Os Outros Caras


Nesta nova parceria entre Adam McKay e Will Ferrell, os dois certamente tentaram criar um filme mais relevante do que os ótimos O Âncora e Ricky Bobby - A Toda Velocidade. Em parte erraram, já que Os Outros Caras sofre de "crise de personalidade", mudando completamente o tom da história a cada 10 minutos sem qualquer boa justificativa. Por outro lado, conseguiram fazer mais uma comédia com piadas acima da média.

O filme começa satirizando (de maneira perfeita, diga-se de passagem) todos os excessos de filmes policiais, numa cena de perseguição bem filmada, entre bandidos e os policiais interpretados por Dwayne Johnson (que não é mais The Rock) e Samuel L. Jackson. Depois de vários carros e locais destruídos pela ação, descobrimos que os bandidos portavam menos de 100 gramas de maconha, o que não importa a ninguém, já que os policiais são considerados heróis, ao contrário dos outros caras, interpretador por Will Ferrell e Mark Wahlberg. Mas logo depois que os heróis saem de cena (numa das piadas mais surreais e inacreditáveis dos últimos tempos), os dois enxergam sua oportunidade para ocupar o lugar deles.

O filme acaba mudando quando os dois começam uma investigação sobre as ações de um milionário (interpretado pelo sempre genial Steve Coogan), e o segundo ato abaixa um pouco o nível, que só volta a melhorar no último ato. Não que o segundo ato seja problemático, mas suas melhores piadas acabam não tendo função alguma na história, como as esposas dos protagonistas, por exemplo.

Will Ferrell está bem, engraçado mas bem mais sutil do que seus trabalhos anteriores, deixando todo o destaque para Mark Wahlberg que surpreende com um timing cômico impagável que eu certamente desconhecia (apesar de considerá-lo um bom ator). Além deles, Michael Keaton acaba ganhando destaque da metade para o final e realiza algumas cenas muito boas.

Apesar de um desfecho um pouco forçado no sentido temático, o fato é que Os Outros Caras acaba se revelando uma surpresa inesperada nesse sentido: a moral da história, por exemplo, me pegou de surpresa e me deixou muito mais satisfeito com todo o conteúdo do filme que, por mais que tente, infelizmente, não escapa de ser apenas uma comédia bem-sucedida. Se tivesse sido um pouco mais pensado, quem sabe não seria uma pequena obra-prima?

NOTA: 8

Faça a Coisa Certa


Junto com Veludo Azul e Touro Indomável, Faça a Coisa Certa é um dos grandes filmes americanos dos anos 80. Em seu terceiro longa-metragem, Spike Lee criou um filme corajoso, que ainda hoje, mantém seu forte impacto ao lidar com o preconceito racial vindo das próprias minorias étnicas. A obra fez polêmica, e ainda gera debates, ao retratar o racismo vindo da própria comunidade negra.

Faça a Coisa Certa conta a história de um dia numa rua em Nova York. Neste dia, com calor recorde faz com que o stress e a tensão entre os moradores entre em verdadeira ebulição. Por mais que o filme comece relativamente leve, a sensação de que algo terrível poderá acontecer está presente a todo momento, graças a conflitos pequenos, mas repletos de ódio e adversidade.

O centro de todo o conflito é a tentativa de boicote de um morador de que Sal, o dono da pizzaria interpretado por Danny Aiello, coloque fotos de alguns negros em sua parede, repleta de fotos de artistas como Al Pacino, Robert DeNiro e outros. Um confilto pequeno que ganha proporções inacreditáveis num dos terceiros atos mais poderosos que o cinema já produziu.

O elenco inteiro não merece apenas elogios pelo talento em suas performances, mas pela coragem: se Danny Aiello cria uma figura carismática, mas que deixa escapar algum preconceito em alguns momentos, John Turturro cria um personagem repulsivo, mas complexo, ao deixar absolutamente claro seu racismo, mesmo que conheça (e admire) a cultura negra. E se Ossie Davis acerta perfeitamente no tom de sua atuação como o Prefeito (quase "a voz da razão" do local), Giancarlo Esposito merece elogios pela maneira insana (e acertada) que demonstra seu ativismo.

Spike Lee surge como uma voz poderosa no cinema norte-americano, criando uma obra-prima de forte personalidade. O visual do filme é um show a parte: o Brooklin de Faça a Coisa Certa não parece em nada com o que estamos acostumados, mais parecendo uma versão surreal do local, algo que funciona perfeitamente na lógica do filme. Além disso, o diretor já demonstrava um talento natural para os enquadramentos, e as cenas em que os atores falam diretamente para a câmera (e ainda acho que Spike Lee é o único que consegue fazer cenas assim parecerem naturais).

Contando com um final que, certamente, divide (e dividirá) opiniões, Faça a Coisa Certa é um filme poderosíssimo e de forte personalidade. A maneira como Spike Lee encerra a obra pode ser vista como maniqueísta, mas me parece um complemento mais do que natural ao que vimos até então, e mais: é um desfecho extremamente corajoso ao se preocupar mais em fechar a lógica da trama do que em agradar o público.

E a coragem de Spike Lee de escrever e dirigir esta obra-prima se torna ainda mais admirável se notarmos que ele interpreta o personagem que realiza a ação mais controversa no final do filme, o que demonstra a segurança e confiança que Lee tinha na obra.

