Alexandria


"Se alguém não questiona o que acredita, então não deveria poder acreditar"...

Chegando com um atraso de quase dois anos e direto em DVD aqui no Brasil, Alexandria é o filme mais recente do grande diretor espanhol Alejandro Amenábar. Dono de uma filmografia fabulosa que inclui Preso na Escuridão, Mar Adentro e o subestimado Os Outros, aqui ele realiza um épico subversivo, que mostra a tomada do Cristianismo na famosa cidade egípcia. E o subversão que ele usa lembra a que Paul Greengrass realizou em Zona Verde, ao mostrar o exército americano como o grande vilão da história. 

Aqui, são os cristãos os vilões bárbaros, que não enxergam qualquer problema em massacrar mulheres, crianças e idosos que pertençam a outra religião (algo que também me remete ao recente e excelente Incêndios). E a acusação direta e historicamente precisa que o filme apresenta é tão forte que acaba compensando os eventuais problemas da narrativa.

No centro da história está a filósofa e astrônoma Hypatia (Rachel Weisz), cujas pesquisas conseguiram prêver quase com completa exatidão o movimento dos planetas ao redor do sol (e isso quase 1.000 anos antes da confirmação oficial). Enquanto dá aulas para jovens de várias religiões na biblioteca de Alexandria, um protesto cristão dá origem a uma verdadeira batalha nas ruas da cidade, quando os pagãos finalmente percebem o tamanho do inimigo. Depois que os cristãos recebem autorização do prefeito para invadir a biblioteca, queimando e destruindo tudo que enxergam pela frente, Davus, o escravo de Hypatia a abandona e se une aos cristãos. 

Algum tempo depois, os cristãos se estabelecem na cidade, inauguram uma censura violenta contra outras religiões (inclusive contra os judeus, que os ajudaram a chegar ao poder) e o medo dos habitantes e até de figuras políticas faz com que todos se convertam ao cristianismo, inclusive o novo prefeito da cidade, Orestes, também ex-aluno de Hypatia, que agora é sua fiel conselheira. Porém, o novo bispo que conduz o povo resolve também exterminar os judeus e tomar a cidade para si, enquanto usa o fato do prefeito ser aconselhado por uma mulher (o que, segundo a Bíblia, é um problemão) e, pior, de outra religião, para enfraquecer as estruturas do governo.

Contando com um visual extraordinário, Alejandro Amenábar não está nem um pouco preocupado em ser sutil, e mostra a história de Alexandria numa verdadeira fábula de horror sobre a religião, e suas constantes e venenosas intervenções no progresso da humanidade. Não é a toa que utiliza a história de Hypatia, uma filósofa completamente a frente de seu tempo, para isso: as discussões soam assustadoramente atuais, e há diversas citações visuais a conflitos recentes com o mesmo pano de fundo: é impossível não lembrar da guerra contra o Iraque, quando os militantes cristãos levam suas vítimas com capuzes, por exemplo. E ao mesmo tempo, é preciso lembrar que o diretor reconhece também as injustiças dos pagãos contra as outras religiões ainda no início, especialmente no momento em que um deles decide chicotear um escravo cristão, apenas para que ele não tente lhe ensinar sobre humildade.

Além disso, há tantas cenas fabulosas que chega a ser difícil destacar algumas, mas arrisco que o momento em que Davus é libertado por Hypatia, a invasão de biblioteca, o massacre por apedrejamentos numa igreja, e o discurso anti-semita e desprezível do bispo, juntos com o trágico final vão permanecer com o público até muito tempo depois de terem assistido.

Só é uma pena que o desenvolvimento de alguns personagens seja prejudicado, talvez pelo quase ativismo de Amenábar, especialmente o pai de Hypatia, interpretado por Michael Lonsdale, afinal é justamente o respeito de todos ao redor para com ele que permitiu a sua filha que se mantivesse sempre livre em suas pesquisas, independente de seu sexo. Aliás, a própria Hypatia tem um arco dramático um pouco preguiçoso,. É uma personagem fascinante, sem dúvida, e Rachel Weisz está ótima e linda como sempre, mas sua solidão, e a completa ausência de paixão por algo que não seja seus conhecimentos poderiam ser mais explorados. Por outro lado, Davus e Orestes se mostram os personagens mais fascinantes, e são os dois que tornam o desfecho tão complexo e interessante, algo bem desenvolvido pelo roteiro e pelos ótimos trabalhos de Max Minghella (Davus) e Oscar Isaac (Orestes).

Apresentando um espetáculo cinematográfico raro em extensão, Alexandria merece muito mais ser visto e lembrado pela ousadia e coragem que demonstra. No meio das batalhas sangrentas, da direção de arte e figurino caprichados, da trilha sonora grandiosa e outras características sempre apresentadas em épicos, há aqui idéias e opiniões fortes, característica que o diferencia de qualquer porcaria do gênero como Tróia ou Gladiador.

NOTA: 10

Incêndios


A cena inicial é arrasadora: ao som de You and Whose Army? do Radiohead, vemos um grupo de crianças sendo preparadas para um grupo de guerrilha, e uma delas com determinação e uma respiração pesada encara a câmera. Em seguida, o filme apresenta rapidamente sua premissa. Jeanne e Simon são dois irmãos gêmeos que ouvem o testamento de sua mãe pouco depois de sua morte. Desejando ser enterrada de maneira curiosa, ela pede que os dois entreguem duas cartas: uma para o pai deles, e outra para o irmão, com o detalhe de que eles nunca sequer souberam que tinham um irmão, ou que o pai ainda estivesse vivo. Para isso, devem ir até o Oriente Médio. Enquanto Simon se recusa, Jeanne parte em busca deles, e acaba descobrindo a trágica história de sua mãe.

De início, Incêndios pode parecer um filme esquemático, afinal, desde a cena da leitura do testamento, o público já pode prever muito sobreo desenrolar da história: é óbvio, por exemplo, que a leitura das cartas será o clímax, ou que a participação do grande Rémy Girard se tornaria muito mais importante do que parecia a princípio. Porém, é interessante como o roteiro e a direção de Denis Villeneuve foge de quase todas as armadilhas que isto poderia causar graças a história, que é realmente forte e surpreendente. E mesmo quando uma cena ou outra acaba derrapando, como o momento, bastante artificial, quando vários personagens dão a Simon uma tarefa dizendo ser "sua vez", a verdade é que são problemas completamente esquecíveis, diante do poder de fogo da obra como um todo.

Ambientado em meio a batalhas entre muçulmanos e católicos, um dos aspectos mais fortes da obra é sua visão crítica sobre a influência da religião na violência do local: se no início, acompanhamos o desespero da família da "Mulher que Canta" pelo avanço dos muçulmanos que começaram a bombardear a cidade e matar os católicos, logo ela se depara numa emboscada destes últimos, com consequências terríveis (e o plano de detalhe na metralhadora de um dos sujeitos, com uma pintura da Virgem Maria próxima ao gatilho fala muito por si só). Além disso, a sequência de Jeanne sendo recepcionada por várias mulheres no vilarejo onde sua mãe cresceu é sublime dentro dessa lógica da trama.

Narrado de forma não-linear, acompanhando a jornada da mãe e dos filhos (e um outro personagem que não me atrevo a revelar), Incêncios tem muito em comum com Adoração: ambos acompanham a história de filhos redescobrindo seus pais, sua herança cultural, e acompanha o fim de uma linhagem construída pelo ódio e pela violência. Mesmo não sendo, tematicamente, tão ambicioso quanto a obra-prima de Atom Egoyan, Incêndios apresenta uma força dramática rara, e o cuidado admirável do cineasta em jamais fugir do verossímil lembra o excelente trabalho de Fernando Meirelles em O Jardineiro Fiel, com quem também guarda algumas semelhanças na narrativa.

Em seu desfecho, Incêndios não apresenta uma resposta surpreendente apenas pela "revelação" que surge ao final, mas principalmente nas consequências desta revelação, que fazem do último enquadramento deste filme, um dos momentos mais belos, complexos e tristes dos últimos anos.

