A Invenção de Hugo Cabret



(Hugo - Dir. Martin Scorsese) 

Um filme infantil para adultos. Ou melhor, para cinéfilos: uma divertida fábula envolvendo Georges Méliès. Difícil imaginar alguém melhor que Martin Scorsese para dirigir esta belíssima homenagem a um dos grandes mestres do cinema. Aliás, é ainda mais difícil imaginar alguém melhor que Scorsese para dirigir o primeiro filme em 3D produzido em Hollywood que eleva o formato a um nível artístico, e não soa como mero caça níquel (como, infelizmente, o formato ainda se apresenta em 99% dos casos).

Esteticamente, é perfeito. A direção de arte combina com perfeição os cenários com elementos digitais de forma natural, e Scorsese junto ao diretor de fotografia Robert Richardson utilizam o 3D com sabedoria: os cenários, impressionantes em sua escala, e o uso de uma grande profundidade de campo somado aos vários elementos colocados em cena para salientar o efeito, como fumaça, fechos de luz ou neve, transformam o filme numa experiência sensacional, complementada ainda por movimentos de câmera fenomenais, algo que pode ser comprovado já na sequência de abertura.

O roteiro tem uma história interessante, mas o que transforma A Invenção de Hugo Cabret num grande filme é a forma como Scorsese a utiliza para fazer a sua declaração mais apaixonada ao cinema desde O Aviador: seja utilizando stop-motion de forma tradicional, ou simulando o efeito em uma cena cheia de efeitos especiais, recriando o impacto de uma das primeiras filmagens da história (a cena do trem pelos irmãos Lumière, que apavorou as pessoas que a assistiram na época) ou mostrando seus personagens mirins entrando escondidos no cinema para ver O Homem-Mosca, o filme se apresenta como uma jornada poética, de deixar qualquer apaixonado pela sétima arte com as bochechas doendo de tanto sorrir.

Mas é mesmo na homenagem a Georges Méliès que está o melhor do filme: com a belíssima recriação dos estúdios do cineasta e a reconstrução dos bastidores de várias cenas icônicas, Scorsese deixa que sua  atenção aos detalhes e sua declarada e conhecida paixão pela história do cinema falem mais alto o tempo todo, incluindo até mesmo uma de suas maiores causas (a restauração de películas antigas) na obra, e de forma extremamente orgânica na narrativa.

Se A Invenção de Hugo Cabret tem seus problemas, eles estão especialmente no roteiro de John Logan: porque tanta atenção é dedicada aos personagens secundários na estação de trem, se não desempenharão qualquer função dentro da história? Porque o bibliotecário sente tanta antipatia por Hugo ao ver pela primeira vez? E como surgiu o boato de que Méliès havia morrido na guerra (algo que chamou minha atenção, e foi completamente ignorado)? São pequenos detalhes, que não chegam a comprometer toda a obra (embora as tramas paralelas prejudiquem um pouco o ritmo), mas que tiram um pouco da "magia" que o filme proporciona.

Contando com um excelente elenco, com destaque para Sacha Baron Cohen e Ben Kingsley, A Invenção de Hugo Cabret é obrigatório para os amantes da sétima arte, mas deve funcionar bem também para a criançada, mesmo tendo um ritmo um pouco mais lento do que o adequado para o gênero. 

E como pai, garanto: como é bom ver um filme infantil (que não seja uma animação) que posso assistir com meu filho, sem medo de desagradar nenhum dos dois.

NOTA: 9

Tão Forte e Tão Perto



(Extremely Loud and Incredibly Close - Dir. Stephen Daldry)

Baseado no livro de Jonathan Safran Foer, Tão Forte e Tão Perto representa outro equívoco na carreira de um grande cineasta a ser indicado ao Oscar desse ano, junto com Cavalo de Guerra de Spielberg e Os Descendentes de Alexander Payne. Diretor de obras sensíveis como O Leitor, Billy Elliott e As Horas que sempre agradaram aos membros da Academia, Stephen Daldry faz um trabalho irregular, que frequentemente apela ao melodramático, criando um filme que ainda soa episódico graças ao roteiro e a montagem.