NOTA: 10

Senna


Difícil para mim escrever sobre Senna. Ayrton Senna foi meu primeiro ídolo de infância. Seu acidente fatal representou para mim, o meu primeiro contato com a morte. Assim que seu carro acertou o muro na curva Tamburello, meu pai gritou "Morreu". Eu segurei as lágrimas, preocupado. Queria, mais do que tudo, que meu pai estivesse errado. 

Não estava.

Logo depois, me tornei obcecado: pedia a minha mãe toda e qualquer revista que falasse sobre o acidente. Sublinhava coisas nelas para perguntar a meus professores o que aquilo significava, como "os médicos tiveram que abrir sua traquéia" e coisas assim. Comprei a Fita K-7 com músicas gravadas em sua homenagem, como a versão de Canção da América cantada por Milton Nascimento, além do inesquecível Tema da Vitória.

Depois da morte de meu ídolo, sem nem pensar duas vezes, nunca mais assisti uma corrida de Fórmula 1, nem me interessei mais. Até hoje, nem sei quem são os pilotos que estão na ativa. E não era porque "não teve  mais graça". Seria como... um show dos Beatles sem John Lennon, ou algo assim: não fazia sentido.

Assistir Senna foi lembrar de todas as sensações que ficaram lá atrás, na minha infância: o ódio a Alain Prost e Nigel Mansell, as corridas em que Senna caia da pole para a 14ª posição, e ainda assim, vencia. Tudo, inclusive meu desespero em sua última corrida. 

Sim, meu texto foi extremamente pessoal, e não disse nada de técnico ou realmente crítico sobre o filme. 

Mas só posso argumentar que, caso o filme não fosse realmente muito bom, minha experiência ao assistí-lo certamente não seria tão profunda.

NOTA: 10

PS: Acredito que só imbecis como Nelson Piquet ou Diogo Mainardi seriam capazes de criticar algo no filme... 

Direito de Amar


Direito de Amar é um drama fabuloso. Apesar de ter uma história completamente diferente, lembra uma espécie de Beleza Americana nos anos 60. O filme acompanha George, um professor universitário de meia idade que, sofrendo depois da morte de seu companheiro (com quem estava junto a 16 anos), acorda naquele dia com a certeza de que irá se matar. E o filme basicamente nos mostra seu dia, em meio as suas lembranças.

Colin Firth é um excelente ator, mas sempre sofreu por interpretar personagens sempre parecidos demais, algo que o ator aparentemente tomou consciência, se arriscando em projetos mais ambiciosos e diferentes, como A Última Legião, Quando Você Viu Seu Pai Pela Última Vez? e este Direito de Amar, que ele, inclusive, é um dos produtores. Mas a escolha não poderia ter sido mais feliz: sua atuação é soberba, daquelas que realmente acertam no ponto. E ele é auxiliado por uma Jullianne Moore mais do que inspirada, e Matthew Goode numa atuação marcante. 

Estréia mais do que promissora do diretor Tom Ford, que acerta melhor do que muito veterano o tom do filme, alternando momentos fortes e dramáticos, por alguns cômicos, sem jamais perder a linha. Além disso, o visual do filme é um espetáculo a parte, contando com as cores dessaturadas, que sempre se intensificam quando algo chama a atenção do protagonista. Além disso, o roteiro é uma obra-prima, merecendo um claro destaque o momento em que George acaba discursando sobre o medo das minorias para a sala de aula.

Direito de Amar é um drama pesado, sombrio até, mas não é abordado dessa forma. Apesar do peso de sua história, o desfecho é até otimista, e o clima saudosista e crítico colaboram para que o filme tenha seus momentos alegres, mas sem jamais soar banal, como o péssimo título que ganhou no Brasil.

NOTA: 10

Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 1


Quando assisti Kill Bill - Volume 1 pela primeira vez, achei o filme bonzinho, divertidinho e só. Tanto que o Volume 2 foi lançado em seguida, e eu ignorei completamente, já que não tinha sentido a menor vontade de saber o que acontecia. Afinal, a trama de Kill Bill não me interessou, e sim a estética, mas estética não é motivo para assistir um filme. Mas só quando assisti o segundo que eu entendi o primeiro: todos os seus defeitos, a não linearidade principalmente (que é gratuita) fizeram sentido. Ficou óbvio que o primeiro parecia ruim porque todos os melhores elementos da trama foram jogados para o segundo filme. Mas... os dois são o mesmo filme. Portanto, é mesmo justo julgar o primeiro bom (ou ruim) e o segundo não?

É nesta situação que me encontro com Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 1. Eu gostei muito do filme. Demais. Talvez um dos melhores do ano, sinceramente. Mas não consigo esconder a frustração de que eu não vi o filme inteiro. Em Kill Bill até encontraram um cliffhanger para a divisão dos filmes. Aqui parece quase escolhido ao acaso. Quando os créditos começaram eu não tive a sensação de "Meu Deus, eu preciso ver a segunda parte!". Soltei um "Puta que o pariu...". E é por isso que não posso dar uma nota para Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 1. Não é justo julgar uma obra que, na verdade, é uma preparação para o grande clímax.  Mas, não me entendam mal: o filme é realmente espetacular.

David Yates criou um filme pesado e forte. As ameaças que Potter e seus amigos sofrem são finalmente reais, palpáveis. Além disso, o clima é dramático. Os protagonistas sofrem com a solidão e depressão, e a fotografia colabora com o clima sempre sombrio, escuro.

