Os Melhores Filmes de 2010

Agora a lista mais difícil... a lista de 2009 foi bem mais fácil de fazer do que essa... mas vamos lá:

10 - O Profeta



9 - Lunar



8 - Ilha do Medo



7 - A Origem



6 - A Rede Social



5 - O Escritor Fantasma



4 - A Estrada



3 - Mother - A Busca Pela Verdade



2 - A Fita Branca



1 - Scott Pilgrim Contra o Mundo



 Menção mais do que honrosa:
Adoração



Explicando: o filme de 2008 foi lançado aqui em Curitiba apenas agora em 2010, direto em DVD, mas só recentemente descobri que o filme já havia sido lançado em 2009, também em DVD em algumas cidades. Como já tinha planejado ele nessa lista (e estava em PRIMEIRO, inclusive), está aí.

Outras menções honrosas: Atração Perigosa, Um Homem Sério, O Caçador, O Segredo dos Seus Olhos, Onde Vivem os Monstros, Irmãos de Sangue, Vício Frenético, Tudo Pode Dar Certo, Senna, O Primeiro Mentiroso, Tropa de Elite 2 - O Inimigo Agora é Outro, Direito de Amar, Homens em Fúria, Um Homem Misterioso, Toy Story 3, Mary & Max - Uma Amizade Diferente, Pânico na Neve, Zona Verde, O Garoto de Liverpool, A Todo Volume, Por Uma Vida Melhor, O Mensageiro, Zumbilândia, Perseguindo um Sonho, Sede de Sangue, O Mundo Imaginário do Dr. ParnassusTá Rindo do Quê?, Capitalismo - Uma História de Amor, Preciosa, Educação, Vidas Cruzadas - As Vidas Íntimas de Pippa Lee, Testemunhas de uma Guerra, O Golpista do Ano, Amor sem Escalas, Estão Todos Bem, Abutres, O Preço da TraiçãoHomem de Ferro 2, Os Homens que Encaravam Cabras, Como Treinar o seu Dragão

Os Piores Filmes de 2010

Primeiro o mais fácil: escolher as dez porcarias que desperdiçaram mais ou menos 20 horas da minha vida neste ano de 2010:

10 - A Caixa



9 - Legião






8 - Acima de Qualquer Suspeita




7 - Você vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos





6 - O Último Mestre do Ar



5 - Um Olhar do Paraíso





4 - Caçador de Recompensas





3 - Skyline - A Invasão





2 - A Última Cartada 2 - Assassinos





1 - Ninja Assassino


"(...) Um bom exemplo do tamanho da cagada é o seguinte diálogo:








Menções desonrosas: Idas e Vindas do Amor, Centurião, Demônio, Faces da Verdade, Alice no País das Maravilhas, Sedução, O Príncipe da Pérsia: As Areias do Tempo, O Mistério de Grace e Pandorum.

Faltou algum? Discordou totalmente? Comentem!

Em breve, mando a de melhores de 2010.

Você vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos


Woody Allen nesta última década apresentou uma irregularidade constante em sua carreira. Para cada Vicky Cristina Barcelona, Tudo Pode Dar Certo ou Match Point, lançou também o terrível Scoop - O Grande Furo e o preguiçoso O Sonho de Cassandra, e agora este Você vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos, que é o seu pior trabalho. Talvez o pior filme de toda a sua carreira.

A trama é uma bobagem, uma série de cenas aleatórias sobre uma família que enfrenta divórcios, infidelidades e decepções. Com um roteiro preguiçoso e desconexo, Allen desperdiça um elenco soberbo, que se esforça tanto para conferir alguma qualidade ao filme, que chega a ser triste. Anthony Hopkins claramente tenta emular o estilo de atuação do diretor, e se sairia bem se seus diálogos não beirassem o patético. Naomi Watts e Antonio Banderas tem o trecho mais interessantinho, e se safam com isso, enquanto Josh Brolin é colocado no meio de clichês mais do que irritantes (uma muher que só usa vermelho? Sério isso, Woody Allen?), mas é o que se sai melhor ao criar alguma profundidade dramática ao personagem: reparem no momento em que ele sai bêbado de casa com a camisa aberta, até se deparar com sua vizinha e seu noivo: sua vulnerabilidade fica explícita na maneira como fecha sua camisa.

Se mesmo em seus trabalhos mais fracos ainda há as boas tiradas frequentes no roteiro, aqui o número de boas piadas pode ser contado nos dedos. De uma mão. E se não bastasse isso, a montagem simplesmente preguiçosa, parece não fazer a menor questão de criar um ritmo para a história. Se Walter Murch sugere que o tempo para o corte seja o do piscar dos olhos, aqui usaram o de bocejos.

E para piorar, Woody Allen ainda utiliza uma narração em off desnecessária que dispara frases de Shakespeare e bordões populares, como se tentasse fazer que alguma coisa fizesse sentido. Na melhor das hipóteses, Você vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos talvez seja bem resumido pela frase de Shakespeare: "A vida é feita de som e fúria, que no final não significa nada.", com o claro problema de que o "som e fúria" do filme é uma infinidade de piadas sem graça e bocejos.

NOTA: 1

Trabalho Sujo


Trabalho Sujo foi lançado em 2008, e parte de seu atraso provavelmente vem do fato do filme ter sido completamente ignorado quando foi lançado. E apesar de ser um bom trabalho, de certa forma merece esse descaso, em parte pela maneira quase descarada de como tenta se aproveitar do sucesso de Pequena Miss Sunshine: Alan Arkin interpreta um avô que é praticamente o mesmo personagem daquele filme; o visual e trilha sonora são similares (troque a Kombi amarela por uma van); e, a mais óbvia, o título original, Sunshine Cleaning. É o tipo de desonestidade que funciona como um tiro no próprio pé.

Mas o fato é que, no que tem de original, o filme de Christine Jeffs é interessante e funciona bem, especialmente a relação entre as irmãs que, interpretadas por Amy Adams e Emily Blunt (duas das atrizes jovens mais belas e talentosas na atualidade) transformam qualquer diálogo e qualquer cena em um momento gracioso. E se Alan Arkin se limita a trazer os trejeitos de Pequena Miss Sunshine de volta (o que funciona), Jason Spevack faz um ótimo trabalho, ao passo que Steve Zahn, que ganhou minha atenção e respeito depois de O Sobrevivente, consegue a proeza de fazer um personagem desprezível, e que até o filme se sente no direito de julgar, e de alguma forma chega ao fim intocável.

