Shame



(Shame - Dir. Steve McQueen)


"Nós não somos pessoas ruins... só viemos de um lugar ruim..."

Shame é um filme sobre cicatrizes emocionais e físicas. Brandon é viciado em sexo. Buscando orgasmos compulsivamente, chama prostitutas, arruma mulheres (e homens), se masturba no chuveiro, no banheiro do trabalho. Aliás, não parece haver grande diferença entre sexo ou masturbação para o sujeito: são apenas meios para o orgasmo. Mas não há qualquer machismo em questão: trata-se de uma necessidade fisiológica extrema, que beira o doentio.

A cena do metrô na abertura é fundamental para compreendermos o protagonista: o flerte entre Brandon e a garota. Enquanto ela sorri, retribuindo o flerte, ele se mostra inexpressivo. Seu olhar obsessivo acaba por assustá-la. Ela foge, e Brandon corre impulsivamente atrás dela. O desejo dele pela garota se assemelha ao de um viciado em drogas prestes a tomar mais uma dose. E o vício em sexo do sujeito não passa de uma variação disso: logo vemos o quanto funciona como um perturbador método de auto destruição.

Dirigido por Steve McQueen e escrito diretor em parceria com Abi Morgan (sim, a mesma roteirista de A Dama de Ferro), Shame é um estudo de personagem dos mais fascinantes. No centro do conflito está a irmã de Brandon, Sissy (Carey Mulligan), que vai até Nova York passar alguns dias com ele, atrapalhando a melancólica rotina do sujeito - algo que gera conflitos enormes, que parecem sempre fazer referência a um passado tempestuoso, que jamais é esclarecido pelo filme.

Michael Fassbender já não precisava provar mais nada para ninguém depois de Hunger e X-Men: Primeira Classe (além de ter trabalhado com David Cronenberg no ainda inédito Um Método Perigoso), mas supera toda e qualquer expectativa: sua entrega absoluta ao personagem é inspiradora. Trabalhando o arco dramático do personagem de forma sublime, Fassbender encarna Brandon como um sujeito com sérios problemas emocionais, mas um bom sujeito - não é a toa que seu envolvimento com uma colega de trabalho que claramente desperta alguns sentimentos nele seja um dos pontos mais trágicos da obra.

Enquanto isso, Carey Mulligan foge completamente da persona cinematográfica que vinha trabalhando até então, interpretando Sissy como uma mulher forte e independente, mas emocionalmente fragilizada e desequilibrada. Em um dos vários momentos brilhantes da obra, a atriz rouba a cena ao cantar New York, New York, num arranjo atípico, de forma sensacional: é como se estivéssemos ouvindo a história de sua vida naquele momento. Cena hipnótica, belíssima, complementada com perfeição por Fassbender.

Apesar de ser um filme sobre sexo, e obviamente ter várias cenas de nudez, Shame lembra o tom de Crash - Estranhos Prazeres. Não há erotismo, é quase mecânico - com exceção do momento entre Brandon e a mencionada colega de trabalho, e o desfecho da cena acrescenta uma ironia ainda mais terrível ao drama. Quando vemos o protagonista na cama com duas mulheres, o tom da cena é tenebroso, o orgasmo do protagonista parece deformar seu rosto.

Com um desfecho poderoso, que se inicia com a sequência de flashbacks no metrô, Shame é um filme em que o subtexto e tudo que fica nas entrelinhas é tão devastador quanto os seus momentos de extrema e constrangedora intimidade. No final das contas, talvez a cena mais importante seja aquela na qual os irmãos discutem de forma dolorosa sobre sua relação, enquanto ao fundo vemos um desenho animado passando na TV - duas vítimas de uma infância tão horripilante quanto nossa imaginação consegue imaginar quando surgem os créditos finais.

NOTA: 10

O Porto



(Le Havre - Dir. Aki Kaurismäki)


Diretor de estilo forte, o finlandês Aki Kaurismäki realiza em O Porto um filme mais otimista e poético do que costuma fazer. Seu curioso e estranho estilo de direção de atores funciona de forma perfeita dentro da trama, que lida com o desprezo de governo e da sociedade pelos imigrantes. Mas O Porto apresenta uma fábula de bondade, sobre o impulso humano de ajudar o próximo.

Conta a história de um pobre engraxate que ao mesmo tempo em que se afasta da mulher, internada num hospital, se aproxima de um garoto que chegou ilegalmente ao local junto com outros familiares em um container, mas que conseguiu escapar da polícia. Enquanto a procura pelo garoto se intensifica na cidade, o engraxate descobre o porque da sua viagem e decide ajudá-lo, mobilizando todos os seus vizinhos na tarefa de levá-lo ao seu destino.

Quem não está familiarizado com a obra do cineasta certamente vai estranhar o clima do filme. O que mais chama a atenção na obra de Aki Kaurismäki é a sua maneira de trabalhar com os atores: não há grandes reações. De certa forma, os atores parecem apenas recitar o texto, sem trabalhar com qualquer emoção em cena. Comparável ao que Jim Jarmusch realiza em seus filmes, mas ainda mais extremo. O resultado é curioso: em alguns momentos, presenciamos um diálogo tristíssimo, mas o impulso é de rir da cena, como no diálogo entre o protagonista e a esposa no hospital, no qual ela pede o vestido amarelo. Mas os destaques são os preparativos para a tal fuga, que mesmo não sento muito bem desenvolvido pelo roteiro acaba divertindo, e o momento em que o protagonista viaja em busca do passado do garoto e encontra o seu avô num presídio: o diálogo é curto, mas poderoso - sem dúvidas, um momento pequeno e memorável.

Mas como também aconteceu em seu trabalho mais conhecido, o excelente O Homem sem Passado, o estilo funciona de forma perfeita para o propósito do cineasta: as ações de bondade e do seu protagonista são atos dignos e nobres, sem dúvida, mas na visão de Kaurismäki isso é algo natural; é digno de aplausos, uma amostra de como o indivíduo tem o dever de ser mais do que um reflexo de sua sociedade. 

NOTA: 8

Habemus Papam




(Habemus Papam - Dir. Nanni Moretti)

A premissa de Habemus Papam é tão boa, que é possível imaginar que funcionasse bem por duas horas sem fugir daquilo. Mesmo assim, é ainda melhor ver um filme que tenta ser mais do que apenas uma boa premissa, como O Primeiro Mentiroso de Ricky Gervais, ou o próprio Habemus Papam, embora este acabe se perdendo da metade para o final, pecando na estrutura do roteiro e no desenvolvimento de algumas situações.

Este novo trabalho de Nanni Moretti começa com a morte do Papa, e a reunião no Vaticano para escolher o substituto, que acaba sendo o personagem interpretado pelo veterano Michel Piccoli. No momento em que todos se preparam para o anúncio, o Papa sofre um colapso nervoso, obrigando o Vaticano a chamar um psicólogo para tratá-lo. E como a Igreja ordena que nenhum daqueles homens pode sair dali enquanto o anúncio do Papa seja oficializado, o clima de nervosismo aumenta, conforme ele deixa cada vez mais clara a sua relutância em aceitar o cargo.

