparecimentos que jamais são resolvidos. Utilizando de filmadoras e gravadores para auxiliá-la na pesquisa, logo um de seus pacientes mata toda a sua família, cometendo suicídio no final, o que incomoda profundamente o xerife da cidade. Mas logo, um amigo psiquiatra e um pesquisador começam a ajudar a psiquiatra, fazendo descobertas cada vez mais incríveis e...

Pra você que entrou aqui querendo saber se o filme se baseia em fatos reais, saiba que pelo pouco que pesquisei, nada parece ser real, não, mas não é isso que interessa: o fato é que o filme é realmente bom e deixa uma pulga atrás da orelha, sim. Aliás, uma característica que me agradou, particularmente, foi o fato de que Contatos de 4˚ Grau é um raro exemplo de filme sobre ufologia que não cai no ridículo (e depois que as "vozes" dos alienígenas são traduzidas, o roteiro se torna infinitamente mais intrigante do que parecia a princípio). 

O filme também traz ótimas atuações, como Milla Jovovich, que surpreende na maneira madura em como encarna a sua complexa personagem: além disso, Will Patton e Elias Koteas fazem milagre com seus personagens mal escritos. Koteas, por exemplo, evita que seu personagem seja um mero covarde, tornando-o muito mais um homem que irá se agarrar a tudo de mais concreto e real possível para evitar que acredite no que ele não consegue (e nem quer), e isso não está no roteiro: está nos olhos e na sua bela interpretação.

Falhando ocasionalmente pela falta de experiência do diretor (que ainda cai na besteira de se incluir no filme), Contatos de 4˚ Grau, pode não ser uma obra memorável, mas é certamente um dos suspenses mais criativos e inusitados dos últimos tempos.

NOTA: 8

MASH


Quem acompanha o blog a algum tempo já deve ter notado que eu sou um baita fã de comédias, e tenho a plena certeza de que este é o gênero menos apreciado em premiações e pela crítica em geral, o que acho lamentável. Pra mim, é inexplicável que porcarias como Babel ou Abraços Partidos ganhem atenção, enquanto Faça o que eu Digo, Não Faça o que eu Faço ou Tá Rindo do Que? passem praticamente batidos, mesmo tendo infinitos méritos a mais, mas nomes "cults" de menos.

Já escrevi aqui sobre algumas de minhas comédias favoritas, como A Vida de Brian ou Superbad - É Hoje. Mas se um dia me perguntassem "Qual a comédia mais importante da história?", eu não pensaria duas vezes antes de falar MASH, filme anarquista e genial, do igualmente anarquista e genial Robert Altman, MASH talvez seja uma das mais poderosas obras anti-guerra de todos os tempos, algo mais do que surpreendente para uma comédia.

MASH conta o dia a dia de uma unidade de saúde do exército americano em meio a Guerra da Coréia, mostrando suas preocupações diárias: procurar bons lugares para jogar golf, ensinar um jovem local a servir bebidas (ao invés de catequizá-lo), montar um bom time de futebol americano e... sim! MASH é um filme de guerra que (com perdão do vocabulário) está cagando e andando pra guerra. A mensagem mais óbvia é clara: ninguém está interessado nas batalhas, isso é problema de governos, e portanto, ninguém está ali por patriotismo. Todas foram obrigados a estarem ali, e ninguém vai impedi-los de procurarem por diversão (como maneira de seguirem suas vidas normalmente).
Mas se isso não fosse suficientemente inteligente, o filme jamais se esquiva de assuntos controversos: em meio a uma era de repressão sexual, intelectual e tudo mais, Altman não deixa de manifestar o racismo de um dos protagonistas, ou a clara ignorância do dentista que acredita que "virou" homossexual. Além disso, em meio as divertidas piadas, se encontram tiradas impecáveis: quando os médicos começam a tratar de um rapaz que é prisioneiro de guerra, eles são repreendidos por uma enfermeira que afirma que eles estão deixando de cuidar dos soldados por ele, quando ouve a resposta genial "Você também é uma prisioneira de guerra, mas não sabe disso"; e em outro momento, quando uma garota diz que não entende como um "pervertido, desbocado e imbecil" poderia ter sido levado para a Guerra num cargo tão importante, a resposta é simples, divertida e melancólica: "Sendo convocado".

Utilizando seu dom único de mostrar várias ações em cena no mesmo enquadramento, e utilizando zooms com a inteligência que ainda marcaria obras-primas como O Jogador, Short Cuts entre outros, MASH é um verdadeiro trabalho de gênio. E... putz grila... Robert Altman... você faz falta.

NOTA: 10

Sempre ao seu Lado


Quando ouvi falar deste Sempre ao seu Lado pela primeira vez, não demorou para pensar que tratava-se de um filme que obviamente procurava emular o sucesso do ótimo Marley & Eu. Para minha surpresa, porém... não, zoeira, é exatamente o caso, e se não tivesse uma atuação tão simpática de Richard Gere e a direção eficiente de Lasse Halström (um especialista em filmes água-com-açúcar), Sempre ao seu Lado provavelmente seria um completo desastre.

A história é incrivelmente simples, mas funciona. Mesmo com uma parcela de tropeços bestas, a primeira metade do filme vai bem, e Richard Gere é um bom ator quando tem vontade, e em sua atuação simples e contida, misturado com uma alegria infantil que Gere não tem o menor medo de demonstrar, o filme já ganha um charme inegável. 