Mas o que transforma essa Parte 1 no melhor filme da série é a completa ausência de preocupação com a duração. Assim, o filme é repleto de pequenas pausas que, podem não colaborar com a história, mas que parecem celebrar o relacionamento duradouro e sincero de seus protagonistas, principalmente a belíssima cena em que Daniel Radcliffe e Emma Watson se entregam a uma dança. E por falar nos jovens atores, o elenco está brilhante, até mesmo Watson que eu sempre achei meio exageradinha e Rupert Grint que, finalmente, não está servindo só para fazer piadinhas.

Contando também com uma das cenas mais belas e criativas de toda a série que é a animação que mostra a história das tais relíquias da morte, Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 1 é um filme surpreendente e maduro. 

Mas para saber se valeu realmente a pena assistí-o, e que eu não fui enganado... bem, isso só saberei ano que vem com a Parte 2;

NOTA: -

Leia aqui os textos sobre outros filmes da série:

Um Homem Misterioso


Fotógrafo talentosíssimo, Anton Corbijn estreou no cinema a alguns anos quando dirigiu o ótimo Control. Agora ele dirige este Um Homem Misterioso, um drama pesado e fascinante que se disfarça de thriller convencional, mostrando a velha história do assassino reavaliando sua vida durante seu último trabalho. Sim, a história é velha, mas a abordagem é fascinante desde o título original, The American

Jack (ou Edward, ou Sr. Borboleta), interpretado por George Clooney se encontra em uma pequena cidade da Itália depois de sofrer um atentado na Suécia. Assassino e também fabricante "artesanal" de armas, ele prepara sua última encomenda enquanto se aproxima de alguns cidadãos locais, como um padre e uma prostituta, ao mesmo tempo em que começa a sentir que está sendo perseguido.

A referência do título evoca um diálogo entre Jack e o padre, quando este último pergunta se ele conhece a história da região. Ao ouvir a resposta negativa, o padre comenta "É claro que não, você é americano. Vocês acreditam que podem escapar da história, vivem somente o presente", um diálogo fascinante, que transforma o filme numa metáfora brilhante. Mas não é só isso.

Absolutamente incapaz de se relacionar com qualquer pessoa, tanto pela sua natureza, quanto pela natureza de seu ofício, Jack é interpretado com maturidade e talento por George Clooney, que assim como em Syriana, não tem a menor preocupação em tornar seu personagem simpático ou carismático. Se acabamos nos identificando e torcendo pelo personagem, portanto, é prova irrefutável do talento do roteiro e do ator. E como demonstrou em Control, Corbjin mostra um talento único para a composição dos enquadramentos, desde simples diálogos, até o impressionante plano plongée que mostra a cidade como um ameaçador labirinto. 

Um Homem Misterioso possui um desfecho anti-climático, que pode frustrar parte do público, mas que fecha perfeitamente o arco dramático de seu fascinante protagonista. E só faltou um ritmo menos quebrado para transformá-lo numa experiência realmente perfeita.

NOTA: 9

O Aprendiz de Feiticeiro


Poderia ser um filme grandioso e divertido, e tinha muito mais chances de ser "o próximo Piratas do Caribe" da Disney, ou pelo menos, muito mais chances que o péssimo Príncipe da Pérsia. Mas resolveram entregar este O Aprendiz de Feiticeiro para o diretor Jon Turteltaub, cujo melhor filme foi Jamaica Abaixo de Zero, e deu no que deu. O filme é chato, quase sonolento e tem pouquíssima graça.

Contando com elenco excelente, que inclui Nicolas Cage, Alfred Molina e Monica Bellucci, o filme foi a grande oportunidade para o ótimo Jay Baruchel, de Menina de Ouro, Trovão Tropical e Ligeiramente Grávidos. Pena que o esforço do ator não sirva para muita coisa (e o mesmo pode ser dito para todo o elenco, infelizmente).

O filme não é de todo ruim, tem bons efeitos especiais, uma fotografia belíssima, e tem seus momentos divertidos. O melhor deles, é o que o filme claramente homenageia a versão feita com o Mickey perdendo o controle da faxina mágica, mas isso não é o suficiente. Aliás, para um filme com feiticeiros e magias, há bem pouca criatividade nesse sentido. O único momento inspirado é quando o personagem de Molina aplica a magia do espelho numa perseguição de carros. Mas, infelizmente, nada que faça diferença no final das contas.

NOTA: 4

The Brown Bunny


Este polêmico filme de Vincent Gallo foi acusado de muita coisa. Aliás, o próprio Vincent Gallo acabou acusado de egocentrismo pela tão discutida cena em que recebe um boquete (não sexo oral, boquete mesmo) numa cena explícita da atriz (e namorada, na época) Chloe Sevigny. Até acharia a cena discutível, caso não fizesse sentido com o resto do filme. Mas faz. E muito.

The Brown Bunny não é um filme fácil. É lento, indigesto. Tão intimista, que quase repele. Parece ter a levada de um filme de Jim Jarmusch, como Flores Partidas com a sinceridade de John Cassavetes. Trata-se de um retrato de um ego ferido por um relacionamento que deu errado. É uma dor masculina, feia e miserável. E Vincent Gallo, que produziu, escreveu, dirigiu, montou e protagonizou o filme sabe o que está fazendo. 

Caso o filme fosse realmente egocêntrico, dúvido que o autor pintaria um retrato tão horroroso de si mesmo. Logo na primeira cena, ele demonstra uma enorme carência afetiva ao convidar uma garota para viajar com ele, simplesmente por ter recebido um pouco de atenção. Em outro momento, ao trocar olhares com uma mulher, começa a acaricia-la sem trocar uma só palavra, numa cena irreal, estranha, mas que funciona perfeitamente na lógica da trama

Aliás, a trama é básica. O protagonista, Bud Clay, é um piloto de motocross que depois de correr em uma pista, deve viajar para a Califórnia para a próxima corrida. O filme o acompanha na viagem, enquanto descobrimos seu passado com Daisy (Chloe Sevigny), sua ex-namorada, cujo fim do relacionamento o jogou num abismo emocional.