Infelizmente, Moretti comete o mesmo erro que prejudicou seu filme anterior (Crocodilo), e se atrapalha na condução das linhas narrativas, numa estrutura irregular e decepcionante. Se por um lado os rumos que a história toma são interessantes, é decepcionante que algumas das melhores idéias da trama fiquem tão mal resolvidas, como o crescente nervosismo entre os cardeais, ou as discussões entre eles e o psicólogo (que é ateu ou agnóstico). E é uma pena que o sujeito contratado para ser o dublê do Papa em seus aposentos ganhe tanta atenção quando pouco contribui na trama, rendendo apenas um grande momento, ao colocar uma música em volume alto.

Mesmo assim, Habemus Papam funciona bem por inúmeros motivos: Michel Piccoli está numa atuação iluminada como o Papa, com olhar bondoso e aparência frágil, e beneficiado pela visão acertada do personagem pelo roteiro: sua crise e sua indecisão vem muito mais pelo enorme respeito e carinho que tem pelos fiéis e pela sua Igreja do que qualquer medo ou problema psicológico. Mostrando os outros cardeais de forma leve e curiosa (homens de natureza boa, mas de sentimentos quase infantis), o campeonato de vôlei que surge como distração se revela um dos grandes momentos do filme (mesmo que, novamente, decepcione no desfecho). E como não admirar a belíssima abertura, desde a entrada dos cardeais no local até a tensão da eleição, quando Moretti utiliza narrações em off cada vez mais altas e desordenadas para mostrar como nenhum daqueles homens deseja de fato o cargo em questão.

Mesmo contando com um tom respeitoso que perdura por todo o filme (justamente o seu elemento mais forte), Habemus Papam guarda em sua cena final um momento dúbio, grandioso e corajoso, tanto perante o público, já que é de certa forma decepcionante mesmo que seja perfeito dentro da lógica da trama, mas principalmente perante a temática. A metáfora do Papa em terapia, ou como ator, poderia render piadas agressivas ou óbvias, algo que não acontece em qualquer momento.

Uma escolha sábia: deixa o discurso final ainda mais poderoso e emocionante.

NOTA: 8,5

Guerreiro



(Warrior - Dir. Gavin O'Connor)

Filmes sobre esporte, por piores que sejam, sempre podem disfarçar todos os seus problemas ao mostrar "o grande desafio" sendo superado no final, seja numa luta, um jogo de basquete, baseball ou qualquer outra competição. Isso normalmente me deixa com um pé atrás sempre que me deparo com um exemplar do gênero. Porém, é sempre bom ser surpreendido, como neste Guerreiro, já que além de iniciar como um cuidadoso estudo de personagens, se encerra gloriosamente, mesmo que não de forma complemente satisfatória.

Voltando a trabalhar com o conflito entre dois irmãos na mesma área profissional (como no correto Força Policial, com Edward Norton e Colin Farrell), Gavin O'Connor acerta em cheio na primeira metade do filme, trabalhando bem com a história simples num clima sóbrio e melancólico, utilizando uma trilha sonora pontual e discreta. Além disso, mesmo que a história se revele previsível, a construção das cenas e dos diálogos é admirável, especialmente nos momentos dolorosos entre pai e filho nas cenas entre Tom Hardy e Nick Nolte.

E por falar nos atores, Guerreiro pertence a estes dois grandes atores: Hardy apresenta uma atuação discreta e surpreendente - seu personagem parece estar sempre prestes a ter uma explosão de violência, e nos instantes em que visivelmente se esforça para controlar seus impulsos estão as melhores cenas do filme, como a conversa numa praia a noite com o irmão. Já Nolte faz a figura paterna, falha, ausente e repleta de remorso, que tenta num último golpe desesperado reatar a relação com os filhos. Está comovente e tem momentos brilhantes, como a recaída no quarto de hotel. Joel Edgerton está bem, competente, mas não tem uma cena sequer que chegue aos pés dos dois, enquanto Jennifer Morrison está carismática, mas apagada, não consegue acrescentar nada.

Da metade para o final, Guerreiro não consegue manter a qualidade: desde a montagem típica mostrando o treinamento dos irmãos, passando pela mudança de tom que o diretor usa para narrar o campeonato, repetindo o único erro de Rocky Balboa, no uso de uma linguagem televisiva dentro da trama, o filme sobrevive pela construção impecável de seus personagens. Mesmo com todos os problemas que surgem no filme, torcer por eles se torna inevitável. E ao mesmo tempo em que o desfecho apresenta uma solução fácil demais, inverossímil, tematicamente é um final admirável e emocionante. O resultado, portanto, representa o que há de típico nas produções do gênero, mas nesse caso específico, isso não o diminui.

NOTA: 8,5

A Dama de Ferro



(The Iron Lady - Dir. Phyllida Lloyd)

Desastrosa cine biografia da popular ex-Primeira Ministra da Inglaterra, Margaret Thatcher. Alvo de inúmeras controvérsias e críticas pelas suas ações políticas, teve uma passagem longa e conturbada pelo poder, num período marcado pelo aumento do desemprego, violência social, de conflitos com o IRA, pela guerra das Malvinas e de abuso de autoridade pela política e polícia. Não é a toa que o período repressor inspirou obras como Watchmen e V de Vingança de Alan Moore, e até mesmo a adaptação para o cinema de 1984. Mesmo assim, há quem idolatre Thatcher, justificando que suas decisões foram eficientes a longo prazo, além óbvio, do poderoso símbolo que se tornou para o mundo, ao se tornar a primeira mulher a chegar ao cargo na Inglaterra.

Mas nada disso interessa ao filme. O que interessa é mostrá-la doente, em meio a delírios nos quais enxerga o falecido marido (em cenas constrangedoramente parecidas com as de Uma Mente Brilhante) ou seus filhos, saindo de um vídeo caseiro para sua sala. Sua história política é mostrada por flashbacks que nunca demonstram como ela realmente chegou ao poder. Percebam que o filme dedica mais tempo para as aulas que ela toma para mudar a voz (em cenas constrangedoramente parecidas com as de O Discurso do Rei), e a troca de visual do que em sua dificuldade em se adaptar a um mundo estritamente masculino. 

Quando vemos a protagonista jovem em uma reunião com membros de um partido: como ela conheceu aquelas pessoas? Quando ela consegue uma posição no partido: mas como ela conseguiu, se apenas um deles a deu atenção (e nem sequer era um membro, mas um empresário local)? Quando a história avança: porque seu filho não é mais mencionado na história? Quando ela consegue entrar para a política de vez: como ela superou o machismo, conseguindo ainda uma posição tão prestigiosa? Acreditem, não há sequer uma informação sobre a vida de Thatcher que seja apresentada de forma clara e coerente, mesmo em questões mais básicas: afinal, quando o marido dela morreu? No atentado ou depois? E o que dizer do terceiro ato, quando a história se concentra na guerra das Malvinas, e numa tentativa bizarra de apresentar apenas os fatos, sem julgar, transforma sua protagonista dali em diante numa vilã de folhetim barato.

E se o roteiro de Abi Morgan falha miseravelmente no básico do que deveria fazer, imaginem como falha ao tentar fazer tudo parecer mais complexo. A montagem sem qualquer ritmo consegue bagunçar ainda mais a estrutura "complexa" da trama, como no momento em que Thatcher se reúne com os homens que a explicam como mudar sua imagem - no meio da cena, vemos os dois abrindo um champagne para comemorar, e no próximo corte, vemos Thatcher na mesma posição do início da cena - ou fazer um flashback de uma fala que foi dita a menos de 10 minutos antes. 