A história da jornada de um garoto por uma misteriosa chave que encontrou no quarto do seu pai (que morreu no atentado de 11 de setembro) é interessante, e desperta a atenção sem dificuldade. Logo no início, o cineasta retrata bem a profunda ligação entre pai e filho, algo fundamental dentro da trama. É quando a tal jornada começa que o filme se perde: um conflito entre o garoto e a mãe aparece do nada no meio da história; o encontro dele com as várias pessoas parece não ter qualquer efeito sobre o garoto: quando vemos a quantidade de pessoas que ele visitou através de suas fotos, é difícil não ficar negativamente surpreso, já que não sentimos que tanto tempo se passou dentro da história.

Tão Forte e Tão Perto, porém, tem um grande trunfo: Max Von Sydow, em uma atuação absolutamente impecável (e como ele faria diferente?). A identidade "misteriosa" do tal personagem é óbvia demais, mas não importa. É incrível ver como um grande ator consegue fazer qualquer situação parecer grandiosa: reparem em seu comovente olhar de ternura quando o garoto o acorda oferecendo um suco dentro do ônibus. Um mestre legítimo do cinema.

Tom Hanks e Sandra Bullock também não fazem feio, e Bullock tem alguns de seus melhores momentos aqui, e é uma pena que o roteiro de Eric Roth a deixe em segundo plano em boa parte da trama. Zoe Caldwell (interpretando a vó) também tem um momento brilhante ao lado do garoto no primeiro ato. Infelizmente, o tom episódico do roteiro deixa atores como Jeffrey Wright, Viola Davis e John Goodman passarem em branco pela narrativa. Já Thomas Horn embora esteja bem como o protagonista, falha em dois momentos dramáticos importantíssimos na trama, em especial na briga com a mãe, quando começa a derrubar as coisas da casa de forma falsa. Não compromete no geral, mas é difícil elogiar.

Stephen Daldry tem alguns bons momentos de criatividade, em especial quando mostra a silhueta de um homem caindo remetendo as imagens do 11 de setembro em um plano de detalhe que se revela uma parte do banheiro onde está o garoto, e reparem como até mesmo a forma das janelas na casa onde eles vivem possui uma forma que remete as Torres Gêmeas, um detalhe sutil e interessante. Mas nada disso, nem a excelente fotografia ou a criativa trilha sonora (que aproveita o tamborim que o protagonista leva de forma orgânica) consegue salvar Tão Forte e Tão Perto de ser mais do que realmente é: um filme que parece mais interessado em levar o público as lágrimas em recursos artificiais do que em contar bem a sua história.

NOTA: 5

O Homem que Mudou o Jogo



(Moneyball - Dir. Bennett Miller)

A abertura causa estranhamento, mostra um jogo de baseball de forma emblemática - nós deveríamos saber que aquele jogo existiu e o que aconteceu nele exatamente para entrarmos melhor na história. Do jeito que ficou, só aos poucos entendemos e aí o filme funciona. Talvez por isso O Homem que Mudou o Jogo tenha sido um sucesso tão grande entre público e crítica dentro dos Estados Unidos, embora não tenha empolgado no resto do mundo.

Dirigido por Bennett Miller e com roteiro de Aaron Sorkin (A Rede Social) e Steve Zaillian (Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres), conta a história real do gerente de um pequeno time de baseball, Billy Beane que, depois de perder as principais estrelas do time para equipes muito maiores, decide testar um novo método junto com Peter Brand, um jovem formado em economia que encontrou uma nova forma de avaliar a qualidade dos jogadores através de um livro teórico e descartado no meio profissional. Assim, chamam vários jogadores rejeitados por outros times por vários motivos diferentes (um arremessa de um jeito engraçado, outro já foi pego fumando maconha, etc.), mas que apresentam resultado dentro do estádio, e o que parecia uma fórmula desastrosa, aos poucos se mostra uma verdadeira revolução no esporte.

Usando a história de Billy Beane como principal arco dramático da história (o grande acerto do roteiro), O Homem que Mudou o Jogo tem um tom um pouco mais sombrio do que deveria, especialmente na fotografia, mas é hábil ao ilustrar o que importa: o impacto da técnica aplicada pelo gerente na equipe e para a mídia e outras equipes, e a montagem de Christopher Tellefsen é inteligente ao conseguir criar boas sequências dentro dessa lógica, além de manter um excelente ritmo para a narrativa.

