Assassino a Preço Fixo (2011)


Remake do filme com Charles Bronson de 1972 (que eu não vi), Assassino a Preço Fixo é um filme quase bom, o que mantém a má regularidade do diretor Simon West, cujo melhor trabalho é o divertido Con Air - A Rota de Fuga, embora tenha também cometido o primeiro Tomb Raider, A Filha do General e Quando um Estranho Chama. O filme não é tão ruim quanto estes últimos, mas está longe da diversão do primeiro. Aliás, diversão é exatamente o que falta: se leva a sério demais.

Jason Statham interpreta Arthur, um "mecânico", um cara que arruma problemas - um assassino de aluguel. Trabalhando sempre para uma mesma empresa, ele acaba recebendo a missão de matar o seu único contato nela (Donald Sutherland, fazendo um papel que ele tem repetido a anos). Só que Steve (Ben Foster), o filho do falecido decide se aproximar de Arthur para aprender a função dele, o qe Arthur enxerga como uma forma de compensar seu ato, e de treinar um substituto e curtir sua aposentadoria.

O começo do filme é triste de tão clichê. O primeiro diálogo entre Statham e Sutherland é particularmente triste. É o segundo ato da história, com o treinamento de Arthur e Steve é apressado, mas funciona graças aos atores. As cenas de ação não apresentam nenhuma novidade, mas funcionam, especialmente o momento em que Steve se complica ao tentar matar um sujeito gigantesco (embora o que faça a cena funcionar tão bem seja, principalmente, a atuação de Ben Foster).

E por falar em atuações, Jason Statham é um ator bacana, carismático, e faz bem seu personagem, apesar de que em alguns momentos, suas limitações fiquem claras. Donald Sutherland é, mais uma vez, desperdiçado. Quanto a Ben Foster... por um lado, é sempre bom ver um grande ator em filmes assim, já que sempre elevam o nível (Liam Neeson em Busca Implacável; Denzel Washington em Chamas da Vingança), mas por outro lado, o filme não o beneficia em nada na carreira cada vez melhor do rapaz, como quando roubou a cena em Os Indomáveis e na brilhante atuação em O Mensageiro. Escolha estranha do ator, que já vinha de um desastre, Pandorum.

Como já disse, Simon West é um diretor razoável, faz o feijão com arroz, e aqui e ali tem um tempero a mais. Infelizmente, o roteiro depende de furos catastróficos para funcionar em alguns momentos, especialmente no desfecho artificial, que troca o que seria um final dramaticamente eficiente, por um daqueles "Ahá! Viram só? Pegamos vocês! Vocês achavam que ele tinha... mas no final... olha só? Não te surpreendemos? Hahá!".

Sim, surpreenderam. Agora perguntem se foi de forma positiva...

NOTA: 4

Coração de Cristal


A cena que mais chama a atenção no início de Coração de Cristal é o diálogo entre dois homens em um bar, quando um deles quebra a caneca de cerveja no outro, que não tem qualquer reação. De forma econômica, Werner Herzog nos mostra o estado de espírito dos habitantes da cidade onde o filme se passa: eles perderam o motivo para viver, e parece completamente inútil reagir a qualquer coisa. Outro fato que contrinui para a veracidade da cena, e torna o filme ainda mais sinistro é o fato de que Herzog fez muitas de suas cenas com os atores hipnotizados.

A história se passa numa cidade, provavelmente em 1800 e alguma coisa, que ganhava seu sustento com a fabricação de vidro-rubi, um vidro avermelhado. O inventor doproduto acaba morrendo, e o segredo da fórmula vai com ele, junto ao túmulo. O mestre da cidade começa então a pressionar a viúva do inventor e os trabalhadores para conseguirem fabricá-los novamente, apelando até para superstições (como ao jogar todos os objetos de vidro-rubi em um rio). Ao mesmo tempo, há um profeta que enxerga não apenas a ruína da cidade, como de toda civilização.

Coração de Cristal é um filme lento, sombrio e desesperador. Não é a toa que talvez seja um dos menos vistos da carreira de Herzog. Porém, é claramente um de seus trabalhos mais inspirados, e inspiradores: a sequência do mestre e sua empregada enquanto um músico toca harpa parece ter inspirado a carreira inteira de David Lynch; o tom estático e tétrico lembra grande parte do trabalho de Michael Haneke (especialmente A Fita Branca) e, talvez o mais curioso, há influências claras do filme no recente clássico Filhos da Esperança, especialmente no tom cinzento da fotografia e na cena final, com seus personagens à deriva no mar.

O filme é uma fábula sobre a obsessão conduzindo o futuro do homem. A obsessão do mestre em produzir o vidro-rubi a qualquer custo (mesmo quando, a beira da loucura acredita que o ingrediente faltando seja sangue) em nenhum momento é questionado pelos habitantes, que entram na mesma obsessão, para garantir o seu sustento. Aliás, a própria fragilidade do produto é de uma ironia digna de aplausos, especialmente no título da obra. Graças a esta lógica e a diversas cenas do profeta, é possível entender que Herzog não está falando sobre aquela época, e sim fazendo um comentário contemporâneo ("Será que um dia as pessoas olharão para as fábricas como nós olhamos para as fortalezas decadentes, como sinal da inevitável mudança?"). Ao mesmo tempo, em que é uma interessante metáfora sobre a transição da era medieval para a Revolução Industrial.

No início, dois homens ouvem do profeta que um deles morrerá e o outro dormirá sobre seu cadáver. Os dois não discutem se acontecerá de fato, ou não. Aliás, até ensaiam como o fato ocorrerá. Herzog parece dizer que é inútil profetizar sobre como "o homem é o lobo do homem". É um fato, e aconteceria de qualquer forma (e o momento em que depois disso, o amigo pega o amigo falecido para uma última dança macabra num bar fecha o raciocínio de maneira desesperadora).

Não há uma trama específica em Coração de Cristal, e o mais próximo que tem de um protagonista é o profeta. Ainda por cima, a conclusão foge completamente do arco dramático, e até mesmo da história em si, ao mostrar um grupo de homens que, vivendo numa ilha por décadas, começa a duvidar que o oceano é finito e termina em um grande abismo. Herzog os mostra partindo e desvia o olhar para um grupo de pássaros voando por cima deles.

Em suma, Coração de Cristal é um filme difícil, ao mesmo tempo em que é singular. O resultado da hipnose nos atores é extraordinária, e garante momentos assombrosos, como a dança do mestre na fábrica. Há ainda o olhar extraordinário do diretor para a natureza, cujas rimas visuais enriquecem ainda mais a introdução e o desfecho da obra (a névoa nas árvores, a cachoeira; o profeta em cima da montanha, o homem observando o mar, etc.). Uma obra de arte rara, poética e apocalíptica.

NOTA: 10

Cópia Fiel


Em meu texto sobre Império dos Sonhos, comentei que "Eu não vou nem tentar fingir que eu entendi o que diabos eu vi nesse pesadelo de três horas filmado por David Lynch.". Havia duas razões para isso. A primeira é óbvia: eu não saquei a história, apesar de reconhecer algumas idéias (embora, tendo reassistido novamente esses dias, posso dizer que saquei, finalmente). E a segunda é a que defendi no texto: eu tive uma experiência vendo o filme que não seria satisfeita só em compreender onde estava o começo, o meio, ou o fim. A obra funcionou por sua forma, pelas atuações, pela trilha, fotografia, enfim.

Mas porque digo isso? Simples.Aconteceu algo parecido neste Cópia Fiel. Mas aqui, eu entendi sua história perfeitamente. Apenas me dou o benefício da dúvida em sobre o que é o filme. É sobre arte? Sobre a vida? Sobre a maneira como enxergamos a arte reflete nossa visão da vida em todos os sentidos, familiar, etc? Sinceramente, eu não sei. E nem preciso. Tudo o que preciso para admirar esta obra-prima, é reconhecer suas virtudes nada pequenas.
Afina, Cópia Fiel é um filme de idéias. Intrigantes, às vezes se apresentando de forma discreta, mas estão ali, a todo momento: quando Juliette Binoche ouve a frase de uma mulher sobre uma obra de arte, ela chama William Shimell para ouvi-la. Quando a mulher tenta retomar o raciocínio, Binoche a repreende: "Não, diga exatamente o que você me disse antes! Era perfeito!". 

Este pequeno trecho, em si, resume o conflito na trama. William Shimell interpreta um escritor, cuja obra mais recente, defende as cópias de obras de arte. Sua visão é interessante, mas preguiçosa; inteligente, mas vazia; bonitinha, mas ordinária. Ele é convidado pela personagem de Juliette Binoche, dona de uma galeria de arte, que repudia o pensamento do escritor. Os dois fazem um passeio juntos para um pequeno vilarejo na Itália, onde continuarão sua discussão.

Logo, porém, algo acontece: depois de um diálogo misterioso com a dona de uma cafeteria ("Eles nem vão perceber..."), Binoche e Shimell começam a se tratar como um casal de longa data, discutindo questões familiares, e um possível fim do romance. Esta quebra pode significar muitas coisas, e eu não sou inteligente o suficiente para pensar em todas elas, mas acredito que o roteirista e diretor Abbas Kiarostami esteja brincando com nossa percepção quanto aos personagens.

