Camisa de Força


Camisa de Força é um filme criativo e intrigante, que é beneficiado por uma atuação sublime de Adrien Brody que interpreta Jack Starks, um veterano de guerra que, aparentemente tomado pela Síndrome da Guerra do Golfo, começa a ter problemas com alucinações. Mas seu envolvimento num crime onde um policial foi assassinado faz com que ele seja internado num manicômio.

 Lá, um médico irá testar um tratamento experimental e bizarro: deixar o paciente medicado por horas dentro de uma gaveta de necrotério. Mas enquanto está na gaveta, Jack consegue ver uma realidade diferente, num futuro próximo. Seus problemas começam quando, aparentemente, ele descobre que realmente está viajando no tempo.

O filme é bem feito, e lembra um pouco A Passagem, outro filme viajado, mas irregular. O elenco inclui participações ótimas, como Kris Kristofferson que faz o personagem mais intrigante da história e Daniel Craig interpreta um paciente do manicômio que surge como um alívio cômico melancólico.

Infelizmente, apesar de seguir um desenvolvimento exemplar no roteiro, principalmente em como mantém as duas realidades sem jamais confundir o espectador, Camisa de Força acaba se perdendo quando deixa de se concentrar no personagem de Brody. Isso deixa o ato final incompleto e inconclusivo, mesmo que o filme sobreviva em suas boas (e criativas) intenções.

NOTA: 7

Casa Comigo?


Durante todo o filme, o roteiro parece flertar com a possibilidade de realizar algo ousado e diferente na velha fórmula das comédias românticas. Infelizmente, este novo filme de Anand Tucker (de A Garota da Vitrine e do excepcional Quando Você Viu Seu Pai Pela Última Vez?), apesar do bom ritmo, boas atuações e ótimos diálogos, jamais foge do lugar comum, mesmo que fuja dele que nem o diabo da cruz.

Diz a lenda que na Irlanda, todo ano com 29 de fevereiro, nesta data as mulheres podem pedir seus homens em casamento.Como seu namorado está lá, Anna resolve viajar para lá e fazer o pedido a ele.Mas graças a uma tempestade, acaba se perdendo no interior do país, e recebe a ajuda de Declan, um irlandês a lá Gerard Butler (e que fala quase como Brad Pitt em Snatch) que arrota, é mal-educado, mas no fundo é um amor de pessoa (cof, cof, cof).

Dito isso, boa parte da graça do filme vem da atuação despretensiosa e eficiente de Matthew Goode (o Ozymandias de Watchmen), que faz um personagem que não mostra qualquer interesse em agradar nem a mocinha e nem o público. E por falar em mocinha, Amy Adams não precisa se esforçar em parecer adorável, mas sua química com Goode é surpreendente, mesmo para os padrões de uma comédia romântica.

Apesar de escorregar em clichês, a história funciona bem, mas o final me incomodou um pouco. Poderia ter terminado um pouco antes, e não ter se preocupado em ficar amarrando cada nó do laço; se alonga demais e fica um pouco enrolado. Mas quem gosta do gênero vai apreciar.

NOTA: 7

Legião


Legião é um dos filmes mais constrangedores do ano. Não o pior, porque é involuntariamente divertido, como ao mostrar uma idosa e um sorveteiro possuídos em cenas repletas de efeitos especiais. Mas chega a ser impressionante ver a marmelada em que se meteram atores como Paul Bettany, Dennis Quaid (de novo) e Doug Jones.

O filme é uma baboseira sobre o fim dos tempos, em que Deus se cansou da humanidade e resolve matar todo mundo. Mas o anjo Miguel discorda e tenta salvar um bebê, que pode mudar essa decisão (e o porque disso nunca é explicado). Repleto de efeitos especiais capengas, Legião poderia ser melhor se resolvesse se assumir como um filme B que só está inventando história para fazer insanidades, mas não. A sensação no final é a de que o filme se levou a sério o tempo todo. Mesmo. Inclusive no lance da velhinha e do sorveteiro.