NOTA: 10

Santuário


Santuário é um filme que parece ter sido produzido somente para ajudar a popularização da tecnologia de captura em 3D que James Cameron desenvolveu para Avatar. Por um lado, é uma aventura decente, com um visual sublime, que nem necessita do 3D para ser apreciado. Por outro, sofre de um roteiro chinfrim, com personagens que mudam completamente de personalidade de acordo com as necessidades da história, em esforços artificiais e lamentáveis.

Dirigido por Alister Grierson, Santuário mostra uma expedição a uma caverna na Papua Nova Guiné. Considerado o último lugar não explorado pelo homem, o local remoto esconde um verdadeiro labirinto de grutas e rios, desafiando os profissionais a encontrarem sua saída para o oceano. É então que uma tempestade surge de repente, e acaba virando um ciclone. Um grupo fica preso em meio as cavernas que começam a ser inundadas, e sua única chance é encontrar a saída para o oceano e escapar.

O filme se concentra na relação pai e filho de Frank, o experiente explorador e Josh, seu filho rebelde que detesta cavernas, mas é obrigado pelo pai a trabalhar com ele. Para demonstrar o conflito dos dois, o roteiro faz com que Josh questione Frank a todo e qualquer momento sobre todo e qualquer assunto (algo que me fez desejar que ele fosse o primeiro a ficar pra trás). E como acreditar que durante uma situação tão desesperadora eles teriam tanto tempo para conversar sobre o passado? Não estou sendo insensível, mas se uma conversa mais delicada surgisse enquanto eu estivesse prestes a ser soterrado, talvez eu dissesse "Ok, podemos falar sobre isso depois?".

Mas o resto dos personagens não ajuda em nada: Carl, o milionário que patrocina a expedição, de um cara legal e egocêntrico, se torna um super vilão patético. Mas sua namorada irrita. Inicialmente, é uma boa moça, mas logo questiona todas as ordens de Frank, mesmo nunca tendo mergulhado na vida. É outra que poderia ter morrido mais cedo, e enchido menos o saco. Os poucos acertos do roteiro estão no início, ao mostrar o porque de Frank ser tão respeitado, e a calma controlada dos mergulhadores quando uma deles fica presa numa caverna. Mas o maior problema é que o acúmulo de diálogos da metade para o final tira toda a urgência construída para a situação durante o primeiro ato.

Mas o que realmente vale a pena em Santuário é seu visual caprichado, as belas cenas na caverna, os efeitos especiais eficientes. Mesmo que o diretor demonstre um cuidado absurdo nos planos gerais e abertos (o tanque de guerra no meio da caverna me vem a mente), mas relaxe completamente quando dirige os diálogos, se apoiando em planos/contra-planos básicos. 

Mas, no fim das contas, até valeu o ingresso - se você o pagou só para conferir o prometido visual surpreendente.

NOTA: 6

Ghost World - Aprendendo a Viver


Adolescentes são um saco. Especialmente aqueles que concordam com isso e pensam que se comportam como adultos por isso. Eu sei porque fui desses, e tive amigos assim. Ghost World apresenta duas personagens exatamente assim logo no fim do colegial. Decididas a não fazerem faculdade imediatamente, mudando-se para um apartamento e trabalhando antes, Enid (Thora Birch) e Rebecca (Scarlett Johansson) tem sua amizade testada pelo confronto com a realidade da vida adulta.

Se Rebecca imediatamente começa a trabalhar, procurando apartamentos e amadurecendo a olhos vistos (algo trabalhado de maneira sublime por Johansson), Enid continua com seu comportamente anti-social, fascinada por qualquer coisa que soe estranha as "pessoas normais", como punk dos anos 70, musicais indianos ou coletâneas de blues em vinil. E não é a toa que se aproxima (de forma desprezível) de Seymour (Steve Buscemi), um colecionador compulsivo de vinis e quadros antigos.

Baseado nas HQ's de Daniel Clowes e dirigido por Terry Zwigoff (parceria que rendeu também o documentário Crumb e Uma Escola de Arte Muito Louca), Ghost World tem como maior mérito a maneira como mostra o mundo de acordo com a visão de Enid. O visual da obra foge do realismo, é trabalhado com exagero de cores dos cenários aos figurinos. E essa subjetividade também colabora dramaticamente para com a história: reparem na cena em que Rebecca mostra o que o apartamento tem de "tão legal" - uma tábua de passar roupa que sai da porta do armário. Por um lado, a alegria de Rebecca é comovente, e mostra uma mudança importante na atitude da moça. Mas a visão da cena, vem principalmente em como Enid vê a cena: é patética.

E se isso é interessante por um lado, também condena o filme: Enid é a protagonista mais aborrecida e irritante da história do cinema. Claro, estou exagerando, mas essa é a impressão durante a obra - citando a lógica da obra, é tão chata que chega a parecer cool. Mas a impressão é a de que algo deu errado. O filme ganha vida quando Steve Buscemi aparece, com sua presença sempre interessante em cena, e o desfecho do personagem e sua relação com Enid é perfeito. E por mais incrível que pareça, isso é mais do que o bastante. As constantes mudanças dos personagens, e o gradual (e demorado) amadurecimento de Enid são bem trabalhados. E as atuações de Thora Birch e Scarlett Johansson são mais do que perfeitas no contexto da obra (aliás, o que Birch fez de sua promissora carreira? Tsc...).

Infelizmente, depois de uma obra surpreendentemente bem construída ao redor de uma protagonista insuportável sem tornar a própria narrativa igualmente insuportável, incluindo idéias bastante surpreendentes dentro do seu conceito (o senhor que sempre espera o ônibus que não passa mais no local, por exemplo), Ghost Town decepciona ao não saber como encerrar sua história: depois de sugerir um desfecho com Enid observando uma cena, o filme repete o mesmo momento com Enid vivendo aquele momento, perdendo um momento de belíssimo sutileza com uma obviedade triste. 

Mas, na minha opinião, esse defeito pode foi perdoado quando Terry Zwigoff fez o fantástico Papai Noel às Avessas.

NOTA: 7,5

Homens e Deuses


Homens e Deuses conta a história real de um grupo de oito monges franceses que vivem num mosteiro ao norte da África, convivendo em harmonia com a população muçulmana (aliás, a cidade só se formou graças ao mosteiro). Depois que um grupo terrorista começa a assustar pela violência de suas ações contra estrangeiros naquele território, começa uma pressão para que os monges retornem a França, decisão que o lider deles se recusa a obedecer.

O filme começa bem, apresentando seus personagens e a situação de forma discreta. Em poucos minutos, já compreendemos não só a situação dos monges, como também sua relação com a cidade e seus habitantes. O problema começa no segundo ato, que ao se concentrar nas dúvidas de cada um dos membros do grupo se devem partir ou não, se torna enfadonho e repetitivo. Não que a dúvida seja necessariamente um problema. Aliás, a maneira como essa dúvida se coloca em seus personagens, confrontando todas as suas crenças é uma dos aspectos mais positivos do longa. 

Mas dedicar uma hora inteira a isso já é demais. Ainda mais, se pensarmos que a melhor cena do filme, e que provavelmente será lembrada como uma das melhores do ano, em poucos minutos, consegue dizer mais sobre seus personagens e sua situação do que toda a hora do segundo ato. Luc, um dos monges que atende como médico da cidade, consegue vinho e uma fita com O Lago dos Cisnes. A alegria deles com esse presente recebido é comovente, e diz muito sobre o sacrifício de suas vidas, algo salientado pela música e nos closes cada vez mais fechados em seus olhos. É uma sequência mágica, que parece contar a história de todos ali. Encerraria o filme com chave de ouro. Mas não é isso que acontece, e novamente Homens e Deuses volta a se arrastar, inclusive, cometendo o erro de não se encerrar com a leitura de uma carta escrita pelo líder, revelando seu conteúdo numa cena aleatória, próxima ao final.