No início, quando Binoche atacava as teorias do escritor, apesar de ter bons argumentos, a sua insistência parecia arrogante, já que Shimell não parece realmente dedicado a mudar dogma algum: como ele confessa, escreveu o livro apenas para se convencer de suas próprias idéias (e a história que o inspirou a escrever o livro é tocante, e surpreendente na trama). Porém, depois de vermos Binoche como uma mulher casada, solitária, e mãe do adolescente mais chato da história, e Shimell, um pai e marido ausente, aos poucos nossa visão não apenas sobre os personagens, mas também de suas idéias e ideais mudam junto. 

E o mais impressionante: apesar de ser uma obra calcada no pensamento racional, Cópia Fiel funciona maravilhosamente bem no emocional, algo que só poderia acontecer com atuações perfeitas e instigantes como as de William Shimell e Juliette Binoche. Se o primeiro eu sinceramente desconhecia, Binoche oferece uma de suas atuações mais bem trabalhadas, e levando em conta seus trabalhos em Código Desconhecido, A Liberdade é Azul e outros, dá pra saber que não é pouco.

Fechando com uma rima visual absolutamente perfeita, Cópia Fiel é um filme extraordinário, destes que a gente sabe que as discussões em torno dele levarão anos para deixarem de ser interessantes. 

Uma poderosa discussão sobre a arte, vida, amor, e muito mais. Não necessariamente nessa ordem. Ou em qualquer ordem.

NOTA: 10

PS: A Palma de Ouro em Cannes de Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas ficou ainda mais esdrúxula vendo Cópia Fiel.

O Enigma de Kaspar Hauser


"Estes gritos amedrontadores ao redor são o que chamam de silêncio?"

Em 1828, na cidade de Nuremberg, na Alemanha, um homem é encontrado em pé no meio de uma praça segurando uma carta e portando apenas alguns livros de orações e um pouco de ouro. Kaspar Hauser foi criado dentro de um porão por vinte anos, amarrado ao chão, ganhando um pouco de comida todo dia e vivendo na compania de um cavalo de brinquedo. Sem saber falar, ou mesmo andar, ele aprende o básico para ser deixado na cidade, onde é "adotado" por uma família, enquanto aprende a falar e a exercer funções para pagar o cuidado destinado a ele ao município.

Werner Herzog não parece preocupado em fazer um filme historicamente preciso. Ao invés disso, transforma Kaspar Hauser em um de seus personagens típicos: os que se afastam da sociedade e de suas regras, intencionalmente (O Homem-Urso), ou não (O Sobrevivente, Little Dieter Needs to Fly). Aqui, Kaspar Hauser aprende o que é a sociedade, apenas para descobrir que não tem interesse em fazer parte dela, o que o título ironiza como sendo o seu "Enigma" (embora o título original alemão seja muito mais divertido: "Cada um por si e Deus contra todos".)

Mas talvez, o maior toque de gênio de Herzog tenha sido na escolha do protagonista: o artista de rua Bruno S., filho de uma prostituta e que ficou internado num hospício também por 20 anos. Bruno S. tem a característica mais importante do personagem em si, não precisa interpretá-la: uma inocência infantil aliada a uma inteligência surpreendente. Em alguns momentos, é visível o desconforto de alguns atores ao seu redor. Ele anda pelas cenas, em alguns momentos parece sem direção; Às vezes, olha diretamente para a câmera, e como comentou Roger Ebert, "a impressão não é a de que ele está olhando para nós, mas através de nós". É difícil imaginar outra pessoa capaz de realizar tão bem o momento em que Kaspar segura um bebê, e finalmente compreende o que é uma mãe, ou sua reação a se queimar em uma vela pela primeira vez.

O roteiro é particularmente inteligente ao mostrar a gradual adaptação de Kaspar a sociedade: seu desafio a um professor que lhe submete uma pergunta de lógica, ou suas observações quando dois religiosos tentam explicá-lo que a maçã não é um ser vivo capaz de raciocinar são brilhantes. Mas talvez o melhor momento seja aquele em que diversos religiosos tentam obrigá-lo a ter fé em Deus, no que Kaspar responde com perfeição: "Primeiro, preciso aprender a ler e escrever direito. Depois, eu penso em aprender o resto". 

Se não fosse o bastante, Herzog faz um trabalho soberbo na direção: do enquadramento que mostra Kaspar deitado enquanto seu "pai", de maneira, sombria se encontra de costas para ele (numa óbvia demonstração do peso da ausência da figura paterna), passando pelos belos momentos em que Herzog tenta visualizar os sonhos do rapaz (especialmente sua visão da morte numa montanha), a mão do diretor se faz presente a todo momento.

O Enigma de Kaspar Hauser é, sem dúvida alguma, uma obra-prima, um excelente exemplo da importância do cinema de Werner Herzog, um cineasta que, até hoje, é um dos mais representativos no meio. Com uma obra coerente, e com raros momentos não muito inspirados, é um mistério que ainda seja um nome pouco lembrado em premiações, e até por alguns cinéfilos.

NOTA: 10

Mistério da Rua 7


Minha relação com Mistério da Rua 7 pode ser explicado por referências: a discussão central da trama me lembrou o ótimo Presságio, apesar de não ser tão bem discutida. Por outro lado, a sensação foi a mesma que tive depois de ver os dois últimos filmes decentes de M. Night Shyamalan, Sinais e A Vila, duas obras com os mesmos problemas e virtudes: roteiro mal desenvolvido, com furos colossais de lógica, mas também bem conduzidos. No final, aquela sensação agridoce: enquanto repensamos a trama e surge a conclusão de que muita coisa não fez o menor sentido, havia também uma estranha satisfação.

Dirigido por Brad Anderson, dos ótimos O Operário e Expresso Transiberiano, o filme abre com um blecaute, no qual várias pessoas desaparecem, deixando apenas as roupas no lugar onde estavam. Os poucos sobreviventes acabam se reunindo num dos poucos lugares ainda iluminados na cidade, já que as pessoas desaparecem misteriosamente sempre que a escuridão prevalece, algo que se torna pior com o fato de que a duração do dia é encurtada, de forma a haver pouquíssimas horas de luz.

O clima criado por Anderson é sublime, e segura bem as pontas: trabalhando com planos bem abertos, e brincando com os cantos do enquadramento tomados por sombras, não demora muito ao clima ficar tenso. Além disso, apesar de haver claro uso de efeitos especiais, é interessante como o recurso é evitado ao máximo em alguns momentos, e as silhuetas vistas nas ruas são bons exemplos. 

O problema do filme, e principal causa de muitos o estarem detestando (e não tiro a razão) é o roteiro. O principal problema não é a falta de explicações para o fenômeno, e sim a falta de coerência: se somos informados que a única maneira de sobreviver é portando uma fonte de luz, já que afasta as "sombras", então porque em vários momentos elas são capazes de apagar as luzes? E porque o protagonista prefere confiar em lanternas por elas dependerem de pilhas, se toda vez que ele é obrigado a usá-las elas falham? (Embora eu deva dizer que, curiosamente, o filme ganhe um pouco com isso: afinal, assim, os personagens nunca estão seguros).

E se o flashback do protagonista vivido por Hayden Christensen ao menos é interessante, contribui para a trama (além de surgir num momento dramático ideal), o que dizer dos que mostram a personagem de Thandie Newton? Já atrapalhada pela atuação exagerada e incompetente da atriz (que venho gostando cada vez menos), as revelações que surgem sobre ela (especialmente a de que ela era drogada) não contribuem em nada. De sua personagem, há apenas uma característica bacana: é ela quem sempre levanta as hipóteses mais religiosas ao fenômeno, embora nunca consiga concluir seu pensamento.

E se Thandie Newton já atrapalha uma personagem mal construída no roteiro, Hayden Christensen faz um bom trabalho, deixando de lado a inexpressividade que marcou o início de sua carreira. Jacob Latimore é uma boa revelação, surgindo bem em cena desde o tenso momento que marca sua entrada em cena. Mas o destaque vai para John Leguizamo. Assim como Thandie Newton, seu personagem é mal desenvolvido, porém tem uma coisa ainda pior: cabe a ele ser o personagem misterioso que, teoricamente traz uma pista sobre o que aconteceu (a história envolvendo a palavra Croatoan: pesquisem e se decepcionem com a referência), ao mesmo tempo em que deve ser o personagem que se lamenta sobre uma garota enquanto o mundo vai para o inferno. E por mais incrível que pareça, o ator encontra um bom equilíbrio, tornando-se o mais forte e intrigante em cena.

Como vocês podem ver, não há muito o que defender em Mistério da Rua 7. É um filme repleto de problemas, mas funcionou comigo, como eu disse no início. Em Sinais, a motivação da inasão dos alienígenas era imbecil, mas o filme funcionou. Em A Vila, todos sabem o enorme número de problemas na história, mas há inúmeras virtudes nele. Acredito que seja o mesmo caso aqui. Logo, é difícil recomendá-lo, ao mesmo tempo em que não vou fingir que não gostei só para concordar com o resto.