A direção pedestre e sem qualquer sinal de talento de Phyllida Lloyd sepultam de vez a obra. Argumentar que uma diretora que conseguiu errar a mão em Mamma Mia! não conseguiria muito mais do que ser medíocre numa obra mais séria é pouco. Phyllida não consegue realizar um enquadramento sequer que seja original ou interessante. Se citei Uma Mente Brilhante e O Discurso do Rei, não foi a toa: aparentemente, foram os únicos filmes que a diretora usou como referência (e por referência, entenda surrupiar idéias, enquadramentos, movimentos de câmera, etc.).

Mas nenhum pecado é maior do que transformar mais uma atuação impressionante de Meryl Streep numa caricatura bizarra. Há poucos momentos dramáticos nos quais a atriz se sai bem. Mas o roteiro é tão fraco, e há uma busca tão grande por estilo, que nada a ajuda. Pelo contrário, atrapalha. É bom ver essa grande atriz ser premiada, mas não por um de seus piores trabalhos, prejudicado por um filme pretensioso e preguiçoso.

Esse é o mal da pretensão: sou fã de filmes pretensiosos. O problema é que um filme pretensioso ruim, é muito, mas muito pior do que um mero filme ruim.

NOTA: 0

Drive



(Drive - Nicolas Winding Refn)

" - Ele é o vilão?
 - É.
 - Como você sabe?
 - Porque ele é um tubarão!
 - Não existem tubarões bons?"

Há um detalhe sutil que faz toda a diferença na trama de Drive: o Motorista (o nome do personagem nunca é mencionado) interpretado por Ryan Gosling trabalha no mundo do crime em Los Angeles, onde também trabalha como dublê em cenas que envolvem manobras perigosas com carros em filmes. Não é a toa que a história é ambientada na mesma cidade de Hollywood: quando analisamos seu protagonista, claramente inspirado em grandes personagens do cinema, com direito a fortes marcas visuais, como o figurino (a jaqueta com a estampa de escorpião) ou o palito no canto da boca.

Quando assisti a Bronson, também dirigido por Nicolas Winding Refn, fiquei particularmente impressionado ao observar como todos os elementos narrativos obedeciam a lógica de seu protagonista: impulsivo, violento e bizarramente divertido. Assim, Bronson possui uma montagem frenética, de cores fortes   e vários rompantes curiosos de um humor absurdo. Em Drive, acompanhamos um protagonista consciente de sua condição como protagonista: ele construiu um personagem (o Motorista) e vive como se estivesse dentro de um filme. Nicolas Winding Refn usa isso a seu favor e para criar um filme de ação direto e violento como nos anos 70, mas com um visual que remete aos anos 80. O encontro da época dos anti heróis fascinantes e amorais com a do egocentrismo e visual estilizado.

Apesar de ser um filme de ação, Drive funciona principalmente como um estudo de personagem. Frio, calculista e extremamente eficiente em sua linha de trabalho, a ponto de saber perfeitamente quando abusar da velocidade ou se esgueirar a noite, desligando as luzes do carro e parando em lugares estratégicos, ele encontra em sua vizinha (Carey Mulligan) e seu filho uma agradável distração em sua rotina.

Numa época em que tantos roteiristas tentam desesperadamente ser Tarantino, é um alívio contemplar um trabalho exemplarmente minimalista como o de Hossein Amini. Mantendo todos os diálogos sucintos e diretos, o roteiro dá espaço aos atores e ao diretor criarem belas sequências, como a constante troca de olhares entre Gosling e Mulligan, e a já clássica sequência que se passa num elevador. Aliás, o próprio filme parece consciente disso: reparem que no único momento em que o personagem de Albert Brooks começa um monólogo típico e o interrompe pela metade ao perceber o interesse do Motorista.

Com a carreira finalmente recebendo o merecido destaque no ano passado, graças a Tudo Pelo Poder e O Amor a Toda Prova, Ryan Gosling tem mais uma grande atuação: minimalista, encontramos os traços de frieza que o tornam tão competente em sua linha de trabalho, mas também uma enorme ternura em suas cenas com Carey Mulligan, apenas para nos surpreendermos de novo com o lado mais ameaçador do sujeito. Mulligan aproveita a excelente química com Gosling e faz um belo trabalho, e o "romance proibido" entre os dois acaba se tornando um dos melhores elementos do filme.

Mas os elogios ao elenco estão só começando: ainda há Bryan Cranston atuando num tom sacana que funciona bem a seu personagem, Ron Perlman que é sempre ótimo quando está em um bom filme, Oscar Isaac que consegue fugir de todo clichê possível e imaginável ao interpretar o marido recém saído da prisão e Albert Brooks, intenso e gigante em cena, criando um vilão divertido e ameaçador como a tempos não aparecia.

Com uma trilha sonora que reforça o tom oitentista, e uma belíssima fotografia, Drive conta com uma das melhores montagens que vi nos últimos anos, algo notável desde a cena antes dos créditos, quando o filme explica o modus operandi do Motorista numa sequência fabulosa. Nicolas Winding Refn demonstra enorme competência e talento ao equilibrar um filme que mistura diversos gêneros, e aproveita bem a oportunidade de usar slow motions, visual retrô e outros elementos normalmente utilizados apenas para parecer cool, em uma narrativa na qual esses elementos encontram lógica impecável.

Afinal, acompanhamos um personagem que tem consciência de ser um personagem: estamos vendo sua vida da mesma maneira que ele a enxerga, um filme. Isso é trabalhado de forma fascinante em uma sequência específica, que descreverei nos próximos parágrafos (mas só leiam os felizardos que já assistiram ao filme).

Último aviso...

Ok - Para quem assistiu Drive:

Seguindo a lógica de que o Motorista enxerga sua vida como um filme, lembrem da cena em que o ele filma a capotagem, usando a máscara de borracha com o rosto do protagonista. Ok, mais adiante, há o único momento em que o ele "sai do personagem": quando encontra o responsável pela morte do personagem de Oscar Isaac durante o assalto, e liga para o dono da maleta com dinheiro, Nino: o Motorista sua, treme e parece desnorteado ao falar (e aqui, o diretor repete um dos melhores movimentos de câmera de Orson Welles em Cidadão Kane, ao criar um contra plongée em movimento, "achatando" a imagem do personagem com a do teto, dando uma sensação desconfortável). 

O Motorista marca o encontro com Nino, mas o que acontece? Ele usa a máscara do protagonista para matá-lo - o que pode significar muitas coisas: talvez uma auto punição - ele não terá o prazer de matar Nino, pois fraquejou ao confrontá-lo, portanto assume outro alter ego; ou talvez a necessidade de se firmar, de mostrar a si mesmo de que ele é o protagonista, para ter a certeza do que pode fazer... enfim, um curioso elemento que fica aberto para possibilidades fascinantes. Um pequeno toque genial, dentro de um grande filme.


NOTA: 10

A Mulher de Preto (2012)



(The Woman in Black - Dir. James Watkins)

Bobagem nada divertida, com boas atuações, excelente direção de arte e um roteiro decepcionante. Se os esforços narrativos de A Mulher de Preto fizessem juz a sua parte técnica, provavelmente seria um clássico. Saiu um filme ruim - mas tecnicamente admirável. Remake do filme homônimo de 1989 (que não assisti), é decepcionante que este seja o primeiro trabalho de Daniel Radcliffe após o fim da saga Harry Potter, apesar de provar a capacidade do ator em ser um protagonista.