Infelizmente, depois de um acontecimento que não vou revelar, o filme tropeça e não levanta mais, estragando tudo o que tinha de interessante, e demonstrando tantos defeitos que fica difícil achar algo de bom: do exagero nos efeitos especiais para mostrar uma longa passagem de tempo através de uma árvore (numa cena particularmente constrangedora) e forçando a barra nessa passagem (quer dizer que os personagens continuaram por 10 anos no mesmo emprego e no mesmo lugar?), demonstrando uma preguiça incrível de criar situações mais divertidas ou dramáticas, Sempre ao seu Lado é o típico "Sessão da Tarde" que Halström sempre foi bom em fazer. 

Com a diferença que, dessa vez, ao invés de ser uma bobagem inofensiva, é uma bobagem e ponto.

NOTA: 4

Syriana - A Indústria do Petróleo


"Quando um país tem 5% da população mundial e 50% dos gastos militares, é porque seu poder de persuasão está em declínio..."

Syriana foi o filme certo, na hora certa. Escrito e dirigido por Stephen Gaghan (roteirista de Traffic), Syriana é um filme ambicioso, que narra a história de diversos personagens para mostrar um fascinante panorama do universo da exploração do petróleo dos Estados Unidos no Oriente Médio, e mais do que isso, mostrar as implicações políticas e sociais disto.

Enquanto acompanhamos um advogado que recebe a tarefa de descobrir se houve alguma fraude nas negociações que levaram duas empresas petrolíferas a criarem uma parceria, vemos também um jovem paquistanês que perde o emprego por esta causa, e acaba sendo levado para um grupo terrorista; um jovem de uma empresa de trading, depois de uma terrível tragédia pessoal acaba se tornando amigo de um provável sucessor do rei de um país árabe, considerado um terrorista pela CIA, pelo simples fato de ter aceitado uma oferta pelo petróleo chinesa sobre a americana.

Ao contrário do que Soderbergh fez em Traffic, ao utilizar diferentes filtros na câmera para facilitar a compreensão da história (que foi uma estratégia interessante), Gaghan parece não fazer a menor questão de facilitar nada para o público, mas sem que isso pareça arrogante: revendo o filme, é interessante perceber que o roteiro está muito mais preocupado nas relações pessoais dos personagens do que na complexa ligação entre uns e outros. Portanto, são as relações entre pais e filhos (ou um conflito de gerações) que marca toda a obra: o rei árabe que se divide entre passar seu trono para seu filho ambicioso ou o filho fraco, mas que tem o apoio dos americanos; o congressista que mora com seu pai alcóolatra em casa; o espião da CIA que mantém uma relação fria e distante com o filho (e a esposa e assim vai.

Contando ainda com performances magníficas de seu elenco (com destaque a Matt Damon, George Clooney e, principalmente, Jeffrey Wright), Syriana é um filme complexo, dramático e extremamente politizado. Um raro exemplo de todos os filmes norte-americanos lançados durante o mandato de George W. Bush.

NOTA: 10

O Enigma do Outro Mundo


Quando comecei a me interessar por cinema, lembro perfeitamente que o nome de John Carpenter não tinha a menor aura cult que tem hoje. Muito pelo contrário, aliás: seu nome era associado a "filmes ridículos". Foi quando descobri que eu adorava uma de suas obras, que talvez seja um dos filmes que mais assisti na vida: Christine, baseado no livro de Stephen King. Alguns anos depois, assisti a Vampiros de John Carpenter, outro filme desmiolado e divertido, que deixou eu me perguntando: "Porque diabos ninguém curte esse cara?".

Enfim, os anos passaram, e até eu acabei esquecendo de John Carpenter, até que assisti O Nevoeiro que, logo na abertura mostra o cartaz deste O Enigma do Outro Mundo, provavelmente o mais cult de toda a obra de Carpenter. E só hoje, 16 de abril de 2010 eu assisti e posso dizer que estou mais do que curioso para assistir o resto da obra do diretor.

Escrito e dirigido por Carpenter, conta a história de membros de uma expedição americana na Antártida que se deparam com uma criatura alienígena ameaçadora. Como a criatura consegue criar cópias perfeitas das pessoas dali, logo eles começam a caçá-la, liderados por McReady (Kurt Russel). Criando a situação com controle perfeito, Carpenter dirige o filme com pulso forte, movimentando a câmera de forma sempre criativa. 

Infelizmente, o roteiro tem seus furos que atrapalham um pouco da diversão, e em alguns momentos, o design criado para a criatura não é dos mais felizes. Mesmo assim, O Enigma do Outro Mundo é sem dúvida, um trabalho de mestre, que certamente influenciou outros gênios, como David Cronenberg e até Steven Spielberg.

NOTA: 8,5

Incendiário


Incendiário só merece ser visto bela interpretação magnífica de Michelle Williams, e esse é o único motivo pelo qual não dou um zero para o filme. Contando uma história relativamente interessante, que aos poucos vai se tornando uma novela mexicana das piores, Incendiário consegue ter tantos elementos ruins ao mesmo tempo que chega a ser impressionante que tenha sido filmado: o que diabos é a tal carta a Osama? E os balões com fotos (que dizem representar cada um dos mortos do atentado, sendo que, no máximo, há dez deles)? E o personagem que começa a dar em cima da pobre protagonista com o sonho de levá-la... a um trailer????