E olhem que guardei o melhor para o final: Mistério da Rua 7 parece ser também uma metáfora sobre o uso de energia, nossa dependência com a tecnologia, e a falta de recursos renováveis em nossa vida. O problema é que os realizadores sofrem do mesmo mal que criticam: se tudo o que sobrou foram as roupas, os edifícios estão cheios de papéis, há muitos carros com gasolina, hospitais cheios de álcool, etc. porque não depender de luz feitas em fogueiras ou tochas? Sério que nenhum personagem pensou nisso e ficaram só procurando celulares e lanternas? C'mon...

NOTA: 6

O Besouro Verde


Na sua primeira metade, O Besouro Verde apesar de alguns problemas, tem idéias divertidas e promissoras, e apresentam o que o filme tem de melhor. Infelizmente, depois disso parece esquecer que é uma sátira, levando-se a sério demais, e apesar de não resultar num desastre, é extremamente decepcionante, principalmente se levarmos em conta que o roteiro é de Evan Goldberg e Seth Rogen, que juntos fizeram os excelentes Superbad - É Hoje e Segurando as Pontas, e a direção do grande Michel Gondry.

Rogen interpreta Brit Reid, filho de um magnata da mídia que é encontrado morto. Irresponsável, o rapaz é obrigado a levar a vida sozinho, com a ajuda de Kato (Jay Chou), um leal empregado de seu pai. Depois de um ato de vandalismo, os dois acabam ajudando um casal que estava sendo atacado por vários bandidos. Decidem então utilizar a má fama conquistada na mídia para combater o crime, através do codinome Besouro Verde, o que acaba irritando Chudnofsky (Christoph Waltz), o maior bandido da cidade.

A maneira rápida como a trama acontece é divertida e funciona bem, mas o filme já abre com uma gafe estranha: para que abrir a história com um flashback da infância de Britt com o pai se, minutos depois, ele contará a mesmo história para Kato? Aliás, a relação entre ele e o pai, interpretado por Tom Wilkinson é o que há de mais decepcionante em todo o flme, já que apesar de tratado de forma divertida, perto do final se torna babaca e mal explicado.

O que faz O Besouro Verde funcionar bem é a boa química entre Seth Rogen e Jay Chou, que transforma as cenas dedicadas a Britt e Kato em momentos divertidos, como os testes da arma de gás. E olha que Seth Rogen está bacana, mas longe do talento mostrado em Ligeiramente Grávidos ou O Segurança Fora de Controle. Christoph Waltz está divertidinho, mas o roteiro não o ajuda muito (e seu vilão tinha imenso potencial, uma pena). E se Cameron Diaz e Tom Wilkinson pouco tem a fazer, James Franco e Edward Furlong surgem como ótimas surpresas em suas pontas.

Mas talvez o mais decepcionante de tudo seja a direção de Michel Gondry: longe das invencionices que marcaram sua obra, seu trabalho aqui remete a "simplicidade" de Rebobine, Por Favor, com a diferença de que aqui, em alguns momentos a impressão é que o diretor fez um trabalho preguiçoso, relaxado. Os diálogos no jornal, o momento em que acelera a imagem para deixar a cena engraçadinha ou o velho clichê da cena no espelho experimentando várias roupas são provas disso, além da duração um pouco longa demais. Gondry mostra o que O Besouro Verde poderia ter sido em poucos momentos, que são os visualmente mais criativos: das cenas de luta, em que os personagens no mesmo enquadramento se movimentam em velocidades diferentes, ao momento em que um plano-sequência começa a se dividir em vários quadros dentrodo enquadramento.

Além disso, é decepcionante que algumas das melhores idéias apresentadas no início sejam descartadas com o passar do filme: especialmente a clara vantagem de Kato em cima do companheiro, não apenas física, mas mental (já que também é praticamente o idealizador de tudo sobre o herói), ou a constante preocupação do vilão em não estar mais parecendo assustador.

No final, virou uma salada confusa. O Besouro Verde é, sim, um filme divertido, e em alguns momentos, é até inspirado. Mas no geral, a decepção é um pouco maior.

NOTA: 6

Caça às Bruxas


Estava até demorando para Dominic Sena lançar uma porcaria colossal como essa: depois de estrear com o interessante Kalifórnia, sua carreira foi construída em obras extremamente irregulares como 60 Segundos, A Senha: Swordfish e Terror na Antártida, três filmes não exatamente detestáveis, mas completamente esquecíveis. Caça às Bruxas é um filme... ridículo. Parece ter sido feito para impressionar pré-adolescentes do sexo masculino. Não há outra explicação para este épico-fake que não é divertido e é violento demais para ser uma aventura.

O roteiro é uma salada indigesta que mistura as Cruzadas, com a Peste Negra e a Inquisição. Em ordem: dois soldados depois de uma invasão onde milhares de mulheres e crianças foram mortas fogem das Cruzadas, tornando-se desertores da igreja. Voltando a Europa, encontram as cidades tomadas pela Peste Negra, e descobrem que a doença foi causada pelas bruxas mortas que voltaram do inferno.

Ai, ai... pausa para respirar...

Voltando...

O visual do filme é escrotíssimo, a fotografia lembra a de comerciais de TV, os efeitos especiais são terríveis (os lobos conseguem ser tão falsos quanto os de O Exorcista: O Início), e o roteiro deve ter sido escrito por alguém das séries Hércules ou Xena (lembram?). Se isso não fosse o bastante, o roteiro é ainda moralmente desprezível: no início, o personagem de Nicolas Cage afirma que luta por Deus, e não pela Igreja, porém conforme o filme avança ele se torna incapaz de tolerar até mesmo de ouvir uma oração. Não sei se era a intenção dos realizadores, mas no final das contas, sem querer querendo, Caça às Bruxas conclui que quem está contra a igreja, está contra Deus (mas novamente, acredito que tenha sido incompetência, e não más intenções). 

Fora isso, Nicolas Cage está se tornando um ator indispensável em filmes ruins, mas pelo menos não dá o overacting que ao menos diverte de vez em quando, enquanto Ron Perlman é obrigado a soltar piadinhas sem graça a todo momento. Claire Foy é a mais esforçada, mas com um roteiro desses, a impressão é de que os atores que se esforçam menos para interpretar passam menos vergonha.

Se há um elemento que evite a nota zero aqui, é que o filme ao menos tem um ritmo aceitável no início. Sim, é ridículo, e as batalhas mostradas no início são plágios descarados de 300, mas ao menos a história flui, algo que também aconteceu com o péssimo Demônio. Infelizmente, Caça às Bruxas além de babaca e escroto, ainda apresenta uma reviravolta que acaba com isso, transformando seu final numa tortura assustadora, lenta e violenta. 

Do público.

NOTA: 1

A Marca da Maldade


Talvez seja o melhor filme irregular e problemático da história do cinema. Dirigido por Orson Welles, A Marca da Maldade sofreu horrores nas mãos do estúdio que exigiram Charlton Heston no papel de um policial mexicano (!) e ainda refilmou diversas cenas para "melhorar" a obra. Por um milagre, ainda assim o filme é um exemplo do talento de Welles em lidar com histórias complexas e personagens profundos. O plano-sequência que abre a história, seguindo um carro prestes a ser explodido por uma bomba, talvez seja uma das cenas mais importantes da história do cinema.

Com a explosão do carro, cuja bomba foi plantada no México, mas explodiu nos Estados Unidos, acompanhamos a investigação pessoal de Vargas (Heston), um renomado policial mexicano, famoso por desmantelar uma importante família criminosa e a de Hank Quinlan (Welles), um respeitado homem da lei, que para resolver seus casos, não pensa duas vezes antes de plantar (ou desaperecer com) evidências. Logo que Vargas descobre o truque do americano e tenta êxpor a verdade, Quinlan começa uma campanha de difamação perigosa contra Vargas, envolvendo um membro da família presa pelo mexicano no esquema.

As irregularidades da obra são marcantes e notáveis: a começar pela performance esquisita de Heston (e cujo trabalho de maquiagem para "mexicanizalo" foi constrangedor), e pela atuação irritante de Janet Leigh, o que transforma toda a parte protagonizada pela sua personagem numa verdadeira tortura, ainda há um humor estranho, especialmente o recepcionista noturno gago de um hotel, que não funciona.

Por outro lado, tudo isso pode (e deve) ser relevado pelo brilhante estudo de personagem que Welles realizou com Hank Quinlan: preconceituoso e extremamente confiante em sua "intuição", porém dono de um código de conduta rígido e brilhante como investigador, Welles enxerga-o, como ator e diretor, como um homem traumatizado pelo brutal assassinato de sua mulher, nas mãos de um bandido que não conseguiu prender. Jurando nunca mais permitir que um assassino escapasse, Quinlan chega ao ponto em que o conhecemos: sem pensar duas vezes em condenar alguém a morte sem qualquer provas reais. 

E a construção do ator é brilhante nesse sentido: percebam seu orgulho em afirmar que não bebe mais, e sua reação ao quebrar esta promessa, ou seu estranho fascínio pela maneira como sua esposa foi assassinada (algo que cumpre papel importante na história); há ainda cenas igualmente brilhantes, especialmente quando Quinlan pergunta qual o seu futuro para uma misteriosa personagem interpretada por Marlene Dietrich, ou o longo plano sem cortes que mostra o interrogatório e a consequente prisão do suspeito pela explosão do carro no início.