E para encerrar, meus parabéns para os cristãos que finalmente tomaram a decisão certa: poderiam muito bem ter criado polêmica por esse filme, como fizeram com vários outros. Mas dessa vez, simplesmente ignoraram.

Sorte a nossa, já que assim, Legião não ganhou mais destaque.

NOTA: 2

O Traidor (2008)


Gostei de O Traidor, e da idéia que passa, mas em busca de achar um politicamente correto a todo momento, o filme escorrega. Não há um diálogo sequer que não venha acompanhado de um rápido comentário benevolente: quando um policial questiona a violência dos muçulmanos (ao generalizá-los), um outro personagem lembra da KKK, que usava da cruz para seus atos de violência. Sim, não estou reclamando do filme buscar um contexto justo para sua história, mas isso está presente em quase TODOS os diálogos. E outra coisa que não ajuda muito, é que o roteiro acaba se revelando um pouco previsível da metade para o final, quando revela uma informação importantíssima muito antes de ser a hora certa.

O tal do traidor é o personagem de Don Cheadle, um homem que aparentemente trabalha em parceria com um grupo terrorista islâmico, que começa a ser investigado por um agente do FBI, interpretado por Guy Pearce. O filme utiliza uma história simples para tentar ser o que foi Zona Verde recentemente: um filmaço de ação, que também mostre os bastidores da guerra ao terror (ou guerra de terror, como diria nosso querido Borat). Mas O Traidor escorrega em sua pretensão, apesar da performance indiscutivelmente brilhante de Don Cheadle, que tem uma cena fabulosa quando é informado de quantas mortes aconteceram num atentado que organizou. Pena que Guy Pearce, outro ator que sempre admirei, parece estar interessado  apenas em fazer o básico; sua atuação é boa, mas está longe de seus outros trabalhos.

O filme tem momentos excelentes, principalmente os que envolvem o personagem de Cheadle com um amigo que ele faz no grupo terrorista (e a ligação entre os dois é o que há de melhor), ou o brilhante diálogo em que o policial interroga a mãe do "traidor": enquanto conversam, ambos atacam sutilmente a crença do outro, apenas para que o próprio ataque se volte contra si mesmo: um diálogo inteligente e repleto de sutileza, que mostra o que O Traidor poderia ter sido; pena que grande parte seja como o que descrevi no primeiro parágrafo.

NOTA: 7

30 Dias de Noite


Antes de fazer Eclipse, David Slade já havia dirigido outro filme sobre vampiros bem mais empolgante, que é este 30 Dias de Noite. Apesar de ter uma porção de problemas difíceis de ignorar, o fato é que o filme sobrevive porque faz bonito no que é mais importante: mantém a tensão o tempo todo, e ao salientar a violência da situação, cria uma sensação de urgência em qualquer ação mínima dos personagens. Baseado em uma graphic novel, o filme mostra a preparação de uma cidade no Alasca que, durante o inverno fica 30 dias sem receber a luz do sol. Só que desta vez, vampiros resolveram aparecer para dizimar os poucos habitantes do lugar.

Logo no início, é possível ver as virtudes e probemas do filme: a maneira como os casos isolados vão de forma sutil mostrando como a situaçao é cada vez mais grave (telefones quebrados, o único helicóptero destruído, etc) é empolgante e devastadora. Além disso, Ben Foster faz um trabalho magnífico como o estranho que antecede a ameaça dos chupadores de sangue.

Mas e numa história dessas, em que até Danny Huston é colocado como coadjuvante, quem foi o animal que pensou em Josh Hartnett como protagonista? Hartnett não é um ator ruim, mas é limitado. Ele está bem em Sin City - A Cidade do Pecado, por exemplo, porque só tem uma cara e um tom de voz pra fazer. Aqui, quando tenta parecer amedrontado, quase solta a franga, com direito até a voz afeminada. E o mais triste, é que é o seu arco dramático que seria o proncipal da história; como ele não o realiza bem, o bom desfecho vem com uma pontinha de esquisitice.