Dirigido por James Watkins (de Sem Saída, e roteirista do fraco O Olho Que Tudo Vê), o filme consegue criar um clima interessante, especialmente na casa da tal mulher de preto, apenas para arruinar tudo com sustos baratos. Mas o mais estranho é o comportamento do protagonista: ao menor sinal de que algo está errado, ele instintivamente corre para ver o que aconteceu - algo que me lembrou do personagem de John Cusack em 1408, com uma diferença importante: em 1408, o protagonista acreditava que estava participando de uma farsa, o que justificava seu comportamento.

Além disso, o roteiro decepciona completamente quando tenta criar uma lógica para a trama, incluindo uma mãe possuída pelo filho, um corpo que deve ser encontrado, e vários outros elementos sem jamais nos fazer compreender como: 1 - os personagens chegaram a conclusão de que devem fazer aquilo, e 2 - qual a relevância daquilo dentro da história (sobre isso, repensem a trama depois da "final surpresa").

O que há de bom em A Mulher de Preto está em seus aspectos mais técnicos, em especial a fotografia belíssima, e claramente inspirada em Os Outros, em especial a sequência na névoa. A cenografia da casa da mulher é um espetáculo a parte, e o diretor faz um ótimo trabalho em mostrar os recifes que a cercam, e como eles a transformam numa espécie de ilha, de forma corretamente opressiva. E, claro, a fantástica Direção de Arte, especialmente a da casa mencionada com seus brinquedos sinistros.

Aliás, tá aí um baita sinal de que algo está errado no filme: os objetos de cena são muito mais assustadores que o filme em si.

NOTA: 3

Programa Cine Ó sobre o Oscar 2012

Minha participação no programa Cine Ó, que contou também com os cineastas Luciano Coelho e Diego Lopes:


O Artista



(The Artist - Dir. Michel Hazanavicius)

Uma brincadeira inusitada que deu certo. E muito. Repetindo a parceria nos dois ótimos filmes do Agente 117, o diretor Michel Hazanavicius e o ator Jean Dujardin não só criaram em O Artista uma bela homenagem ao início do cinema hollywoodiano, mas também um grande filme mudo e preto e branco, que não se limita a ser uma mera curiosidade: o roteiro apresenta uma história que funciona de forma perfeita ao formato, e ainda brinca de forma criativa com a ausência de sons diegéticos.

O Artista mostra a decadência de um ator que se recusa a trabalhar com o cinema sonoro, enquanto começa a ascensão de uma bela atriz completamente apaixonada pelo ator, e que entrou no cinema justamente com a  ajuda dele. Mesmo contando com uma trama dessas que todos sabem como vai terminar, a graça está na forma sempre criativa e adorável que o filme apresenta as situações. Para mostrar o início da paixão dos dois, por exemplo, Hazanavicius mostra o ator tendo que repetir várias vezes a mesma cena durante uma filmagem, por se distrair com a garota. 

Tecnicamente impecável, O Artista reconstrói com perfeição os estúdios da época, e a direção de arte se mostra uma atração a parte, assim como os figurinos. E, como não poderia deixar de ser, o filme conta com uma trilha sonora extraordinária de Ludovic Bource, que tomou uma decisão esquisita ao incluir um trecho da trilha de Um Corpo que Cai em uma cena: não que a música não se encaixe, ou que tenha sido algo anti ético, mas quem é um elemento distrativo: nos tira do filme no exato momento em que a reconhecemos.

Com uma ótima fotografia, e uma montagem que acerta no ritmo, O Artista se revela mesmo surpreendente quando entra em seu terceiro ato, e seu tom dramático funciona maravilhosamente bem, algo que, confesso, eu não esperava. Mérito do belo roteiro, mas ainda mais de Jean Dujardin, um ator carismático, dono de um  sorriso cativante, e absurdamente seguro de sua imagem em cena, e da bela e adorável Bérénice Bejo, que acabou sendo injustamente esquecida nas premiações.

Divertido, nostálgico, criativo e poético, é perfeitamente compreensível entender o efeito que O Artista causou, ganhando prêmios por todos os festivais em que passou, e finalmente consagrando-se no Oscar. Não o considero o melhor filme entre aqueles que foram indicados, mas fico feliz com sua vitória. Afinal, quem diria que  um filme mudo e preto e branco francês que se passa em Hollywood, venceria de um filme hollywoodiano em 3D que se passa em Paris?

NOTA: 9

PS: Como curiosidade, antes dos filmes sobre o Agente 117, Hazanavicius e Dujardin já haviam trabalhado juntos nos filmes de Lucky Luke, mas nesses o diretor participou apenas como roteirista.

A Invenção de Hugo Cabret



(Hugo - Dir. Martin Scorsese) 

Um filme infantil para adultos. Ou melhor, para cinéfilos: uma divertida fábula envolvendo Georges Méliès. Difícil imaginar alguém melhor que Martin Scorsese para dirigir esta belíssima homenagem a um dos grandes mestres do cinema. Aliás, é ainda mais difícil imaginar alguém melhor que Scorsese para dirigir o primeiro filme em 3D produzido em Hollywood que eleva o formato a um nível artístico, e não soa como mero caça níquel (como, infelizmente, o formato ainda se apresenta em 99% dos casos).

Esteticamente, é perfeito. A direção de arte combina com perfeição os cenários com elementos digitais de forma natural, e Scorsese junto ao diretor de fotografia Robert Richardson utilizam o 3D com sabedoria: os cenários, impressionantes em sua escala, e o uso de uma grande profundidade de campo somado aos vários elementos colocados em cena para salientar o efeito, como fumaça, fechos de luz ou neve, transformam o filme numa experiência sensacional, complementada ainda por movimentos de câmera fenomenais, algo que pode ser comprovado já na sequência de abertura.

O roteiro tem uma história interessante, mas o que transforma A Invenção de Hugo Cabret num grande filme é a forma como Scorsese a utiliza para fazer a sua declaração mais apaixonada ao cinema desde O Aviador: seja utilizando stop-motion de forma tradicional, ou simulando o efeito em uma cena cheia de efeitos especiais, recriando o impacto de uma das primeiras filmagens da história (a cena do trem pelos irmãos Lumière, que apavorou as pessoas que a assistiram na época) ou mostrando seus personagens mirins entrando escondidos no cinema para ver O Homem-Mosca, o filme se apresenta como uma jornada poética, de deixar qualquer apaixonado pela sétima arte com as bochechas doendo de tanto sorrir.

Mas é mesmo na homenagem a Georges Méliès que está o melhor do filme: com a belíssima recriação dos estúdios do cineasta e a reconstrução dos bastidores de várias cenas icônicas, Scorsese deixa que sua  atenção aos detalhes e sua declarada e conhecida paixão pela história do cinema falem mais alto o tempo todo, incluindo até mesmo uma de suas maiores causas (a restauração de películas antigas) na obra, e de forma extremamente orgânica na narrativa.

Se A Invenção de Hugo Cabret tem seus problemas, eles estão especialmente no roteiro de John Logan: porque tanta atenção é dedicada aos personagens secundários na estação de trem, se não desempenharão qualquer função dentro da história? Porque o bibliotecário sente tanta antipatia por Hugo ao ver pela primeira vez? E como surgiu o boato de que Méliès havia morrido na guerra (algo que chamou minha atenção, e foi completamente ignorado)? São pequenos detalhes, que não chegam a comprometer toda a obra (embora as tramas paralelas prejudiquem um pouco o ritmo), mas que tiram um pouco da "magia" que o filme proporciona.