Como diretor, Welles ainda cria sequências perfeitas, e fora o plano-sequência no início, merece atenção o clímax conduzido com talento, enquanto Quinlan e seu parceiro Pete Menzies (em atuação extraordinária de Joseph Calleia) são ouvidos com uma escuta por Vargas, na brilhante e complexa conclusão.

É lamentável que A Marca da Maldade não tenha saído exatamente da maneira que Orson Welles planejou. Mas por outro lado, é uma prova ainda maior de seu talento, talvez anda maior do que Cidadão Kane. Afinal, Kane foi feito do início ao fim do jeito que ele quis, e saiu o grande clássico que continua sendo. Já A Marca da Maldade foi deturpado, refilmado, reeditado... e ainda assim é referência.

NOTA: 10

Não me Abandone Jamais


Depois de realizar o interessante (mas falho) Retratos de uma Obsessão, Mark Romanek ficou um bom tempo sem lançar nada nos cinemas. Esperou, e acertou em quebrar o jejum com essa adaptação do romance de Kazuo Ishiguro realizada por Alex Garland, mais conhecido pelas suas parcerias com Danny Boyle, especialmente o fabuloso Extermínio.

Não me Abandone Jamais conta a história de três jovens numa realidade alternativa, onde nos anos 50 a expectativa de vida do homem chega aos 100 anos, e grande parte das doenças é dizimada. A infância de Kathy, Ruth e Tommy aconteceu em Hailsham, uma escola afastada da civilização e repleta de histórias mal contadas. O estranhamento com o cotidiano é imediato: da estranha maneira com as pessoas de fora tratam as crianças de lá, passando pelas normas rígidas e a frieza dos professores, e a felicidade dos alunos em saber que chegarão caixas abarrotadas, tudo se torna triste e complexo quando finalmente compreendemos o que está realmente acontecendo ali.Anos mais tarde, Ruth e Tommy estão namorando, a contragosto de Kathy, que sempre quis ficar com ele, e fazem seus primeiros contatos com o mundo exterior, e é bom parar de falar da história por aqui mesmo.

Não me Abandone Jamais, em seus melhores momentos, parece uma parceria improvável entre George Orwell e Kafka, e toda a primeira parte do filme demonstra bem isso. É uma pena que conforme a história avance, o triângulo amoroso entre os protagonistas se torne mais importante do que todo o resto: não que isso enfraqueça todo o conjunto, mas tudo se torna um pouco previsível. Os poucos momentos em que a história foge um pouco disso são extraordinários, em especial o belíssimo momento em que os três se deparam com o barco preso na areia, uma metáfora visual perfeita para as suas histórias.

Voltando a mostrar seu talento absurdo, e uma maturidade mais do que surpreendente para sua idade, Carey Mulligan faz um trabalho excepcional, repleto de sentimento: há uma cena fascinante em particular, em que sabemos exatamente qual a revelação que uma personagem irá dizer apenas pela expressão em seu rosto (só por esta cena, Carey merecia uma indicação ao Oscar, mas enfim...). E se Keira Knightley surpreende ao mostrar Ruth como uma pessoa que usa a arrogância como forma de se proteger de seu trágico destino, Andrew Garfield impressiona pela maneira contida com que trabalha, surpreendendo com a explosão que surje depois de um momento particularmente trágico. 

Mark Romanek trabalha de maneira fria, racional e curiosamente isso torna o filme ainda mais emocionante e envolvente, especialmente no primeiro ato, como na cena em que Sally Hawkins, sublime, conta uma informação importantíssima para seus alunos. Essa estretégia só acaba falhando em seus minutos finais, quando o diretor inclui uma narração desnecessária para resumir as idéias da obra, enfraquecendo assim a beleza de sua própria mise-en-scène. De qualquer forma, com Não me Abandone Jamais, Romanek finalmente realiza algo a altura de seu talento, e mostra aos cinéfilos que ainda não conhecem sua obra,que aqui está um diretor para ser observado e levado a sério.

NOTA: 9

Em um Mundo Melhor


Depois de uma passagem nada bem-sucedida pelo cinemão norte-americano com o pastiche Coisas que Perdemos Pelo Caminho, a diretora Susanne Bier volta a mostrar seu talento neste ótimo Em um Mundo Melhor, que apesar de não ter a mesma força que o sensacional Depois do Casamento, se mostra um drama maduro, sobre personagens que soam críveis em circunstâncias difíceis.

O filme conta a história de dois pré-adolescentes e suas famílias: Elias é um garoto que sofre de bullying na escola, e sofre não apenas com a distância de seu pai (que trabalha como médico num país da África), mas principalmente pelo divórcio que seus pais enfrentam, enquanto Christian se muda com o pai para a casa da avó, depois que sua mãe morre de câncer. Culpando o pai pelo destino da mãe, e sem saber como dar vazão a seus sentimentos, ele se torna um jovem de comportamento violento e agressivo, ajudando Elias contra seus detratores, de maneira exageradamente violenta, mas claro, impressionando o amigo.

Em um Mundo Melhor merece aplausos pela maneira extremamente honesta de como encara os dilemas de seus personagens, especialmente o momento em que o pai de Elias convida as crianças para assistirem seu confronto contra um marmanjo violento. É uma cena fenomenal, complexa e que deixa claro qual o real conflito da obra: o contraste nas ações de Christian e do pai de Elias, que enfrenta uma situação difícil com um militar africano que esfaqueia mulheres grávidas por diversão.

Infelizmente, é na parte que se passa na África que surje a maior decepção da história: a maneira como se resolve a situação entre o médico e o tal militar não é só artificial, mas trai a lógica do filme: porque esconder a violência justamente naquele momento (Provavelmente para não condenarmos a atitude do médico, mas é justamente isto que a cena acaba perdendo...)? Mas talvezo maior problema seja a maneira como Christian é retratado: ele se torna um jovem violento depressa demais, sem termos qualquer idéia do porque, algo que é explicado depois, em mais um recurso infeliz e artificial do roteiro. Aliás, outra coisa que me incomodou foi a fotografia: nas cenas externas, especialmente na África ou na casa de praia da família de Elias, ela é linda, enquanto no resto do filme ela é burocrática, às vezes até desinspiradas (as cenas no hospital me vem a mente).

Mas apesar de tudo, as boas intenções do projeto são louváveis, e fazem de Em um Mundo Melhor um filme que realmente merece ser visto. O Oscar e o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro podem ter sido um exagero, mas não é difícil entender porque ele venceu.

NOTA: 8

O Terceiro Homem


Quase um resumo do que é o Cinema Noir. É uma das obras mais importantes e geniais do gênero. Dirigido pelo excelente Carol Reed (que também fez Agonia e Êxtase e O Grande Motim), O Terceiro Homem foi roteirizado por Graham Greene, um escritor genial cujas obras já foram muito adaptadas para o cinema, quase sempre com resultados bastante positivos, como aqui ou em O Americano Tranquilo e Fim de Caso.

Holly Martins é um escritor americano conhecido, mas não muito admirado que se encontra em péssima situação financeira. Eke é convidado pelo amigo de infância Harry Lime a se mudar para Viena, onde ele lhe conseguirá um emprego e moradia. Mas ao chegar na cidade, Holly descobre que Harry acaba de morrer atropelado, e pior: ele era procurado pela polícia por inúmeros negócios ilegais, incluindo assassinato. Decidido a provar a inocência do amigo, Holly contraria os conselhos das autoridades e começa a investigar sozinho as circunstâncias misteriosas da morte de Harry.

A história é simples e intrigante, mas tem duas características que realmente tornam O Terceiro Homem uma obra-prima: a primeira é o humor de Graham Greene, e a constante característica do autor de jamais trabalhar com personagens unidimensionais. Holly, por exemplo, é um protagonista falho, arrogante demais (observem a divertida mania de errar propositalmente o nome ds outros, e sua reação quando confundem o seu nome), ocasionalmente não muito inteligente, mas é motivado por boas intenções. E se o major Calloway surje como um provável vilão no início, aos poucos percebemos que suas motivações são mais do que justificadas, e sua preocupação em saber tudo que envolve seu trabalho é marcante (percebam a troca de diálogos cuidadosa com os policiais russos sobre um passaporte).

Construindo um clima pesado de paranóia, sempre destacando os personagens sendo observados, e utilizando com inteligência o fato da cidade de Viena ser dominada por autoridades com diferentes linguagens, Carol Reed trabalha com movimentos de câmera ousados e eficientes reavaliados mesmo hoje, especialmente o momento em que depois de acompanhar uma conversa num apartamento, a câmera "atravessa" as plantas na janela para mostrar uma misteriosa figura caminhando ali perto. Trabalhando com o preto e branco contrastado marcante do Noir, as cenas de perseguição no ato final são extraordinárias, mas talvez seja o diálogo na roda gigante, tanto pelo visual quanto pelo diálogo ("Não são pessoas, são pontinhos no chão. Você se incomodaria em esmagar um pontinho desses por 20 mil?") que seja o ponto máximo aqui. E o que dizer da fabulosa cena final?

