Wall Street - O Dinheiro Nunca Dorme


Ótima continuação do clássico Wall Street, também dirigido por Oliver Stone em 1987. Aliás, uma volta digna do diretor, depois da pior fase de sua carreira, capitaneada por Alexandre e As Torres Gêmeas. Wall Street - O Dinheiro Nunca Dorme é o melhor filme de Stone desde os já distantes Reviravolta e Um Domingo Qualquer (que, por sinal, também já não tinham a mesma qualidade das obras antigas do diretor, vejam só...).

Agora, reencontramos o clássico Gordon Gekko depois de 8 anos na prisão e lançando um livro, cujo título já questiona o seu lema no filme anterior: A Ganância é Boa? Ele acaba sendo surpreendido por Jacob Moore (Shia LaBeouf), um rapaz de Wall Street decidido a se vingar pela morte do seu tutor (vivido por Frank Langella), que se matou depois de ter a empresa desvalorizada por um boato. Moore e Gekko fazem um acordo: Gekko ajudará o rapaz na vingança, enquanto Moore, que está noivo da filha de Gordon, irá tentar reaproximá-los.

Utilizando a crise financeira como pano de fundo para a história de maneira inteligente, o filme é muito bem comandado por Stone, que apesar de criar um visual até discreto se compararmos a outras de suas obras, realiza um trabalho impecável com gráficos que se misturam a paisagens de Nova York, ou letreiros que passam na frente do rosto dos personagens, além de cenas inusitadas, como ao fazer a câmera "subir" um prédio por fora e iniciar a cena com um jogo de espelhos com o reflexo das janelas, logo no início. E como não admirar o momento em que durante um monólogo de um personagem que lamenta sua vida atual no mercado financeiro, a câmera desvia do ator, para mostrar algumas crianças brincando num parque?

O elenco está fabuloso, com óbvio destaque para Michael Douglas. Shia LaBeouf finalmente impressiona com uma caracterização (e não apenas diverte pelo carisma), enquanto Josh Brolin mostra, mais uma vez, que é um ator a ser levado cada vez mais a sério. E se Susan Sarandon diverte com sua personagem sem noção (mas tristemente, real), Carey Mulligan tem a triste tarefa de interpretar a personagem mais malinha da história. 

Muitos tem criticado o final do filme. Eu gosto do final, meu problema é com a última cena, que parece ter saído de alguma tele novela, e querendo ou não, dá uma certa brochada ao fim de uma jornada regada de frieza, inteligência e crueldade. Mas, no final das contas, o saldo é muito mais positivo. E como não admirar uma continuação que feche arcos dramáticos de maneira tão irônica, quanto a mostrada pela ponta de Charlie Sheen?

Oliver Stone: seja bem-vindo de volta. Só espero que seja para ficar.

NOTA: 8,5

Chico Xavier


Cinebiografia do popular médium, que é bem realizada, mesmo que um pouco desonesta. Não há nada no filme que questione a menor possibilidade de Chico Xavier não ter sido um médium de verdade. De acordo com a obra de Daniel Filho, espíritos existem, e o Chico os via e os psicografava e é isso aí, e não tem mais nem menos. Isso é uma decepção para quem não conhece a figura e nem sua obra (eu aqui!), e a legenda que surge no início sobre não haver como contar a vida inteira de um homem em um filme (mentira), surge quase como um pedido de desculpas por incompetência, nesse sentido.

Mas, justiça seja feita, o filme não é um desastre. Há momentos muito bons no filme, principalmente os que mostram os bastidores do programa em que Chico Xavier é entrevistado. Há atuações muito acima da média também, principalmente de Tony Ramos, que tem a melhor cena do filme, em seu discurso no julgamento, e de Giovana Antonelli, que faz de sua rápida participação, uma presença marcante.

Além disso, Daniel Filho tem alguns rompantes de criatividade dignos de nota, principalmente a primeira cena em que Chico psicografa, quando depois de um travelling, a câmera faz um contra-plongee do personagem e o telhado da casa "se abre". Infelizmente, estes momentos são raríssimos no filme.