Contando com um excelente elenco, com destaque para Sacha Baron Cohen e Ben Kingsley, A Invenção de Hugo Cabret é obrigatório para os amantes da sétima arte, mas deve funcionar bem também para a criançada, mesmo tendo um ritmo um pouco mais lento do que o adequado para o gênero. 

E como pai, garanto: como é bom ver um filme infantil (que não seja uma animação) que posso assistir com meu filho, sem medo de desagradar nenhum dos dois.

NOTA: 9

Tão Forte e Tão Perto



(Extremely Loud and Incredibly Close - Dir. Stephen Daldry)

Baseado no livro de Jonathan Safran Foer, Tão Forte e Tão Perto representa outro equívoco na carreira de um grande cineasta a ser indicado ao Oscar desse ano, junto com Cavalo de Guerra de Spielberg e Os Descendentes de Alexander Payne. Diretor de obras sensíveis como O Leitor, Billy Elliott e As Horas que sempre agradaram aos membros da Academia, Stephen Daldry faz um trabalho irregular, que frequentemente apela ao melodramático, criando um filme que ainda soa episódico graças ao roteiro e a montagem.

A história da jornada de um garoto por uma misteriosa chave que encontrou no quarto do seu pai (que morreu no atentado de 11 de setembro) é interessante, e desperta a atenção sem dificuldade. Logo no início, o cineasta retrata bem a profunda ligação entre pai e filho, algo fundamental dentro da trama. É quando a tal jornada começa que o filme se perde: um conflito entre o garoto e a mãe aparece do nada no meio da história; o encontro dele com as várias pessoas parece não ter qualquer efeito sobre o garoto: quando vemos a quantidade de pessoas que ele visitou através de suas fotos, é difícil não ficar negativamente surpreso, já que não sentimos que tanto tempo se passou dentro da história.

Tão Forte e Tão Perto, porém, tem um grande trunfo: Max Von Sydow, em uma atuação absolutamente impecável (e como ele faria diferente?). A identidade "misteriosa" do tal personagem é óbvia demais, mas não importa. É incrível ver como um grande ator consegue fazer qualquer situação parecer grandiosa: reparem em seu comovente olhar de ternura quando o garoto o acorda oferecendo um suco dentro do ônibus. Um mestre legítimo do cinema.

Tom Hanks e Sandra Bullock também não fazem feio, e Bullock tem alguns de seus melhores momentos aqui, e é uma pena que o roteiro de Eric Roth a deixe em segundo plano em boa parte da trama. Zoe Caldwell (interpretando a vó) também tem um momento brilhante ao lado do garoto no primeiro ato. Infelizmente, o tom episódico do roteiro deixa atores como Jeffrey Wright, Viola Davis e John Goodman passarem em branco pela narrativa. Já Thomas Horn embora esteja bem como o protagonista, falha em dois momentos dramáticos importantíssimos na trama, em especial na briga com a mãe, quando começa a derrubar as coisas da casa de forma falsa. Não compromete no geral, mas é difícil elogiar.

Stephen Daldry tem alguns bons momentos de criatividade, em especial quando mostra a silhueta de um homem caindo remetendo as imagens do 11 de setembro em um plano de detalhe que se revela uma parte do banheiro onde está o garoto, e reparem como até mesmo a forma das janelas na casa onde eles vivem possui uma forma que remete as Torres Gêmeas, um detalhe sutil e interessante. Mas nada disso, nem a excelente fotografia ou a criativa trilha sonora (que aproveita o tamborim que o protagonista leva de forma orgânica) consegue salvar Tão Forte e Tão Perto de ser mais do que realmente é: um filme que parece mais interessado em levar o público as lágrimas em recursos artificiais do que em contar bem a sua história.

NOTA: 5

O Homem que Mudou o Jogo



(Moneyball - Dir. Bennett Miller)

A abertura causa estranhamento, mostra um jogo de baseball de forma emblemática - nós deveríamos saber que aquele jogo existiu e o que aconteceu nele exatamente para entrarmos melhor na história. Do jeito que ficou, só aos poucos entendemos e aí o filme funciona. Talvez por isso O Homem que Mudou o Jogo tenha sido um sucesso tão grande entre público e crítica dentro dos Estados Unidos, embora não tenha empolgado no resto do mundo.

Dirigido por Bennett Miller e com roteiro de Aaron Sorkin (A Rede Social) e Steve Zaillian (Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres), conta a história real do gerente de um pequeno time de baseball, Billy Beane que, depois de perder as principais estrelas do time para equipes muito maiores, decide testar um novo método junto com Peter Brand, um jovem formado em economia que encontrou uma nova forma de avaliar a qualidade dos jogadores através de um livro teórico e descartado no meio profissional. Assim, chamam vários jogadores rejeitados por outros times por vários motivos diferentes (um arremessa de um jeito engraçado, outro já foi pego fumando maconha, etc.), mas que apresentam resultado dentro do estádio, e o que parecia uma fórmula desastrosa, aos poucos se mostra uma verdadeira revolução no esporte.

Usando a história de Billy Beane como principal arco dramático da história (o grande acerto do roteiro), O Homem que Mudou o Jogo tem um tom um pouco mais sombrio do que deveria, especialmente na fotografia, mas é hábil ao ilustrar o que importa: o impacto da técnica aplicada pelo gerente na equipe e para a mídia e outras equipes, e a montagem de Christopher Tellefsen é inteligente ao conseguir criar boas sequências dentro dessa lógica, além de manter um excelente ritmo para a narrativa.

É uma pena que o filme deixe de lado seus coadjuvantes no último ato, especialmente o frustrado técnico interpretado por Phillip Seymour Hoffman, e alguns dos jogadores que ganham destaque no início, embora dentro da lógica do roteiro, a figura central seja Beane, é inegável que é um pouco frustrante que o arco dramático de Hatterberg se feche de forma tão distante.

Contando ainda com atuações ótimas de Brad Pitt e Jonah Hill, O Homem que Mudou o Jogo é um ótimo e surpreendente filme de esporte, e na soma de seus acertos e problemas lembra outro filme de um esporte norte americano não muito popular por aqui, Um Domingo Qualquer de Oliver Stone. Mesmo que esteja longe da qualidade  do que apresentou em sua estréia na direção, o excelente Capote, Bennett Miller já começa a mostrar um interesse em personagens obcecados em obras transgressoras. Seu estilo frio e racional  ajuda muito na obra (como a sequência em que Billy e Peter armam um esquema por telefone para conseguir um jogador), o que não atrapalha sequências mais emotivas (entre Billy e sua filha), um equilíbrio raro mesmo entre grandes diretores. O jeito é ficar de olho no sujeito.

NOTA: 8

Os Descendentes



(The Descendants - Dir. Alexander Payne)

Abrindo com uma narração em off bobinha que já mostra o tom de humor equivocado que é empregado em seu roteiro, Os Descendentes se mostra uma anomalia bizarra na carreira de Alexander Payne. O filme conta com uma bela mensagem: mesmo que você more no Havaí, as pessoas da sua família ainda assim vão morrer, e você ainda vai ter que saber conversar com seus filhos e tomar decisões sobre sua vida. 

