X-Men: Primeira Classe



(X-Men: First Class - Dir. Matthew Vaughn)

Não me faltavam motivos para desconfiar deste X-Men: Primeira Classe. Vejamos: a idéia de fazer um filme contando as origens de outra obra nunca fez muito sentido, com pouquíssimas exceções - na regra, os resultados costumam ser coisas como Hannibal - A Origem do Mal, O Massacre da Serra Elétrica - O Início ou, justamente, X-Men Origens - Wolverine. A Fox também não é nada conhecida por respeitar seus melhores trabalhos. Além de Matthew Vaughn na direção, um sujeito talentoso sim, mas muito mais pela fanfarronice do que pela inteligência em seus trabalho, um pré-requisito indispensável para uma saga como X-Men, e que o diretor nunca havia demonstrado em seus trabalhos, como Stardust, Nem Tudo é o Que Parece ou Kick-Ass. Aliás, este último errava justamente quando tentava parecer mais do que era.

Some isso ao fato de que poucas vezes em Hollywood, um estúdio errou tanto a mão numa campanha de marketing, vazando fotos horrorosas sem qualquer cuidado, e cartazes que, de tão amadores, parecem ter sido feitos por alguém que havia acabado de aprender a usar o Photoshop. É claro que uma campanha de marketing jamais dita a qualidade do filme, mas se um estúdio bilionário não consegue fazer um trailer empolgante de uma de suas maiores apostas, a sensação natural é de desconfiança.

Então... mordi a língua. X-Men: Primeira Classe é surpreendente. Não se iguala a trilogia: a supera. 

O filme começa com o garoto Erik Lensherr (o Magneto) sendo "salvo" dos nazistas por Sebastian Shaw, que na verdade, busca jovens mutantes para criar um exército particular. Anos depois, Erik busca Shaw para vingar a morte de seus pais, e em sua busca conhece o jovem Charles Xavier. Junto a outros mutantes, eles começam como uma divisão mutante da CIA em meio a busca por Shaw, que está envolvido no famoso incidente diplomático entre Estados Unidos e Rússia, quando estes últimos enviaram suas bombas atômicas para Cuba.

Utilizando a história de forma inteligente e orgânica a sua trama, o filme também volta a tocar de forma no tema do preconceito de forma sensível: da busca de aceitação (e auto-aceitação) da Mística e Fera, até nas motivações de Erik, e num momento particularmente inspirado da trama, em um diálogo entre ele e Xavier, este último buscando argumentar que os humanos aceitarão os mutantes eventualmente, Erik relembra de sua passagem pelo nazismo como prova da intolerância contra as diferenças, fechando o diálogo com uma das frases mais marcantes do período: "Never again". 

Mas é em outro ponto que transforma o filme numa experiência ainda melhor: o que é mais decepcionante em histórias de origens é perceber como falta criatividade na hora de criar algo que realmente justifique a existência: George Lucas criou a nova trilogia Star Wars para mostrar a origem de Darth Vader, sendo que, até no fim, o Vader da nova trilogia ainda está longe de ser aquele da trilogia inicial, e em Wolverine não descobrimos absolutamente nada de novo sobre o seu personagem além do que já havia sido dito sutilmente na trilogia. No caso de Primeira Classe, não apenas há uma justificativa, como todas as peças se encaixam de forma absolutamente perfeita, principalmente a amizade profunda entre Xavier e Magneto, que acaba se transformando na rivalidade vista na trilogia, e que é utilizada de forma extremamente eficiente como o centro dramático.

E James McAvoy e Michael Fassbender entregam atuações memoráveis: se o primeiro surpreende no humor, e trabalha o arco dramático de Xavier com dedicação impressionante, Fassbender faz de Magneto o personagem mais trágico e fascinante de todo o filme, além de claramente respeitar o trabalho também memorável de Ian McKellen. E o que dizer de Kevin Bacon como Sebastian Shaw? Divertindo o público desde sua primeira aparição, o ator parece ter se inspirado nos caricatos vilões que associamos aos filmes do 007, mesmo que sua atuação não tenha nada de caricata. Além destes, Nicholas Hoult e Jennifer Lawrence são os que mais se destacam entre os coadjuvantes. Só lamento duas coisas: Rose Byrne ganha pouco espaço com sua personagem, e January Jones pode ser linda, mas atua tão bem quanto um poste.

E na direção, Matthew Vaughn conseguiu criar um filme que, mesmo que grande parte seja mais baseado em diálogos do que em ação, jamais perde em ritmo e tensão. Mas quando a ação aparece, o diretor caprichou, sempre surpreendendo na escala das cenas, e até na violência em alguns momentos,  especialmente a invasão de Shaw na CIA, e a revelação do que era o "barulho estranho" e a cruel cena que envolve uma moeda. 

Contando com um dos clímax mais impressionantes do ano, X-Men: Primeira Classe entra para o seleto grupo de "filmes de super-heróis" que não se limitam a ser apenas diversões rasteiras, e se revelam obras admiráveis e relevantes, como Watchmen - O Filme ou Batman - O Cavaleiro das Trevas.

Agora é torcer para que não estraguem tudo de novo.

NOTA: 10

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