A cena chave de The Brown Bunny é o momento em que Bud visita a mãe de sua ex, e o momento em que pergunta sobre o coelho que Daisy cuidava, e que se encontra ainda vivo, na gaiola. É óbvia a identificação do protagonista com o animal (como o título do filme diz): assim como o coelho, Bud se encontra preso, aguardando sem notícias o retorno de sua amada. E, portanto, a cena seguinte em que ele vai para um veterinário perguntar quantos anos um coelho pode viver possui uma ironia dramática terrível.

Que só é superada pelo desfecho da obra, um verdadeiro soco no estômago, que transforma um filme inteligente e frio numa pequena obra-prima a ser apreciada.

NOTA: 10

Pânico na Neve


Pânico na Neve é surpreendente. Tenso a ponto de ser sufocante, o filme não faz qualquer concessão para colocar o público junto com os personagens na péssima situação em que se encontram. Aliás, ao final, eu me sentia como se tivesse passado pela situação em tempo real com eles, algo que comprova a eficácia deste suspense.

Logo no início, os três protagonistas discutem qual seria a pior forma de morrer. Piada curiosa, já que o filme parece ter surgido de uma conversa exatamente assim. Aqui, os três ficam presos num teleférico, a vários metros do chão num domingo. Como o lugar só será reaberto na próxima sexta, e uma tempestade de neve se aproxima, eles resolvem escapar dali, com consequências trágicas: pense em Mar Aberto com neve no lugar do mar e lobos no lugar dos tubarões.

Escrito e dirigido por Adam Green (cujo trabalho não conheço), o filme é muito mais bem escrito do que dirigido. Falta criatividade nas cenas, e boa parte do que é realmente genial é culpa da montagem (como quando um personagem é atacado, e o filme se concentra em mostrar o esforço dos outros dois para não olharem a cena, já que não podem fazer nada). Mas o roteiro é brilhante ao estabelecer a amizade dos três, e como eles lidam com a longa passagem de tempo, e que o filme jamais se torne chato mesmo sendo praticamente três pessoas num banco de teleférico por grande parte de sua duração é mais uma amostra de qualidade deste filme surpreendente, e que ainda consegue ter um final bastante satisfatório.

NOTA: 8,5

Red - Aposentados e Perigosos


Fantasia divertida e alucinada sobre agentes aposentados da CIA que começam a ser perseguidos pela agência, o filme mistura duas fórmulas irresistíveis para o público: o do grupo que se reúne para o último golpe com uma comédia romântica, já que os personagens de Bruce Willis e Mary Louise Parker vão se conhecendo melhor durante a história.

Dirigido por Robert Shwentke, de Plano de Vôo e Te Amarei Para Sempre, Red - Aposentados e Perigosos é um filme de ação divertido e cativante. Criativo na construção dos personagens (principalmente o divertido paranóico de John Malkovich), o filme só é convencional nas cenas de ação, que não trazem nenhuma novidade, mesmo sendo competentes.

O forte de Shwentke como diretor é o visual, e ele não decepciona (aliás, ele está caminhando para ser o melhor discípulo de David Fincher, mesmo que seus filmes estejam longe da qualidade dos de Fincher). Bruce Willis é sempre um protagonista bacana, mas o destaque vão para os coadjuvantes John Malkovich e Helen Mirren, em papéis que, provavelmente, nunca iríamos atribuir a eles. E se Morgan Freeman pouco faz aqui (tem só uma cena boa, na verdade), Brian Cox e Mary Louise Parker levam um pouco mais de diversão para o filme.

Red - Aposentados e Perigosos poderia ser melhor se fosse mais ousado e menos convencional, cinematograficamente falando. Do jeito que ficou, até que está bom, mas é sempre chato pensar no final de um filme que "poderia ser melhor...".

NOTA: 7,5

Caçador de Recompensas


Caçador de Recompensas é uma das comédias românticas mais detestáveis já lançadas. Aliás, chamá-lo de comédia romântica é um elogio já que o filme não tem graça e o romance entre os protagonistas, dois egoístas estúpidos, jamais convence. E quem conhece o blog sabe que não sou chato com comédias românticas: caso o filme seja minimamente simpático ou divertido, eu elogio, caso de Minhas Adoráveis Ex-Namoradas ou A Verdade Nua e Crua.

Aliás, sobre A Verdade Nua e Crua vale uma comparação: se neste filme o simples contraste dos personagens de Gerard Butler e Katherine Heigl já era capaz de render risadas, aqui o fato é que Butler e Jennifer Aniston interpretam duas figuras antipáticas, chatas. E como torcer para o romance entre dois personagens se não gostamos sequer de um deles.

Contando ainda com uma duração inexplicavelmente longa, sub-tramas imbecis e uma história ridícula, Caçador de Recompensas é uma verdadeira tortura, um filme terrível com bons atores, que jamais tinham afundado tanto o pé na lama. 