E pior de tudo: em teoria, o filme queria ser um estudo de personagem sobre a mulher que perde o marido e o filho de 4 anos num atentado terrorista, no mesmo momento em que estava com o amante, e Incendiário até consegue manter uma pontinha de história interessante quando a personagem lembra a protagonista do fabuloso Repulsa ao Sexo de Roman Polanski. Mas, como vemos depois, o filme está muito mais interessado em trazer reviravoltas (todas bestas) e ainda traz, de quebra, um dos finais mais maniqueístas e... retardados dos últimos tempos: na desculpa de querer ser emocionante e melancólico, o final soa incrivelmente estúpido.

Ewan McGregor é um excelente ator, mas não é milagreiro, e chega a surpreender como ele é pouco e mal usado na obra. Já Michelle Williams consegue transformar sua personagem chata e mal desenvolvida numa figura extremamente trágica, que mesmo quando é obrigada a atos estúpidos pelo roteiro permanece real e digna para o público. Pena que o filme não está a sua altura.

NOTA: 2

Garotas Sem Rumo


Sabem o que seria uma novidade? Um filme que mostrasse não os adolescentes como seres que só querem saber de sexo e violência. Existem outros, porque dar atenção somente a esses? E continuamos sendoo bombardeados com filmes sobre essas antas como Aos Treze, Kids, 100 Escovadas Antes de Dormir e este Garotas Sem Rumo, que em comparação, faz os anteriores parecerem obras-primas.

Mas eu tenho uma teoria: acho que esse tipo de filme é a desculpa ideal para mostrar garotas menores (ou que parecem) de 18 anos peladas no cinema. Afinal: quem leva a sério este tipo de porcaria? Consigo imaginar um tarado alugando esses filmes e se... satisfazendo, mas não consigo imaginar adolescentes vendo sua realidade retratada na tela ou sequer uma denúncia para o resto do público. 

Mas quanto a isso, bom... a princesinha Anne Hathaway aparece nuazinha aqui, e se é isso que você quer, é um prato cheio. Quanto ao resto do público: passe longe. O filme é tão ruim que beira o ridículo. Dá vontade de pedir o dinheiro da locação de volta. Triste.

NOTA: 0

Roger e Eu


Michael Moore é um documentarista muito mais lembrado pelo seu ativismo político, mas quando penso em sus filmes, normalmente me recordo de como ele sempre arranjava um jeito de colocar a história de sua cidade natal Flint no meio. E depois de assistir a este Roger e Eu, primeiro documentário do cineasta, fica óbvio o porque disso.

Fimado durante três anos, Moore resolve fazer o documentário depois do anúncio do presidente da GM, Roger Smith, que irá fechar algumas de suas fábricas nos Estados Unidos, incluindo a cidade-natal da Gm, Flint. Com isso, mais de 30.000 empregados são mandados embora e destrói a economia da cidade, que passará por um amargo período de crise e péssimas decisões (como investir mais de 100 milhões de dólares em atrações turísticas) e que fará da cidade a campeã de crimes violentos e ser declarada a pior cidade para se morar nos Estados Unidos.

Moore ainda não era conhecido, mas já tinha seu estilo fanfarrão de ser, o que o diferencia de praticamente qualquer outro documentarista no mundo. Seu estilo bem-humorado consegue parecer despretensioso o suficiente para deixar os entrevistados a vontade demais, a ponto de conseguir declarações absurdas, como a mulher que chega a matar um coelho em sua frente logo depois de dizer que ela está proibida por lei para fazer isso.

E embora o foco do documentário seja a tal entrevista que Michael Moore quer fazer com Roger Smith, isso se torna quase irrelevante. O documentário é poderoso como denúncia do estado caótico em que a cidade de Flint foi abandonada. E o mais triste é ver que em obras mais recentes do diretor, a cidade continua tão miserável e abandonada quanto a 20 anos atrás, quando o filme foi realizado.

NOTA: 8

Zona Verde


Quando fui assistir Zona Verde tinha a óbvia expectativa de que o filme lembrasse os dois últimos capítulos da saga de Jason Bourne, já que é do mesmo diretor, Paul Greengrass e com o mesmo protagonista, Matt Damon. Mas para minha surpresa, o filme está muito mais para os dois melhores do diretor (Domingo Sangrento e Vôo United 93) do que para a saga do espião: Zona Verde não só funciona de forma brilhante como filme de ação, como também pode ser visto como o mais corajoso já feito sobre a guerra no Iraque.

Muitos podem achar que o roteiro de Brian Helgeland falha na construção dos personagens, mas eu vi isso de outra forma: o roteirista (e o diretor) priorizam o aspecto político da situação e não a história de seus personagens. Portanto, ao mesmo tempo em que somos colocados ao lado do tentente Miller em sua busca pela verdade, o filme quer nos mostrar as consequências de sua decisão, enquanto no pano de fundo se revela também um épico sobre a invasão americana no Iraque, e portanto não é a toa que a primeira cena do longa seja uma brilhante reconstrução do primeiro bombardeio noturno em Bagdá (que estabelecerá uma rima visual inteligentíssima no terceiro ato). 

Greengrass mais uma vez se revela um diretor inspirado, e mantém uma tensão constante durante todo o filme. Acertando na maneira como filma as cenas, desde a atenção para a estratégia dos soldados para aniquilar um sniper, quanto nas cenas de diálogos, o diretor ainda encontra tempo para realizar comentários cínicos como ao mostrar um verdadeiro resort turístico onde era o palácio de Saddam Hussein, quanto ao usar a imagem de George W. Bush num momento dramaticamente perfeito, quando o ex-presidente se torna a causa de uma piada de péssimo gosto.