Em sua carreira, Payne privilegiou histórias simples como forma de estudar e desenvolver seus personagens: a viagem de Schmidt em As Confissões de Schmidt apresenta um homem se tornando consciente da falta de laços familiares e afetivos com qualquer pessoa ao seu redor; da viagem em Sideways, um homem que perdeu o sentido em sua vida, e até mesmo de sua arte, depois do divórcio. Aqui o diretor certamente tentou usar o mesmo tom mas faltou inspiração no roteiro, que prefere fazer piadas quando deveria desenvolver seus personagens: reparem como Sid (um dos personagens mais desnecessários da história, e que ainda sofre com a atuação insossa de Nick Strause) ganha mais tempo em cena do que a filha mais nova do personagem de George Clooney.

O filme ainda decepciona ao apostar em duas mensagens óbvias: a primeira sobre a de que somos ilhas, e famílias, arquipélagos (Um Grande Garoto usou a mesma mensagem de forma irônica e foi muito mais eficiente) e a de que a dificuldade do protagonista em escolher quem será o comprador da herança de sua família reflete, de alguma forma, os seus problemas de relacionamento com as filhas e a esposa.

Mas acima de tudo, Alexander Payne é um grande diretor de atores, e o elenco está fantástico,a começar por George Clooney numa atuação sutil, bem equilibrada entre o cômico e o dramático, e que atinge o ápice nas duas cenas entre ele e a esposa em coma no hospital. Shailene Woodley como a filha adolescente de Matt também surpreende, embora exagere na rebeldia adolescente no início, enquanto Amara Miller protagoniza as duas cenas mais emocionantes da obra perto do final. Vale mencionar Beau Bridges e Robert Forster em duas participações pequenas, mas de talento.

Ao conseguir emocionar em seus momentos finais de forma eficiente e natural, é ainda mais lamentável que Os Descendentes seja tão artificial e insosso durante a maior parte do tempo. Infelizmente, é um filme que serve para nos lembrar que Alexander Payne é o diretor de Ruth em Questão, Eleição, Sideways e As Confissões de Schmidt. Mas também é o roteirista de Eu os Declaro Marido e... Larry e Jurassic Park 3, algo que todo cinéfilo tenta esquecer.

NOTA: 4

Millennium - Os Homens Que Não Amavam As Mulheres



(The Girl With The Dragon Tattoo - Dir. David Fincher)

Pouco tempos depois de conferir no cinema o original sueco Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, foi divulgada a informação de que David Fincher dirigiria o remake. Apesar de tudo o que sabemos sobre remakes (são feitos basicamente pela preguiça dos americanos em ler legendas, etc...) achei uma grande idéia, afinal o filme sueco apresentava diversos problemas que vinham como consequência de um só: não souberam como contar aquela história complexa de uma maneira interessante.

E se Zodíaco, Clube da Luta, Vidas em Jogo e Se7en mostraram alguma coisa, foi a capacidade impressionante de David Fincher de conduzir histórias sombrias e complexas de maneira fascinante, e o melhor: sempre fugindo das soluções fáceis e artificialidades típicas do gênero em Hollywood. E sua versão para a história não só supera em todos os aspectos o filme sueco, como se mostra mais um trabalho instigante dentro de sua já brilhante filmografia.

O filme tem um ritmo invejável, culpa do roteiro de Steve Zaillian que graças a pequenas mudanças, consegue tornar todo o primeiro ato extremamente eficiente (como a maneira econômica em como mostra o processo contra o protagonista), e da montagem de Kirk Baxter e Angus Wall, que transita com perfeição entre suas tramas paralelas e flashbascks de maneira orgânica e clara (e junto com a montagem de Drive, é a melhor do ano passado). Além disso, o diretor de fotografia Jeff Cronenweth provavelmente entrega seu melhor trabalho até aqui, utilizando com sabedoria as locações, especialmente a claustrofóbica ilha da família Vanger.

Cineasta que sempre foi injustamente diminuído pela maneira considerada excessiva em como usava efeitos especiais, Fincher vinha fazendo um trabalho cada vez mais econômico desde o realmente excessivo O Quarto do Pânico, mas aqui volta a se divertir, como na belíssima tomada que se move em direção a Lisbeth, e termina mostrando-a num close de cabeça para baixo, ou pela ótima cena de perseguição no ato final. Outro aspecto que mostra como Fincher está a vontade, são as referências espalhadas sobre sua própria equipe (como a camiseta do Nine Inch Nails, banda de Trent Reznor, de um personagem que pouco aparece).

Daniel Craig faz um ótimo trabalho como Mikael Blomkvist, sutil e inteligente, e bem acompanhado por Stellan Skarsgaard e Christopher Plummer, com suas presenças sempre marcantes. Mas o filme pertence a Rooney Mara, numa atuação brilhante como Lisbeth Salander, deixando de queixo caído qualquer um que achava que sairia perdendo para Noomi Rapace (que também está sensacional no outro longa, e aliás, é a única coisa sensacional no original). Aliás, Rooney leva uma forte vantagem em cima de Noomi pelo seu próprio físico: magra e baixinha, ela parece extremamente frágil diante das ameaçadoras situações ao seu redor. Utilizando um visual forte propositalmente criado para afastar outras pessoas, e as encarando apenas quando lhe convém, Lisbeth se torna indiscutivelmente a protagonista do projeto, algo que o diretor deixa claro não apenas com a mudança no título, mas também como a já clássica abertura, que dá dicas sobre o tumultuado interior da garota e seu passado violento.

Outro grande mérito do filme é o seu terceiro ato, curiosamente o maior problema do filme sueco: mesmo que a resolução da trama principal aconteça muito antes do desfecho, o roteiro fecha toda a história da família Vanger logo depois disso, dedicando sua sequência final apenas para Lisbeth e Mikael, (enquanto no original as tramas ocorriam paralelamente de maneira cansativa, dando a impressão de um filme que não sabia direito como acabar).

Quando assisti ao original, sai do cinema lamentando que uma história tão boa tenha parecido tão chata. Tanto foi assim, que nem sequer cheguei a avaliar o seu conteúdo: além da óbvia questão da violência contra a mulher, vinha também a visão cínica das grandes empresas financeiras com seu passado atrelado ao nazismo. Alguns podem argumentar que o filme americano pasteurizou o conteúdo e tudo isso ficou mais "fácil" de ser entendido. Já eu, acho que só na versão americana me senti estimulado o suficiente para pensar sobre isso.

NOTA: 9

Precisamos Falar Sobre o Kevin



(We Need To Talk About Kevin - Di. Lynne Ramsay)

Qualquer um que tenha lido Precisamos Falar Sobre o Kevin deve ter se perguntado "Mas porque diabos vão fazer um filme sobre esse livro?". E não pela velha desculpa de "o livro é melhor que o filme", mas pela própria estrutura deste: narrado em primeira pessoa através de cartas de uma mãe, cujo filho de 16 anos cometeu um massacre, o livro conta a história através da visão de sua personagem, praticamente sem grandes detalhes sobre o tal incidente, e muito mais descrições extremamente subjetivas sobre sua decadência familiar e profissional.

Dito isso... como é bom ser surpreendido.