NOTA: 0

A Epidemia


Tenho uma tendência de, às vezes, gostar de filmes muito mais pelo que eles tentaram ser, do que pelos seus méritos. E tenho absoluta certeza de que gostei muito deste A Epidemia por acreditar que o roteiro de Scott Kosar (de O Operário) buscou ao máximo uma dramaticidade rara em "filmes de zumbi", e que o diretor Breck Eisner, sabendo disso, fez o máximo para fazer de A Epidemia uma experiência muito diferente de Madrugada dos Mortos ou Extermínio, por exemplo.

Remake de O Exército do Extermínio do mestre George Romero, A Epidemia mostra o xerife de uma cidade que depois de estranhos incidentes na pequena cidade onde mora, começa a desconfiar que algo terrível pode estar acontecendo ali. Infelizmente, antes que ele descubra ou possa fazer alguma coisa, um exército invade a cidade e começa a prender todos, procurando exterminar os contaminados pelo vírus que apareceu ali depois de um acidente de avião.

Sem exibir os mesmos "cacoetes" de outras produções similares, A Epidemia é um filme até lento para os padrões do gênero. E se você pensar que isso pode ser um problema, pense de novo: é justamente  o ritmo pausado que contribui para a construção de cenas realmente horripilantes, como o zumbi que entra sozinho numa sala repleta de pacientes, matando-os um a um.  O clima é muito mais de melancolia e tristeza pela pequena cidade destruída misturado com o horror do que qualquer outra coisa. 

Trabalhando sempre com planos abertos, o Eisner cria uma atmosfera inquietante de que algo terrível pode acontecer a qualquer segundo, e a violência pode não ser extravagente (como seria de se esperar), mas a intensidade dos ataques é paupável e bem trabalhada pela montagem. E, aliás, há pequenos momentos que contribuem imensamente para acreditarmos no que está acontecendo, como a risada sutil seguida de um pequeno desabafo por um personagem logo depois que o carro deles explode, deixando-os a mercê do exército e dos zumbis.

Contando também com uma trilha sonora evocativa (o início com a versão de Johnny Cash para We'll Meet Again é perfeito), A Epidemia infelizmente se torna bastante previsível e comum em seus momentos finais, com sustos banais e cenas de ação que havia conseguido muito bem ficar sem antes. Mas apesar disso, se destaca como uma opção diferenciada e bem feita, mas que provavelmente não agradará a todos os fãs do gênero.

NOTA: 8

A Ressaca


Façam as contas:

The Hangover aqui virou Se Beber, Não Case.

Agora, The Hot Tub Time Machine virou... A Ressaca

Gênios, não? Enfim...

A Ressaca é uma comédia tão idiota e despretensiosa que tem charme único. A história dos três ex-melhores amigos (e mais o sobrinho de um deles) que viajam no tempo para os anos 80 através de uma jacuzzi não tem pé nem cabeça, mas o clima é tão divertido que o filme não tem a menos dificuldade em conquistar o espectador.

Dirigido por Steve Pink (do ótimo Matador em Confilto), A Ressaca deve grande parte de sua qualidade as atuações engraçadíssimas de John Cusack, Craig Robinson e Rob Corddry. A química entre os três é de um nível assustador. Além disso, a completa falta de preocupação em parecer politicamente correto garante ainda mais risadas ao filme.

Em suma, não há muito o que falar sobre A Ressaca. O humor nostálgico certamente atingirá ainda mais quem foi jovem na década de 80. Mas não terá dificuldades de se enturmam com outras gerações.

NOTA: 8

Kick-Ass - Quebrando Tudo


Matthew Vaughan vem se especializando em fazer filmes divertidos, visualmente estilosos, rápidos e idiotas, no bom sentido: seus filmes não fazem muito sentido, mas divertem, como o surpreendente Stardust - O Mistério da Estrela, e este mais recente Kick-Ass - Quebrando Tudo. A história de um zero a esquerda que resolve se fantasiar e combater o crime quase que por puro tédio é bacana, diverte. O filme é realmente violento, mas é uma violência de mentirinha, os jatos de sangue lembram os de 300. Nada realmente chocante, o que é perfeito para a lógica da história.

Não achei grande coisa de Aaron Johnson que interpreta o protagonista quase com preguiça, mas o resto do elenco está muito bem, com óbvio destaque para Nicolas Cage, em uma de suas interpretações mais divertidas. Chloe Moretz impressiona como Hit-Girl, enquanto Mark Strong e Chistopher Mintz-Plasse estão bem e divertidos, como habitual.

Contando com um senso de humor quase surreal, Kick-Ass é um filme bem-sucedido e realmente divertido, e se eu fosse reclamar de alguma coisa, eu só diria que os momentos mais pretensiosos do filme, quando tenta soar crítico são vazios e embaraçosos. Além disso, apesar de uma história completamente absurda, é uma pena que em alguns momentos a história tente se levar um pouco mais a sério do que deveria, já que o filme fracassa também sempre que tenta soar dramático.

Mas Kick-Ass ainda assim se destaca como uma obra divertida, e curiosamente, muito mais próxima de um filme de Tarantino do que um filme de super-herói.

NOTA: 8

O Último Mestre do Ar


Quando você está trabalhando num roteiro que envolve reinos do Fogo e da Água, tá aí duas coisas que você não deve fazer: número um, não deixe que os personagens se surpreendam toda vez que a água apaga o fogo e número dois: não fazer com que o principal conflito do filme seja uma divindade histórica que, sem saber como derrotar navios no oceano do reino de Fogo, precise de ajuda divina para pensar em... usar a água do oceano! Pois bem, isso acontece em O Último Mestre do Ar, baseado no desenho animado que nunca tive interesse de ver.