A história das irmãs que resolvem abrir um serviço de limpeza de cenas de crime é divertida quando se foca na natureza bizarra do trabalho das duas, mas o roteiro parece não confiar nisso o bastante, e enche o filme de informações desnecessárias. Mas mesmo com sua parcela de problemas, Trabalho Sujo acaba funcionando bem no ato final, quando se livra de algumas sub-tramas desnecessárias (especialmente a de Emily Blunt com a filha de uma mulher falecida) e se concentra apenas na relação entre os membros daquela família.

Com mais originalidade, e menos enrolação, seria um grande filme.

NOTA: 7,5

Enterrado Vivo


Enterrado Vivo é um filme original e eficiente. Basicamente, Ryan Reynolds interpreta o coitado que foi (dãã) enterrado vivo. Com apenas um isqueiro e um celular sem muita bateria, ele tenta escapar da situação. O diretor Rodrigo Cortés trabalha com closes sufocantes e uma belíssima montagem, além de surpreender na criatividade com que explora a limitadíssima locação.

Aliás, os grandes méritos de Enterrado Vivo são dois: a direção de Cortés que fora as qualidades citadas, ainda confere uma verossimilhança admirável a narrativa, como ao reforçar a demora e a dificuldade do personagem quando precisa se virar dentro daquele espaço. E, claro, a excelente atuação de Ryan Reynolds, sujeito que sofre horrores com o preconceito dos cinéfilos graças a suas escolhas bestas na carreira, mesmo que já tenha comprovado seu talento em A Última Cartada e O Número 9, por exemplo. O ator se sai admiravelmente bem ao conduzir o filme praticamente sozinho, e seu desespero e frustração estão sempre visíveis em seus olhos.

O que me traz ao roteiro de Chris Sparling que é absolutamente perfeito no primeiro ato, explorando a situação com inteligência, o que torna a segunda metade do filme mais do que lamentável, quando o roteirista começa a criar situações longas e desnecessárias que podem parecer tentativas de criar alguma complexidade ao personagem e a situação, mas são na verdade encheções brabas de linguiça. Afinal, é realmente necessário saber da condição da mãe do protagonista? Será que sua terrível situação não é o suficiente para provocar empatia? Mas pior do que isso, só o momento com uma conversa gravada com a empresa do protagonista, diálogo tão ruim e forçado que estraga quase todos os méritos que o filme tinha até ali. 

Quanto ao desfecho (sem spoilers) só posso dizer que a jogada usada no final já é bem manjada, e a maneira como é trabalhada é frustrante.E, no final das contas, é uma pena que o filme soe muito mais como uma metáfora sobre a incompetência dos serviços de telefonia do que um estudo de personagem.

NOTA: 7

O Último Exorcismo


Apesar de já estar dando sinais de cansaço, os mockumentaries como A Bruxa de Blair, [REC] ou Atividade Paranormal são ótimos exemplos de um gênero que o cinema norte-americano tem perdido cada vez mais a mão ao fazer: o terror. O Último Exorcismo é um filhote assumido destes (chega a citar visualmente [REC] e A Bruxa de Blair), mas curiosamente acaba acertando em pontos que seus anteriores não conseguiram: as atuações e na sua dramaturgia.

O início do filme é fascinante ao nos apresentar o protagonista, o reverendo Cotton Marcus. Treinado por seu pai desde a adolescência para se tornar um representante da igreja, ele começa a apresentar dúvidas quanto ao ritual de exorcismo, e num grau mais profundo, sobre a própria existência de Deus. Ele chama então uma equipe de documentaristas para desmascarar o fenômeno do exorcismo, mostrando como os exorcistas controlam o ambiente e as pessoas para criar um "espetáculo" (o personagem chega a citar O Exorcista como referência). Mas é claro que tudo acaba dando errado e a garota está possuída de verdade...

...mas ainda assim, o filme se sustenta, principalmente pela história da garota e sua família, e principalmente a super proteção do pai, que chegou a retirá-la do catecismo por achar os métodos de ensino "muito liberais". E logo, não demora para que Cotton se sinta obrigado a realizar o exorcismo, já que, ao contrário, o pai da garota não hesitará em matá-la para tirar o diabo de seu corpo.

O Último Exorcismo, portanto, funciona como um drama fascinante sobre a perda da fé do protagonista e o fanatismo religioso da família, e mesmo que seus aspectos mais assustadores não funcionem tão bem, o filme é sempre fascinante graças ao roteiro bem construído, e a montagem, que acerta muito bem no ritmo. E vale dizer que o trabalho do diretor Daniel Stamm é bastante positivo (principalmente na condução do elenco, que está excelente), apesar de em um momento ou outro, acabar escorregando no óbvio.

Mas é uma pena que a linguagem documental do filme atrapalhe completamente seu desfecho, que apesar de teoricamente ser corajoso e inusitado, erra por achar que resolveu a história, quando pelo contrário, apenas criou apenas mais uma camada nela, que certamente irá frustrar o público pela não-resolução.

NOTA: 7,5

A Lenda dos Guardiões


Durante A Lenda dos Guardiões, em vários cenas algum personagem conta uma história para as mais novas sobre o violento passado das corujas, quando alguém manifesta preocupação sobre o tom assustador da história em questão. Curiosamente, é este excesso de preocupação que faz do filme uma experiência bem mais fraca do que poderia ser. Sem exibir qualquer traço de ousadia em sua narrativa, que ainda inclui um personagem que vive cantando e outro que vive contando piadas (clichês irritantes), ao menos tem um bom ritmo e alguns poucos momentos mais inspirados. 

Mas esta estréia de Zack Snyder na direção de uma animação tem um ponto fortíssimo que não pode ser descartado: o visual, o que também não deixa de ser curioso, já que a principal reclamação do público para com o diretor são os excessos visuais de sua obra. Mas A Lenda dos Guardiões é um filme maravilhoso de assistir, com claro destaque para o treinamento das corujas em uma tempestade, uma das grandes cenas do ano.

É uma pena que a história seja tão previsível e não acompanhe a ousadia demonstrada na concepção visual da obra, que também acerta do design dos personagens: há um esforço admirável no fato do filme conseguir transformar corujas em seres simpáticos. E assistindo o filme com meu filho de um ano e sete meses, reparei que ele sempre apontava e gritava quando o vilão aparecia, que é a maneira instintiva dele demonstrar uma sensação de perigo.