Por outro lado, há atuações completamente esquisitas, como as de Pedro Paulo Rangel, que interpreta um padre quase como se estivesse num filme de Guel Arraes, e principalmente, André Dias, que transforma o espírito guia de Chico, Emanuel num personagem que lembra Gavin Rossdale em Constantine, onde interpreta um... demônio...

Mas de qualquer maneira o filme consegue se equilibrar. O problema é o final desonesto em que, na falta de um clímax emocional na história de Chico Xavier, é contornado com a história de um casal, que é resolvida com excesso de melodrama. 

Mas... também, né? E eu tava esperando o que de um filme do Daniel Filho?

NOTA: 4

Tropa de Elite 2


Considero Tropa de Elite não apenas um dos melhores filmes nacionais da década passada, como um dos mais importantes mundialmente falando dos últimos tempos, e minha enorme paixão pela obra jamais permitiu que eu gostasse da idéia de uma continuação, já que o desfecho absolutamente perfeito do filme fechava um arco dramático de maneira corajosa e digna de aplausos.

De qualquer forma, Tropa de Elite 2 é eficiente e serve bem em seu propósito de se aprofundar ainda mais na corrupção e violência que cerca a vida profissional do capitão Nascimento. Aqui, o personagem comanda uma ação desastrosa no presídio de Bangu I, que culmina na morte de diversos presos. Criticado pela mídia, Nascimento vira um herói da população (afinal "traficante bom é traficante morto"), e ele é convidado pelo governador do Rio de Janeiro a assumir um bom cargo na Secretaria de Segurança, de onde começa a reforçar o BOPE. Mas as ações cada vez mais eficientes do Esquadrão acabam culminando no nascimento de milícias lideradas por PM's. E Nascimento deverá enfrentar isso, ao mesmo tempo em que vê seu filho se distanciando cada vez mais dele.

Novamente interpretado por Wagner Moura, o capitão Nascimento mais uma vez se mostra um personagem absolutamente fabuloso e fascinante, sempre surpreendendo seja pela inteligência ou pela brutalidade de suas ações, e Moura mais uma vez faz um trabalho fantástico em sua interpretação. É uma pena que nessa continuação não apareça mais nenhum personagem tão bom quanto os do primeiro filme, e o que talvez chegue mais perto disso é o apresentador de TV a lá Ratinho e deputado, mas sua interpretação é tão exagerada que acaba se estragando. Além disso, alguns arcos dramáticos são extremamente decepcionantes, principalmente o do capitão Fábio, que parece estar lá só para agradar ao ator do primeiro filme, á que seu personagem não faz absolutamente nada de relevante para a trama, a não ser reclamar que está sendo desrespeitado.

Além disso, há diversos momentos que destoam completamente da lógica da trama, como o momento em que Matias faz a tortura do saco na cabeça do traficante: a maneira como a cena acontece chega a trazer um humor inconsciente e desnecessário (estragando uma cena com um desfecho fortíssimo). Mas todos os problemas de Tropa de Elite 2 desaparecem a partir do momento em que um personagem importantíssimo da trama morre, e as consequências do ato começam a ser sentidas por toda a trama, que começa a se encaixar de maneira brutal e eficiente, finalmente digna do primeiro filme.

Contando com uma parte técnica fabulosa (o jogo de futebol de crianças que é interrompido por um helicóptero é um momento fantástico), José Padilha novamente enche o filme de energia, mesmo que isso as vezes não combine com o que está acontecendo. Mas vale dizer que se no primeiro filme o diretor parecia inspirado no tipo de cinema realizado por Paul Greengrass, por exemplo, aqui há vários elementos "Scorsesianos" que impressionam muito (desde a introdução, que tem um toque de Cassino). 

Contando também com um desfecho fortíssimo que certamente irá gerar muita discussão na saída do cinema, Tropa de Elite 2 não tem o poder de fogo do primeiro filme, mas está longe de ser dispensável, e mantém o nome de Padilha como um diretor a ser muito respeitado no cinema nacional.

NOTA: 8,5

PS: Se Costa Gavras deu o prêmio de Melhor Filme para Tropa de Elite em Veneza, aqui ele é homenageado de maneira singela, com os cartazes de seus filmes em uma cena, pelo diretor José Padilha. Bacana.

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