Escrito e dirigido por M. Night Shyamalan, ao menos o filme tem momentos inspirados, ao contrário de suas duas últimas bombas: A Dama na Água e Fim dos Tempos. Os planos-sequência que mostram diversos personagens usando seu poder são bem realizados, e a fotografia do filme é muito boa. 

As atuações estão praticamente todas constrangedoras, principalmente Dev Patel, que mais uma vez desobedece a norma principal de Trovão Tropical: "Never play a full retard". O garoto que interpreta o Avatar é até carismático, mas é sabotado pela completa falta de interesse do filme em estabelecer alguma simpatia do público para com os personagens. O que é importante aqui, aparentemente, é estabelecer toda uma mitologia complexa, tanto que o filme não fica 2 minutos sem alguém dando um monólogo importante.

O triste é saber que no meio de tanta complexidade, tenha tantos personagens se surpreendendo com o fato de que água apaga fogo...

NOTA: 1


PS: Em várias críticas positivas do filme, encontrei um argumento que me incomodou muito: "o público não entendeu porque Shyamalan tem uma sensibilidade européia...". 


Meu... me desculpa, mas como eterno admirador do cinema europeu, vão tomar no cu, né? Tão me zoando?

Uma Noite Fora de Série


Posso estar enganado, mas acredito que não há nenhum diretor tão incompetente trabalhando em Hollywood quanto Shawn Levy, responsável por atrocidades como Recém-Casados e Doze é Demais. Dizer que este Uma Noite Fora de Série é seu melhor trabalho é dizer o óbvio: ao menos, o filme não é um desastre. Mas a "culpa" disso é muito mais do casal de protagonistas, os ótimos Steve Carrell e Tina Fey.

A história do casal que é confundido com bandidos é forçadinha, mas funciona. O primeiro problema é que, para uma comédia, há pouquíssimos momentos realmente divertidos, como o momento em que Carrell e Fey se disfarçam de esnobes num restaurante, ou a gag envolvendo o barco no parque. O resto são situações comuns com piadas que nem sempre funcionam tão bem.

Apesar de não gostar muito de Tina Fey como atriz (acho ela muito melhor como roteirista), ela e Carrell tem ótima química e conseguem divertir o público mesmo quando o diretor parece se dedicar para que isso não aconteça. E as pontas divertidas de James Franco, Mila Kunis e, principalmente, a de Mark Walhberg também colaboram para o filme, que tem mais prós do que contras, mas que fica longe de ser memorável.

NOTA: 5

Atividade Paranormal 2


Gostei de Atividade Paranormal pela originalidade e pelas soluções inteligentes do diretor Oren Peli para brincar com a imaginação do público, criando uma atmosfera tensa e inquietante, com um orçamento ridículo. Agora, um ano depois e um orçamento 100 vezes maior, Atividade Paranormal 2 curiosamente não decola, mesmo que não faça tão feio.

Dirigido por Tod Willians (do ótimo Provocação), o filme acompanha a irmã de Katie, e se passa antes dos eventos do primeiro filme. Mãe de um recém-nascido, e madrasta de uma adolescente, ela vive feliz com o marido até que... portas se fecham sozinhas e panelas caiam, claros indícios de que um demônio está ali. Brincadeiras a parte, o fato é que o filme demora tanto para prender a atenção, que alguns dos elementos que deveriam ser assustadores caem no ridículo: sinceramente, um fantasma mexendo... no limpador de piscina? Ora...

Além disso, se o primeiro filme falhava ocasionalmente por parecer "montadinho" demais para parecer um filme caseiro, aqui isso atrapalha o filme inteiro, com diálogos cortados no meio (só faltou ter plano e contra-plano, mas foi por pouco). E pior ainda, se desta vez teríamos muito mais motivos para nos importarmos com aquela família (um bebê, por Deus!), o fato é que o filme falha na construção dos personagens de tal maneira que... bom.. we just don't care. 

E a empregada latina que serve de caça demônios na casa é um exemplo constrangedor de clichê do tipo "latinos tem mais contato com o mundo espiritual" (eu mesmo, acabei de exorcisar duas pessoas no corredor do prédio), e até poderia deixar isso batido se, no final das contas, a personagem fizesse alguma diferença. Não faz.

Mas apesar de todos esses problemas, Atividade Paranormal 2 tem sim seus bons momentos. Eles demoram a acontecer, mas acontecem. E a melhor decisão dos realizadores foi utilizar o orçamento do filme com sabedoria, e os poucos sustos que dependem de efeitos visuais são realmente bem feitos. E por mais que o filme falhe na construção da história (a mitologia criada para juntar os dois filmes é risível), o fato é que o terceiro ato do filme funciona muito bem apesar de tudo, sendo tão tenso quanto o primeiro filme, mesmo que  anos-luz atrás no sentido qualidade.

NOTA: 6

O Segredo dos seus Olhos


Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro desse ano, O Segredo dos seus Olhos é mais uma belíssima parceria do diretor Juan José Campanella e o fabuloso ator Ricardo Darín. O filme acompanha Benjamin, um escrituário recém-aposentado que resolve escrever um livro sobre um período turbulento de sua vida. na década de 70, o seu envolvimento num caso de assassinato através de uma comovente amizade com o marido que busca a verdade na morte da mulher, assim como sua forte paixão pela chefe, Irene. 