Mas David Slade acerta no visual, e cria cenas realmente brilhantes, como o belo plano plongé, que mostra a extensão do ataque dos vampiros, num belo plano-sequência (melhor cena do filme), ou na maneira brutal em que mostra uma decapitação, que dificilmente vai sair da cabeça de quem assistir (e minhas desculpas pelo trocadilho). E a verdade é que, apesar de alguns furos na história (porque demoram tanto para usar as armadilhas de urso, por exemplo?) e agumas atuações meio merrequinhas, o diretor fez um filme tenso que deixa uma impressão muito mais positiva do que poderíamos imaginar.

NOTA: 7

A Armação


Filmes baseados em livros de John Grisham são normalmente previsíveis, mas não por isso ruins, como são exemplo O Júri, Tempo de Matar, O Cliente ou O Homem que Fazia Chover. Mas esta adaptação dirigida por Robert Altman tenta retirar um pouco da grandiosidade da história para se concentrar mais nos personagens, uma decisão que cria um filme diferente, mas com sérios poblemas.

A Armação conta a história de um advogado que depois de passar uma noite com uma garota, acaba se envolvendo com o grave problema dela com o pai, que parece violento e ensandecido. Depois de conseguir uma rápida vitória no tribunal para prender o pai da garota, ele logo escapa da prisão, fazendo ameaças não apenas a filha, como também a toda a família do advogado.

A históia é boa, mas não é impressionante. O melhor são as relações entre os personagens, e as interpretações: Kenneth Branagh está excelente como o pobre advogado rico, assim como Robert Downey Jr, como o capanga do sujeito. E o sempre genial Robert Duvall faz de seu personagem um vilão muito acima da média.

Infelizmente, a decisão do diretor de dar mais atenção aos personagens do que na história só funciona bem até o desfecho, quando começam perseguições de carro e afins, que surgem de maneira nada natural. A impressão é de que começou outro filme ali.

Mesmo assim, vale uma conferida.

NOTA: 7

Clube da Luta


Clube da Luta é um filme tão marcante e genial, que chega a ser difícil dizer algo sobre ele. Dirigido pelo visionário David Fincher (dos geniais Se7en e Zodíaco), a obra se tornou uma nova versão de Laranja Mecânica, tanto pela violência, quanto pela estética, mas principalmente pela maneira subversiva de como apresenta sua história e suas idéias. 

Muitos achavam (e ainda devem achar) que Laranja Mecânica estimula a violência, quando o filme não apenas critica o comportamento, quanto se preocupa a todo momento em explorar o vazio de seu protagonista. Clube da Luta segue a mesma linha, mas com uma visão ainda mais terrível: explora a perigosa idéia do terrorismo vindo não do estrangeiro, mas de dentro, com motivações extremas como frustração, tédio e consumismo. 

Consumismo, alás. é a grande palavra para sacar a inteligência do filme, já que muito vem de uma linguagem publicitária. Sim, Clube da Luta é publicidade e propaganda pura, de forma extremamente irônica, é claro (a própria escolha de Fincher para a direção revela isso). E por isso, chega a dar pena dos pobres alienados que acreditam que Tyler Durden realmente esteja certo, já que seus argumentos e idéias não são nada diferentes dos que qualquer outro terrorista ou psicopata. 

A diferença é como suas idéias são difundidas: através da beleza de Brad Pitt, em seu melhor momento. Edward Norton também realiza uma atuação marcante e a outra ponta do triângulo amoroso vem com Helena Bonhan Carter, na última atuação brilhante de sua carreira (damn you, Tim Burton). Contando com o visual sempre impressionante que marca as obras de Fincher, Clube da Luta é uma obra-prima absolutamente obrigatória para quem ama cinema. Um filme violento, perigoso e subversivo, e também divertido, da maneira mais terrível que a palavra pode sugerir. 