É uma pena que uma história tão boa caia em tanta obviedade: o nome do líder dos monges é Christian. Sutil que nem um chute nos dentes. No final das contas, chegamos até o final do filme porque nosso envolvimento com os personagens consegue superar (por pouco) o exercício tedioso aplicado pelo diretor Xavier Beauvois, que faz o filme ser mais tétrico do que deveria, repetitivo até no visual (conte quantas vezes você viu os monges rezando e cantando a mesma música). 

E confesso que ao final me surpreendi com a legenda que revelou o desfecho da história. Infelizmente, cai no mesmo erro de Lope: a legenda contou mais que o filme inteiro. Por outro lado, Lope não teve cenas tão boas quanto este Homens e Deuses, que apesar de problemático, está repleto de boas cenas isoladas.

NOTA: 6

O Ritual (2011)


Há uma cena impagável neste O Ritual: o protagonista Michael, um espertalhão ateu que usou a Igreja para pagar seus estudos assume o exorcismo conduzido pelo experiente Padre Lucas, perguntando ao Diabo porque ele possuiu aquela garota. "Para que você não acredite Nele". Michael responde que "Ok, mas se eu não acreditar nele... porque vou acreditar em você?". Quando o Diabo faz uma cara em que parece que irá soltar um "D'oh!" do Homer, o filme encerra a cena. 

Porque? Ora, ou foi uma falha extrema do roteirista, que encerrou uma cena sem saber como terminá-la, ou os produtores tenham ficado com medo "fomos longe demais nesse tema, vamos voltar a fingir que tudo foi baseado em fatos reais e acabar logo". De qualquer forma, um fracasso retumbante do Diabo como esse, para o bem ou para o mal, deveria ser mais explorado. Aliás, quer uma prova maior de que O Ritual não foi baseado em fatos reais? Observem a legenda nos créditos iniciais: o filme não foi "baseado" no livro, e sim "sugerido". Hum-hum (não é a toa que a visão do Diabo é uma mula).

Desonestidades e problemas a parte, o fato é que O Ritual é até decente. Utiliza a mesma informação que também guiou O Último Exorcismo como premissa: o exército de exorcistas criado pela Igreja Católica. Mas enquanto o primeiro buscava criticar a postura, O Ritual a abraça sem questionar. Sim, aqui e ali, há momentos em que o exorcismo é questionado, especialmente numa bela troca de diálogos entre Michael e o instrutor, quando o primeiro cria uma lógica envolvendo um homem que diz estar possuído e outro que foi abduzido por alienígenas. Mas é claro que todas as discussões e argumentos vão por água abaixo quando o nome do tal Diabo é proclamado e... BUH! Acaba a luz no Vaticano (o que, devo presumir, ser um problema frequente?)

Mais do que qualquer coisa, O Ritual prova o talento de Mike Hafström, um bom diretor com sérios problemas na hora de escolher seus projetos (apesar de eu ter gostado bastante de 1408, dizer o que de Fora de Rumo, por exemplo?). Anthony Hopkins faz o Padre Lucas, o padre rebelde, que faz as coisas do seu jeito, daqueles que chama o cão na chincha... a construção de seu personagem é uma piada pronta, desculpem (e como diabos se escreve chincha?). Fora ele, Rutger Hauer e Toby Jones fazem boas pontas, Alice Braga ajuda a melhorar sua personagem má-desenvolvida e Colin O'Donoghue se esforça, tem bons momentos, mas é fraco demais para ser protagonista.

De um filme que começa bem, inicialmente equilibrando bem sua visão realista sobre exorcismos (mesmo quando pendia para o ridículo), depois da metade, e especialmente no ato final, vira uma piada: a prova disso são as cenas finais de Hopkins: é o exorcismo mais divertido que já vi. 

Pena que não era exatamente o que eu deveria sentir a respeito da cena...

NOTA: 5

PS: Sobre o tema Exorcismos, recomendo a leitura deste post no blog do grande Carlos Orsi.

Solaris (1972)


Baseado no romance de Stanislaw Lem, conta a história do psicólogo Kris Kelvin, que é enviado para a estação espacial do planeta Solaris, que na verdade, é um grande oceano. Sua ida prevê o estudo das consequências psicológicas das pessoas que trabalharam no local: todas voltaram perturbadas, alegando terem visto e experimentado situações fora do comum. Burton, um amigo do pai de Kelvin, viu uma floresta surgir em meio ao oceano, e logo depois um feto gigantesco, e ao voltar a Terra, descobriu que era filho de um amigo seu, que jamais tinha visto antes. 

Na estação, há apenas dois sobreviventes: Dr. Snaut e Sartorius. Guibarian, amigo de Kelvin se matou poucos dias antes de sua chegada, deixando a ele um depoimento em vídeo, avisando-o sobre os "visitantes". Aparentemente, o planeta Solaris materializa pensamentos de quem vai até lá. Snaut é visitado por um filho, Sartorius dedica seu tempo a dissecar seus visitantes, e Kelvin é visitado por Hari: sua ex-mulher que se suicidou a mais de dez anos. 

O encontro do homem e sua consciência. Assim pode ser resumida a experiência fabulosa construída em Solaris por Andrei Tarkovsky. O filme, sem dúvida, é um dos melhores da história do cinema, faltam adjetivos para elogiá-lo. Lançado pouco tempo depois de 2001 - Uma Odisséia no Espaço, tem muitas semelhanças temáticas com a obra de Kubrick, mas as suas abordagens os separam completamente.

Logo no início, Tarkovsky mostra a vegetação sendo conduzida pelo movimento das águas. Em seguida, mostra a vegetação coberta pelo orvalho, e uma leve neblina, até que chega a Kris Kelvin, observando. Nos primeiros segundos do filme, o diretor já construiu seu tema: o homem e sua ligação a natureza. Kris está obviamente ligado a tudo a seus arredores, seu olhar, sua expressão corporal. Ele está ali, e vivendo em harmonia com a natureza. Mas a cor gritante de suas roupas e um aparelho eletrônico em sua mão criam um estranhamento nessa relação.

Mas isso é apenas uma amostra minúscula da genialidade demonstrada por Tarkovsky: reparem no momento em que Kelvin encontra Guibarian no necrotério. A porta é aberta, e um movimento específico de câmera mostra Guibarian. Logo depois, quando Kelvin vai dormir o mesmo movimento de câmera mostra Kelvin, o que indica que a experiência que resultou no suicídio de Guibarian é a mesma que atormentará Kelvin. E não é só isso: reparem que após o movimento de câmera, em Guibarian vemos a janea na porta do necrotério, que é exatamente igual as janelas da estação que mostram o planeta Solaris (a interpretação religiosa do encontro do  homem e sua consciência no pós-morte), e em Kelvin surge a primeira aparição de Hari, em contra-luz com a janela.

E não é apenas isso: reparem em como diversos elementos do planeta Terra encontram substitutos em Solaris (algo que faz parte do tema do filme, especialmente no belo diálogo de Snaut dizendo que "não procuramos outros mundos, e sim um espelho"): o cavalo na fazenda do pai de Kelvin é mostrado em diversas figuras espalhadas no quarto de Guibarian, a vegetação tem seu som substituído por um sulfite rasgado preso num ventilador. E o que dizer da belíssima sequência na biblioteca, que pintada em tons fortes, é o único lugar na estação que remete a Terra, com artefatos de madeira, e diversas obras de arte marcando vários períodos de nossa história, é concluída com o momento em que Kelvin e Hari flutuam pelo cômodo.

E se isso não fosse mais do que o suficiente, Solaris ainda apresenta uma das histórias de amor mais complexas, belas e trágicas da história do cinema. Hari surge em Solaris como uma "visitante". Logo, a resposta inicial de Kelvin é racional: ele a coloca numa nave e a solta no espaço, mas logo é surpreendido por outra Hari, a qual ele decide acaba se apegando e mais: esta outra Hari reconhece o fato de não ser a verdadeira Hari, e sim uma cópia, mas acaba despertando sentimentos humanos com isso (ela seria o Hal 9000 do filme). Porém, lembrem-se que ela foi construída como a imagem que Kelvin tinha de Hari (reparem no momento em que Hari tem uma lembrança da mãe de Kelvin,que ela nunca conheceu: ou seja, uma lembrança do próprio Kelvin): portanto, quando deixada por algum tempo sozinha, ela sempre tenta o suicídio, afinal, foi o que Kris guardou dela. 