Precisamos Falar Sobre o Kevin consegue escapar das armadilhas que poderiam surgir na adaptação graças a direção de Lynne Ramsay que ao invés de concentrar sua atenção na trama, cria um filme sobre emoções ambíguas e sombrias. A estrutura, aliás, lembra muito a de alguns trabalhos de Gus Van Sant, como Elefante e Paranoid Park (curiosamente, também filmes que envolviam tragédias adolescentes). Outro ponto bastante positivo está nas soluções visuais da diretora para trechos importantíssimos do livro que, dificilmente sairiam naturais no filme - e só leia aqui se já conhece a história - como o momento no livro em que Kevin revela a Eva que não a matou para não matar sua platéia, algo mostrado no filme quando o garoto presta reverência depois do massacre, e a imagem da mãe aparece em seguida.

Tilda Swinton surge absolutamente perfeita como Eva, a protagonista, retratando de forma instigante o sofrimento de sua personagem, e sem qualquer medo de revelar o seu lado mais sombrio (algo absolutamente fundamental para a compreensão da relação entre mãe e filho na história). Enquanto John C. Reilly praticamente repete seu personagem em As Horas, o pai distante que insiste em ver sua família como perfeita, quando claramente está longe disso.

Talvez o único problema do filme, seja o próprio Kevin. Não pelos atores que o interpretam, mas pela falta de ousadia na adaptação. Se no livro a falta de complexidade do personagem vinha pela subjetividade da história, aqui o mesmo não funciona, e em alguns momentos a sensação de que estamos vendo algo mais para A Colheita Maldita ou A Profecia do que um drama complexo atrapalha. Há apenas dois momentos em que o filme consegue fazer o personagem surgir mais complexo do que no livro: aquele depois em que o garoto faz um discurso sádico enquanto come uma fruta que não gosta, e o da última cena, cuja mudança no diálogo do roteiro melhora e muito a cena.

Contando ainda com um trabalho fabuloso de Jonny Greenwood na trilha sonora, Precisamos Falar Sobre o Kevin é um filme bem sucedido em transportar para as telas todo o peso e a complexidade do livro. E mesmo sendo uma pena que tenha faltado um pouco mais de ousadia na hora de criar mudanças na história, trata-se de um raro filme que funciona mais como um complemento a sua obra de origem do que uma mera adaptação.

NOTA: 9

A Pele Que Habito


(La Piel Que Habito - Dir Pedro Almódovar)

Depois de três filmes decepcionantes (dos quais, apenas Volver se salva), Pedro Almódovar volta a boa forma, mesmo ainda longe do que fez em Carne Trêmula, Tudo Sobre Minha Mãe e Fale Com Ela, ainda seus três melhores trabalhos. Voltando a parceria com Antonio Banderas vinte e um anos depois de seus último filme juntos (Ata-me), Almódovar lança este A Pele Que Habito, que possui o clima habitual de meio-suspense-meio-cartunesco-meio-novelesco-meio-sem-vergonha que conhecemos do diretor.

Banderas interpreta Robert Ledgard, um cirurgião plástico especializado em transplantes faciais, que desenvolve uma pele sintética para vítimas de queimaduras. Tudo certo até que descobrimos que ele mantém uma mulher em cativeiro em sua casa como cobaia para seus experimentos. E no que parece inicialmente uma versão  Nip/Tuck de Frankenstein, o filme se desenvolve ao mostrar revelações sempre surpreendentes no passado de seus personagens.

O primeiro ato é arrebatador, inteligente e divertido em seu clima sacana. O grande problema é que depois disso, o ritmo se perde, jamais volta a boa forma de seus início, mesmo que o roteiro não decepcione e seja coerente com sua estrutura e reviravoltas. Além disso, ao repensar a história, é estranho perceber que a trama foi apresentada de uma maneira muito mais complexa do que o necessário, e embora isso possa ter sido um artifício de distração no sentido de desviar nossa atenção do que realmente deveríamos estar vendo (o que é válido), ao mesmo tempo não encontro justificativas para várias revelações feitas no primeiro ato (especialmente o parentesco entre dois personagens).

Mas o que é realmente admirável na história, é a seriedade absoluta na maneira em que o diretor desenvolve seus personagens, sempre com rimas visuais que salientam aspectos fascinantes, como o sexo entre "Tigre" e a cobaia , e depois com  Robert e ela. O filme ainda ganha pontos pelo melancólico desfecho, que fecha com perfeição a história, tematicamente. 

Agora, me resta torcer para que com A Pele Que Habito, Almódovar deixe de ser aclamado por tudo o que faz, para ser aclamado porque, de fato, merece.

NOTA: 7

A Separação



(Jodaeiye Nader az Simin - Dir. Asghar Farhadi)


Vocês já devem ter ouvido aquelas piadas envolvendo "dramas iranianos", na qual se entende que o filme só é elogiado, ou se torna "cool" pelo seu local de origem. Em parte, a premissa da piada parte de uma verdade meio chata: já conheci muitos cinéfilos com a mania aborrecida de amaldiçoar e falar mal de qualquer coisa de Hollywood, o que as vezes apresenta resultados involuntariamente hilários, como os que afirmavam que Fernando Meirelles se vendeu ao "sistemão hollywoodiano" em O Jardineiro Fiel (uma produção... cof, cof... britânica). Por outro lado, é mais triste ainda ver que muitas pessoas ignoram obras fascinantes como A Procura de Elly ou Isto Não é um Filme por um preconceito completamente besta, algo que se aplica também ao cinema romeno (A Morte do Dr. Lazarescu, 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias) e coreano (O Caçador, Mother, O Hospedeiro), entre outros.

Então antes de qualquer outra coisa, é bom deixar claro: considero A Separação, um drama iraniano, fabuloso; e me divirto muito com os três primeiros Piratas do Caribe

Agora, continuando com a programação normal:

Dirigido por Asghar Farhadi (de A Procura de Elly), A Separação começa mostrando o divórcio de Nader e Simin. Ela deseja sair do Irã e levar a filha consigo, já Nader quer ficar para cuidar de seu pai, que tem Alzheimer, e não libera a partida da filha. Com a saída de Simin da casa, ele se vê obrigado a contratar alguém para cuidar do pai enquanto trabalha, Razieh, uma mãe de família, cujo marido está sufocado em dívidas. Um incidente entre Nader e Razieh é o fio no qual o diretor conduz uma trama simples, em meio a um complexo e fascinante estudo de personagens.

Filmado praticamente todo com câmera na mão, Asghar Farhadi já demonstra seu invejável talento na mise en scène na sequência em que Razieh é chamada para a entrevista de emprego: ao mostrar várias ações paralelas de forma quase documental (Simin arrumando as malas, a filha do casal brincando com a de Razieh enquanto ela conversa com outra pessoa e Nader passando em meio a todas as situações), ao mesmo tempo em que há clareza no que está acontecendo, quando um importante detalhe daquele momento vem a tona, ficamos exatamente com a dúvida que a trama exige. Afinal, não vemos o que um determinado personagem estava fazendo quando uma certa frase é dita, embora tenhamos certeza de que aquilo foi dito, e quais pessoas estavam lá naquele momento.

Além disso, A Separação faz um triste retrato da situação judicial do país (algo, novamente, ressaltado pelo tom documental que o cineasta aplica a obra), e quando percebemos que o juiz cuidando do caso, está também analisando outros dois naquele mesmo instante, com as outras pessoas na mesma sala, fica fácil entender porque o governo iraniano dedicou tanto tempo maldizendo o filme em declarações recentes.

