A Dama de Ferro



(The Iron Lady - Dir. Phyllida Lloyd)

Desastrosa cine biografia da popular ex-Primeira Ministra da Inglaterra, Margaret Thatcher. Alvo de inúmeras controvérsias e críticas pelas suas ações políticas, teve uma passagem longa e conturbada pelo poder, num período marcado pelo aumento do desemprego, violência social, de conflitos com o IRA, pela guerra das Malvinas e de abuso de autoridade pela política e polícia. Não é a toa que o período repressor inspirou obras como Watchmen e V de Vingança de Alan Moore, e até mesmo a adaptação para o cinema de 1984. Mesmo assim, há quem idolatre Thatcher, justificando que suas decisões foram eficientes a longo prazo, além óbvio, do poderoso símbolo que se tornou para o mundo, ao se tornar a primeira mulher a chegar ao cargo na Inglaterra.

Mas nada disso interessa ao filme. O que interessa é mostrá-la doente, em meio a delírios nos quais enxerga o falecido marido (em cenas constrangedoramente parecidas com as de Uma Mente Brilhante) ou seus filhos, saindo de um vídeo caseiro para sua sala. Sua história política é mostrada por flashbacks que nunca demonstram como ela realmente chegou ao poder. Percebam que o filme dedica mais tempo para as aulas que ela toma para mudar a voz (em cenas constrangedoramente parecidas com as de O Discurso do Rei), e a troca de visual do que em sua dificuldade em se adaptar a um mundo estritamente masculino. 

Quando vemos a protagonista jovem em uma reunião com membros de um partido: como ela conheceu aquelas pessoas? Quando ela consegue uma posição no partido: mas como ela conseguiu, se apenas um deles a deu atenção (e nem sequer era um membro, mas um empresário local)? Quando a história avança: porque seu filho não é mais mencionado na história? Quando ela consegue entrar para a política de vez: como ela superou o machismo, conseguindo ainda uma posição tão prestigiosa? Acreditem, não há sequer uma informação sobre a vida de Thatcher que seja apresentada de forma clara e coerente, mesmo em questões mais básicas: afinal, quando o marido dela morreu? No atentado ou depois? E o que dizer do terceiro ato, quando a história se concentra na guerra das Malvinas, e numa tentativa bizarra de apresentar apenas os fatos, sem julgar, transforma sua protagonista dali em diante numa vilã de folhetim barato.

E se o roteiro de Abi Morgan falha miseravelmente no básico do que deveria fazer, imaginem como falha ao tentar fazer tudo parecer mais complexo. A montagem sem qualquer ritmo consegue bagunçar ainda mais a estrutura "complexa" da trama, como no momento em que Thatcher se reúne com os homens que a explicam como mudar sua imagem - no meio da cena, vemos os dois abrindo um champagne para comemorar, e no próximo corte, vemos Thatcher na mesma posição do início da cena - ou fazer um flashback de uma fala que foi dita a menos de 10 minutos antes. 

A direção pedestre e sem qualquer sinal de talento de Phyllida Lloyd sepultam de vez a obra. Argumentar que uma diretora que conseguiu errar a mão em Mamma Mia! não conseguiria muito mais do que ser medíocre numa obra mais séria é pouco. Phyllida não consegue realizar um enquadramento sequer que seja original ou interessante. Se citei Uma Mente Brilhante e O Discurso do Rei, não foi a toa: aparentemente, foram os únicos filmes que a diretora usou como referência (e por referência, entenda surrupiar idéias, enquadramentos, movimentos de câmera, etc.).

Mas nenhum pecado é maior do que transformar mais uma atuação impressionante de Meryl Streep numa caricatura bizarra. Há poucos momentos dramáticos nos quais a atriz se sai bem. Mas o roteiro é tão fraco, e há uma busca tão grande por estilo, que nada a ajuda. Pelo contrário, atrapalha. É bom ver essa grande atriz ser premiada, mas não por um de seus piores trabalhos, prejudicado por um filme pretensioso e preguiçoso.

Esse é o mal da pretensão: sou fã de filmes pretensiosos. O problema é que um filme pretensioso ruim, é muito, mas muito pior do que um mero filme ruim.

NOTA: 0

1 comentários:

@mateusgborges disse...

Nota 0? Ainda não o assisti mas estou ciente da recepção desastrosa pela crítica, mas não existe filme nota 0. Por pior que seja, sempre tem um mérito, por menor que seja (com raras excessões). A atuação da Merly Streep, elogiada por tantos e vencedora de Oscar, vale alguns pontos né. Mesmo que nem isso salve o filme.

Real Time Web Analytics