Não é a toa que o tema seja justamente o encontro do homem e sua consciência: para continuar sobrevivendo, Kelvin (e qualquer outro em sua situação) procuram a resposta racional para o fato: ela teria cometido suicídio de qualquer maneira. O que Solaris indica é a óbvia culpa de Kelvin: sim, ele foi culpado pelo suicídio de Hari, e não há escapatória: ele é obrigado a reviver e aceitar isso. E assim, o misterioso desfecho do filme é mais do que genial: é um dos grandes finais da história do cinema.

A direção de arte talvez seja uma das mais inspiradoras já feitas: dos artefatos quase destruídos que tomam conta dos corredores da estação espacial, passando pela belíssima e já comentada biblioteca, há ainda o claro destaque para os quartos de cada personagem, todos guardando pistas importantes sobre eles, especialmente Sartorius: sempre inquieto e provocador, há também uma curiosa preocupação nele para com os outros. Reparem em como ele ouve um depoimento de Kelvin a distância. E em seu quarto, reparem que ele guarda fotografias do filho de Snaut, por exemplo.

Muitos reclamam do início lento da obra, especialmente a longa sequência que mostra Burton voltando de carro para casa depois de discutir com Kelvin, e realmente sua primeira meia hora é lentíssima. Mas é também importantíssima para a compreensão da obra como um todo. A atenção a mais que Tarkovsky dedica a Burton, por exemplo, é fundamental.

Vale a pena fazer um esforço: aqui, você será mais do que recompensado.

NOTA: 10

PS: Há um remake de 2002 dirigido por Steven Soderbergh de Solaris, que eu acho  bacana, interessante, mas está longe da qualidade deste aqui.

Splice - A Nova Espécie


A mais de dez anos, o diretor Vincenzo Natali lançou Cubo, um filme interessante, experimental e que deixou muita gente se perguntando no final: "Uau... mas então... e aí?". Enquanto nem eu tenho certeza se gostei ou não, ele volta a batuta com este Splice - A Nova Espécie, uma ficção científica interessante, que em seus melhores momentos, lembra a maneira como David Cronenberg discutia seus temas favoritos em seus primeiros filmes.

Um casal de cientistas, Elsa e Clive trabalham na criação de novas formas de vida através da mistura de DNA de diversas espécies, buscando assim novas vacinas, por exemplo. Escondidos, acabam misturando DNA humano ao experimento, criando um novo organismo, cujo crescimento acelerado é apenas um de seus aspectos fascinantes. Batizado de Dren, surpreende pela inteligência e vira motivo de dor de cabeça para os dois, que precisam escondê-lo a todo custo.

Apresentando a trama sem rodeios, e constantemente discutindo as questões éticas envolvidas ao experimento, Splice se mostra um filme inteligente e bem trabalhado desde o início. É claro que exige um certo esforço considerar a maneira rápida de como tudo acontece (em determinado momento, Elsa faz uma grande descoberta em apenas uma noite), mas isso não compromete o andamento da trama. 

A grande dificuldade do projeto é o desafio de trabalhar com efeitos visuais e práticos em Dren, e como os atores interagiriam com ele: para isso, provavelmente, Natali convocou dois atores excelentes, Sarah Polley e Adrien Brody que vestem bem a camisa. Graças a eles, o momento em que Dren se alimenta pela primeira vez, ou quando Clive salva (ou não) a criatura colocando-a embaixo d'água se tornam cenas tão impactantes e funcionais.

Logo, porém, Dren é interpretada por Delphine Chanéac, que impressiona graças ao belo trabalho de expressão corporal que desenvolveu para o papel. Aliás, a evolução de Dren é uma das melhores características de Splice: de seu "nascimento", passando pela adolescência, há ainda uma cena fabulosa em que ela dança com Clive, e surge em seu pé algo semelhante a um salto, marcando sua passagem para a idade adulta de forma sutil e criativa.

Se há um problema em Splice é que o diretor não consegue criar um clima correto. Quando o filme deveria ficar assustador, não consegue. E alguns momentos são feitos de forma tão apressada que ficam esquisitos, especialmente a apresentação dos cientistas para a comunidade científica: a cena é tão rápida e absurda, que eu jurava que seria um sonho de algum personagem. É também lamentável que, aos poucos, a discussão da trama se torne cada vez mais simplista em seus argumentos (mesmo com o desfecho bacana).

No final das contas, Splice - A Nova Espécie conquista pela bizarrice. E apesar de eu ter sérios problemas com alguns aspectos do filme, não posso deixar de admirar uma obra que discute a ciência sem a necessidade de "demonizá-la", como fez o Frankenstein de Kenneth Branagh, por exemplo, com quem Splice divide um aspecto temático importante e fundamental.

NOTA: 8

The Runaways - Garotas do Rock


A importância da banda The Runaways, e consequentemente da carreira solo de Joan Jett e de sua banda The Blackhearts, para o rock é indiscutível. Finalmente, o sexo feminino estava mais do que bem representado no gênero através de bandas, e não apenas cantoras. O filme The Runaways - Garotas do Rock tinha uma oportunidade e tanto para ser um novo Quase Famosos, mas o roteiro e a direção de Floria Sigismondi decepcionam.

Não conheço o trabalho da diretora, mas aposto que ela já foi diretora de videoclipes. O que não seria um problema, se ela não atrapalhasse o desenvolvimento da história com seu trabalho. David Fincher e Mark Romanek são exemplos de diretores que se destacaram com clipes, mas fugiram dos cacoetes dessa linguagem ao partir para o cinema. Floria Sigismondi está na mesma categoria que Samuel Bayer, que fez o remake de A Hora do Pesadelo. Tentou adaptar a linguagem para o cinema e se deu mal.

Reparem no arco dramático de Cherie Currie, interpretada por Dakota Fanning: no início, ela mal parece conseguir beber álcool. Poucos minutos depois, ela está dividindo drogas com as amigas e fumando, e logo depois, já está tendo overdoses. Como ela passou de um ponto para outro? A história da banda foi curta, a história das personagens poderia ter sido melhor desenvolvida. Aliás, até mesmo a maneira como a banda é montada é apressado: como aceitar que Joan Jett mal sabia tocar uma nota e, logo depois de conversar com um empresário, já é uma guitarrista competente? (Lembrem-se: a trama se passa em período curto.)

Pelo menos, o roteiro faz um bom trabalho em mostrar porque o sucesso da banda foi importante, principalmente na construção da imagem dela pelo produtor Kim Fowley, interpretado por Michael Shannon, e retratado pelo filme como um quase gênio. E fora a trilha sonora genial, que inclui The Stooges, David Bowie além, é claro, das The Runaways, as cenas que mostram os shows das garotas são os grandes destaques, e Dakota Fanning e Kristen Stewart dão conta do recado (especialmente a segunda, que teve que aguentar Joan Jett enchendo o saco durante as filmagens cobrando mais realismo).

A conclusão do filme também é um pouco estranha. A cena em que Cherie acaba saindo da banda (é spoiler dizer que a banda acabou?) apresenta um problema de linguagem impressionante: mantendo a câmera próxima a Stewart, vemos no fundo, Dakota Fanning saindo pela porta, e sendo ofuscada pela luz, algo que teoricamente indicaria um momento positivo para ela. Mas a partir dali, sua personagem caiu nas drogas, e levou anos para se recuperar. (Por isso evito pescar detalhes de semi-ótica em casos assim, mas enfim...).

No final das contas, o problema da banda foi que as garotas eram muito novas e muito diferentes entre si, e pronto. As brigas mostradas ao final, que sugeriam que elas foram devoradas pelo estrelato e pela pressão não convencem, e parecem tentativas desesperadas de homenagear Joan Jett mais do que as outras integrantes. Nada contra, tem seu mérito, mas é o mesmo problema que teve o The Doors de Oliver Stone: poderia muito bem se chamar apenas Jim Morrison.