Então algo estava muito certo ali.

NOTA: 7

O Primeiro Mentiroso


Imaginem um mundo onde ninguém nunca contou uma mentira. Nenhuma mesmo. A propaganda da Coca se limita a dizer "estamos aqui pedindo para você continuar comprando Coca", enquanto a da Pepsi diz "Quando não tiver Coca... compre Pepsi"; ou logo no início de um encontro a garota diz que estava se masturbando, "Isso me faz pensar na sua vagina. Espero que essa noite termine em sexo", responde o homem; ou o policial que depois de parar um motorista bêbado diz "na verdade, estou aliviado por vocês não serem negros, o que me deixaria mais tenso e com mais chances de me tornar violento". O que é uma ótima premissa para uma comédia, porém, é apenas a base de uma discussão infinitamente mais complexa em O Primeiro Mentiroso, filme escrito e dirigido por Matthew Robinson e Ricky Gervais.

Gervais interpreta Mark Bellison, um roteirista fracassado que logo depois de perder o emprego, enfrenta o risco de perder seu apartamento. É então que ao chegar no banco, ele conta a primeira mentira do mundo: convence a moça do caixa que tem mais que o dobro do dinheiro na sua conta. Impressionado pela sua façanha, começa a usar mentiras para se dar bem na vida, e também para melhorar a vida das pessoas ao seu redor, como seu vizinho suicida (Jonah Hill). 

Mas o filme passa longe da idéia de que "uma mentirinha não faz mal" quando o plot do filme se anuncia de maneira surpreendente e dramática, numa cena emocionante entre Mark e sua mãe. Como realmente não quero estragar a surpresa que o filme prepara, saiba apenas que religião e o status quo serão os principais temas trabalhados a partir dali, de maneira engraçada e inteligente.

Apesar de utilizar alguns clichês depois da metade, como a romance do protagonista e a personagem de Jennifer Garner, que cai num triângulo amoroso, é fato que o filme jamais lida com aquilo da maneira usual, utilizando o romance como forma de discutir uma busca vazia pela perfeição. Visualmente, o filme lembra a fase de comédias mais simples de Woody Allen, como Os Trapaceiros ou O Escorpião de Jade.

Quando escrevi sobre Ghost Town já revelei minha admiração por Ricky Gervais, que vem se revelando não apenas um comediante brilhante, como um verdadeiro talento a ser admirado em todas as áreas em que atua, algo que fica claro nesse filme. Jennifer Garner vem melhorando cada vez mais, e surpreende mais uma vez. Mas vale comentar as pontas divertidas de atores como Edward Norton, Christopher Guest, Phillip Seymour Hoffman e Jason Bateman.

O único problema de O Primeiro Mentiroso é a montagem que em vários momentos perde o ritmo, além de dar um estranho tom episódico em alguns momentos, e talvez o desfecho fosse melhor se tivesse mais do cinismo que vimos antes. Mas de qualquer forma, o filme tem um dos roteiros mais originais e bem desenvolvidos que vi nos últimos anos.

NOTA: 9

Tron - O Legado


Aconteceu o mais lógico: Tron - O Legado é tão bom quanto Tron - Uma Odisséia Eletrônica. O complicado é interpretar isso, já que numa onda esquisita de nostalgia, muitos tem visto no primeiro Tron uma espécie de obra-prima esquecida, mal compreendida. Não é. É um filme criativo e divertido, mas que não envelheceu nada bem, e tem um roteiro fraquíssimo. Essa continuação segue nessa linha, com o roteiro mais do que decepcionante, e as cenas de ação criativas. O que compensa dessa vez, obviamente é o visual fabuloso, que merece sim ser conferido em 3D. 

Grande parte do problema aqui é do diretor Joseph Kosinski, que havia feito apenas comerciais antes. A condução da narrativa é patética, quase desastrosa, e a primeira parte do filme que acontece no "mundo real" é particularmente constrangedora. O que ele faz bem são as cenas de ação, que acabam tomando conta do filme depois da metade, e salvam (mesmo) a produção. Muitos tem elogiado o diretor pela cenografia "porque ele é arquiteto". Para esse argumento, duas coisas: 1) isso é o mesmo que dizer que Ratatouille seria feito melhor por um cozinheiro e 2) o fato de ele ser arquiteto só serve para uma coisa no filme: reparem que sempre tem um personagem que elogia o cenário. E outra parte da culpa vai para o roteirista Steven Lisberger, que não por acaso, é o diretor do primeiro filme.

Contando com uma trilha sonora excelente do Daft Punk (não sou fã, mas funciona com perfeição aqui), Tron - O Legado também consegue ser salvo graças as atuações: Jeff Bridges se diverte horrores, e faz de seu personagem quase um Jack Sparrow. Michael Sheen impressiona com uma vitalidade que ainda não havia mostrado e Olivia Wilde se mostra a mais grata surpresa: bela e expressiva, sua presença é o que o filme tem de melhor. Já o protagonista Garrett Hedlund faz uma das atuações mais inexpressivas e preguiçosas do ano (e ele já havia mostrado talento, principalmente no ótimo Quatro Irmãos).

Mas o curioso é que mesmo com todos os seus problemas evidentes, Tron - O Legado é inegavelmente divertido, e de um modo estranho, funciona. Mesmo que me dê uma sensação de que se for revisto causará bocejos, o fato é que me diverti e não me arrependi de ter assistido. 

Só não fiquei tão satisfeito quanto imaginei.

NOTA: 7

Abutres


Abutres é um suspense cuja história é bastante simples, que deixa toda a complexidade para as ações de seus personagens. Sosa é um advogado especialista em indenizações por acidentes de trânsito que acaba se aproximando de Luján, uma para-médica jovem e bem intencionada. Depois de se envolverem rapidamente, a garota descobre que Sosa trabalha com acidentes de carro armados para tirar dinheiros das seguradoras, e com isso, faz parte de uma verdadeira máfia. Depois de convencê-la de que está tentando sair do ramo, Sosa começa a ser perseguido violentamente por seus superiores.

Escrito e dirigido por Pablo Trapero, que realizou os elogiados Nascido e Criado e Leonera (que não assisti), Abutres evita a todo momento usar de qualquer tipo de maniqueísmo ou suspense artificial. O filme é sóbrio e tenso, sem que para isso o diretor precise forçar a mão. Além disso, o romance entre os protagonistas poderia ser um clichê irritante, ou mera desculpa para criar mais drama na história, mas se torna algo fundamental na trama.