O filme está repleto de atuações sensacionais, da arrogância divertida de Joseph Cotten-Valli, passando pela seriedade e carisma de Trevor Howard, mas O Terceiro Homem é Orson Welles: o personagem já mostra tudo que é sem dizer uma só palavra, logo na primeira vez em que vemos seu rosto numa cena construída de forma sublime. Uma atuação magistral de um ator e cineasta único. 

Mesmo com sua pequena parcela de problemas (a perseguição dos capangas do romeno contra Holly depois de uma palestra parece ter sido incluída para concluir uma cena que não sabiam como concluir), O Terceiro Homem é um desses filmes que não merecem ser vistos: deve, e obrigatoriamente, ser visto.

Clássico e fundamental é pouco.

NOTA: 10

Batismo de Sangue


Nunca entendi a cisma da mídia nacional com filmes que retratam a Ditadura Militar. Quando Batismo de Sangue foi lançado, inúmeros textos foram produzidos com o mesmo argumento: "Ai, nós pobres jornalistas estamos cansados de filmes sobre a Ditadura. Chega, né?". O que eu acho estranho é que, apesar de sim, haver um bom número de produções sobre esse período, ele continua sendo o mais nebuloso da história recente do Brasil. Logo, o número de produções claramente se justifica. 

Só posso concluir que estes cansados de filmes sobre a Ditadura são os que caçoam dela, chamando-a de "Ditabranda". Apelido perverso, desrespeitoso e imbecil.

E Batismo de Sangue não é um filme absolutamente perfeito, mas além de respeitar a importância do período, tem um enorme respeito pelos personagens, e pela inteligência do público. Conta a história de um grupo de freis dominicanos que ajudam guerrilheiros da ANL em suas ações. Identificados pela polícia depois de uma ação mal-sucedida, logo eles se espalham pelo Brasil, mas não conseguem escapar da perseguição brutal dos militares.

Se há um problema no filme de Helvécio Ratton (talvez, um dos diretores nacionais mais subestimados) é o ritmo às vezes lento demais, e o desenvolvimento ralo de alguns personagens, especialmente os dois torturados brutalmente (numa sequência fabulosa) que acabam delatando um importante esquema. Por outro lado, há inúmeros motivos que compensam estas falhas.

Começando pela própria direção de Ratton, sempre atenta, criando rimas visuais riquíssimas, como a primeira missa vista em cena, com a última rezada pelo grupo na cadeia, que marcam momentos importantíssimos na narrativa. Além disso, as atuações do elenco são muito acima da média: Daniel de Oliveira faz de Frei Betto uma figura óbviamente frágil, mas forte e intensa, mas o filme pertence mesmo a dois atores: Cássio Gabus Mendes, absolutamente extraordinário como o "Papa" (o momento em que toma um cafézinho antes de uma tortura é icônico), e Caio Blat, cujo arco dramático é o mais complexo e o mais importante. Inicialmente visto como um rapaz cheio de vida, aos poucos é tomado pelo pessimismo, até chegar a paranóia que o leva ao ato visto na primeira cena, e não apenas a interpretação de Blat é perfeita para compreendermos sua jornada, como também a estratégia visual que o diretor aplica durante suas cenas.

Prestando um serviço enorme aos jovens desavisados que, graças a nossa querida mídia pensam que a Ditadura Militar não foi tão ruim assim (e não são poucos, infelizmente), Batismo de Sangue é um filme indispensável não só para quem ama o cinema nacional, mas para quem ama o cinema político praticado por diretores como Costa Gavras, que deve ter sido enorme influência para este filme. Uma obra obrigatória, que por pouco, não é uma das melhores da década passada.

NOTA: 9

Dear Zachary: A Letter to a Son about his Father



NOTA: Não consegui encontrar uma maneira melhor de escrever sobre esse filme do que dividindo o texto em duas partes. Sendo assim, peço que só leia a segunda parte quem já assistiu o filme, já que estará repleto de spoilers e informações que é melhor não saber antes de vê-lo. E garanto: é importante não saber o que ocorre no ato final de Dear Zachary antes de assisti-lo. Portanto, como o filme nunca foi lançado no Brasil, aqui está um link para que vocês possam baixá-lo.

Dear Zachary: A Letter to a Son About his Father é um documentário que foi lançado em 2008, mas nunca no Brasil, cujo mercado de lançamento nesse gênero é um mistério: por um lado obras como esta, que geram enormes discussões nunca chegam, enquanto porcarias como Restrepo são lançadas. De qualquer forma, o importante é que sempre li muito sobre o filme, pois sua idéia havia me cativado, e nunca ter encontrado o filme para download. Pois bem: há duas semanas encontrei, e o assisti no mesmo dia.

Nada, absolutamente nada poderia me preparar para o que eu veria.

Dear Zachary representou a experiência mais devastadora que já tive com um filme, seja ele de qualquer gênero. Já conferi inúmeros documentários emocionalmente desgastantes e provocativos, como O Homem-Urso ou Na Captura dos Friedmans, mas minha reação com Dear Zachary é indescritível. Tanto, que sempre escrevo religiosamente sobre TODOS os filmes que assisto, independente de sua qualidade, relevância ou o tamanho de seu público. Mas eu simplesmente não conseguia racionalizar ou descrever absolutamente nada.

Logo, decidi que deveria ver o filme mais uma vez antes de escrever sobre ele, algo que já fiz antes com Cisne Negro, por exemplo. Se na primeira vez, havia assistido Dear Zachary com minha mulher (que jurou nunca mais chegar perto do filme), desta vez assisti sozinho, até que meu filho resolveu que queria dormir no meu colo, me obrigando a assistir com ele. Porque isso é ruim? Explico:

Andrew Bagby era o melhor amigo do cineasta Kurt Kuenne desde a infância, tendo inclusive, atuado em quase todos os filmes feitos pelo amigo na infância e adolescência. Mas Andrew acabou sendo assassinado com cinco tiros pela sua namorada na época, Shirley. Kurt então, resolveu fazer um último filme protagonizado pelo amigo: um projeto pessoal, entrevistando pessoas próximas a Andrew e utilizando as muitas filmagens que tinha de Andrew.

No meio do projeto, a surpresa: Shirley estava grávida de Andrew. Enquanto David e Kathleen Bagby (pais de Andrew) começam uma luta na justiça pela guarda de Zachary, Kurt muda o conceito do documentário: agora, o filme será uma forma de Zachary conhecer seu pai.

Começa aí, o que só posso descrever como a declaração de amor mais linda que já vi em toda minha vida. Ao mesmo tempo em que explora o absurdo da situação (Shirley acabou sendo solta em circunstâncias inacreditáveis), o que realmente importa é o enorme carinho que Andrew claramente despertava nos amigos, e em Kurt. Por onde o cineasta passa, não há ninguém que não possua uma história emocionante com Andrew, e que não desejasse conhecer e compartilhar de suas histórias com Zachary.

E a partir do momento em que David e Kathleen consegue a guarda de Zachary, o filme muda: o que parecia apenas absurdo, se torna repulsivo. Quando Shirley finalmente é presa, os Bagbys são obrigados a conversar com ela, a mulher que matou seu filho, quase diariamente, já que os constantes atrasos da justiça prejudicariam os seus esforços em cuidar da criança.

Mas quando Kurt finalmente encontra com Zachary... é difícil conter as lágrimas apenas de lembrar da cena. E se há algo que o cineasta faz tecnicamente, e que é admirável, é como ele utiliza a montagem para salientar a tragédia que representou a perda de Andrew em sua vida: no momento em que relata a importância de sua amizade, coloca um trecho em que os dois, ainda crianças, encenam um momento em que Kurt declara ao amigo que "irá viajar no tempo, e evitar que você morra".

Porém, se você pensa que eu posso ter contado coisas demais sobre Dear Zachary, acredite: uma mudança brusca no tôm do documentário que surje em seu ato final não é apenas completamente inesperado, como também demonstra o que o filme realmente representa. E como não posso contar o que é isso para quem não assistiu, o que representaria um spoiler gigantesco, tampouco posso deixar sem comentá-lo. 

Portanto, aqui encerro a primeira parte do texto sobre Dear Zachary, e a partir do próximo parágrafo, só leia quem já assistiu o filme pois, novamente, é crucial que o espectador seja surpreendido pelo filme, e somente pelo filme.

NOTA: 10

O ato final de Dear Zachary

Por mais que Dear Zachary seja um documentário extremamente eficiente até o momento que descrevi, o fato é que a sensação de que algo está errado ocupa todo o filme. E essa sensação não demora para ser correspondida: Shirley mais uma vez é solta, e divide a guarda com os Bagby, em momentos particularmente terríveis, os pais de Andrew são obrigados a conviver com a assassina dele, como se ela fosse um membro da família.

Se isso ainda não fosse terrível o suficiente, o choque: Shirley cometeu suicídio. Levando Zachary junto dela.