NOTA: 6

Lua de Fel


Roman Polanski resolveu brincar que estava fazendo uma nova versão de Emmanuelle. Só pode. A trilha sonora sem vergonha, as transições para os flashbacks típicas de soft-porn, e claro, a nudez e sexo. A bem da verdade, tanta safadeza diverte, há momentos irresistíveis e inesquecíveis: como não lembrar de Emmanuelle Seigner derramando leite no corpo, ou seu striptease?

Lua de Fel mostra um casal britânico durante a viagem de navio para a Índia em comemoração aos sete anos de casamento. Lá, acabam conhecendo Mimi e Oscar. Mimi chama a atenção de Nigel, o britânico bonzinho. Oscar percebe e começa a contar a história de seu conturbado relacionamento com a garota, quase como se preparasse Nigel para ter um caso com ela.

O primeiro ato do filme é ótimo, divertido, sacana. Tudo funciona bem: Polanski parece estar de bom humor e afim mesmo de contar a história, e os atores funcionam bem em cada papel. É depois da metade, quando a história muda de tom que Lua de Fel se perde. A partir daí, defeitos que podiam ser ignorados, começam a incomodar, e até mesmo Polanski, diretor de pulso firme, parece ter se perdido completamente (algo que também aconteceu com O Último Portal).

Peter Coyote está bem quando Oscar tem que parecer apenas um sujeito chato e arrogante. Quando o filme exige uma mudança mais dramática, fica patético, seu sofrimento é quase risível. Hugh Grant está bem, faz o cara bacana de sempre, sem nenhuma grande cena, enquanto Kristin Scott Thomas é a única que realmente cresce com a trama. Começa sem sal, e termina grandiosa. E Emmanuelle Seigner, uma atriz limitadíssima e esposa de Polanski, aqui tem um grande papel, embora erre em um over-acting e outro (Seigner só acertou mesmo na sua bela participação em O Escafandro e a Borboleta). 

Salvo pelo desfecho, Lua de Fel apresenta problemas quando se leva a sério demais. Perde o tom, e fica esquisito. Não dá pra saber se Polanski estava fazendo um humor negro que passou do ponto, ou se ele estava realmente encantado com seus personagens e errou a mão. No começo, o humor negro é claro e equilibrado, especialmente o diálogo entre o casal britânico e o indiano que acaba com toda a mística do seu país em poucos minutos.

Mais ou menos, como Polanski acaba fazendo aqui no meio da brincadeira.

NOTA: 7

Invasão do Mundo: Batalha de Los Angeles


Na minha opinião, existem quatro categorias de filmes ruins:

1ª - A de filmes ruins que eu realmente lamento por serem ruins, seja pelo diretor, atores, história, temática ou qualquer coisa do tipo. Exemplos: O Curioso Caso de Benjamin Button, Quem Quer Ser um Milionário?, Lope, Restrepo...

2ª - A de filmes ruins suportáveis. Eu sei e reconhecço o que é ruim no filme, mas seja porque o ritmo dele é aceitável, e a história não se alonga, ao menos, não há a sensação de frustração extrema. Só uma frustração que passa depois de alguns minutos. Ex: Pandorum, Demônio, Legião, Caça as Bruxas...

3ª - A de filmes tão ruins, mas tão ruins, que ficam divertidos, causando risadas involuntárias a todo momento. Ex: Motoqueiro Fantasma, The Spirit, Ninja Assassino, Velocidade Máxima 2, Anaconda...

E a quarta categoria: a dos filmes que fazem a gente se arrepender um pouco de ter nascido, pago ingresso e ter ido ao cinema. Filmes que fazem a gente pensar que teria sido melhor ter ficado em casa e assistido a alguma novela. Não há nada de engraçado, mesmo que a gente se esforce em procurar. Fim dos Tempos, A Reconquista, Falcão Negro em Perigo, Caçador de Recompensas, Um Olhar do Paraíso, Skyline - A Invasão são alguns exemplos, assim como o mais recente membro do clube: Invasão do Mundo: Batalha de Los Angeles.

Basicamente, alienígenas vem a terra para nos matar pela água. Nada de errado com a simplicidade da trama. Os problemas são outros. E muito piores. Para começar, o visual tenta remeter claramente a Distrito 9. Em comparação, faz O Ultimato Bourne parecer um filme de Stanley Kubrick. A câmera na mão, parece ter sido feita por chimpanzés sem treinamento. Não entendo porque tanto esmero nos efeitos especiais (que são, na maioria, excelentes) se não podemos enxergar direito o que está na tela.

O diretor Jonathan Liebesman já deveria ter sido proibido de exercer a função depois de No Cair da Noite e O Massacre da Serra Elétrica - O Início, e aqui volta a mostrar sua impressionante incompetência. Não há um enquadramento sequer digno de nota durante todo o filme. As cenas aéreas que revelam a extensão da destruição da cidade são os mais bacanas, mas é aquela coisa: duram cinco segundos ou menos. Mas talvez o ápice da incompetência da história esteja no terceiro ato, quando os militares invadem uma base subterrânea durante a noite, e poucos minutos depois, quando saem já é dia. Inútil falar algo sobre elenco, a não ser lamentar as participações de Aaron Eckhart e Michael Peña. E Michelle Rodriguez parece estar construindo sua carreira como uma piada interna para Hollywood (vejam as recentes entrevistas com piadas de mal gosto sobre sua sexualidade).

E o que dizer do roteiro? Resumindo toda a trama em poucas missões (primeiro daqui até ali; pegam os civis e vão pra lá; depois pra lá...), nunca é possível entender porque reuperar Los Angeles é tão importante (Ei, é só o mote inteiro para a história, why bother?). Em grande parte, os diálogos se resumem a Avante - Recuar - Atirem - Cessar fogo e coisas do tipo. Mas destaco dois momentos particularmente desastrosos: depois da morte de um personagem, Aaron Eckhart vai consolar o filho dele soltando um inacreditável "Eu preciso que você seja meu pequeno fuzileiro"; ou quando Michelle Rodriguez acerta um alienígena, que libera uma gosma na sua cara, ao que o sujeito ao lado manda a piadinha "Uau, você deixou ele fazer no primeiro encontro!"

Poucas vezes sai de um filme tão desanimado com a vida. Durante a duração de uma hora e cinquenta minutos , que pareceram umas dez horas, creio ter sentido meu corpo lentamente envelhecendo, acompanhado o fluxo de sangue no meu corpo, além de sentir meu cabelo crescendo. Tudo isso foi mais interessante do que mais um filme que mostra que, mesmo que um mal terrível ameace nosso extermínio, graças a Deus, os fuzileiros americanos estarão prontos para nos salvar.

Bléh.

NOTA: 0

Lope


Durante sua vida no final do séc. XVI, o poeta e dramaturgo espanhol Lope de Vega produziu cerca de 8.000 obras literárias, façanha ainda inédita. Teve extrema importância na renovação do teatro, além de ter participado da guerra de seu país contra Portugal. Com uma história de vida dessas, é inaceitável que Lope, primeira produção internacional de Andrucha Waddington, se concentre apenas num triângulo amoroso envolvendo o escritor com a mesma profundidade de uma novela global.

O filme começa bem, mostrando Lope voltando da batalha, pouco antes da morte de sua mãe (uma pequena e excelente ponta de Sonia Braga). Recebendo algum dinheiro ao escrever poesias para marmanjos lerem para suas mulheres, ele ganha uma oportunidade para trabalhar junto do grande dramaturgo da cidade, inicialmente como copista. Graças a influência da filha do dramaturgo, Elena, com quem se envolve, ele começa a chamar atenção por suas obras inovadoras. Depois de descobrir que Elena é casada, ele se revolta contra seu patrão, e troca Elena por Isabel.