Ricardo Darín volta a mostrar seu talento, interpretando Sosa sem qualquer tentativa de fazê-lo parecer um herói. Aliás, são as enormes contradições de seu personagem que fazem o filme ser tão fascinante: afinal, se o seu desejo de fugir dos esquemas que participava soa nobre, por outro lado é curioso que ele tente fugir criando outros esquemas. E Martina Gusman transforma Luján no principal centro dramático da história, brilhando principalmente em como demonstra o enorme cansaço que seu trabalho causa.

Contando com um plano-sequência no desfecho que é uma das melhores cenas desse ano, Abutres é mais uma prova da qualidade assustadora que o cinema argentino vem mostrando, já que junto com O Segredo dos Seus Olhos é, sem dúvida, um dos melhores filmes do ano.

NOTA: 10

Centurião


Centurião é um filme tão ruim e constrangedor, que é quase impossível acreditar que tenha sido dirigido pelo mesmo Neil Marshall que anos atrás fez Abismo do Medo, um filme de terror simples, mas extremamente eficiente. Centurião é um filme de Ridley Scott com baixo orçamento, muito sangue falso (mas bem falso MESMO), e repleto de tomadas aéreas que plagiam descaradamente O Senhor dos Anéis.

E o roteiro não ajuda em nada, seja repetindo informações de maneira desnecessária (um personagem diz "leve os homens para casa"; dois minutos depois em off, ele diz "ele me pediu para levar os homens para casa". Uau, thanx!) ou quando mostra um problema grave e que não consegue contornar em momento algum: os "heróis do filme", os soldados romanos são estúpidos, agressivos e antipáticos, enquanto os vilões possuem uma história trágica (o líder tem sua mulher e filho assassinados pelos romanos, por exemplo) e estão simplesmente se defendendo da invasão. Então como torcer para os "heróis"?

Aliás, nada ajuda nesse aspecto, já que os principais atores do Team Romanos, Dominic West e Michael Fassbender parecem mais interessados em imitar o Maximus de Gladiador e Leônidas de 300 do que em atuar de verdade, ao passo que Ulrich Thomsen transforma o líder do Team Pictos na única figura interessante da trama. Já Olga Kurylenko sofre em sua interpretação por estar coberta de roupas dos pés a cabeça, ou seja, é perceptível ver o quanto ela está ruim.

Contando ainda com uma fotografia feiosa, dessaturada demais, Centurião mostra mais um cineasta em queda livre depois de um começo promissor, e coloca Neil Marshall ao lado de M. Night Shyamalan e Richard Kelly na lista de caras que, realmente, precisam repensar urgentemente suas carreiras.

NOTA: 0

Ondine


Ondine é um mistério: a fotografia está excelente, os atores estão ótimos, a trilha sonora é fabulosa, o roteiro e direção são de Neil Jordan, e ainda assim, o resultado é um filme fraco, esquecível. Os problemas, na verdade, são dois: apesar do roteiro ter ótimos momentos, a história como um todo não convence, e é cheia de furos de lógica, e pela primeira vez, Jordan faz um filme burocrático, sem qualquer resquício de imaginação que transformou Nó na Garganta, Fim de Caso ou Café da Manhã em Plutão em filmes fabulosos.

Syracuse (Colin Farrell) é um pescador que depois de puxar as redes de seu barco, encontra uma garota nela, que se apresenta como Ondine (Alicja Bachleda). Depois que sua filha descobre dessa história, ela imediatamente passa a acreditar que Ondine é, na verdade, uma sereia, enquanto Syracuse continua tentando obter a guarda da filha que precisa de um transplante de rim, e é mal cuidada pela mãe (ele não conseguiu a guarda por ter sido alcoólatra).

Flertando sempre com um tom de fábula, e jamais dando a certeza de estarmos vendo algo real ou fantástico (que é a melhor característica do filme), Ondine tem bons elementos de sobra, como o tom sensual que a personagem acaba despertando, e Alicja Bachleda não se mostra apenas uma boa atriz, com ótima presença em cena, como também é lindíssima. Mas o filme, simplesmente não decola. A relação entre Syracuse e o resto da cidade é algo citado durante todo o roteiro, mas nunca é explorado, e aliás, no final das contas, nem mesmo a doença de sua filha acaba tendo grande importância na trama, surgindo apenas como uma característica gratuita da personagem para ganhar alguma dramaticidade.

Ator que venho admirando cada vez mais, Colin Farrell faz uma interpretação correta e sutil, e é uma pena que seu personagem não ganhe momentos tão bons quanto os seus diálogos com o padre interpretado por Stephen Rea. Aliás, qualquer diálogo dos dois é melhor que qualquer outra coisa ano filme, que ainda decepciona com um desfecho que revela um roteiro ainda mais frágil do que parecia, quando tenta soar surpreendente.

NOTA: 5

Mother - A Busca Pela Verdade


Mother - A Busca Pela Verdade é mais uma prova de que Joon-ho Bong em apenas 10 anos de carreira, e quatro longa-metragens (sem incluir Tokyo, co-dirigido com Michel Gondry e Leos Carax) já pode ser considerado um dos melhores e mais importantes diretores do cinema mundial. Novamente fazendo um filme de gênero completamente diferente, em comum com seus trabalhos anteriores apenas o estilo visual invejável e um equilíbrio formidável de humor e drama.

O filme nos apresenta a Hye-ja, mãe trabalhadora de Do-joon, um jovem com deficiência mental e extremamente dependente dos cuidados da mãe. Depois de passar uma noite fora de casa, no outro dia ele é acusado do brutal assassinato de uma jovem. Com a certeza da inocência do filho, Hye-ja começa a investigar melhor o caso, já que a polícia da pequena cidade que há tempos sequer via um  homicídio deu o caso por encerrado com as poucas provas que conseguiu.

Original desde a abertura que mostra Hye-ja dançando de maneira hilária, Mother mostra o talento de Joon-ho Bong em surpreender em todos os níveis: desde a condução da narrativa, que mistura cenas engraçadíssimas com outras extremamente dramáticas, o filme brinca com o emocional do público a todo momento, e além disso, a trama de Mother constantemente se mostra muito mais complexa e dramática do que realmente parecia de início, além de abrir vários espaços para a crítica social que é recorrente na obra do diretor (vide O Hospedeiro).