Reconhecendo não apenas a gravidade da situação, mas o choque que isto representa para o público, Kurt enche a sequência de imagens rápidas e um som insuportável, que dialogam perfeitamente com a sensação de esgotamento emocional que surje. A partir daqui, Dear Zachary se transforma de uma obra extremamente sensível, numa obra forte, revoltante. 

O que dizer do depoimento de David, quando ele ilustra o que deveria ter feito: matado Shirley quando tinha a oportunidade (Algo que até mesmo o padre da cidade reconhece que "Faz sentido")? E porque ele não fez isso? Por confiar cegamente na justiça, que permitiu a uma condenada por um assassinato premeditado de circunstâncias cruéis ficasse solta da cadeia. No final das contas, Dear Zachary é uma história sobre como o governo canadense e norte-americano permitiu que uma criança de apenas um ano e poucos meses fosse assassinada. 

Mas mais do que isso: porque Kurt Kuenne continuou fazendo o filme?

Não apenas todo o processo de filmagem foi emocionalmente exaustivo, e durou cerca de sete anos (da morte do amigo, até a finalização), como o principal (e belíssimo) objetivo do filme simplesmente acabou. 

Afinal o cuidado do cineasta pode ser sentido em todos os detalhes: utilizando a característica mais marcante de Zachary, que "odiava dizer tchau", ou a frase de um amigo de Andrew que "ele nunca se atrasava" para marcar o momento de seu assassinato e de seu parto prematuro, o cuidado na montagem de Kuenne (que dirigiu, produziu, montou e compôs a trilha sonora) é extraordinário. Ao alternar o Certificado de Nascimento, junto com o de Óbito de Zachary, e a tristeza da proximidade das datas para salientar a tragédia, o mais terrível talvez seja o momento em que o diretor faça uma montagem em que alterna dois momentos de David e Kathleen: quando descrevem o reconhecimento do corpo de Andrew, com o de Zachary, ainda mais impactante com o uso de imagens da infância de Andrew (algo também utilizado na descrição do crime: ao dizer que Andrew levou tiros no pescoço, nuca, costas, etc, Kuenne mostra fotos destas partes de Andrew quando criança).

E é então que o próprio cineasta parece sentir a necessidade de responder ao público porque ele havia continuado com o filme: reconhecendo que a morte de Zachary quase o fez desistir da produção, ele resolveu então dedicar a obra a David e Kathleen, os pais de Andrew que, depois de duas tragédias seguidas, tendo o filho e o neto morto pela mesma mulher, em situação que a justiça cooperou para que acontecesse, Kathleen dedicou todo seu tempo para aprender Direito, se especializando em direitos da criança, enquanto David começou uma campanha política pedindo mudanças na lei, baseada nos furos que permitiram a morte de Zachary, escrevendo um livro sobre o caso que se tornou best-seller.

Como estes dois arranjaram forças para continuar, para mim é um mistério. E usam estas forças em benefício de outros, torna suas jornadas extraordinárias e dignas de todos os méritos do mundo.

Ao final, porém, é difícil pensar em outra coisa que não seja o nosso próprio relacionamento com Zachary, uma criança bela e adorável, que aprendemos a amar tanto, e tão subitamente é tirada de nossas vidas. Como alguém descreve em certo momento: "Eu fiquei impressionada em como o caixão era pequeno. Não deveria existir caixões tão pequenos".

Afinal, não há nada mais trágico que a morte de uma criança.

Rango


Rango é uma animação divertidíssima, perfeita para crianças. Também perfeita para adultos. Mas também perfeita para cinéfilos. E ainda mais perfeita se você for um cinéfilo viciado em westerns. Se o último for o seu caso, como é o meu, você encontrou um oásis no meio do deserto, pois Rango não é só uma animação divertida: visualmente belíssima, tem também um roteiro surpreendente, e uma homenagem mais do que bem-vinda a um dos gêneros mais importantes e queridos da história do cinema.

Johnny Depp dá voz a Rango, um camaleão criado em casa, e que durante uma viagem acaba sozinho no meio do deserto. Sofrendo uma enorme crise de identidade, enxerga no acidente uma oportunidade de se encontrar. Para isso, ele inventa uma persona típica dos filmes do Velho Oeste, capaz de matar sete com apenas uma bala (a explicação para isso é hilária). Logo, ele é eleito o xerife de Poeira, e deve resolver o problema da cidade: a falta de água.

O que é mais curioso observar nesta estréia da Industrial Light & Magic em animações, é como as citações cinematográficas são sempre usadas a favor da trama, e não apenas como mera distração, como a Dreamworks costuma MUITO fazer: portanto, se o prefeito de Poeira lembra o vilão de John Huston em Chinatown é porque ambos controlavam suas cidades da mesma maneira. Passando ainda por citações como Três Homens em Conflito, Medo e Delírio e Apocalypse Now, nada está ali a toa: tudo é orgânico a narrativa, e cumpre um papel definido e importante.

Gore Verbinski é um diretor criativo, e apesar de gostar muito do trabalho dele (especialmente em O Chamado, O Sol de Cada Manhã e, claro, os três Piratas do Caribe), sinceramente eu jamais esperaria dele um trabalho tão brilhante quanto este. Além dele, John Logan é outro que surpreende, já que em meio a toda sua carreira que inclui O Úitmo Samurai, Gladiador e muitos outros, apenas O Aviador era realmente digno de nota. E aqui ele realmente se supera, criando uma história simples, mas que mistura bem um clima divertido, típico de animações do gênero, com piadas mais adultas, como o diálogo impagável em que cada personagem descreve algo que vomitou recentemente. Visualmente, o filme impressiona desde o início, especialmente na queda do aquário de Rango, em meio a uma movimentada estrada no deserto. Parte disso, vem da consultoria de Roger Deakins na fotografia, algo que já havia beneficiado o ótimo Como Treinar o Seu Dragão.

Contando com uma participação especialíssima no final (pena que não foi dublada por... ele), Rango definitivamente é uma das animações que mais me cativou, desde Wall-e, que também homenageava outro gênero pelo qual sou apaixonado, a ficção científica. E a julgar que esta é a primeira animação da Industrial Light & Magic, mal posso esperar pelas suas futuras incursões no gênero.

NOTA: 10

Lixo Extraordinário


Lixo Extraordinário pode ser resumido como o making-of de uma obra de arte. Mas como todo resumo, faltaria as sensações incômodas e maravilhosas que surgem nesse documentário. O filme acompanha os três anos que levaram para Vik Muniz concluir seu trabalho no Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro, que é o maior aterro sanitário do mundo. Muniz fez retratos de alguns trabalhadores utilizando os mesmos materiais que estes catavam em seu cotidiano: garrafas, pneus, etc.

Mergulhando numa realidade assustadora, e mostrando a extrema miséria humana as quais os catadores são condenados, o filme é engenhoso na maneira como vai trabalhando o envolvimento do público naquele lugar: se no início, o choque é puramente visual, e de maneira errônea, julgamos pelo humor dos catadores que estes são pessoas felizes, mesmo ali, o filme cuidadosamente vai desconstruindo isso, e mostrando uma realidade ainda mais assustadora, como o relato de uma trabalhadora ao ter encontrado um bebê morto jogado no meio do lixo, e o apelo de outra para que os artistas dessem algum emprego para ela.

Aliás, o melhor em Lixo Extraordinário é esta construção cuidadosa de seus protagonistas: de Tião e Zumbi, dois líderes natos e responsáveis dos catadores, passando pela jovem (e bela) Suellen, suas personalidades cativantes, somadas a suas trágicas histórias, tornam a experiência ainda mais gratificante. E se há um problema no filme, é a maneira como a história de Vik Muniz é contada: é claro que um breve histórico dele e de suas obras seria obrigatório, mas há alguns momentos esporádicos contando trechos de sua vida, especialmente a entrevista de seu pai e com sua avó que soam deslocadas: são bons momentos, mas jogados ao acaso, não se misturam bem com o resto do filme.

Contando com um belo desfecho, bem ressaltado pela ótima trilha sonora de Moby, Lixo Extraordinário é um documentário fabuloso, humano e sensível como poucos. E se há uma reserva que não me permite comentar mais sobre o trabalho, talvez seja a maneira como a diretora Lucy Walker parece ter roubado todos os créditos do filme para si, esquecendo do brasileiro João Jardim, o co-diretor da obra, e, provavelmente, responsável pela parte no lixão, justamente a mais importante do filme.

Triste, mas isso é outra história.

NOTA: 9

72 Horas


Nota: o título original de 72 Horas é The Next Three Days. Com isso, posso concluir que o pessoal que traduz os títulos para o Brasil sabe somar: agora falta noção do ridículo.

Parece que Paul Haggis tentou relaxar um pouco depois dos pesados Crash - No Limite e No Vale das Sombras, mas errou a mão. 72 Horas é um filme de um gênero que sempre chama a atenção (fuga da cadeia), travestido de drama. É bom quando consegue um equilíbrio, e é muito fraco quando pende demais para um lado e para o outro. Não é a toa que o início, quando vai apresentado a situação (mesmo que de forma apressada) é o que o filme tem de melhor.