A sinopse que escrevi acima já mostra os problemas da história: Lope é um mulherengo irresponsável. Sua revolta com o sujeito que emprestou dinheiro para o funeral de sua mãe é injustificável, já que apesar de ganhar dinheiro, ele sequer considera pagar a dívida. Além disso, suas atitudes de rebeldia quanto as figuras de poder da cidade surgem apenas de ressentimentos amorosos que o sujeito passou. Não sei nada sobre a história verdadeira de Lope, mas se a idéia era fazer uma homenagem, certamente saiu pela culatra.

São nos poucos momentos em que o filme se concentra nas habilidades artísticas de Lope que faem valer a pena: do improviso de poemas numa festa, até a apresentação da primeira peça de teatro escrita por ele, ali sim o filme encanta e diverte. E a direção de Waddington torna tudo mais interessante. Beneficiado pela fotografia belíssima, seu trabalho remete ao de Christopher Nolan em O Grande Truque: é um filme de época sem as firulas de um típico filme de época - apresenta um constante uso de câmera na mão, por exemplo.

É pena que depois de um bom início, um segundo ato irregular, o filme caia num final irritante, que inclui até uma cena de julgamento daquelas que já vimos 1.000 vezes antes para concluir a história. A bem da verdade, talvez eu não tivesse ficado tão decepcionado com Lope se, no final, uma legenda contasse tudo que o filme não contou, como o número de obras que ele produziu em vida.

Uma sacanagem. A legenda é melhor e revela mais que o filme inteiro.

NOTA: 6

Trabalho Interno


Vencedor do Oscar de Melhor Documentário nesse ano, Trabalho Interno é um estudo sobre a crise econômica que atingiu o mundo no final de 2008. O filme não escapa, e nem pretende escapar de ser didático. Mas é louvável a maneira como as informações são trabalhadas, sempre de maneira coerente e clara. Em alguns momentos, o público pode confundir um nome ou outro, mas mesmo os elementos mais complexos, como o funcionamento de créditos, desregulamentação e derivativos são estabelecidos de forma compreensível.

Escrito e dirigido por Charles Ferguson (do excelente No End in Sight), o documentário narrado por Matt Damon começa apresentando o que a crise representou para a Islândia: o país que possui o PIB de 13 bilhões de dólares, acumulou uma dívida de mais de 100 bilhões, graças as interferências de economistas de Wall Street na divulgação de informações dos bancos do país. Em seguida, Trabalho Interno volta desde a Grande Depressão de 1928 para mostrar como a economia americana se desenvolveu, até os anos de Ronald Reagan, quando banqueiros e Wall Street começa a mandar nos Estados Unidos, graças a importantes cargos políticos que, infelizmente mesmo depois da crise, são mantidos.

Apresentando entrevistas com nomes importantes envolvidos na história, Ferguson evita chegar ao tom cínico de Michael Moore, constantemente fazendo que seus entrevistados se enforquem sozinhos em seus argumentos. Como entrevistador, esse é um dos grandes. Mas talvez o mais surpreendente no documentário seja a maneira como o comportamento dos envolvidos na crise é apresentado: constantemente cercados de prostitutas e drogas, e incentivados a ganhar bônus milionários por investimentos de alto risco (que foram grande parte dos maiores problemas da crise financeira), há ainda a velha questão apresentada por Freud. Eu tenho mais aviões que aquele, aquele tem mais navios que o outro. Não é a toa que falência deriva de falo.
Mais do que qualquer coisa, o objetivo do documentário é questionar porque o mercado financeiro parece imune a investigações aprofundadas do governo. O FBI, FMI e muitos outros já alertavam desde o início da década passada sobre atos de corrupção e outros agravantes, como mudanças em leis antigas, que levaram a crise financeira. Além disso, é chocante perceber o impacto sobre a classe trabalhadora: das enormes fábricas com pouco funcionários na China, até a vila de barracas nos Estados Unidos, onde moram várias famílias que perderam suas casas. 

Há ainda uma consequência pouco lembrada: o dos estudantes norte-americanos. Os principais professores de grandes universidades, como Harvard e Columbia são consultores das maiores empresas so país, ganhando mais do que o dobro pelo serviço as empresas do que pelas aulas. Como garantir que não exista conflito de interesses? Se não fosse o bastante, o setor educacional privado nos Estados Unidos parece ter sido fabricado para criar jovens com dívidas milionárias, graças a esquemas vergonhosos.

Documentário sério e inteligente, Trabalho Interno merece ser conferido em parceria com outros filmes importantes sobre o tema, como Enron - Os Mais Espertos da Sala e Capitalismo - Uma História de Amor, apesar de ser bastante superior a estes. 

Fico triste que Lixo Extraordinário não tenha levado o Oscar. Mas foi por uma boa causa e, verdade seja dita, por um filme que merecia mais a estatueta.

NOTA: 10

Matadouro Cinco


Quando conhecemos Billy Pilgrim, ele está sozinho em casa escrevendo em sua máquina de escrever sobre sua experiência como... viajante no tempo. Em pouco tempo, ele desperta no meio da Segunda Guerra Mundial, onde é capturado por alemães. Em seguida, vai para outro planeta, com uma amante. E depois para seu casamento com Valencia, que passará a vida prometendo emagrecer, enquanto se empanturra de comida...

Sim, essa é a trama de Matadouro Cinco, filme cult inusitado, divertido e inteligente. Baseado no livro do grande Kurt Vonnegut Jr., foi dirigido por George Roy Hill, mais lembrado pelos clássicos Golpe de Mestre e Butch Cassidy. Misturando ficção científica com comédia, pode ser descrito como uma mistura de O Guia do Mochileiro das Galáxias com Te Amarei Para Sempre.

Matadouro Cinco apresenta uma metáfora brilhante sobre o tempo, e sobre nossas memórias. Há um diálogo fabuloso entre Pilgrim e um alienígena que sabe como acontecerá o fim do universo. Ele diz que um funcionário inexperiente apertará um botão errado num teste de combustíveis e, por consequência, todo o universo será extinto. Pilgrim pergunta porque eles não evitam que o funcionário aperte o tal botão, ao que ouve a resposta: "Este botão já foi apertado e sempre será apertado". Há também uma curiosa comparação com a maneira como guardamos nossas memórias, seja sempre com eventos positivos ou negativos.

O humor da obra é sensacional: da maneira como Pilgrim passa pela guerra usando um casaco feminino e botas de um dançarino inglês, passando pela estrutura de sitcom que assume depois que ele vai para outro planeta, junto com a divertida atriz pornô interpretada por Valerie Perrine. Há também momentos mais dramáticos, mas infelizmente poucos funcionam. A morte de uma figura paterna que surge para Billy na Alemanha é mostrada de forma particularmente decepcionante. Por outro lado, a cena em que Valencia descobre sobre o acidente que Billy sofreu e sai desesperada com o carro pelas ruas é fabulosa, e um show de interpretação de Sharon Gans.

E por falar em interpretação, outro problema sério é o trabalho de Michael Sacks como o protagonista, que atravessa a trama sem estabelecer qualquer característica marcante ao personagem, ou demonstrar qualquer carisma. Já Ron Leibman que faz Paul Lazzaro, e Valerie Perrine são os mais divertidos e inesquecíveis da história toda. A montagem é fabulosa e cria sequências criativas como o acidente de avião, que acaba misturando passado, presente e futuro, ou o ato final, que não me atrevo a revelar.

No final das contas, Matadouro Cinco se destaca pela imensa criatividade, e pelo senso de humor bizarro que atravessa toda a trama. Não é perfeito, e algumas passagens de época não acabam funcionando tão bem, e outras cenas são longas demais, como a caminhada dos americanos para o matadouro. Mas vale muito a pena descobrir essa pequena pérola do cinema dos anos 70.

NOTA: 8,5


"Tinha absolutamente tudo para dar errado: o diretor perdido em drogas, o roteiro sendo alterado todos os dias numa filmagem que deveria durar alguns meses, e acabou durando dois anos, atores com egos infladíssimos num set construído num país que ainda entrou em guerra durante a produção. Acabou saindo uma obra-prima inigualável.". Assim comecei meu texto sobre Apocalypse Now Redux, e o documentário Hearts of Darkness - O Apocalipse de um Cineasta é perfeito para entender isso melhor.