NOTA: 10

Chinatown


Clássico suspense de Roman Polanski, que envelhece como vinho. Um filme noir moderno (até hoje), que, sem querer, acabou lidando com temas que marcariam a vida de suas principais estrelas: pedofilia (Polanski) e incesto (Jack Nicholson). Mas o que realmente marca a obra é o roteiro esperto de Robert Towne, que consegue criar uma história complexa e desenvolver personagens marcantes. 

O filme começa simples, com uma mulher pedindo para que J.J. Gittes invetigue uma suposta infidelidade de seu marido. Só que a mulher não era a verdadeira esposa do marido supostamente infiel, e o tal marido está metido num perigoso esquema de corrupção. Para desvendar o que realmente aconteceu, Gittes começa a investigar tudo a fundo, e então intrigas familiares, relacionamentos amorosos e uma terrível conspiração pelo abastecimento de água na cidade se entrelaçam. 

Nicholson está brilhante como J.J. Gittes, um típico protagonista de Polanski: meio canalha, mas sensível, mulherengo e desajeitado. Mas é a maneira como o ator equilibra essas características que tornam seu trabalho genial. E o roteiro de Towne guarda tiradas brilhantes que colaboram com o ator, como "Para falar a verdade, eu menti um pouco", ou quando alguém diz que oconsiderava inocente, ele responde "Já fui acusado de muitas coisas, mas nunca disso...". Mas outra atuação brilhante no filme é a de John Huston, que vive um verdadeiro monstro, que como a maior parte dos monstros, nem sequer se preocupa em esconder isso em sua fachada. 

Chinatown faz referência ao bairro oriental no meio de Los Angeles, um lugar em que, como a população não fala o inglês, parece ser o paraíso para corruptos encerrarem seus problemas sem qualquer discrição ou preocupação. Isso diz muito sobre o desfecho maquiavélico do filme, em que dizer que "Não tem nada que possamos fazer, isso é Chinatown" pode parecer pouco, mas revela uma opinião fortíssima. 

NOTA: 10

Capitalismo - Uma História de Amor


Dirigido pelo controverso Michael Moore, Capitalismo - Uma História de Amor é o seu melhorr filme desde o excelente Tiros em Columbine. Também é seudocumentário com mais cara de documentário: há mais preocupação em êxpor argumentos, apresentar informações, e o humor é usado com sutileza, sempre nas horas certas. 

No filme, Moore apresenta a grande crise financeira que tomou conta do mundo no ano passado como uma farsa criada por empresas para pegar dinheiro dos contribuintes. É óbvio que foi isso que aconteceu, mas Moore faz um trabalho interessante desde o início, quando apresenta um monólogo sobre o declínio da Roma Antiga com imagens devastadoras de pobreza e desemprego nos Estados Unidos. 

A estrutura do filme também está diferente e mais interessante que seus últimos trabalhos: em Fahrenheit 11 de Setembro e Sicko, havia uma preocupação em criar um contexto antes de mostrar casos de pessoas comuns prejudicadas pelos grandes esquemas denunciados: aqui, o contexto é criado com o caso de pessoas comuns, assim quando começam as denúncias, o sentimento de revolta vem dobrado, já que vem acompanhado da injustiça cometida contra pessoas que "conhecemos". 

Contando com a montagem inteligente que marca seu trabalho, Capitalismo - Uma História de Amor também é esperto ao mostrar como a vitória de Obama por si só como Presidente já fez uma enorme diferença no país, e mesmo que ele possa estar devendo um pouco, o fato é que o otimismo que marca o final da obra é sincero e bem vindo. 