Mas no fim das contas, são os personagens e suas ações o que realmente interessam. E como é triste perceber que, no final das contas, estávamos apenas vendo seres humanos absolutamente comuns em situações extraordinárias, praticamente obrigados a se combater graças as circunstâncias (algo que me lembrou, o quase tão bom quanto este, A Casa de Areia e Névoa). Encerrando com uma cena belíssima (que fecha uma rima visual simples e brilhante com a primeira sequência do filme), A Separação é altamente recomendado, especialmente para quem precisa perder alguns preconceitos com dramas iranianos...

NOTA: 10

50%



(50/50- Dir. Jonathan Levine)

Comédias dramáticas sempre pipocam no cinema independente, e a quantidade de porcarias do gênero já deixam os cinéfilos com um certo receio quando se ouve falar de um novo exemplar. Nesse sentido, 50% é um alívio, equilibrando drama e humor na medida certa, e em alguns momentos, até surpreendendo em sua abordagem.

Joseph Gordon-Levitt interpreta Adam, um jovem de 27 anos que descobre ter câncer na espinha. Em meio a batalha contra a doença, seu relacionamento com a namorada, problemático desde antes, desmorona aos poucos, e a distância com a mãe começa a ser sentida. Adam encontra algum conforto no melhor amigo Kyle (Seth Rogen) e na psicóloga novata Katie (Anna Kendrick).

O roteiro de Will Reiser (baseado em fatos reais) acerta na forma direta de como encara a doença, e nas consequências dela para a vida de Adam: do fato de ele não saber dirigir (o que o torna extremamente dependente das pessoas a sua volta), até os já conhecidos sintomas da quimioterapia. Por outro lado, é uma pena que o filme sinta a necessidade de manter uma estrutura de comédia romântica da metade para o final, e pior, deixe sem desfecho a trama com o personagem vivido por Phillip Baker Hall, numa ponta fabulosa que é completamente abandonada num dos momentos mais fortes do filme. E porque dedicar tanto tempo a demonstrar a rotina profissional do rapaz, se isso jamais será citado de forma significativa na trama mais adiante?

Joseph Gordon-Levitt é um ótimo ator, e tem duas cenas impressionantes no terceiro ato: a crise de pânico no carro do amigo e o momento em que recebe a anestesia. Carismático, o ator jamais força a barra,  e conduz o filme com segurança. Seth Rogen faz o papel que nasceu para fazer: o de melhor amigo divertido e maconheiro. E o faz bem. Mas, como fã do ator, aguardo ansioso o dia em que ele saia de sua zona de conforto. Anna Kendrick é uma gracinha, mas falta alguma coisa, como em todos os seus trabalhos. Fechando o elenco, Anjelica Huston e Bryce Dallas Howard criam figuras fortes e tem pequenos momentos brilhantes em que roubam o filme para si.

O desfecho pode parecer certinho demais, mas me lembrou o comentário de Terry Gilliam para os críticos que reclamaram do final de O Pescador de Ilusões, considerado por alguns deles como "feliz demais": "Não dá pra criar um filme com personagens assim só para atropelá-los com um trem no final". A mesma lógica faz sentido aqui. Só lamento a necessidade de terminar a obra com um romance bobinho: tira muito do encanto de um terceiro ato muito bem construído.

NOTA: 8,5

Margin Call - O Dia Antes do Fim



(Margin Call - Dir. J.C. Chandor)

Em 2008, com o anúncio sobre a crise financeira, veio a tona o escândalo do banco Lehman Brothers, que sabendo da desvalorização que suas ações teriam em breve, vendeu todas elas antes que a crise começasse a ser divulgada, tática semelhante a usada pela Enron antes de sua falência (e bem explicada no ótimo documentário de Alex Gibney). Margin Call é uma versão ficcional do fato (o nome do banco jamais é citado), mas com o grau de verossimilhança que o filme passa, é perfeitamente possível que, de alguma forma, os eventos podem ter acontecido de forma parecida.

O grande acerto do diretor e roteirista J.C. Chandor é fazer uma espécie de crônica do fato, sem a comum "demonização" dos sujeitos que trabalham em Wall Street. Assim, quando vemos a clara ironia do personagem de Kevin Spacey chorando pelo seu cachorro, enquanto metade dos funcionários perdem seus empregos na sala ao lado, o comentário não soa simplista, e conforme acompanhamos o personagem percebemos que o cachorro significava o único forte elo emocional do sujeito fora do trabalho. Além disso, Chandor cria uma lógica visual perfeita para a obra, e o travelling mostrando os escritórios vazios até chegar a um personagem que acorda de um pesadelo resume de forma perfeita as consequências do que estamos acompanhando.

Outro ponto forte do filme é a já mencionada verossimilhança, e destaco a reunião da equipe com o pomposo chefe interpretado brilhantemente por Jeremy Irons. A construção dos diálogos é simples e elegante, e a montagem sintetiza a ação dos personagens com brilhantismo: reparem como através dela,  compreendemos que o chefe está pedindo para que o novato explique a situação mais como forma de menosprezar as pessoas da mesa, do que qualquer outra coisa.

Margin Call é também beneficiado pelo seu elenco fabuloso: dos já mencionados Kevin Spacey e Jeremy Irons (este último, em um de seus melhores momentos), passando por Zachary Quinto, Simon Baker, Demi Moore (!) e Stanley Tucci, o resultado está mais do que acima da média. Destoando um pouco, está Penn Badgley, que só acerta o tom em suas cenas finais. Mas o grande nome aqui é Paul Bettany. Sim, o mesmo que tomou decisões incrivelmente bizarras em sua carreira volta a mostrar porque chamou tanto a atenção dos cinéfilos, e protagoniza vários dos melhores momentos do filme, cujos impulsos auto destrutivos surgem tão fortes quanto sua firmeza em defender os interesses da empresa (outra ironia fortíssima e bem trabalhada na história).

Porém, nem tudo são flores, e o filme falha imperdoavelmente em alguns momentos. Em especial no falso tom "profético" de algumas cenas: ainda sem saber direito todas as implicações do que estavam vendo, um personagem comenta olhando para as pessoas na rua "Todas essas pessoas... e nenhuma faz idéia do que está para acontecer"; e se o estudo dos personagens era o que realmente interessava ao diretor, é inexplicável que ele tenha deixado tantas pontas soltas na relação entre eles, citando um provável romance aqui, uma inimizade acolá, mas nada que ajude no desenvolvimento da narrativa (aliás, pelo contrário). Mas (Só leia o resto do parágrafo se já assistiu o filme) o mais imperdoável é que todo o impacto do seu clímax tem seu efeito anulado pela escolha estética do diretor: quando os empregados são obrigados a vender as tais ações, sabendo que perderão seus empregos, e que aqueles que comprarão (e com quem possuem relações comerciais e pessoais) estarão fazendo um péssimo negócio: um exemplo perfeito de como os funcionários "vestem a camisa" da empresa (como se diz no meio), e como são retribuídos por isso.

Mesmo assim, na balança, o saldo é muito mais positivo, e Margin Call - O Dia Antes do Fim pode não ser uma referência como Enron - Os Mais Espertos da Sala ou Trabalho Interno, mas não faz feio perto dos colegas.

NOTA: 8

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