Mas talvez o mais importante de Zona Verde seja a maneira explícita de como o filme mostra o exército e o governo americano como os verdadeiros vilões da história, assim como responsabilize diretamente a mídia por apoiar as decisões de seu país sem averiguar nenhum fato. E em um de seus diálogos mais geniais, um personagem afirma que o governo americano só entrou na guerra porque foi informado errôneamente quando ouve a resposta triste e verdadeira: "seu Governo queria acreditar nessa mentira".

Contando uma história complexa de maneira simples e direta, Zona Verde junto com o fantástico Guerra ao Terror é o melhor filme sobre a guerra no Iraque lançado nos últimos anos, mas também um filme de ação genial que vai agradar também a quem está interessado em explosões e outros artefatos do gênero, mesmo que seu desfecho se revele um pouco mais "feliz" do que o adequado.

NOTA: 9

Os Fantasmas de Scrooge


Quando realizou o excelente Happy Feet, George Miller intencionalmente ou não, acabou dando o melhor argumento já dito contra o Motion Capture (técnica utilizada nos últimos três filmes de Robert Zemeckis) ao surpreender o público misturando seus personagens e cenários tridimensionais com cenas em live-action: ou seja, porque criar em computador o que se pode obter sem qualquer dificuldade? E querendo ou não, por melhor que seja a tecnologia, fato é que O Expresso Polar e A Lenda de Beowulf sofrem principalmente pela inexpressividade de seus personagens, que numa época onde a Pixar consegue fazer um robô tão cheio de emoções como Wall-E, chega a ser vergonhosa.

E este é o mesmo problema deste Os Fantasmas de Scrooge, que apesar de ocasionalmente divertido (pura e simplesmente por causa de Jim Carrey), consegue a proeza de parecer o bacana (e idiota) Minhas Adoráveis Ex-Namoradas parecer uma obra-prima em comparação. Zemeckis está muito mais interessado em fazer a câmera atravessar qualquer coisa do que em realmente contar a história e, portanto, não chega a ser surpresa que a cena mais inspirada visualmente seja a mais desnecessária do filme (só digo que inclui uma perseguição).

Além de incluir algumas cenas extremamente WTF (como o Fantasma do Natal Presente que é Jesus????), e contando com boas atuações de Gary Oldman e Jim Carrey, enquanto desperdiça os talentos de Robin Wright Penn e Colin Firth, Os Fantasmas de Scrooge falha até mesmo em sua premissa: se devíamos testemunhar uma mudança gradual de Scrooge para que este se "salvasse", é no mínimo curioso que logo na primeira cena do primeiro fantasma o personagem já pareça ter aprendido a lição. E tudo que vem depois só se arraste cada vez mais.

NOTA: 4

PS: Quem foi o idiota que traduziu o título para Os Fantasmas de Scrooge em vez de Um Conto de Natal?

21 Gramas


"Dizem que todos perdem vinte e um gramas no exato momento da morte..."

De onde surgiu essa lenda, não sei, mas o fato é que 21 Gramas é o melhor filme de Alejandro González Iñárritu, e de quebra traz a melhor atuação da carreira de Sean Penn e Benicio Del Toro, além de comprovar que Naomi Watts mereceu a atenção que recebeu depois de Cidade dos Sonhos de David Lynch.

O filme usa a mesma fórmula das outras parcerias de Iñárritu com o roteirista Guillermo Arriaga: acompanhamos as consequências de uma tragédia para vários personagens, no caso, um atropelamento. Naomi Watts perde o marido e as filhas, Del Toro é o culpado pela tragédia, enquanto Penn vive um homem doente que recebe o coração da vítima do acidente. 

A tragetória dos três é mostrada numa montagem completamente aleatória, mas que dá ênfase extraordinária a principal mensagem do filme: como tantas coisas precisam acontecer para que duas pessoas se conheçam, e até mesmo como as tragédias presentes em nossa vida parecem inevitáveis quando revistos. A montagem de 21 Gramas pode tropeçar em um momento ou outro (até porque Iñárritu e Arriaga sempre acreditam que suas tramas não são previsíveis), mas a estrutura como um tôdo funciona bem.

A única coisa que atrapalha no filme é a trama centrada na mulher de Penn, vivida por Charlotte Gainsbourg, que deseja um filho dele acima de qualquer outra coisa: de início sua trama é interessante (principalmente, se somarmos o fato de que ela tenha sentido o desejo materno depois de fazer um aborto), mas sua história acaba tão mal resolvida que ela parece quase uma vilã.

Mas fora este tropeço, 21 Gramas é uma obra emocionante e como todos os trocadilhos possíveis envolvendo o peso do título com o peso da história, me limito a comentar que é um filme realmente imperdível e inesquecível.

NOTA: 9

Retratos de uma Obsessão


Retratos de uma Obsessão pertence a uma fase interessantíssima na carreira de Robin Williams, junto com Insônia e o ótimo Violação de Privacidade: quando o ator fez filmes e personagens que, provavelmente, jamais associaríamos com a sua imagem. Primeiro longa-metragem do diretor Mark Romanek (mais conhecido pelo belíssimo clipe de Hurt de Johnny Cash), o filme é o mais fraco desta fase de Williams, mas está longe de ser banal.