Durante as filmagens, Eleanor Coppola, esposa de Francis Ford Coppola, registrou os bastidores tumultuados: o presidente das Filipinas, onde o filme foi produzido, cedeu helicópteros e equipamentos militares, mas em vários momentos enquando as câmeras estavam rodando, os helicópteros eram levados para combates (o país estava em guerra). Um tufão atrasou as filmagens em mais de três meses, e arrasou com vários sets que já estavam prontos. Martin Sheen sofreu um enfarte graças a pressão que Coppola lhe exercia. Dennis Hopper, loucaço, não conseguia decorar uma fala. E Marlon Brando, que recebeu 1 milhão de dólares por semana, enrolava o diretor e a equipe para discutir o personagem, sendo que chegou sem ler O Coração das Trevas (livro que baseou o filme), e com 140 quilos, ainda fazia Coppola quebrar a cabeça sobre como disfarçar ao máximo o peso do ator.

Apocalypse Now foi completamente financiado por Francis Ford Coppola, com o dinheiro que ganhou com os dois primeiros filmes do O Poderoso Chefão. O documentário está longe de ser um making of. É um registro sobre Coppola em sua fase mais conturbada e genial. Quem tiver curiosidade de assistir o filme esperando por bastidores convencionais ficará decepcionado. Dirigido por Fax Bahr e George Hickenlooper, O Apocalipse de um Cineasta é beneficiado não só pelas filmagens de Eleanor, mas também de registros em áudio que ela captou e entrevistas conduzidas pelos diretores.

Mais de uma vez, Coppola teve colapos nervosos, e mais de uma vez, pensou em suicídio. O desgaste físico e mental pode ser sentido não só no diretor, mas em toda a equipe. O uso pesado de drogas pelo elenco e equipe técnica em grande parte decorre disso. Há também momentos hilários, desde Marlon Brando engolindo um inseto no meio de uma cena que se tornou clássica, ou uma discussão surreal entre Coppola e Dennis Hopper. 

Não há muito a ser dito sobre o documentário, a não ser que é um complemento genial para Apocalypse Now. Os fãs do filme (que não são poucos) devem assistí-lo, para compreender como uma das badernas mais caras e irresponsáveis da história do cinema se tornou uma obra inigualável.

NOTA: 10

Túmulo dos Vagalumes


Fabuloso animê japônes dirigido por Isao Takahata, e lançado em 1988. Talvez seja uma das melhores e mais importantes animações adultas já lançadas. Conta a história de dois irmãos durante os bombardeios americanos no Japão. Depois do primeiro ataque, Setsuko e Seita procuram sua mãe que estava num abrigo anti-bombas. Seita, o irmão mais velho descobre que sua mãe morreu carbonizada, e esconde isso de sua irmã mais nova. Os dois então viajam para a casa de uma tia, com a esperança de conseguirem algum contato com o pai, um oficial da Marinha.

Túmulo dos Vagalumes parece uma dura crítica ao apego dos japoneses a suas tradições. Deixando a guerra em segundo plano, acompanhamos apenas como a população lida com a escassez de comida e os constantes bombardeios. A relação entre Seita e sua tia se torna fundamental para isso: observem a sutil intolerância que surge nesta última e como ela se manifesta aos poucos, como na distribuição de comida no jantar. Isao Takahata mostra o abandono e o descaso da população para com os jovens, que se obrigam a sobreviver através de pequenos furtos.

Visualmente belíssimo, há ainda uma atenção admirável dos animadores na construção da "atuação" dos personagens: reparem no momento em que Setsuko descobre que não poderá ver a mãe: a garota se fecha, encolhendo-se, e chora quieta, evitando chamar atenção para si. Além disso, a transformação física dos dois durante a projeção não é apenas brilhantemente realizada, como representa um dos maiores horrores (que não são poucos) do filme.

Contando com um ato final forte e triste, Túmulo dos Vagalumes é também um belíssimo estudo de uma relação de amor entre dois irmãos. A maneira como mostra Seita se torna cada vez mais maduro, e o comportamento influenciado pelo isolamento que toma conta de Setsuko são de dar inveja a qualquer filme com atores de carne e osso. Tudo isso somado a trágica ironia que seu título apresenta, é um clássico para ser visto e revisto. E, principalmente, admirado.

NOTA: 10

PS: Em 2008 foi feita uma refilmagem live-action do filme, mas sinceramente, não sei nada sobre o projeto, a não ser que já foi lançado lá fora...

Uma Manhã Gloriosa


Uma Manhã Gloriosa foi escrito por Aline Brosh McKenna, a mesma roteirista dos bacanas O Diabo Veste Prada e Um Caso a Três, e dos fracos Vestida Para Casar e Leis da Atração. O que todos esses filmes tem em comum não é difícil perceber: são todas comédias românticas. O problema é que Uma Manhã Gloriosa, assim como O Diabo Veste Prada, seria um filme muito, mas muito melhor se não sentisse a necessidade de enfiar um romance no meio da história. 

Começa muito bem. Até surpreendente, ao mostrar de forma eficiente e econômica o cotidiano de Becky Fuller (Rachel McAdams). Produtora de um programa matinal de TV, ela acaba sendo demitida, quando esperava uma promoção. Ela acaba recebendo uma proposta de emprego em Nova York para trabalhar no pior programa no mesmo horário da TV. Com uma equipe desmotivada e apresentadores excêntricos, ela decide chamar o respeitado jornalista Mike Pomeroy (Harrison Ford) para trabalhar no programa, algo que ele enxerga como uma vergonha para sua longa carreira, mesmo sendo contratualmente obrigado a trabalhar.

Ah sim, no meio disso, Becky conhece o produtor Adam (Patrick Wilson) e logo os dois estão apaixonados. 

E porque? Nada contra Patrick Wilson (que devia estar procurando papéis melhores depois de Watchmen), mas o romance é tão forçado para se encaixar na trama que poderia, sem qualquer prejuízo, ter ficado na sala de edição. A cena inicial, que mostra um encontro entre Becky e outro sujeito é perfeita para estabelecer a dificuldade da protagonista em estabelecer relações fora do trabalho, mas seu romance com Adam é trabalhado de forma irritante e preguiçosa. Mas que o roteiro acerte em evitar um romance entre Becky e Mike já deve ter exigido um esforço considerável de Aline Brosh McKenna (que não contente, ainda cria um último e desnecessário romance pouco antes do final).

Rachel McAdams é linda, carismática e boa atriz como poucas, e faz um belo trabalho aqui. Harrison Ford está divertido, e Diane Keaton é completamente deixada de lado pelo filme, mesmo antes da entrada de Ford em cena. Está tão secundária que chega a dar dó. Fechando o elenco, John Pankow e Jeff Goldblum fazem bons trabalhos, mesmo quando o segundo é boicotado pelo roteiro. 

Dirigido pelo competente Roger Michell, Uma Manhã Gloriosa seria um filme muito melhor sem seus desnecessários devaneios românticos: seria uma ode divertida ao que a televisão tem de pior. Mesmo assim, saiu um filme divertido, mas tão esquecível quanto o programa de TV que a protagonista trabalha. Mas, como diz a teoria defendida pelo filme, isso também tem seu mérito.

NOTA: 7

O Retrato de Dorian Gray (2009)


A clássica história de Dorian Gray de Oscar Wilde já foi adaptada inúmeras vezes ao cinema. No entanto, apenas uma versão está realmente a altura do clássico: O Retrato de Dorian Gray de 1945, que contava com uma atuação inesquecível de George Sanders, além de realizar truques visuais interessantíssimos quanto a pintura de Dorian. Depois de diversas outras versões fracas (incluindo uma em que Dorian Gray era uma mulher), surgiu em 2009 (e chega só agora no Brasil) este O Retrato de Dorian Gray que apesar de não ser um completo desastre, é insosso, e perde feio até mesmo na comparação da parte visual com o clássico de 1945.