John Brennan (Russel Crowe) é um professor MUITO bem casado com Lara (Elizabeth Banks). Seu cotidiano feliz em família com o filho acaba bruscamente quando ela é acusada de assassinato. Com o tempo, com a falha de todos os recursos e apelos, Lara é condenada e John só encontra uma saída para não perder a mulher, e acabar com o sofrimento do filho: resgatá-la da prisão.

Aí o filme se divide: em parte é daquele gênero de ação, que envolve o planejamento perfeito, para a fuga perfeita: inclui também uma conversa de John com um especialista em fugas interpretado por Liam Neeson, afinal se você quer apresentar um personagem para o público, e sem dizer mais nada quer que confiemos em suas habilidades, não há ator melhor para isso (o que não é diminuir o trabalho de Neeson, que fique claro).

Pena que depois, o filme "degringola", o drama entre John e seu pai nunca diz a que veio, bem como o relacionamento entre ele e a personagem de Olivia Wilde (que foi criado só para incluir um suspense a mais no final), e a relação entre John e Lara, tão bem trabalhada no início (especialmente o momento em que ele, sem dizer uma só palavra, já deixa claro o que irá contá-la), começa a recorrer a um drama artificial, ao invés de responder uma pergunta básica: afinal, Lara cometeu ou não o crime?

Haggis tenta disfarçar isso com uma cena péssima em que John diz que precisa dizer se cometeu ou não o crime. Bom, então Haggis quer dizer que devo confiar nos instintos do cara que, sozinho, quer resgatar sua mulher de uma penitenciária, e sem saber se ela é ou não homicida, quer colocá-la ao lado do filho? Claro que isso é respondido depois, numa cena final que beira o patético, mas meu envolvimento com os personagens sempre teve um quê de desconfiança: se John tivesse sido preso na cena da casa do traficante, por exemplo, eu acharia bastante justo.

Mas no final das contas, o pior é que 72 Horas funciona: quando deixa de ser um drama equivocado, é um filme de ação bacana, e com cenas surpreendentes (a freiada do carro, em que Lara quase cai me vem a mente). Elizabeth Banks está muito bem, e Russel Crowe é sempre um ator melhor quando interpreta um cara comum que se mete numa roubada, O Informante, por exemplo. É difícil dizer que não estava satisfeito ao final; mesmo com extrema moderação.

NOTA: 6

O Bom Coração


Filme independente do tipo "ame ou odeie", sem meio-termo. Particularmente, achei bacana, divertido, com ótimas atuações de Paul Dano e Brian Cox, e uma fotografia belíssima. No fundo, não é grande coisa, mas cativa pela simplicidade. Conta a história de Jacques, dono de um bar decadente num subúrbio de Nova York. Com a saúde debilitada, principalmente pelo estado delicado de seu coração, ele procura um substituto, para cuidar de seu bar seguindo a tradição do local.

No hospital, ele conhece Lucas, um jovem que mora nas ruas, e está lá por uma tentativa de suicídio fracassada.  Jacques então, oferece moradia para Lucas desde que este se comprometa em participar do duro treinamento, que inclui fazer cafés perfeitos, e obedecer a regras específicas de conduta entre barman e clientes. Os problemas entre os dois começam quando Lucas conhece uma garota desequilibrada e a leva para morar com ele, o que desagrada Jacques.

O diretor Dagur Kári demonstra enorme afeto por seus personagens esquisitos, marginais. Jacques pode ser o cara mais mal humorado do planeta, mas é tratado como uma figura divertida, de personalidade forte, e cujo extremo machismo é quase um mecanismo de auto-defesa. Não é a toa que os melhores momentos da O Bom Coração estão na maneira como Jacques ensina Lucas sobre sua clientela, desde como observar seus trejeitos, até como se portar, conversar com eles. É uma pena que a história não se desenvolva mais em cima disso.

Paul Dano está divertido como Lucas, mas tem poucos momentos realmente inspirados, como no início ao agradecer os médicos que cuidaram dele. Já Brian Cox está brilhante, apesar da já citada tentativa do diretor em amenizar seu personagem, Cox não quer nem saber: faz de Walt de Gran Torino parecer o cara mais bacana do mundo em comparação. 

Contando com uma fotografia belíssima, muito acima da média para seu gênero e seu orçamento, O Bom Coração demonstra em seu desfecho o que realmente era: uma fábula, povoada por bêbados e miseráveis. Gostar ou não do filme depende muito de nossa relação com estas figuras.

Como ex-habitante de barecos tão bem atendidos quanto o de Jacques, fica difícil não gostar.

NOTA: 8

Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia


Filme macabro, habitado por bandidos de quinta categoria, prostitutas, estupradores. É também o filme de Sam Peckinpah que sofreu menos interferência dos estúdios. Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia pode não ter a mesma força de Meu Ódio Será sua Herança ou Sob o Domínio do Medo, mas é mais uma prova do talento imenso deste diretor fabuloso.

O Alfredo Garcia do título jamais aparece, apenas em fotos. Ele engravida a filha de um poderoso bandido, que ordena sua morte, e que lhe tragam sua cabeça como prova. Bennie, um músico de bordel, que namora uma prostituta descobre que Alfredo já está morto, e que se levar a cabeça até os bandidos ganhará uma boa grana. Junto com a namorada ele parte na mórbida tarefa de cavar o túmulo e cortar a cabeça do defunto.

O filme é beneficiado com a interpretação perfeita de Warren Oates, que faz de Bennie uma figura tragicômica, algo demonstrado de forma sublime no momento em que ele tenta aumentar o valor da recompensa com os bandidos que estão atrás de Alfredo Garcia. Como a maioria dos protagonistas de Peckinpah, logo o personagem se torna digno, um gigante em cena, mas o desejo de vingança que toma conta dele no ato final é acompanhado por insanidade, algo que se tornou forte referência para outras obras: quando ele conversa com a cabeça de Alfredo, é impossível não lembrar da cena entre Clive Owen e Benicio Del Toro em Sin City - A Cidade do Pecado, além de ter sido grande influência para outro grande filme, o excelente Três Enterros.

Infelizmente, há também alguns problemas de ritmo, e pelo menos uma cena longa e desnecessária envolvendo dois motoqueiros (um deles interpretado por Kris Kristofferson), que se tematicamente se encaixa na história, pouco contribui com ela em si. Por outro lado, é inegável que o filme tem muito mais acertos, em especial o momento em que Bennie desenterra Alfredo Garcia (e seu desfecho), e claro, o clímax que conta com a mão sempre forte de Peckinpah.

Pessimista, macabro, mas também repleto do enorme carinho do diretor pelos seus personagens marginais, Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia é um título não muito lembrado de Peckinpah, e apesar de não ser genial como seus melhores trabalhos, está longe de merecer ser ignorado.

NOTA: 8,5

Bruna Surfistinha


Bruna Surfistinha é um filme quase acima da média. Quase ótimo, aliás, quase excelente. Apresenta um diretor promissor, e uma atriz não apenas se superando, mas em uma interpretação brilhante, e é uma pena que não tenha tido um roteiro mais cuidadoso. Apesar dos leves tropeços nos dois primeiros atos, o tom do filme é genial: realista, mas aproxima o espectador com um humor curioso, ganha o público na safadeza. E também joga tudo pro ralo em um desfecho aborrecido.

Deborah Secco interpreta Raquel, uma garota que foge de casa para se tornar massagista (daquelas com final feliz). Adotando o "nome de guerra" Bruna, ela se torna muito boa em seu ofício, e começa a trabalhar em um blog, onde interage com seus clientes e onde começa a fazer ainda mais sucesso. A honestidade do filme é marcante: não há tentativa qualquer de fazer com que Bruna merecesse uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, se é que vocês me entendem... E o grande responsável por este triunfo é o diretor Marcus Baldini, estreante, que demonstra inteligência e coragem na maneira como lida com a história: basta notar a naturalidade das cenas de sexo, e a maneira como cada uma reflete as fases da carreira de Bruna.

É uma pena que o roteiro recorra a muletas desnecessárias, quando não consegue responder a uma pergunta fundamental: mas porque diabos ela resolve virar prostituta? O roteiro tenta dizer que é por ser adotada, porque ela ouve o pai mastigando (e isso não faz sentido, já que ao menos a mãe da garota é atenciosa e carinhosa, e sua única desconfiança se prova justificadíssima). A resposta mais provável é que ela foi iludida pela grana, e acabou gostando. Se o filme assumisse isso, seria sensacional. Na verdade, faltou cinismo: faltou reconhecer, por exemplo, que o personagem de Cássio Gabus Mendes é um medíocre, daqueles homens que acha que porque transou com a mulher, tem direito sobre ela, além de poder posar como conselheiro, e até figura paterna. Um pouco de cinismo faria bem, principalmente ao ato final.

Deborah Secco está impressionante, tira de letra todo o arco dramático da garota, e só se atrapalha no final, por culpa do roteiro, que exige uma mudança de comportamento brusca, que nem Meryl Streep tornaria verossímil. Mesmo assim, é admirável que Deborah, depois de atuações apenas razoáveis (Caramuru - A Invenção do Brasil) ou constrangedoras (A Cartomante) se apresente como uma atriz tão surpreendente. É torcer para que ela se encontre na carreira. Há também a atuação divertidíssima de Drica Moraes, a única a conseguir roubar a cena de Deborah. E Cássio Gabus Mendes está simpático, mas seu personagem é tão babaca que não dá para levar a sério.