Brincando com o gênero suspense de maneira brilhante (o recado de celular que revela uma propaganda de artigos de pesca ao final é minha piada favorita), o roteiro não apenas constrói a situação de maneira brilhante, como também apresenta um arco dramático mais do que fabuloso para Hye-ja, que é interpretada por Kim Hye-ja com uma entrega surpreendente. Merecia todos os prêmios da categoria.

Fechando o filme com uma das ironias dramáticas mais eficazes vistas nesse ano, Mother - A Busca Pela Verdade é um raro caso de filme que já nasce clássico e obrigatório para qualquer cinéfilo que se preze. Corajoso e brilhante em seu desfecho forte, que apresenta alguns dos dilemas morais mais complicados a surgirem nesse ano, Mother é mais uma obra-prima de Joon-ho Bong, e se une a o também excelente O Caçador como provas de que o cinema oriental esse ano foi mais do que bem sucedido ao surpreender nossas expectativas.

E só posso dizer que aguardo mais do que ansiosamente seu próximo trabalho.

NOTA: 10

Spider - Desafie sua Mente


Acontece: às vezes nos apaixonamos por filmes, mesmo reconhecendo seus óbvios problemas. Dito isso, eu tenho um caso de amor com Spider - Desafie sua Mente. Apesar de não ser meu filme favorito de David Cronenberg, e ter absoluta certeza de que o ritmo extremamente lento da montagem no terceiro ato certamente atrapalha a experiência proposta, é um filme que eu assisto frequentemente. Talvez o filme que mais vezes revi de Cronenberg.

Mas há, claro, várias razões para isso. Spider acompanha seu protagonista, Dennis 'Spider' Cleg (Ralph Fiennes) a partir do momento em que sai do manicômio, numa cena fabulosa: na saída do trem, acompanhamos vários figurantes saindo, conversando, enquanto ele fica para trás, desnorteado a passos lentos. De maneira econômica, o filme já nos mostra um personagem completamente fora do fluxo do dia a dia. A partir dali, veremos tudo a partir do olhar de Spider, que aproveita sua estadia num hotel para investigar seu passado, e a trágica história de sua infância com seu pai e sua mãe.

Esquizofrênico, e demonstrando um óbvio Complexo de Édipo, Spider guarda todas as informações num diário, escrito de maneira que apenas ele entende, e suas memórias estão sempre misturadas com delírios, algo que fica claro logo em um dos primeiros flashbacks: ao chamar seu pai para jantar em um bar, uma mulher acaba mostrando os seios para o garoto, que ao invés de ter uma reação sexual ao ocorrido, acaba misturando isso com uma fantasia maternal, e logo na próxima cena, a mesma personagem ganha o rosto de Miranda Richardson, que interpreta sua mãe. Lógicas fascinantes como essa, cercam todo o filme.

Ralph Fiennes faz um de seus melhores trabalhos em Spider. Com um olhar perdido e vazio e uma maneira curiosa de se comunicar (resmungando as palavras num tom infantil), o personagem é completamente atípico de ser um protagonista, mas o ator e o roteiro fazem um excelente trabalho nesse sentido. Miranda Richardson com a complicada tarefa de interpretar a mãe de Spider e outras personagens durante a narrativa faz um trabalho intrigante, ao compor cada uma das personagens de maneira distinta, mas misturando as características uma das outras conforme a narrativa avança, enquanto Gabriel Byrne ganha uma tarefa ainda mais complicada: o pai de Spider é visto sempre como uma fantasia errônea, e há apenas dois momentos no filme que realmente parecem trazer o personagem em carne e osso, como deveria ter sido. Mas, de alguma forma, o ator consegue fazer uma composição homogênea e completa, sem parecer um personagem abstrato, como corria o sério risco de ser.

Minimalista desde a parte visual até a trilha sonora brilhante de Howard Shore, Spider - Desafie sua Mente é um filme lento desde o início, mas é fundamental que o seja (como a primeira cena já anuncia). Infelizmente, o ritmo cai muito perto de seu desfecho, e se torna cansativo, o que torna o final um pouco decepcionante para alguns, e com razão.

Mas, por acreditar que o desfecho, na verdade, não responde nada, e sim que é mais uma camada da complexa história, não posso esconder minha enorme admiração por este filme.

NOTA: 8,5

W.


Oliver Stone poderia ter esperado um pouco para realizar este W., que buscando fazer uma cine-biografia do querido George W. Bush, acaba fazendo um filme incompleto, apesar de seus vários méritos. Assim como Michael Moore fez no início de Fahrenheit 11 de Setembro, Stone consegue a proeza de humanizar a figura de Bushinho a ponto de ele se mostrar uma figura trágica, quase digna de respeito, mesmo que o filme esteja carregado de críticas e humor corrosivo.

O roteiro pode ser clichê na estrutura, que acompanha a trajetória política de Bush depois do 11 de setembro (principalmente nos preparativos para a guerra no Iraque) enquanto nos mostra o seu passado em flashbacks, mas o tom acertado nos diálogos, que soam convincentes e sinceros tornam a experiência muito mais rica, e nos melhores momentos, pode até ser comparado com A Rainha. Em especial, a relação entre Bush e seu pai, que é o que filme melhor desenvolve, principalmente o momento em que o pai de Bush perde a reeleição que, de longe, é a melhor cena.

Josh Brolin faz uma atuação absolutamente magnífica como George W. Bush, fugindo de qualquer estereótipo que o papel poderia apresentar. Richard Dreyfus, James Cromwell, Jeffrey Wright e  Toby Jones também dão um show em suas performances, enquanto Elizabeth Banks e Ellen Burstyn são limitadas demais pelo roteiro a meras coadjuvantes. Mas o destaque vai para Thandie Newton, numa das atuações mais patéticas e escrotas dos últimos anos (embora sendo bem justo: sua péssima atuação causa uma repulsa similar a que Condoleezza Rice também causa...).

Mas o que faz de W. uma experiência acima da média é a maneira clara de como Oliver Stone mostra sua visão sobre o governo de Bush: abusando de seu poder e utilizando a religião como princípio chave de seus argumentos, o diretor ainda cria uma curiosa sequência de eventos com a história do presidente, como se ele tivesse chegado ao cargo mais importante dos Estados Unidos apenas para superar seu irmão, e surpreender seu pai (o que, diga-se de passagem, é bem possível). E o que o roteiro de Stanley Weiser tem de melhor é justamente este desenvolvimento, que surge claro e lógico, e nunca forçado.