NOTA: 9

O Sal da Terra


Recentemente, comentei que ao assistir O Livro de Eli, me incomodei com o conteúdo repleto de cristianismo, onde deveria haver espaço para outras religiões, e o classifiquei como um filme de ação beato. E para contrariar quem adoraria dizer que estou perseguindo filmes com temáticas religiosas, acabei adorando este O Sal da Terra, filme de Eloi Pires, que não apenas é um diretor do meu estado, como também vizinho de bairro (mesmo que eu não o conheça pessoalmente, só para constar). 

Trata-se de um road-movie simples, sobre um padre que faz uma Igreja sobre rodas, rezando missas para caminhoneiros, e sua ligação com Romeu, um caminhoneiro cada vez mais frustrado com seu trabalho, e um andarilho, que se ligará a história dos dois no decorrer da história. A melhor sacada de O Sal da Terra é o seu protagonista, Padre Miguel. 

No início, quando ele é convidado por uma mulher para rezar pela morte de uma prostituta, tive a impressão de que o filme estava apelando para uma cena messiânica e desnecessária, mas fui surpreendido pelo roteiro, pela forma como o padre aborda a situação, utilizando uma tragédia pessoal para ilustrar a situação, algo que torna a cena eficiente. E em outro momento, depois de um acontecimento terrível, ao consolar um companheiro, o padre logo solta um versículo da Bíblia, mas logo, com um sorriso discreto muda de assunto, entendendo que naquele momento o caminhoneiro precisa muito mais de um amigo do que de um padre. 

E são nestas sutilezas que O Sal da Terra se diferencia. Ainda há diversos detalhes que contribuem para a verossimilhança da história, como os motoristas que dão sinais de luz para prevenir um caminhoneiro, entre outros momentos. O filme só escorrega em alguns momentos, como o flashback que mostra o padre Miguel contando a idéia da Igreja para o bispo, ou o diálogo no restaurante sobre o menino engraxate. Mas no geral, O Sal da Terra é um filme belíssimo e bem feito. 

NOTA: 8,5

Simplesmente Complicado


Nancy Meyers tem boas idéias, simples mas eficientes, mas sempre consegue me surpreender em como ela consegue estragá-las quando as filma. Simplesmente Complicado deve ser seu melhor trabalho, mas isso não significa mérito nenhum pra ela: seus diálogos bestas continuam lá. A diferença é a química irretocável entre Meryl Streep, Alec Baldwin e Steve Martin

Sim, porque Meyers já mostra sua incompetência no início, quando mostra Streep indo a um cirurgião plástico, uma cena que está lá só para que ele possa fazer um comentário sobre mulheres de idade que fazem plástica, e nada mais. E assim, com várias dessas cenas desnecessárias, a duração do filme quase beira o insuportável. Quase. 

Mas Meryl Streep está tão charmosa, e consegue fazer qualquer porcaria parecer divertida (Mamma Mia?) com sua presença. E Alec Baldwin é um ator tão melhor quando interpreta alguém arrogante e mala. E Steve Martin, por Deus, a quanto tempo ele não estava nos devendo uma interpretação tão simpática? Enfim, pode parecer pouco (e realmente é), mas não é nenhuma tragédia. 

NOTA: 6

Os Homens que Encaravam Cabras


Grant Heslov é um bom ator, mas sempre apareceu em papéis de pouco destaque, que surpreendeu ao escrever o roteiro de Boa Noite e Boa Sorte junto com George Clooney. Os Homens que Encaravam Cabras é mais uma surpresa, sua estréia na direção, uma comédia dramática eficiente sobre a loucura da guerra. Literalmente. Baseado em fatos reais (por mais incrível que pareça), o filme conta a história de um repórter que encontra um soldado psíquico no Iraque. 

Sim, um soldado psíquico, ou como prefere ser chamado, um guerreiro Jedi. Enquanto acompanha o soldado pelo país em meio a guerra, o repórter descobre a origem do Exército da Nova Era, comandado por um tenente hippie que faz testes para fazer seus soldados atravessarem paredes ou matar cabras simplesmente por encará-las. 