Mas apesar dos problemas, no final das contas o saldo é positivo: surge um diretor promissor e uma atriz que depois de anos, se encontra de vez na carreira. Vale conferir, nem que seja só por isso.

NOTA: 7

Restrepo


A idéia dos documentaristas Sebastian Junger e Tim Hetherington foi interessante: acompanhar a rotina de uma tropa do exército americano no Afeganistão sem discutir política, nem nada mais. Apenas registrar o cotidiano. E seria um grande filme se os dois diretores não fossem duas topeiras, incapazes de utilizar a montagem a seu favor. Aparentemente, eles ficaram felizes só em conseguir gravar o material, já que criar alguma coisa com ele é algo que Restrepo faz em pouquíssimos momentos.

O documentário acompanha a história do pelotão responsável por proteger o vale de Korengal no Afeganistão, considerado pelo exército o local mais perigoso para as batalhas. E não é difícil entender o porque: cercado por montanhas próximas a centros armados dos talibãs, o local em que os americanos ficam é quase uma brincadeira de tiro ao alvo, tamanha a exposição das tropas. Foi só depois de algumas semanas que eles resolvem criar o posto avançado Restrepo, batizado em homenagem a um dos soldados, que morreu no início da campanha. Localizado em cima de uma montanha, o que dava uma grande vantagem para os americanos, o posto Restrepo foi o grande responsável pela sobrevivência de boa parte dos homens que acompanhamos.

Se a idéia do filme era registrar o cotidiano dos soldados, e a camaradagem que surge entre eles, o resultado é constrangedor: não apenas há poucos momentos que registrem brincadeiras entre eles, como o filme também jamais consegue apresentá-los de maneira que o público sequer lembre dos seus nomes (basta dizer que a poucos minutos do fim do documentário, ainda há soldados que não apareceram durante o filme inteiro). E o que dizer da maneira como o filme lida com o soldado Restrepo? Mostrando ele rapidamente na abertura, e dedicando menos de 5 minutos durante todo o filme para dizer algo sobre ele, os diretores ainda tem a coragem de incluir no final mais uma cena com ele, como se dissessem que o documentário era uma homenagem para ele (na verdade, é óbvio que não sabiam como terminar o filme, e fizeram o mais fácil: melodrama).

Além disso, as entrevistas não apenas dizem pouco sobre a situação, como também são mal utilizadas pelos cineastas, às vezes com resultado constrangedor: no ato final, quando o documentário se concentra numa última ofensiva, os diretores realizam a proeza de não apenas contar que a ofensiva daria errado, como também o porque de ela dar errado, estragando todo e qualquer suspense que o momento poderia passar. Mas, para ser justo, é no ato final que os poucos acertos do filme aparecem, especialmente a longa pausa antes da vermos a emboscada, ou mostrarem a maneira insistente de um afegão em mostrar uma criança ferida enquanto segue os soldados.

O que colabora para estes poucos ótimos momentos é o óbvio fato de estarmos vendo algo real. Pena que a falta de talento dos diretores quase crie um filme tão ruim e artificial quanto Falcão Negro em Perigo.

NOTA: 3

Dente Canino


O cineasta grego Yorgos Lanthimos conseguiu duas proezas admiráveis com este Dente Canino: a primeira é fazer um drama de humor negro, que parece ter nascido de uma improvável colaboração entre Lars von Trier e Michael Haneke. E a segunda, e mais curiosa, a de ter feito um dos filmes mais inusitados a terem concorrido ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, que privilegia filmes mais bonitinhos e edificantes como A Vida é Bela, O Segredo dos Seus Olhos e Caráter, deixando de lado obras-primas mais complexas como A Fita Branca.

Enfim...

Dente Canino conta a história de dois pais que mantém seus três filhos confinados em sua casa nos arredores de uma cidade da Grécia. Os filhos, um homem e duas mulheres, tem lá seus 20 e tantos anos (talvez 30), mas vivem como crianças, graças a realidade construída pelos pais, que vai desde privar a casa de qualquer forma de comunicação, até alterar o vocabulário. Os problemas na família começam quando a única pessoa de fora a adentrar a casa (trazida pelo pai para satisfazer os desejos sexuais do filho e a carência emocional das filhas) começa um jogo sexual com uma das garotas. A partir dali, o comportamento já extremo de todos irá se chocar de forma irreversível.

Dirigido com frieza impressionante, visualmente lembra o cinema de Haneke, observador, estático, só interfere quando é realmente necessário. E como é curioso perceber que este estilo serve de maneira eficiente para as cenas de humor (as consequências ao comportamente de uma das garotas depois de assistir Rocky - Um Lutador e Tubarão é o grande destaque). A coragem de jamais desviar a câmera nos momentos de mais violência também colabora para o clima opressivo que segue toda a obra.

Mas apesar de gostar do filme, e principalmente concordar com o argumento do diretor (é impossível esconder a sexualidade e a violência das crianças - elas são características naturais do ser humano), o diretor perde um pouco a mão do filme da metade para o final, quando algumas mudanças de comportamento surgem de repente demais, anulando o impacto do desfecho, que assim, soa incompleto e um pouco vazio, característica que divide com seus tristes personagens.

Na verdade, Dente Canino é quase O Massacre da Serra Elétrica - O Início. Ou melhor: o que este último deveria ter sido.

NOTA: 8,5

PS: Apesar de gostar do filme, entendo perfeitamente quem não gosta. Não é um filme para todos, mesmo, e isso não é ser elitista de forma alguma.

PS 2: O único elemento no filme que tem algo que justifica sua indicação ao Oscar me parece a cena hilária que envolve uma música de Frank Sinatra. Mesmo assim, sua indicação permanece um mistério para mim: não só pela temática - mas também pela qualidade.

Fora da Lei


A importância de Fora da Lei já é demonstrada nas cenas de abertura: a família dos protagonistas é expulsa do terreno onde todos os seus antepassados viveram; em seguida, vemos manifestações comemorando o fim da Segunda Guerra Mundial em Paris, quando no mesmo dia, tropas francesas fizeram um massacre em Sétif, na Argélia, uma colônia francesa que com o fim da guerra, acredita que é hora de reclamar sua independência. A partir disso, acompanhamos a jornada de três irmãos: Abdelkader é preso no protesto e enviado para uma penitenciária na França; Messaoud, o mais velho, é enviado para lutar na Indochina, enquanto o mais novo, Said, viaja com a mãe para a França, onde começa a se envolver com o crime organizado.

A relação delicada entre Argélia e França é sentida até hoje, e já havia sido um dos temas de Caché de Michael Haneke, por exemplo, e aqui o roteirista e diretor Rachid Bouchareb (dos fabulosos London River e Dias de Glória) tenta fazer um filme definitivo sobre a questão. Se sai bem no início: o massacre em Sétif é claramente inspirado na abertura de Meu Ódio Será Sua Herança, e a influência de Peckinpah é fortíssima no cineasta. 

Mas é na condução da história depois que os três irmãos se reencontram que o filme começa a escorregar: a estrutura do roteiro é desorganizada, e aos poucos, detalhes importantes começam a ser esquecidos, o que leva ao cúmulo de Messaoud parecer completamente indiferente ao nascimento do seu filho. A cena é tão artificial, que logo surge uma cena expositiva e desnecessária para explicar sua reação, ou falta de reação. Se isso não fosse o bastante, um dos melhores elementos que o filme apresenta é o crescente sentimento ativista de Abdelkader na prisão (que culmina em uma das melhores cenas, quando sua mãe vai visitá-lo), mas o personagem se torna radical demais, e rapidamente. 

Mas talvez o mais decepcionante seja a maneira meio maniqueísta que o diretor mostra a situação: é óbvio que os franceses foram os vilões na situação, mas há exagero nos trejeitos dos personagens, vilania novelesca. Aquela cara de "Eu sou mal, mesmo". Isso atrapalha momentos importantíssimos, como a cena em que Abdelkader se encontra frente a frente com o coronel que o persegue. O roteiro tenta criar um momento em que dois inimigos se enfrentam e se reconhecem "Lutamos por causas diferentes, mas da mesma forma". Mas o momento é estragado pelo maniqueísmo e a mão pesada que o diretor desce no filme.

O que é lamentável, já que tudo indicava que seria um filme absolutamente genial: da fotografia brilhante, que parece não apenas transitar pelas épocas distintas, mas também por gêneros (a abertura lembra um western, já na França, um noir), além de performances dignas, principalmente de Jamel Debbouze. O diretor também acerta nos momentos de mais ação, fora o massacre já comentado, o tiroteio noturno numa emboscada, e a perseguição depois de uma luta de boxe que acaba não acontecendo são cenas fabulosas.

Contando com um desfecho forte, Fora da Lei tinha tudo para se igualar a Katyn, outro filme europeu que faz justiça histórica de maneira ousada e surpreendente. É um pouco decepcionante, mas merece, e muito, ser visto. Nem que seja só pelas ótimas intenções.

NOTA: 7

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