O filme conta a história de Seymour Parrish, atendente de uma loja onde também revelam fotos. Aos poucos, descobrimos que Seymour não é apenas completamente obcecado por seu trabalho, mas também em uma família que ele acompanhou pelo passar dos anos, chegando a se imaginar como um membro dela. E conforme ele descobre que a vida perfeita que ele acompanhou nas fotos, na verdade está longe de ser perfeita, é quando as coisas começam a dar errado...

Talvez o principal problema do filme seja a maneira nada sutil de como o personagem é apresentado: desde a primeira vez que o vimos, imaginamos onde a história vai dar, algo que se torna problemático quando percebemos que não devíamos ser capazes de prever certas coisas (principalmente sobre uma outra garota que acaba levando as fotos para revelar...). O que o filme acerta é no seu visual incômodo, repleto de branco, claridade e vazio, e se no início o filme surpreende ao mostrar a parede repleta de fotos de Seymour, ao final quando vemos o outro lado da sala, o filme mais uma vez se revela muito mais inteligente do que o esperado.

Contando ainda com uma atuação brilhante de Williams, Retratos de uma Obsessão é um filme muito mais interessante do que bom, realmente, mas vale lembrar antes de que acusemos o ator de "se vender" ou "ter perdido o talento" que ele tentou. De verdade.

NOTA: 7

A Última Cartada 2 - Assassinos


Quando escrevi sobre A Última Cartada comentei que "é bom quando dá a sensação de que nada é previsível, e qualquer coisa pode acontecer, algo que felizmente acontece durante boa parte do filme". Esta continuação extremamente imbecil e artificial é tão ruim, que só serve como uma mancha no currículo de Joe Carnahan, que ao contrário do que diz a capa do filme, apenas produziu o projeto.

Apresentando alguns dos efeitos especiais mais vergonhosos que eu vi nos últimos tempos, o filme segue a mesma linha do primeiro: alguém está com a cabeça a prêmio e um monte de assassinos vai para matá-lo. Mas ao contrário do anterior, que surpreendia graças as boas atuações que aumentavam a carga dramática do filme e que mantinha a tensão constante, A Última Cartada 2 tem um roteiro incrivelmente estúpido, e pior, ainda leva mais de meia hora para finalmente se tornar "tenso". 

Mas a estupidez só aparece mesmo quando perto do final, quando o filme ainda tenta desesperadamente soar politicamente relevante, numa reviravolta que faz o desfecho do primeiro parecer uma obra-prima em comparação. E Tom Berenger, embora faça um bom trabalho durante boa parte do filme, cai num exagero vergonhoso no final. Falar nas atuações é algo que não vou fazer, já que todo o elenco é completamente desperdiçado.

Dirigido por P.J. Pesce, diretor de obras-primas (cof, cof) como Um Drink no Inferno 3, O Atirador 3 e a infame continuação de Os Garotos Perdidos... é... com um currículo desses, como esperar algo diferente?

NOTA: 1

Meu Amigo Harvey


Recentemente, Steven Spielberg chegou a anunciar que pretendia fazer uma refilmagem de Meu Amigo Harvey. Desistir disso foi uma idéia genial. O filme é uma comédia extremamente divertida, que mesmo que não consiga fugir de sua linguagem teatral, tem um texto tão afinado e atuações tão boas que consegue manter sua criatividade e originalidade, apesar de já completar 60 anos de seu lançamento.

Protagonizado por James Stewart, conta a história de Elwood Dowd, um verdadeiro e gentil cavalheiro que mora com sua irmã e sua sobrinha e... um coelho gigante chamado Harvey. Obviamente, apenas ele enxerga o coelho, e suas parentes decidem enviá-lo ao sanatório para tentar curá-lo... e se você ainda não assistiu, é melhor não saber de mais nada, afinal uma das melhores características deste grande filme, é que a trama se mostra muito mais inteligente e surpreendente do que você pode imaginar de início. 

Stewart, com seu carisma invejável, realiza uma atuação perfeita como o simpático Elwood, utilizando curiosos tiques que nos fazem imaginar que ele pode estar realmente insano, embora jamais nos deixe em dúvida sobre seu caráter. E se Josephine Hull e Victoria Horne sejam os pontos mais fracos do elenco (como a irmã e sobrinha de Elwood, respectivamente) fazendo com que as cenas que envolvem a família do protagonista sejam as mais fracas, Cecil Kellaway surpreende como o Dr. Chumley na melhor cena do filme, enquanto todo o resto do elenco se sai perfeitamente bem em seus papéis.

Dirigido com criatividade por Henry Koster (que nunca mais encontrou um roteiro tão bom para trabalhar), Meu Amigo Harvey é um verdadeiro clássico do cinema americano da década de 50, e o melhor: um desses raros casos em que a obra parece envelhecer como o melhor dos vinhos, e influencia alguns filmes que esquecem de pagar o devido tributo...

NOTA: 9

O Passageiro - Profissão Repórter


Clássico incontestável do cinema, que conta a história de David Locke, um jornalista que durante uma viagem a África faz amizade com outro conterrâneo, que acaba tendo um enfarte e morrendo. Locke decide assumir a identidade do falecido e se declara morto, mas logo começa a ser perseguido pelos antigos amigos que desejam saber as circunstâncias de sua morte e pelos que sabem a identidade do falecido: um traficante de armas que ajudava guerrilhas na África.

Michelangelo Antonioni fez um filme intrigante, silencioso e contemplativo. Deixa que as imagens falem muito mais do que qualquer diálogo. O início, mostrando Locke no meio da África tentando em vão buscar algum tipo de comunicação é brilhante. E o que dizer da maneira genial em que o cineasta mostra a troca de identidade dos personagens nos quartos de hotel, misturando flashbacks e uma fita gravada?