Misturando drama e humor na medida perfeita, o filme apresenta uma história simples, cujas complexidades surgem das relações entre os personagens, e as motivações por trás delas. Mas o que é impressionante em O Segredo dos seus Olhos é a inteligência do roteiro na construção de suas cenas, com claro destaque ao brilhante momento em que Benjamin interroga um suspeito pelo assassinato, e a maneira como Irene praticamente arranca a confissão no momento. Além disso, o filme ainda apresenta uma parte técnica irretocável, que culmina na perfeição de um plano-sequência absolutamente perfeito que culmina numa tensa perseguição num estádio de futebol. 

Contando com atuações soberbas (que é o grande forte do cinema argentino) de Ricardo Darín e Soledad Vilamil como Irene, o grande destaque é de Guillermo Francella como o melhor amigo de Benjamin, um homem competente, mas completamente atrapalhado pelo alcoolismo (e cujo trágico destino representa um dos pontos mais altos do filme).

Meu único problema com o filme está nos 10 minutos finais, quando Campanella se entrega a uma desnecessária montagem a lá Os Suspeitos no momento "Ahhhh, então ele é o Keiser Soze!" para revelar o destino de um personagem e fechar a história. É um momento barato e artificial demais para um filme que vinha se mostrando tão elegante e bem construído até então. Mas não é nada que me impeça de recomendar este filmaço.

NOTA: 9

Scott Pilgrim Contra o Mundo


Edgar Wright já havia me impressionado com duas comédias absolutamente perfeitas, Todo Mundo Quase Morto e Chumbo Grosso, mas eu realmente não estava preparado para a obra-prima que ele realizou em Scott Pilgrim Contra o Mundo. Baseado numa história em quadrinhos da qual eu não sei nada (nem se já foi lançada, por exemplo), o filme mistura o visual de HQ, com videogames de 16 Bits, e qualquer um que tenha jogado Super Nintendo babará desde a logo da Universal no início.

Scott Pilgrim (Michael Cera, ótimo como sempre) é um jovem baixista de uma banda de Toronto que se apaixona por uma americana recém chegada na cidade, Ramona Flowers. Só que o relacionamento dos dois mal começa quando ele descobre que... deverá derrotar a Liga dos 7 Ex-Namorados de Ramona. Sim, a história é absurda, mas o diferencial é a maneira inusitada e divertidíssima com que é levada pelo filme.

Contando com um visual alucinante e a melhor trilha sonora que já ouvi desde Quase Famosos e Alta Fidelidade (cortesia de Nigel Godrich, produtor do Radiohead), Scott Pilgrim tem triunfos técnicos tão impressionantes que será uma injustiça tremenda se o filme não for indicado no mínimo ao Oscar de Montagem e Fotografia (cortesia do veterano Bill Pope). 

E por falar em Oscar, os atores: sou fã de Michael Cera desde Superbad, e apesar de a crítica realmente não ver aparentemente nada nele, considero-o carismático e dono de um timing cômico inusitadíssimo, e ele não decepciona aqui, enquanto Mary Elizabeth Winstead faz uma versão mais jovem (e tão sedutora quanto a) de Kate Winslet em Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças. E se os tais ex-namorados se saem muito bem, incluindo o normalmente fraquinho Brandon Routh, Jason Shwartzmann diverte (e provavelmente, se diverte) como o grande vilão da história. 

Mas, como eu disse, Oscar: Kieran Culkin como o melhor amigo gay de Scott Pilgrim praticamente rouba o filme para si em todas as cenas em que aparece: é o ator que melhor consegue interpretar junto com os artifícios absurdos de cena, que incluem onomatopéias, setas ou ruídos visuais que acompanham os acordes de baixo de Pilgrim, e eu realmente acredito que Culkin mereça uma indicação por Melhor Ator Coadjuvante.

Mas depois de tanto elogiar a parte técnica, a música e o absurdo da história, talvez eu esteja injustiçando Scott Pilgrim Contra o Mundo já que o filme ainda é mais do que isso: é um romance moderno que, mesmo não exatamente original no significado, certamente o é na abordagem. 

E que no meio de socos, K.O.'s e Combos o público ainda se importe com o destino do romance dos personagens no final é prova do mérito deste que é uma das obras mais originais e impressionantes dos últimos anos.

E apesar do fraco desempenho nas bilheterias, não tenham dúvidas de que é um filme que vai deixar uma forte marca na nova geração.

NOTA: 10

O Profeta


(Antes de mais nada, o público brasileiro talvez não se impressione tanto com O Profeta já que a prisão vista no filme parece um hotel de luxo se compararmos com imagens de Ônibus 174 ou O Prisioneiro da Grade de Ferro. Mas considere a seguinte fala do ótimo A Última Noite quando assistir o filme: "Eu estive em cinco diferentes prisões, em cinco diferentes países e sabe o que eu aprendi? Prisão é um lugar ruim de ficar".)

O Profeta acompanha a jornada de Malik, um jovem analfabeto em uma prisão. Aparentemente inofensivo (e inocente, inclusive), o jovem logo é pressionado pela máfia italiana que domina a prisão para assassinar um outro preso, em troca de proteção. O asassinato e sua preparação tomam conta de todo o primeiro ato do filme, que mais do que um simples "filme de cadeia", se mostrará um estudo de personagem poderoso, demonstrando perfeitamente como a cadeia serve muito mais como uma "Faculdade do Crime" do que uma instituição que recupera criminosos.