Apesar de decepcionar pela ausência de temas importantes (o furacão Katrina merecia pelo menos algum momento) e por ter sido feito antes do final do mandato de Bush imediatamente tornou o filme datado e incompleto, por outro lado é um estudo de personagem divertido e curioso que merece atenção. 

NOTA: 7,5

O Garoto de Liverpool


Mother é uma das músicas mais sinceras e dolorosas da história da música, e só por ouvi-la, dá para saber que a infância de John Lennon não foi das melhores: abandonado pelo pai, foi deixado pela mãe na casa de uma tia com 5 anos, e só voltou a vê-lo quando ele tinha 17. O Garoto de Liverpool começa com a reaproximação de John e sua mãe, para mostrar sua complicada vida familiar, e também a gênese do que se tornaria a maior banda de todos os tempos.

Aaron Johnson se destacou esse ano pela (fraca) interpretação em Kick-Ass, mas aqui mostra muito mais serviço, com uma atuação não apenas complexa, mas principalmente inteligente: o ator facilmente poderia se render ao mito que foi John Lennon, mas Aaron parece optar pelo mais difícil, apostando principalmente na arrogância do personagem, o que o torna muito mais real aos olhos do público. E além dele, a atuação de Thomas Sangster como Paul McCartney merece um destaque: apesar de não parecer fisicamente com ele, Sangster através dos trejeitos e da fala (e principalmente, pela maneira como toca no palco) faz  com que isso não seja um problema.

Mas o destaque verdadeiro do filme são as atuações de Kristin Scott Thomas e Anne-Marie Duff: se a primeira faz a tia de John Lennon com uma frieza emocional impressionante e ainda assim consiga cativar, a segunda se torna uma personagem fabulosa e trágica; claramente tomada pela depressão, ela claramente concentra toda sua energia para agradar John, como se quisesse compensar toda a sua ausência em poucas horas, o que acaba atrapalhando seu relacionamento com suas duas outras filhas e marido, algo que o filme sugere com uma maturidade e sutileza exemplares.

Entre os poucos defeitos do filme estão alguns elementos estranhos na narrativa, como alguns momentos entre John e sua mãe que beiram ao incesto, o que poderia ser curioso, se não fosse logo esquecido (embora dê a sensação de ser um erro mesmo). Além disso, se a relação entre Lennon e McCartney é sempre lembrada pela rivalidade, aqui o filme dá uma certa exagerada: tentando sugerir uma relação de amor e ódio, o roteiro acaba errando no equilíbrio (embora, sendo justo: há uma cena brilhante entre os dois no final que quase compensa esse erro). E o roteiro, infelizmente, conta com alguns momentos inexplicavelmente forçados   que quase estragam ótimas cenas, como o momento em que Lennon diz "Porque Deus não me fez Elvis Presley?". A resposta é óbvia e piegas, ao contrário de quase todo o resto do filme. 

Contando com um desfecho perfeito, O Garoto de Liverpool é um drama corajoso sobre John Lennon, principalmente pela maneira direta em como lida com seu protagonista, afinal quando acerta acaba até soando como o que Diários de Motocicleta fez com Che Guevara

NOTA: 8,5

Nó na Garganta



Fascinante, divertido e sombrio, Nó na Garganta é o melhor filme dirigido por Neil Jordan (embora Traídos pelo Desejo não fique muito atrás). Contando a história de Francie Brady, um garoto irlandês que exibindo um comportamento atípico e violento, se vê obrigado a tomar conta de sua casa depois do suicídio de sua mãe, já que seu pai alcoólatra há tempos parece ter desistido de viver. A única alegria do garoto é sua amizade com Joe, com quem se diverte desde brincadeiras inocentes até roubando Phillip, um garoto frágil e estudioso, cuja mãe, a sra. Nugent é vista como uma verdadeira inimiga por Francie.

Como outros filmes do diretor, o elenco está fabuloso, e Eammon Owens como o protagonista foi uma grande revelação (que infelizmente, acabou "não acontecendo"). Parceiro habitual do diretor, Stephen Rea faz um trabalho soberbo como o pai de Francie, tanto que se naturalmente por estarmos envolvidos com o garoto, naturalmente o desprezamos ainda mais, mas de alguma forma o ator consegue apresentar um lado sensível que toca o público. Brendan Gleeson como o padre que ajuda Francie em seu colégio empresta sua postura firme para um personagem que não demora para se tornar desprezível, enquanto Fiona Shaw acerta em cheio na composição da Sra. Nugent.

Utilizando desde a narração em off até cenas fantásticas para nos levar a entender o raciocínio de Francie, Jordan é tão bem sucedido na condução da narrativa que leva o público a perdoar naturalmente as ações do garoto, que incluem espancar um garoto com uma corrente de ferro logo no início. Sem qualquer medo de utilizar o humor também para isso, o diretor conseguiu fazer um filme de natureza contraditória: afinal, quantas vezes você imaginaria que daria risada em uma cena envolvendo um padre se masturbando ao lado de um garoto? E o que dizer da cena em que Francie quase destrói a casa da sra. Nugent (em que a narração sugere que o garoto acredita que está num programa de TV)?

E essa ambiguidade moral é mais do que perfeita para a lógica da história, já que o próprio Francie parece não enxergar a realidade dos atos que acontecem em sua volta. Quando testemunhamos uma briga violenta entre seu pai e sua mãe logo no início, por exemplo, o protagonista começa a reclamar do sono, obviamente ignorando o que ocorre em sua frente, e portanto, é mais do que intrigante que mais a frente, em uma conversa com o pai, Francie relembre com perfeição o diálogo que deu origem a briga.

Além disso, o filme não faz qualquer concessões para se tornar mais agradável, principalmente no terceiro ato quando um ato violentíssimo e inesperado toma conta da narrativa, transformando Nó na Garganta numa experiência ainda mais impressionante e perturbadora. Guardando um detalhe ainda mais intrigante em seu desfecho, o filme não é muito popular no Brasil pois foi lançado sem qualquer cuidado aqui, de maneira parecida com o ótimo Vidas em Jogo de David Fincher

Mas acredite: corra atrás dessa obra-prima que vai valer a pena.

NOTA: 10

Lições da Escuridão


Exercício difícil esse de escrever ou falar alguma coisa sobre Lições da Escuridão. É bastante curioso por exemplo que este documentário de Werner Herzog apresente apenas duas entrevistas: uma delas com uma mulher que, traumatizada, tem dificuldades para falar e outra seja sobre uma criança que, obrigada a testemunhar a morte do pai, se recusa a continuar aprendendo a falar.