A história é interessantíssima, e é tratada de maneira curiosa, misturando comédia de humor negro com um drama nostálgico que me lembrou Os 12 Macacos. E Ewan McGregor (de novo), George Clooney, Kevin Spacey e (principalmente) Jeff Bridges estão tão bem em cena, que é impossível não apreciar o seus belos trabalhos. 

Infelizmente, o roteiro adota uma estrutura não-linear que é problemática e, pior, a montagem não consegue nem dar ritmo e nem manter uma coerência entre o que foi dito, e o que será dito na próxima cena, algo que transforma o segundo ato de Os Homens que Encaravam Cabras em algo razoavelmente bagunçado. Mas, como eu disse, os atores estão tão bem, e a história é tão inusitada que não dá pra não admirar o filme. 

NOTA: 8

O Livro de Eli


Mistura esquisita com filme beato com cinema de ação, O Livro de Eli é bom e assistível, mas não muito mais do que isso. Dirigido pelos irmãos Hughes, do também meia-boca Do Inferno, conta a história de um andarilho num mundo pós-apocalíptico que carrega consigo a última cópia da Bíblia (e se dizer que um livro preto com uma cruz na frente é spoiler, então, me desculpem). Depois de passar por uma cidade onde os cidadãos são escravos de seu líder, o andarilho tem problemas, já que o tal líder deseja a arma que é o livro. 

O Livro de Eli poderia ser uma reflexão interessante sobre a violência cometida em nome de Deus historicamente, mas jamais se aprofunda na questão, nem a ponto de discutir razoavelmente. Prefere se concentrar no visual, e nesse sentido, se sai bem. Apesar de um excesso desnecessário de efeitos especiais, o fato é que os diretores conseguem criar cenas ótimas, com destaque ao tiroteio em uma casa visto num plano-sequência, que mesmo com o tal excesso de efeitos é bem sucedido. 

Mas Do Inferno também era visualmente belíssimo, e outra coisa que o salvava era o ótimo elenco, liderado por Johnny Depp e Ian Holm. Lição aprendida e dá-lhe repeteco, mas dessa vez com Denzel Washington e Gary Oldman. Embora Washington tenha uma atuação burocrática, mesmo que eficiente, Oldman se sai muito melhor, se divertindo com a crueldade de seu personagem.

De qualquer forma, O Livro de Eli é bonzinho, principalmente como filme de ação, mas sai perdendo feio no roteiro e conceito pelo simples fato de ter um irmãozinho muito mais bem escrito e bem feito  lançado a pouco tempo: A Estrada.
NOTA: 6,5

O Escritor Fantasma


Coincidência curiosa que dois dos melhores suspenses do ano tenham tantas características em comum: estou falando de Ilha do Medo e este O Escritor Fantasma. Ambos possuem mestres na direção: em um Martin Scorsese, e neste, Roman Polanski. Ambos começaam com a chegada de um navio a uma ilha; ambos, se passam numa ilha (doh') em que o clima é nublado e nada convidativo. E o principal: ambos são suspenses fascinantes, e atingem novos níveis de perfeição, dentro de carreiras já invejáveis. 

Ewan McGregor interpreta o escritor fantasma escolhido para realizar as memórias do ex-primeiro ministro da Inglaterra, Adam Lang (Pierce Brosnan). Aceitando o emprego pela ótima remuneração, ele acaba indo, mesmo sabendo o escritor fantasma anterior, um amigo de tempos de Lang, foi encontrado morto em circunstâncias bastante suspeitas. 