Enquanto isso, Jack Nicholson realiza o que é uma das grandes atuações de sua carreira, uma atuação contida e complexa que complemente de maneira genial a já brilhante construção de seu personagem no roteiro. E se Maria Schneider traz leveza e graciosidade para a trama, Jenny Runacre faz um trabalho soberbo como a ex-mulher de Locke, que depois de sua "morte", começa a sentir a necessidade de terminar o documentário do marido, reconstruindo sua figura (e consequentemente, reconstruindo o próprio passado).

Contando com um desfecho melancólico que inclui um dos planos-sequência mais celebrados de todos os tempos, O Passageiro - Profissão Repórter é uma obra-prima obrigatória para fãs de cinema, e sintetiza com perfeição o estilo de Antonioni: um diretor que dizia muito, falando muito pouco.

NOTA: 10

Adoração


Quem frequenta o blog já deve ter visto que sou um grande fã do diretor Atom Egoyan, como deixei claro em meus textos sobre Exótica, O Doce Amanhã e A Verdade Nua. E não há nenhuma sensação melhor para um cinéfilo do que ser surpreendido por aqueles que já admiramos: Adoração é a obra-prima de Atom Egoyan, um filme que atinge um novo nível de perfeição em sua carreira.

Como é de costume para o diretor, Adoração conta sua história de maneira não-linear, mas sempre evitando confundir o espectador, aliás, pelo contrário: a sensação é a de que a cada cena que passa, nos aprofundamos cada vez mais na trama relativamente simples, mas extremamente complexa em seus significados e suas implicações.

O filme nos apresenta a Simon, um rapaz que escreve e lê para a sua turma um texto dizendo que seu pai foi um terrorista, e teria plantado uma bomba na bagagem de sua mãe, quando ela viajava para Israel. Aos poucos, porém, o diretor vai mostrando uma verdade muito mais complexa sobre isso, enquanto acompanhamos o relacionamento de Simon com seu tio, sua professora e seu avô.

Inicialmente, Adoração mostra como através das novas tecnologias, principalmente as mídias sociais, é perfeitamente possível que uma pessoa não apenas altere completamente seu passado, mas sua própria personalidade, mas não sem mostrar que isso influenciará todos a seu redor: assim que o adolescente começa a tentar humanizar a figura de seu pai e sua suposta tentativa do atentado, "sobreviventes" daquele vôo começam a surgir de maneira agressiva (incluindo um que se afirma como "a voz dos mortos").

Porém, ainda mais curioso é perceber que de uma discussão tão ampla, o filme aos poucos se revele muito mais intimista. À Atom Egoyan, não interessa se o drama de Simon é real ou fictício: ele é um adolescente que cresceu sem os pais, e tentará preencher esse vazio de qualquer maneira (e nesse sentido, o último plano do filme é fascinante), e o jovem Devon Bostick faz um trabalho brilhante ao interpretá-lo. Arsinée Khanjian com uma interpretação incrivelmente contida como a professora Sabine, parece preferir que o roteiro mostre seu drama, uma decisão inteligentíssima.

Mas quem merece o total destaque no elenco é Scott Speedman, um ator que vinha de filmes e personagens fracos (com exceção do ótimo Minha Vida Sem Mim), mas que aqui dá a performance de uma carreira: inicialmente visto apenas como um homem em crise, mas capaz de qualquer coisa para cuidar de Simon, aos poucos percebemos que a sua trajetória é tão importante para o filme quanto a de Simon, e o flashback que o mostra numa discussão de família é uma das cenas mais brilhantes e emocionantes que vi nos últimos anos.

Infelizmente, assim como seus filmes anteriores, Adoração foi pouco visto e pouco lembrado nas premiações, o que nesse caso é uma injustiça terrível. Poucos filmes são tão relevantes e importantes quanto este, que mostra genialidade até no enquadramento que mostra o título. Faltam adjetivos para elogiar um filme assim: Obra-prima é pouco.

NOTA: 10

Sede de Sangue


Dirigido por Chan-Wook Park, Sede de Sangue é o filme de vampiros mais original que eu já vi. Embora utilize algumas das regras do gênero, como o fato de eles não poderem se expôr ao sol e se alimentarem de sangue (dã-ã), o roteiro do diretor cria uma situação dramática perfeita para a história, além de enxergar a maldição romantizada do mito com um olhar muito mais cínico e perturbador do que estamos acostumados. 

Kang-ho Song (de O Hospedeiro) interpreta o padre que depois de anos trabalhando num hospital, se oferece como voluntário para o teste como uma doença. Não apenas ele é o único sobrevivente do teste, como também começa a sentir uma necessidade compulsiva, não apenas de sangue, mas de todos os instintos comuns aos homens, como o sexo. Ao voltar para a sua cidade, ele começa a ser ajudado por uma estranha família que o conhecia na infância e... dizer mais que isso é sacanagem.

Vou aproveitar esta ocasião para confessar que não sou fã do diretor, e acho Oldboy um filme péssimo, mas devo dizer que seu trabalho aqui é impecável: equilibrando drama e humor de uma maneira que parece incômoda, mas depois se mostra perfeita, o diretor faz um excelente trabalho ao estabelecer a lógica visual da trama: quando conhecemos o protagonista no hospital, a câmera está quase sempre estática, e somado as cores do ambiente, salienta a melancolia do personagem de maneira sutil, só para aos poucos usar movimentos de câmera ousados e uma violência forte e gráfica (e a estratégia de montar a casa para simular a luz do dia é, no mínimo, genial).