O filme mostra as consequências da guerra no Kuwait. Cidades destruídas e lagos de petróleo, e um cenário assustador de florestas mortas, numa escala apocalíptica. Aliás, é assustador que um diretor tão racional e cético quanto Herzog não encontre outras palavras para descrever suas imagens do que uma leitura do livro do Apocalipse da Bíblia.

Curto em duração, mas forte como poucos em impacto, Lições da Escuridão pode ser visto como um pequeno conto de terror sobre o fim da humanidade. E ao mostrar os trabalhadores da indústria de petróleo entediados incendiando novamente os jatos de petróleo só para poderem apagá-los (e portanto, ter alguma coisa para fazer), não resta dúvida de que a visão de Herzog sobre o fim do mundo é muito mais realista e assustadora do que poderíamos imaginar.

NOTA: 10

Estranhos Prazeres


Dirigido por Kathryn Bigelow, e roteirizado por James Cameron (sim, ele mesmo) e Jay Cocks, Estranhos Prazeres é um filme fascinante em sua primeira metade, quando somos apresentados a idéia de mundo em que a história acontece: graças a um sofisticado aparelho criado para seu usado pela polícia, é possível gravar experiências de uma pessoa, que podem ser assistidas e sentidas por outra pessoa, algo que se torna um produto mais cobiçado que qualquer outra droga.

Ex-policial e agora traficante dessa tecnologia, Lenny Nero recebe uma gravação que dará o tom para a história: uma amiga sua é gravada enquanto morre, e o assassino envia a gravação a ele. Só que a garota estava sendo perseguida por testemunhar um crime realizado por dois policiais. A história nos dias da virada do ano 1999 para 2000.

Infelizmente, depois de apresentados a uma premissa forte, e de maneira fascinante pelo olhar de Kathryn Bigelow, o filme cai em quase todos os clichês imagináveis de filmes policiais, e ao contrário de Minority Report - A Nova Lei, por exemplo, que sobrevive como um ótimo filme mesmo com esse problema, o fato é que Estranhos Prazeres se boicota de forma irreversível, e o pouco que sobrevive a uma reavaliação são as boas idéias que raramente aparecem perto do final (como a última cena entre os dois policiais). Além disso, é curioso que o filme tenha um elenco tão bom, mas não tenha um momento inspirado nesse sentido, desperdiçando atores como Ralph Fiennes, Juliette Lewis, Vincent D'Onofrio entre outros.

Mas se há algo memorável em Estranhos Prazeres é seu aspecto técnico: a fotografia é belíssima, e o farto uso de cores não atrapalha seu aspecto escuro se sombrio (um truque bem difícil de realizar). As sequências que mostram as gravações traficadas pelo protagonista, aliás, representam os melhores momentos do filme, filmadas em planos-sequência extremamente bem realizados e criativos o suficiente para continuarem impressionando.

Pena que o msmo não possa ser dito sobre o filme como um todo.

NOTA: 6,5 

THX 1138


Filme desconhecido entre o público geral, mas uma verdadeira referência para os fãs de ficção científica, THX 1138 foi o primeiro filme dirigido por George Lucas, uma mistura curiosa entre Admirável Mundo Novo e 1984, com um visual único e extraordinário (que se torna ainda mais admirável sabendo que é uma produção de baixo orçamento). Aqui, Lucas faz o que (infelizmente) seria a antítese do que começou a realizar: o filme é muito mais preocupado com os personagens do que com o mundo que os cercam.

No futuro, as pessoas são colocadas em quartos aleatórios com companheiros selecionados por computador. O sexo é extremamente proibido, a religião e o governo estão praticamente fundidos, e a maneira encontrada para manter os cidadãos em controle é dando sedativos.

THX 1138 (Robert Duvall) tem suas doses de sedativos retiradas secretamente pela sua companheira de quarto. Decididos a fugirem juntos, seus planos são atrapalhados por SEN (Donald Pleasence, genial), um trabalhador que consegue alterar dados governamentais para seu proveito, e que depois da morte de sua companheira de quarto, decide que THX deve ir morar com ele. 

A trama que pode parecer simples, na verdade é carregada de significados (como toda boa ficção científica), e o maior acerto do roteiro escrito por Lucas e Walter Murch é a maneira gradual com que vamos descobrindo a extensão dos poderes absurdos que o governo detém sobre a população, e consequentemente, a dificuldade dos protagonistas de se verem livres de tudo aquilo. 

A frieza com que o filme é conduzido compromete um pouco o ritmo da história, mas isso pode ser facilmente perdoado pela ousadia e criatividade demonstrada: afinal, o que pode ser dito sobre as cabines que, lembrando o Big Brother de 1984, traz uma figura parecida com a de Jesus Cristo e mistura mensagens religiosas com ordens políticas?

E como não admirar a abertura que mostra um episódio de Buck Rogers e "seu futuro maravilhoso", que dará contraste em tudo que veremos a partir dali?

NOTA: 10

Happy Feet - O Pinguim


George Miller é um grande diretor, mesmo que tenha alguns trabalhos bastante subestimados, como a continuação de Babe, que é taxada de ruim, sendo que é apenas um pouco inferior ao original. Happy Feet foi sua primeira animação, e acabou se tornando uma das melhores e mais importantes da década passada, feito que não é pra qualquer um.

Mano é um filhote de pinguim imperial que nasce sem o talento de cantar, como todos de sua espécie, mas tem um talento incrível para a dança. Adorável desde o momento em que sai de seu ovo, acompanhamos ele até sua juventude, sendo excluído por seus semelhantes pelo seu talento "esquisito", e pior, a rejeição do próprio pai. Depois de encontrar pinguins de outra espécie, decide encontrar os "alienígenas" que estariam acabando com os peixes, e desequilibrando o ecossistema da Antártida. 

E por "alienígenas", entenda: nós.

Miller faz de Happy Feet uma fábula adorável que lida com temas complexos, desde a ação predatória do homem no Pólo Sul, passando por intolerância religiosa e rejeição. E o mais fascinante é que apesar de obviamente o filme ter um forte aspecto infantil, estes temas são discutidos com rara maturidade e segurança para um filme do gênero. E vale dizer que o público adulto facilmente captará algumas piadas e insinuações sexuais que colaboram perfeitamente com a lógica da trama.