É uma pena que o filme deixe de lado seus coadjuvantes no último ato, especialmente o frustrado técnico interpretado por Phillip Seymour Hoffman, e alguns dos jogadores que ganham destaque no início, embora dentro da lógica do roteiro, a figura central seja Beane, é inegável que é um pouco frustrante que o arco dramático de Hatterberg se feche de forma tão distante.

Contando ainda com atuações ótimas de Brad Pitt e Jonah Hill, O Homem que Mudou o Jogo é um ótimo e surpreendente filme de esporte, e na soma de seus acertos e problemas lembra outro filme de um esporte norte americano não muito popular por aqui, Um Domingo Qualquer de Oliver Stone. Mesmo que esteja longe da qualidade  do que apresentou em sua estréia na direção, o excelente Capote, Bennett Miller já começa a mostrar um interesse em personagens obcecados em obras transgressoras. Seu estilo frio e racional  ajuda muito na obra (como a sequência em que Billy e Peter armam um esquema por telefone para conseguir um jogador), o que não atrapalha sequências mais emotivas (entre Billy e sua filha), um equilíbrio raro mesmo entre grandes diretores. O jeito é ficar de olho no sujeito.

NOTA: 8

Os Descendentes



(The Descendants - Dir. Alexander Payne)

Abrindo com uma narração em off bobinha que já mostra o tom de humor equivocado que é empregado em seu roteiro, Os Descendentes se mostra uma anomalia bizarra na carreira de Alexander Payne. O filme conta com uma bela mensagem: mesmo que você more no Havaí, as pessoas da sua família ainda assim vão morrer, e você ainda vai ter que saber conversar com seus filhos e tomar decisões sobre sua vida. 

Em sua carreira, Payne privilegiou histórias simples como forma de estudar e desenvolver seus personagens: a viagem de Schmidt em As Confissões de Schmidt apresenta um homem se tornando consciente da falta de laços familiares e afetivos com qualquer pessoa ao seu redor; da viagem em Sideways, um homem que perdeu o sentido em sua vida, e até mesmo de sua arte, depois do divórcio. Aqui o diretor certamente tentou usar o mesmo tom mas faltou inspiração no roteiro, que prefere fazer piadas quando deveria desenvolver seus personagens: reparem como Sid (um dos personagens mais desnecessários da história, e que ainda sofre com a atuação insossa de Nick Strause) ganha mais tempo em cena do que a filha mais nova do personagem de George Clooney.

O filme ainda decepciona ao apostar em duas mensagens óbvias: a primeira sobre a de que somos ilhas, e famílias, arquipélagos (Um Grande Garoto usou a mesma mensagem de forma irônica e foi muito mais eficiente) e a de que a dificuldade do protagonista em escolher quem será o comprador da herança de sua família reflete, de alguma forma, os seus problemas de relacionamento com as filhas e a esposa.

Mas acima de tudo, Alexander Payne é um grande diretor de atores, e o elenco está fantástico,a começar por George Clooney numa atuação sutil, bem equilibrada entre o cômico e o dramático, e que atinge o ápice nas duas cenas entre ele e a esposa em coma no hospital. Shailene Woodley como a filha adolescente de Matt também surpreende, embora exagere na rebeldia adolescente no início, enquanto Amara Miller protagoniza as duas cenas mais emocionantes da obra perto do final. Vale mencionar Beau Bridges e Robert Forster em duas participações pequenas, mas de talento.

Ao conseguir emocionar em seus momentos finais de forma eficiente e natural, é ainda mais lamentável que Os Descendentes seja tão artificial e insosso durante a maior parte do tempo. Infelizmente, é um filme que serve para nos lembrar que Alexander Payne é o diretor de Ruth em Questão, Eleição, Sideways e As Confissões de Schmidt. Mas também é o roteirista de Eu os Declaro Marido e... Larry e Jurassic Park 3, algo que todo cinéfilo tenta esquecer.

NOTA: 4

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