A história é a mesma: Dorian Gray é um belo jovem que depois de chegar em Londres, fica obcecado com a idéia de que será lembrado para sempre pela pintura feita pelo seu amigo. E isto realmente acaba acontecendo: Dorian vai se mantendo jovem, enquanto a pintura vai envelhecendo. Porém, de bom rapaz, ele vai se transformando quase nua marionete de Henry Wotton, um ricaço bon vivant, que apresenta as bebidas, as drogas e a luxúria ao rapaz.

O filme já começa errado: sem clima, o diretor Oliver Parker apressa todo o primeiro ato, como se não estivesse realmente afim de contar aquela história. Está interessado é em brincar com os fracos efeitos visuais, e criar um tom que, na tentativa de parecer um suspense psicológico, acaba lembrando um filme de terror barato. Enquanto ainda estamos conhecendo os personagens, Dorian Gray já passou de jovem simples a vaidoso e bebum. Não há qualquer impacto quanto as decisões e mudanças trágicas que envolvem a história.

Costumo defender os os diretores quando o elenco está uniformemente bem: o trabalho de Tom Hooper no visual de O Discurso do Rei pode ter sido fraco, mas seu trabalho com o elenco foi fundamental. Não adianta dizer que foram os atores que salvaram o filme: sem a mão do diretor para trabalhar com eles, isso é uma lenda fajuta, e O Retrato de Dorian Gray é uma prova gritante disso: Ben Barnes nunca foi um ator muito bom, mas aqui está péssimo (mesmo que parte da culpa seja do roteiro), e Colin Firth e Ben Chaplin, dois atores excelentes estão tão ruins quanto. Só diretores ruins e medíocres conseguem fazer isso.

Mas o mais curioso é que a história é tão boa, que o filme não consegue estragá-la. Há ainda outro defeito, e este mais grave que todos os outros, que é a forma como o diretor criou uma fábula moralista em cima. Há um tom de condenação novelesco em cima do protagonista e Henry Wotton que é aceitável em obras mais antigas: num filme feito em 2009, não dá para aguentar. Logo, os exageros se tornam risíveis. E de alguma forma, o fato é que O Retrato de Dorian Gray ao menos respeita os diálogos originais em alguns momentos, e tem um ritmo decente, graças a uma montagem que, aqui e acolá, está inspirada. Dá para assisti-lo sem passar muita raiva - esse é o melhor elogio que posso fazer.

NOTA: 4

O Grande Lebowski


O filme mais cultuado de Joel e Ethan Coen. Está longe de ser o melhor, mas sua galeria de personagens é tão fascinante que dá para entender o porque. O Grande Lebowski apresenta o que a dupla tem de melhor: o desenvolvimento e estudo de seus personagens, com a sua trama sendo apenas uma base secundária. O problema é que a história é mais complicada do que deveria, e em alguns momentos, a dupla perde o controle da obra. Mas quando se concentra em sua galeria bizarra de personagens, aí o filme encontra a sua razão de ser.

Jeff Lebowski, ou The Dude, como prefere ser chamado, é um hippie cinquentão que passa seus dias fumando maconha e jogando boliche. Confundido com outro Jeff Lebowski, um empresário milionário cuja esposa está devendo grana para criminosos, ele tem sua casa invadida e um dos bandidos mija no tapete "que dava harmonia para o ambiente". Aconselhado por seu amigo Walter, ele vai até o empresário para pedir uma indenização pelo tapete. Porém, acaba se envolvendo no sequestro da esposa do grande Lebowski, e seus sequestradores "niilistas".

O filme já conquista o público no início, quando o narrador se perde no raciocínio do que está contando, além de repetir constantemente a mesma frase (e sua interação com The Dude no decorrer da história é divertidíssima). E a atuação sublime de Jeff Bridges como The Dude, papel que marcou sua carreira definitivamente, é sempre um show a parte. Mas é injustiça conferir toda a qualidade do filme ao Dude: John Goodman faz um trabalho soberbo como Walter, ex-combatente do Vietnã que nunca cansa de usar isso como argumento para toda e qualquer discussão, além de jamais deixar o pobre Donny, interpretado por Steve Buscemi, termine uma frase. E o que dizer de Jesus, o bizarro jogador de boliche latino de John Turturro

Por outro lado, a trama policial complexa não funciona tão bem. Sim, é divertido observar como personagens tão excêntricos lidam com a situação (o pagamento do resgate é impagável), mas conforme o filme avança e a situação se complica cada vez mais, a brincadeira perde um pouco da graça, só retomando bem os eixos depois da cena que envolve a morte de um personagem importante, e a desastrosa cerimônia de despedida dos amigos. 

A direção da dupla (mesmo que na época, apenas Joel assinasse na direção), como sempre é surpreendente, desde a maneira econômica de como apresenta o protagonista e a trama em poucos minutos, até o sempre inspirado roteiro e seus diálogos. É uma pena que, em dois momentos importantes, a dupla apele para duas cenas de sonho que, apesar de divertidas e bem realizadas, tomem um tempo significativo, e não ajudem em nada a trama.

Com um desfecho típico da obra dos Coen, que frustra as expectativas normais que o público tem para a conclusão de uma história (o torneio de boliche, por exemplo, acaba nas semi-finais), O Grande Lebowski é um bom exemplo dos vários atrativos de um filme da dupla, que mesmo não conseguindo um resultado tão inspirado, tiveram as falhas compensadas pelo elenco fabuloso.

NOTA: 9

Persépolis


Persépolis é uma animação extraordinária. Consegue tratar da triste história do Irã, ao mesmo tempo em que apresenta um estudo de personagem complexo e... divertido. Assim, a decisão da Inglaterra em apoiar uma ditadura no país em troca de seu petróleo surge num divertido teatro com bonecos de papel, além de ao mostrar  uma batalha na guerra do país com o Iraque, mostra os soldados dos dois lados trocando tiros, enquanto seus corpos vão caindo na trincheira que os separa: tudo é apresentado na lógica da imaginação infantil / adolescente. da protagonista, Marjane Satrapi, que escreveu a história em quadrinhos e dirigiu a animação ao lado de Vincent Paronnaud.

A história começa com Marjane em seus 9 anos, filha de um casal que não compartilha do radicalismo religioso em vigor, e cuja família tem vários membros ativistas. Manifestando uma rebeldia natural, desde odiar usar a burca, passando pelo gosto musical (compra fitas do mercado negro de Bee Gees a Iron Maiden), ela é mandada para estudar em Viena depois da queda do Xá, quando uma longa e violenta batalha começa com o Iraque. Na Europa, a felicidade de encontrar mercados cheios de produtos e de conhecer uma nova realidade se junta a culpa por ter deixado a família para trás, criando uma imensa dificuldade para ela se adaptar ao local. 

Visualmente, Persépolis é instigante. O forte preto e branco esconde sutilezas belíssimas, como a citação brilhante ao quadro "O Grito". Utiliza traços cartunescos que reforçam o tom leve da narrativa (especialmente uma decepção amorosa da garota), mas que também serve para momentos dramaticamente eficientes, como a mão em meio a uma casa bombardeada, ou os sonhos de Marjane na infância com Deus (que culmina num dos momentos mais divertidos do filme, quando ela imagina Deus conversando com Karl Marx).

É admirável não apenas o auto-conhecimento de Marjane, que não dá tapinhas nas próprias costas e reconhece de forma inequívoca a importância de cada ato que aconteceu em sua história, e o estupro que acaba sofrendo numa rua de Viena é prova disso: o ato é simplesmente sugerido, e serve como o estopim final para sua volta ao Irã. E ao mesmo tempo, sua auto-condenação por ter feito um homem inocente ser preso é outra prova da sua enorme sinceridade e dedicação ao projeto.

Primo distante de Valsa com Bashir, Persépolis é uma animação adulta e contemporânea fabulosa. Inteligente, emocionante e encantador.

NOTA: 10

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