Além disso, o ato final de Happy Feet ainda com a sacada genial de misturar a animação com live-action, algo que sem querer (ou propositalmente, não sei) passa uma mensagem simples e direta sobre o próprio gênero de animação: pra que recriar no computador o que pode muito bem ser apenas filmado?

Pode responder essa... Robert Zemeckis?

NOTA: 10

A Mentira


Porque toda comédia adolescente não é assim? A Mentira, junto com Meninas Malvadas e A Galera do Mal é prova incontestável de que é perfeitamente possível fazer um filme inteligente, com humor, e que agrade o público mais jovem. Aliás, quando é o caso, agrada qualquer público, já que se eu certamente passei da idade de me identificar com dramas adolescentes, ao menos posso admirar a maneira como o assunto é abordado.

Olive é uma garota bonita e extremamente inteligente, mas pouco notada no colégio. Depois de acabar mentindo para sua melhor amiga sobre ter perdido a virgindade, ela descobre que isso foi espalhado para todos em seu colégio, graças a Marianne, uma "Jesus Freak" que decide se livrar de Olive. Só que Olive acaba gostando da atenção que recebe (mesmo pelos motivos errados), e acaba investindo em sua falsa fama de "vadia".

Encontrando uma maneira bem-sucedida para justificar a narração de Olive, o roteiro tem vários momentos inspirados, como quando alguém reclama que "John Hughes não dirigiu minha adolescência", e apesar de alguns diálogos terem o mesmo problema de Juno (ou seja, diálogos polidinhos demais), ao menos os atores conseguem trazer uma curiosa naturalidade a eles.

Misturando o tom farsesco de Meninas Malvadas com a crítica corajosa e direta de A Galera do Mal, A Mentira mostra mais uma atuação inspirada da bela Emma Stone, que consegue seu primeiro papel de protagonista depois de passar pelos excelentes Superbad - É Hoje e Zumbilândia. Aliás, ela atua com uma naturalidade impressionante, algo raro em atrizes de sua idade em Hollywood.. Além dela, há excelentes atores como Thomas Haden Church, Stanley Tucci e Patricia Clarkson em papéis divertidos. E se Amanda Bynes foi uma escolha perfeita para o seu papel (principalmente, pela cara natural que tem de menina mimada e nojentinha), Lisa Kudrow acaba não podendo fazer muito.

Escorregando apenas na sub-trama que envolve Olive e sua melhor amiga (a briga das duas não faz o menor sentido) e pela maneira idealizada demais em como alguns aspectos da vida da protagonista são retratados (especialmente, seus pais), A Mentira é um filme surpreendente, e uma surpresa mais do que agradável que chega até nós. Direto em DVD. Mas chega...

NOTA: 8 ,5

O Pior Trabalho do Mundo


Spin-off de Ressaca de Amor, O Pior Trabalho do Mundo não tem nem de perto o charme daquela produção, mas se sustenta bem, graças ao talento dos envolvidos. Talvez o mais curioso seja que Aldous Snow (Russell Brand) foi o personagem que menos me interessou no primeiro filme, mas aqui ele não tem qualquer dificuldade em se tornar um protagonista divertido carismático.

No filme, acompanhamos Aaron Green (Jonah Hill), um jovem que trabalha numa gravadora e ganha o desafio de resgatar a carreira de Aldous, que se encontra em declínio depois de um disco inacreditavelmente ruim (African Child) e um divórcio complicado. A idéia é fazer uma comemoração do maior show de sua banda Infant Sorrow no Greek Theatre em Los Angeles. Para isso, Aaron terá que passar três dias com Aldous, evitando que ele se drogue demais, ou cometa algum outro fiasco que comprometa as vendas dos ingressos.

Jonah Hill e Russell Brand já haviam mostrado uma boa química em Ressaca de Amor, e aqui repetem a experiência com êxito. Brand pode até estar praticamente atuando como uma caricatura de si mesmo (o que não é demérito aqui, já que funciona), mas é Jonah Hill quem arranca as melhores gargalhadas, especialmente na técnica improvisada de tirar as drogas de Aldous no carro, e principalmente, quando começa a sofrer as sequelas de ter tomado adrenalina.

Aliás, é nas performances que O Pior Trabalho do Mundo mostra o que tem de melhor, já que até Sean Combs (o Puff Daddy) se mostra uma agradável surpresa, e Rose Byrne surpreende com sua Jackie Q., a ex-mulher do protagonista, e faz a personagem mais intrigante do filme: não por sua complexidade mas, porque Russell Brand é casado com Kate Perry, e Jackie Q. é claramente uma sátira não muito gentil com cantoras desse estilo.

Apesar de suas qualidades, o filme fracassa em sua principal ambição, que era obviamente a de fazer uma crítica ao tratamento exagerado que as celebridades recebem, e a óbvia participação das gravadoras no processo de auto-destruição de alguns deles. O problema não é como isso é colocado no filme, mas que surge tarde demais, e assim, ao invés de se concluir, o filme parece se enrolar no final. Nada muito grave para que não possa ser recomendado.

Até porque a cena que envolve uma droga chamada Jeffrey é uma das mais engraçadas e surreais desse ano.

NOTA: 7

Meu Malvado Favorito


Muita gente tem falado horrores deste Meu Malvado Favorito, e não sou eu quem vai defendê-lo, já que o filme é realmente fraco. Mas devo dizer que não achei o inferno na Terra pintado pela crítica. A história não é boa, mas o humor lembra o estilo de A Era do Gelo: ou seja, completamente inspirado na lógica dos antigos desenhos do Pernalonga (especialmente os do Coiote e o Papa-léguas). Mas o que faz Meu Malvado Favorito realmente irregular é o melodrama artificial que toma conta da história e se mostra bem mais presente do que o recomendado.

A idéia de ter um vilão como protagonista é boa, mas não é bem aproveitada: há poucos momentos em que Gru realmente se comporta como um grande vilão, e o meu favorito ocorre logo no início, quando ele "consola" um garoto com um balão. Já a interação entre ele e as garotas órfãs é um pé no saco de tanta água com açúcar. E pensando bem, os momentos mais divertidos vêm dos Minions, umas criaturas bizarras (daquelas prontas para virar brinquedo infantil), mas que conseguem causar algumas risadas. 

Visualmente fraco (aliás, bem abaixo dos padrões recentes de animação), Meu Malvado Favorito pode servir como um passatempo e só. O que os realizadores do filme deveriam saber, porém, é que as animações já deixaram de ser tão despretensiosas e bobas faz MUITO tempo.

NOTA: 5

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