O Porto



(Le Havre - Dir. Aki Kaurismäki)


Diretor de estilo forte, o finlandês Aki Kaurismäki realiza em O Porto um filme mais otimista e poético do que costuma fazer. Seu curioso e estranho estilo de direção de atores funciona de forma perfeita dentro da trama, que lida com o desprezo de governo e da sociedade pelos imigrantes. Mas O Porto apresenta uma fábula de bondade, sobre o impulso humano de ajudar o próximo.

Conta a história de um pobre engraxate que ao mesmo tempo em que se afasta da mulher, internada num hospital, se aproxima de um garoto que chegou ilegalmente ao local junto com outros familiares em um container, mas que conseguiu escapar da polícia. Enquanto a procura pelo garoto se intensifica na cidade, o engraxate descobre o porque da sua viagem e decide ajudá-lo, mobilizando todos os seus vizinhos na tarefa de levá-lo ao seu destino.

Quem não está familiarizado com a obra do cineasta certamente vai estranhar o clima do filme. O que mais chama a atenção na obra de Aki Kaurismäki é a sua maneira de trabalhar com os atores: não há grandes reações. De certa forma, os atores parecem apenas recitar o texto, sem trabalhar com qualquer emoção em cena. Comparável ao que Jim Jarmusch realiza em seus filmes, mas ainda mais extremo. O resultado é curioso: em alguns momentos, presenciamos um diálogo tristíssimo, mas o impulso é de rir da cena, como no diálogo entre o protagonista e a esposa no hospital, no qual ela pede o vestido amarelo. Mas os destaques são os preparativos para a tal fuga, que mesmo não sento muito bem desenvolvido pelo roteiro acaba divertindo, e o momento em que o protagonista viaja em busca do passado do garoto e encontra o seu avô num presídio: o diálogo é curto, mas poderoso - sem dúvidas, um momento pequeno e memorável.

Mas como também aconteceu em seu trabalho mais conhecido, o excelente O Homem sem Passado, o estilo funciona de forma perfeita para o propósito do cineasta: as ações de bondade e do seu protagonista são atos dignos e nobres, sem dúvida, mas na visão de Kaurismäki isso é algo natural; é digno de aplausos, uma amostra de como o indivíduo tem o dever de ser mais do que um reflexo de sua sociedade. 

NOTA: 8

3 comentários:

Márcio Sallem disse...

Assisti a este filme. É doce, simples e otimista e, como bem frisado, fez muito bem o papel de demonstrar que a bondade deveria vir natural do ser humano e não exigir emoções aturdidas e interpretações mirabolantes dos atores.

Charles disse...

Como disse Márcio Sallem, não precisa muito pra se extrair muito.

366filmesdeaz disse...

O filme é bem sutil e natural. Mas acho que carece de um pouco mais de sal. Recomendo o filme Bem-Vindo (Welcome), cuja temática e argumento são bem parecidos, mas com o desenvolvimento bem diferente.
Parabéns pelo blog. Estou adicionando o link no meu. Se quiser retribuir, eu agradeço.
abraço
www366filmesdeaz.blogspot.com.br

Real Time Web Analytics