Sim, Malik utiliza seu tempo na cadeia para aprender a ler, a falar outros idiomas e até aprender sobre outras culturas. Mas tudo isso para se destacar (e, principalmente, sobreviver) no meio em que está. Interpretado de maneira soberba pelo estreante Tahar Rahin, o arco dramático do personagem é mais do que fascinante: é absolutamente impossível desviarmos a atenção e nosso olhar de Malik, tamanha a força de sua trajetória, que de maneira absolutamente irônica, ainda se encerra de maneira cinematograficamente satisfatória, quando na verdade esconde uma ironia dramática poderosa.

Contando ainda com elementos curiosos, como um personagem que surge de maneira sempre surreal com o corpo em chamas, por exemplo, O Profeta é um filme extremamente forte em tom e forma. E no meio de uma história tão violenta e complexa, quantos filmes ousariam dar tanta atenção ao fato do personagem ver o mar pela primeira vez, e de maneira tão singela e orgânica?

NOTA: 10

Homens em Fúria


Quando Homens em Fúria terminou no cinema em que assisti, grande parte do público se mostrou completamente revoltada com o desfecho do filme, enquanto a outra parte, assim como eu, permaneceram atônitos e nervosos nas cadeiras, tamanho o peso da história. Drama maduro e completamente despreocupado em dar respostas fáceis para o complexo drama de seus personagens, Homens em Fúria é um filme raro, destes que merecem ser apreciados.

Dirigido por John Curran, do bom Tentação e do excelente O Despertar de uma Paixão, o filme acompanha Jack (Robert DeNiro), um agente de condicional que casado por várias décadas, finalmente aproxima-se de sua aposentadoria. Um de seus últimos trabalhos é um criminoso folgado e de fala mansa, Stone (Edward Norton) que, desesperado para sair, ainda pede que sua mulher se aproxime de Jack fora da prisão para convencê-lo a ajudar. Mas o envolvimento entre a mulher de Stone e Jack acaba alterando completamente a já complicada relação entre os personagens.

E se o filme parece se anunciar como um drama com triângulo amoroso, em que cada ponta manipula a outra, não demora para que Homens em Fúria se revele muito mais. A chave de tudo está na história de Jack, que inclui um incidente psicologicamente violentíssimo entre ele e a esposa. Jack é um personagem trágico, e todo personagem deseja alguma coisa: isso é dramaturgia. Vamos ao cinema ver personagens superando obstáculos para realizarem seus objetivos. Mas o que se esconde nas várias citações religiosas no filme guarda algo que não apenas justificará o seu final aberto (e completamente seco), como ainda se mostrará uma das experiências dramáticas mais extenuantes dos últimos anos.

Beneficiado ainda por uma trilha sonora inquieta e perfeita, e atuações fortes de DeNiro e Norton, (além de uma surpreendente Milla Jovovich), talvez a melhor maneira de "compreender" Homens em Fúria seja acompanhar o arco dramático interpretado por Frances Conroy como a esposa de Jack. Dona de um sofrimento tão grande, que chega a ser impossível simplesmente olhar para ela sem ter uma forte reação, é justamente na dúvida de uma ação que ela pode ou não ter cometido que está o que há de mais genial e trágico no filme.

NOTA: 8,5

O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus


Tinha tudo para dar errado, de novo, para Terry Gilliam. Desde que tentou fazer seu The Man Who Killed Don Quixote (que, por sinal, perdeu o financiamento de novo...), o diretor teve que se contentar em fazer um filme comercial de grande estúdio, do qual nunca escondeu sua insatisfação (o fraco Os Irmãos Grimm) e lançou uma obra-prima que foi completamente ignorada por crítica e público (Contraponto). Durante um intervalo nas filmagens de O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus aconteceu o insesperado: a trágica e precoce morte de Heath Ledger. Afinal, como prosseguir com um filme cujo protagonista acabou morrendo na metade das filmagens.

A solução encontrada foi inteligente e até bonita como homenagem: Jude Law, Colin Farrell e Johnny Depp resolveram terminar o papel de Ledger, já que o tom absurdo e fantasioso da trama permitia a troca de rostos do personagem. Primeiro roteiro original de Gilliam desde o seu filme mais fraco, As Aventuras do Barão Munchausen, Parnassus não é uma de seus grandes obras, mas é uma obra notável, dona de um visual belo e extravagente e de uma história divertida e envolvente.

O Dr. Parnassus é um Matusalém moderno, que graças a diversas apostas com o Diabo ganhou a imortalidade. Mas uma de suas apostas, na qual acabou perdendo, fez com que o Diabo ganhasse o direito de tomar a filha de Parnassus para si, assim que ela completasse 16 anos. Prestes a tal data, Parnassus acaba encontrando esperança depois que conhece Tony, um misterioso homem que é encontrado enforcado, e que pode ajudá-lo a vencer a aposta que salvará sua filha.

Sim, a trama é uma bagunça, mas de uma forma curiosa tudo acaba fazendo sentido e funcionando bem. Além disso, o esforço notável do elenco garante nossa atenção, principalmente o Diabo cartunesco e divertido de Tom Waits. Curiosamente, no papel de Tony, apesar do destaque óbvio ser Heath Ledger, quem acaba se saindo melhor na brincadeira é Colin Farrell, que atua justamente no momento mais divertido do filme.

Infelizmente, o ritmo é muito lento e atrapalha o filme como um todo. E no final das contas, apesar de ser uma obra claramente despretensiosa no sentido narrativo de Gilliam, é uma pena que o diretor não aprofunde os significados de algumas das melhores idéias apresentados no longa, como a da história que por sempre haver pessoas que a conte, faz com que o mundo continue existindo.

No final das contas, O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus é um filme de grandes sacadas; mas faltaram idéias.

NOTA: 8

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