Dirigindo o filme com seu talento unico e peculiar, Polanski faz de O Escritor Fantasma uma experiência repleta de tensão, e assim como Spielberg em Munique, em alguns momentos nem sequer explica o que de fato ocorreu (nos deixando na mesma situacção que o protagonista). Além disso, a cenografia do escritório onde o escritor trabalha é brilhante, mantendo-o de costas para uma vista aberta para o mar (e portanto, é perfeito que no primeiro momento de tensão no lugar, Polanski dê destaque a uma enorme proteção que bloqueia a vista). Outra antiga característica do diretor, que é a sensação claustrofóbica que seus filmes passam, volta a aparecer de forma curiosa: mesmo quando os personagens estão em locais abertos, o diretor favorece algum detalhe que os "aprisiona", como ao mostrar dois personagens que andam pela praia acompanhados pelo segurança, ou a forte tempestade que atinge a ilha em um determinado momento. 

Ewan McGregor mostra pela segunda vez no ano (ver O Golpista do Ano) sua evolução como ator, fazendo um trabalho sutil e complexo, comparável a outra grande atuação num filme de Polanski: Jack Nicholson em Chinatown. Pierce Brosnan, um bom ator que infelizmente às vezes prefere trabalhar no piloto automático, também realiza um belíssimo contraponto a McGregor, repleto de fúria e uma curiosa tristeza em meio a um ego enorme, e Olivia Williams como sua esposa também se mostra surpreendente. O filme ainda se beneficia de pontas bem realizadas (outra semelhanca com Ilha do Medo), como as de James Belushi, Tom Wilkinson e Eli Wallach

Contando com um ato final inteligente e trabalhado de maneira brilhante pelo diretor (o plano-sequência que mostra um bilhete passando por varias mãos é genial), O Escritor Fantasma pode desagradar pelo pessimismo que a cena final passa, mas é impossivel ignorar que fomos muito bem manipulados por um mestre do cinema por duas horas. 

NOTA: 10

PS: E pensar que Tony Blair, antes tratado como um espertalhão cheio de boas intenções em A Rainha por Michael Sheen virou este político cheio de mágoa e tragédia por Pierce Brosnan... tsc, tsc...

Toy Story 3


Antes de assistir Wall-E, sempre afirmei que Toy Story 2 era minha animação 3D favorita, não pela tecnologia ou visual, mas pelos personagens e pela belíssima historia. E como o desfecho do segundo filme é absolutamente perfeito e irretocável, senti um certo medo de assistir Toy Story 3. Mas não precisei de 5 minutos revendo aqueles personagens para perceber como eu sentia falta deles. A história é tão boa que consegue fazer até o tempo que Toy Story 3 levou para ser feito (mais de dez anos, se não me engano) fazer sentido. 

Agora, Andy já está partindo para a faculdade, e os brinquedos enxergam apenas dois destinos: serem jogados no lixo ou guardados no sótão. Mas, por um engano, acabam sendo levados até uma creche, onde se empolgam em saber que terão crianças novas para brincar, mas algo acaba dando muito errado... 

A decisão mais inteligente da equipe da Pixar nesta obra-prima (sim, obra-prima) é tornar o arco dramático de Andy tão, ou mais importante que o dos brinquedos. Por causa disso, o filme surpreende com um terceiro ato emocionante. E os novos (e fascinantes) personagens apresentados na trama são bem utilizados e divertidos. 

Provando (de novo) que é o grande estúdio de animação do mundo, e uma das produtoras de cinema com curriculo mais invejável dos últimos anos, a Pixar conseguiu de novo. E a burrice foi toda minha de achar que Toy Story 3 não ia ser grande coisa. 

Tudo bem. 

To no canto da sala com meu chapéu de burro. Mas feliz por isso. 

NOTA: 10

Tudo Pode Dar Certo


Inteligente e hilariante, Tudo Pode Dar Certo é a melhor comédia de Woody Allen em muitos anos, pra não dizer décadas. O filme funciona de maneira perfeita, o timing cômico dos atores e tão preciso quanto a montagem. E Woody Allen também se supera na escolha do elenco, principalmente em chamar o talentoso Larry David para ser o protagonista. (E você que não conhece Larry David, saiba que ele criou a série Seinfeld). 