Mas o melhor de Sede de Sangue é a relação entre o padre e a garota que se apaixona por ele: unidos pelo sexo e pela violência do ato (que com um vampiro, obviamente inclui mordidas), aos poucos a natureza da relação muda para a insanidade e o caos, e a imortalidade dos vampiros se mostra uma maldição terrível e nada romântica. Aliás, tematicamente o filme se mostra ainda mais impressionante, não apenas por usar um padre como protagonista, mas também ao questionar a diferença entre o martírio e o suicídio de maneira bastante madura.

Contando com um desfecho melancólico e dramaticamente perfeito, Sede de Sangue é um filme extremamente original, e como ainda não assisti Deixe Ela Entrar não posso ter a completa certeza de que é o melhor filme de vampiros dos últimos tempos. Mas que é o mais original e inusitado, isso posso, com toda a certeza.

NOTA: 9

Um Sonho Possível


Pensar que este Um Sonho Possível estava lado a lado na indicação de Melhor Filme no Oscar ao lado de Preciosa chega a ser uma palhaçada: enquanto Preciosa conta uma história pesada, difícil de maneira igualmente pesada e difícil, Um Sonho Possível deixa de lado todos os aspectos mais fortes da história de lado, criando um feel-good movie, sendo bem-sucedido nisso, mas criando um filme desonesto. 

O que é realmente uma pena, já que a história real que baseou o filme é belíssima: Leigh Anne é uma mãe de família dedicada que decide ajudar Big Mike, um gigante desajeitado que fica amigo de seu filho. Aos poucos, ela vai conhecendo mais a sua trágica história e resolve cuidar dele em sua casa e ajudá-lo em sua carreira no futebol americano.

Gosto de Sandra Bullock: a considero carismática e acho que ela já provou em Crash - No Limite que é uma grande atriz, mas sua atuação neste Um Sonho Possível é competente e só, o que torna seu Oscar de Melhor Atriz uma baita marmelada (embora, repito: ela está bem no filme). Quinton Aaron como Big Mike... desculpem, Michael, também faz um bom trabalho, principalmente nas cenas envolvendo o jogo (embora eu me sinta na obrigação de dizer que ninguém vai fazer um trabalho de direção melhor ao mostrar partidas de futebol americano no cinema do que Oliver Stone em Um Domingo Qualquer). 

Passando por temas como drogas, racismo e violência de maneira incrivelmente artificial (assim como a dificuldade de Michael em aprender na escola, criando um conflito besta com um dos professores), Um Sonho Possível não é ruim a ponto de não funcionar como filme: é divertido e bem feito. Mas a história de Michael Oher e sua família merecia algo muito melhor.

NOTA: 6

Terra de Sonhos


Terra de Sonhos é um filme extremamente pessoal para Jim Sheridan, tanto que foi o roteiro foi escrito por membros de sua família, contando sua jornada dentro dos Estados Unidos. Mas o grande acerto é o elenco, que é capaz de consertar os poucos clichês da história com a força de suas interpretações, mas principalmente, fazer o espectador se identificar de maneira quase absurda com aquela família.

Narrado pela filha mais velha de 11 anos, ela conta a história de sua família, que a pouco tempo sofreu uma tragédia com a morte de seu irmão. Enquanto seu pai e sua mãe fazem de tudo para se recuperar do trauma enquanto tentam sobreviver em Nova York, a garota e sua irmã mais nova, Ariel, tem que enfrentar o choque cultural e a solidão de uma das cidades mais habitadas do mundo.

Paddy Considine e Samantha Morton oferecem performances sólidas e contidas, sem jamais se apoiarem em nenhuma "muleta" dramática. Enquanto as jovens Sarah Bolger e Emma Bolger brilham em toda e qualquer cena em que apareçam, principalmente Emma que cativa o público desde sua primeira cena, e se torna uma das personagens infantis mais adoráveis que já vi. 

Djimon Hounsou que recebe a ingrata tarefa de ser o "personagem misterioso que vai mudar a vida de todos"... bem... consegue se sair muitíssimo bem na tarefa, e ganhou uma merecidíssima indicação ao Oscar por esta performance. Desde a cena em que se entrega a um choro contido ao ouvir a história do irmão das garotas, até o confronto com o pai delas, o ator consegue criar um ser humano de carne e osso onde, normalmente os filmes não fazem questão.

Emocionante, trágico, mas extremamente corajoso e inspirador, Terra de Sonhos pode não ser tão genial quanto outros filmes do diretor, como Em Nome do Pai ou Meu Pé Esquerdo, mas é difícil ignorar a sua própria força que vem de uma cativante simplicidade, que faz toda a diferença.

NOTA: 10

O Tesouro de Sierra Madre


Dirigido pelo aclamado e genial John Huston, O Tesouro de Sierra Madre é um filme brilhante, mas que dá um tiro no próprio pé: o sub-texto do filme, que envolve esquizofrênia é o que há de mais genial na história, e portanto, o fato do roteiro tratar isso como apenas um sub-texto é uma certa decepção. Mas isso não estraga em nada as surpresas deste filme grandioso e surpreendente.

O filme conta a história de Dobbs e Curtin, dois americanos que mendigam numa pequena cidade do México. Depois de serem enganados em um serviço, os dois conhecem um velho garimpeiro, e decidem partir com ele para um lugar hinóspito afim de procurarem ouro. Não demora, porém, para que a ganância e o isolamento afetarem Dobbs psicologicamente, tornando-o paranóico e uma ameaça para os outros dois.

Humphrey Bogart tem uma de suas melhores atuações como Dobbs, retratando a crescente paranóia de seu personagem de maneira brutal, e sem medo de parecer exagerado (algo que se torna fundamental para o terceiro ato da história), enquanto Tim Holt empresta dignidade para Curtin, deixando o espectador facilmente do seu lado. Já Walter Huston empresta uma curiosa dubiedade para seu personagem, investindo numa atuação quase cômica, embora jamais nos deixe pensar que ele não é o mais competente e preparado para a situação.

John Huston demonstra sua invejável segurança na direção, mostrando de forma competente os preparativos para a busca do ouro. Além disso, poucos diretores na época sabiam movimentar a câmera de maneira tão elegante, como na belíssima cena em que Walter Huston salva um garoto índio, e na desfecho da cena, o diretor surpreende ao mostrar a quantidade de pessoas que estavam ao redor da situação.

Além disso, a trama paralela envolvendo um personagem que aparece junto ao trio querendo explorar ouro junto deles, é o grande momento do filme, conduzido de maneira absolutamente genial. Só lamento o fato de que a constante paranóia de Dobbs acabe se revelando apenas pontual, já que ela surge de maneira simples (com o personagem falando sozinho) e mesmo se tornando um dos pontos chaves para a trama, ela seja deixada de lado no conflito com os forasteiros, por exemplo. Mas é um pecadilho perante o conjunto da obra. 

NOTA: 8,5

O Solista


Terry Gilliam conseguiu um feito realmente extraordinário em O Pescador de Ilusões: um filme que mistura um tema pesado como a mendicância, com fantasia. É incrível como o ar repleto de magia de seu filme consiga ser mais eficaz e funcione melhor como denúncia do que este O Solista, que definitivamente é uma das grandes decepcões dos últimos anos em vários sentidos. 

Contando a interessante história real do jornalista Steve Lopez, que depois de escrever várias matérias sobre um morador de rua que é músico e chegou a estudar na Julliard acaba conseguindo chamar a atenção das autoridades de sua cidade para com este problema, o roteiro falha, principalmente ao colocar o jornalista como protagonista, já que seu arco dramático é o que há de menos interessante na história. 

Além disso, é decepcionante que Joe Wright, diretor que mostrou tanta criatividade ao utilizar a trilha sonora no excelente Desejo e Reparação, não consiga realizar sequer uma cena que lembre vagamente o brilhantismo que havia mostrado antes, como na decepcionante cena que mostra como o mendigo "enxerga" a música: se a cena começa bem, logo o diretor utiliza um visualizador de Windows Media Player.

Robert Downey Jr. e Jamie Foxx são grandes atores e estão bem em cena, obviamente. O problema está muito mais no roteiro e na estrutura da história. A história do personagem de Foxx, e principalmente a maneira como o filme mostra sua mente agindo de maneira destrutiva (que é a única sacada realmente genial) deveria ser o grande destaque. 

De qualquer maneira, O Solista não é um completo desastre. É só um filme... errado e, vendo o curriculo dos envolvidos, é também uma grande decepção.

NOTA: 4

Procura-se Amy


Procura-se Amy é uma de minhas comédias românticas preferidas, e meu favorito de Kevin Smith. Fugindo de vários clichês do gênero, o filme trabalha com uma temática interessante: o conflito masculino dos últimos anos, já mostrado em filmes que vão de Clube da Luta até Eu te Amo, Cara, e principalmente, a falta de preparo dos homens heterossexuais criados na igreja certinhos e tudo mais para lidar com o homossexualismo feminino.

O filme conta a história de Holden, um cartunista underground que se apaixona por Alyssa, uma garota que trabalha na mesma área, embora não seja tão bem-sucedida. É então que Holden descobre porque os dois não podem ficar juntos: ela é lésbica. Embora ainda esteja interessado nela, ele decide manter o laço de amizade com ela, o que só deixa seu amigo de infância Banky mais preocupado.

Assim como a fórmula atual das comédias de Judd Apatow, Procura-se Amy consegue equilibrar bem um humor direto e quase grosseiro (as trocas de histórias envolvendo sexo oral) com uma sensibilidade interessante, que faz toda a diferença na obra. Talvez, o grande problema do filme seja seu final, quando Holden encontra uma solução no mínimo... pamonha para os dilemas apresentados na história, mas isso só fortalece a mensagem de Kevin Smith em seu filme: mesmo que os homens do filme não sejam realmente homofóbicos ou preconceituosos, o seu estranhamento com o homossexualismo ou com qualquer comportamento sexual diferente do deles tem a ver muito mais com a forma como eles foram criados do que qualquer outra coisa. 

Ben Affleck dá uma grande interpretação como Holden, sem medo de explorar o lado mais arrogante de seu personagem, assim como Joey Lauren Adams que faz de Alyssa uma figura apaixonante. E se Jason Lee encarna Banky de maneira divertidíssima (reparem em seu olhar quando repara que está num bar de lésbicas), Jason Mewes e o próprio Kevin Smith fazem a melhor participação de Jay e Silent Bob, na melhor cena do filme quando entendemos o título da história, que se revela muito mais sensível e interessante do que poderia parecer de início.

NOTA: 9

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