Tudo Pode Dar Certo conta a história de Boris, um gênio que quase ganhou um prêmio Nobel que tem sua vida alterada depois que encontra a garota Melodie. Inicialmente apenas fazendo uma boa ação para a garota, Boris aos poucos vai se apaixonando, e o mais surpreendente, ela também se apaixona por ele. 

A trama é simples, mas são seus desdobramentos e, principalmente, o desenvolvimento dos personagens que é realmente genial: se Boris é aquele tipico cara que adoramos odiar nos filmes, e sua reação a declaração de amor de Melodie (Você está louca?) realmente sugira que ele não tem nenhum interesse romântico pela garota, o filme encontra uma maneira natural e sublime para mostrar como ele decide permitir que o relacionamento dos dois aconteça. 

E Larry David não facilita em nada a tarefa de gostarmos dele, demonstrando uma prepotência divertidíssima, principalmente nas cenas metalinguisticas, David diverte com seu tom sempre irônico nas falas (e sinceramente, qualquer cena em que ele ensine crianças a jogar xadrez me fez chorar de rir). Enquanto isso, Evan Rachel Wood faz um equilibrio delicado entre uma garota dondoca do interior, mas que se mostra bem espertinha em alguns assuntos, algo fundamental para a história. 

Vale também dizer que, apesar do tom do filme ser obviamente uma comédia escrachada, Allen lida com questões sérias, e há um clima de melancolia que contribui de maneira intensa para a história, principalmente no seu ato final. Repleto de tiradas inspiradas, e cenas que, fora do filme renderiam curta-metragens engraçadíssimos (principalmente a cena entre o pai de Melodie e um rapaz num bar), Tudo Pode Dar Certo é um extraordinário exemplo de como Woody Allen é capaz de fazer filmes magníficos quando quer. E o quanto seus filmes são melhores... quando... não... tem ele... 

NOTA: 9

Eclipse (2010)


Eclipse é o melhor filme até o momento da tal saga Crepúsculo. Primeiro, convenhamos, não era nada dificil. Mas o mais impressionante é que, em raros momentos, o filme apresenta boas idéias ,que tapam buracos na história de maneira até interessante, e além disso, Eclipse se mostra muito mais eficiente como filme do que Crepúsculo e Lua Nova, que são chatos e malas. Ao menos, este mais recente não provoca bocejos.

Dirigido por David Slade, dos bons Menina Má.com e 30 Dias de Noite, Eclipse utiliza a dúvida de Bella se casa ou não com Edward como espinha dorsal da história, o que é uma idiotice tremenda, ja que fomos obrigados a vê-la correr atrás do machinho por dois filmes, então porque diabos ela faria um ânus adocidado (ou cu doce) justamente nessa hora? Fora isso, há uma trama bestinha sobre um exército de vampiros recém-mordidos, que é tratada de maneira pedestre. 

Mas como disse antes, Eclipse tem seus bons momentos: o principal, já ficou famoso, que é o momento gay entre Jacob e Edward, que certamente amplia os horizontes do triângulo amoroso com um belo arco-íris ao fundo. Mas fora isso, o pai de Bella é mais bem definido (a cena em que ele tenta conversar com ela sobre sexo é bem divertida), e o que realmente garante o sucesso do filme é que a trama parece se levar menos a sério: há mais humor, menos aporrinhação mitológica, e mais preocupação em entreter. Isso salva Eclipse. 

Mesmo assim, o filme ainda comete o erro terrível de apresentar flashbacks de alguns personagens do clã vampiresco. Não, os flashbacks nao atrapalham a história, e são bem filmados e mostrados. O erro é que, pelos flashbacks, deu pra ver que qualquer outro personagem dentro daquele filme é mais interessante do que Bella, Edward e Jacob. 

NOTA: 5

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